quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

sábado, 26 de dezembro de 2009

Da incapacidade de aprender

Pela n-ésima vez, Sócrates adopta um discurso “optimista”. “Prevê” uma melhoria do emprego em 2010. Tendo em atenção que as ultimas previsões (de Novembro) da CE e OCDE prevêem ainda uma queda do emprego em 2010 (e a previsão da CE até já está desactualizada), por alma de quem é que devemos levar a sério as palavras do PM?

Depois de tanto tempo a descredibilizar as suas próprias previsões, não seria conveniente que o governo não viesse a reincidir no erro?

domingo, 13 de dezembro de 2009

Em alta velocidade para o abismo

Parecia que o ministro das Finanças tinha percebido a mensagem vinda dos problemas gregos. Afinal, ou ele não tem poder no governo, ou não percebeu.

Como é que um país com um grave problema orçamental embarca no disparate do TGV, que nos vai agravar o endividamento externo, agravar a competitividade e colocar uma canga permanente sobre as contas públicas, com os seus elevados e persistentes défices de exploração?

Quanto às afirmações do novo ministro das Obras Públicas de que o TGV nos vai ajudar a sair da crise, são más de mais. Um projecto que começa depois do fim da crise, com uma forte componente importada e que vai deixar um peso duplo de décadas sobre as contas públicas (os juros do investimento e os défices de exploração) será tudo menos de resposta á crise.

Queremos mesmo ultrapassar a Grécia e sermos o primeiro país do euro em bancarrota?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

S&P prepara descida de rating

Este filme está muito repetitivo. As agências de rating explicitam os problemas portugueses, já aqui tanto referidos, e o ministro das Finanças finge que responde às questões das agências.

Alguém que avise o ministro que estas agências não vão lá com meia dúzia de baboseiras que poderão, talvez, enganar o português médio.

Jornalismo de “colidade”

O Público de hoje tem o seguinte título de capa: “Défice da CP dava para pagar TGV até Elvas e nova ponte sobre o Tejo”. Duas asneiras num só título.

Em primeiro lugar não é de défice que estão a falar, mas sim de dívida, grosso modo, o conjunto de défices acumulados dos últimos anos.

Em segundo lugar, a pretensão de pagar uma obra com dívidas já contraídas. Este sim, é um conceito extraordinário. Da próxima vez que comprar um carro, em vez de pagar em dinheiro, pago com a minha dívida ao banco. Não podia haver melhor negócio. Não só não pago nada como ainda vejo a minha dívida ao banco diminuído no valor do preço do automóvel. O ministro das Finanças deve contratar imediatamente o génio financeiro que inventou este novo conceito.

Na verdade, o texto da notícia diz: “O défice da CP, a transportadora ferroviária pública de Portugal, é actualmente de 3,1 mil milhões de euros, verba equivalente à que vai custar a linha de TGV entre Lisboa e Elvas, com a terceira travessia do Tejo incluída.”

Ou seja, ainda tem a primeira asneira, mas não a segunda, que tem certamente a mão do editor que, em vez filtrar o texto do jornalista, o “tabloidiza”.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Há gente muito esperta

O deputado Ricardo Rodrigues, do PS, veio acusar Manuela Ferreira Leite de já saber das escutas sobre Sócrates em Junho deste ano, quando acusou o PM de estar a mentir ao dizer que nada sabia sobre o negócio da TVI.

Mas a argumentação de Manuela Ferreira Leite foi “não é possível não saber de nada um Governo que tem uma golden share”. Ou seja, ela afirmou o que afirmou, não porque tivesse conhecimento de factos, mas porque deduziu – através de um raciocínio lógico – que as afirmações do PM não faziam sentido. Talvez o deputado do PS não esteja muito familiarizado com “raciocínio”.

Mas a maior ironia (e onde a esperteza descamba) é que ao afirmar que Manuela Ferreira Leite conhecia as escutas, o deputado do PS implicitamente está a validar o conteúdo das escutas, que ainda hoje não são públicas. Usando, de novo, o raciocínio, é impossível que a argumentação de Ricardo Rodrigues não tenha sido coordenada com José Sócrates que, esse sim, sabe muito bem o conteúdo das escutas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sistema bancário em risco

A imperiosa necessidade de consolidar as finanças públicas e as dificuldades em o concretizar colocam sérios riscos sobre o sistema bancário português.

Parece-me interessante analisar o que se passaria em Portugal se tivéssemos que pagar a dívida pública com o spread com que a Grécia actualmente paga (cerca de 200pb), embora esta análise não incida tanto sobre as contas públicas, mas sobretudo sobre o sistema bancário. Ao ritmo a que as coisas se estão a deteriorar, rapidamente chegaremos à actual situação da Grécia, pelo que talvez convenha ponderar um pouco este cenário.

Cerca de dois quintos do crédito concedido em Portugal é crédito à habitação, com spreads muito abaixo dos 200pb e por prazos muito longos. Ou seja, os bancos portugueses passariam a ter quase metade da carteira a dar fortes prejuízos e algemados por um período muito longo. Isto não aconteceria imediatamente porque parte deste crédito já está “casado” com financiamento de médio prazo com spread já negociado, mas é importante recordar que os mercados financeiros não reagem a acontecimentos passados, mas costumam antecipar o futuro.

Como é evidente, os credores externos dos bancos portugueses não iriam ficar nada agradados com esta situação, que tem todas as condições para se transformar numa espiral de agravamento sucessivo de spreads, que gera mais prejuízos, que gera maior alargamento de spreads, etc.

Entretanto, os bancos portugueses seriam tentados a recuperar no resto da carteira os prejuízos do crédito à habitação. Ou seja, seriam tentados a cobrar bastante mais por esse crédito do que o seu risco justificaria (e não esquecer que o spread base “sem risco” estaria nos 200pb).

Todas as empresas tenderiam a ser prejudicadas por isso, em particular as empresas do sector transaccionável, que têm naturalmente maior risco e que veriam a sua competitividade agravada. De qualquer forma a economia como um todo passaria a ter menos crédito ou em piores condições. Tudo isto agravaria as condições gerais de crescimento (e por conseguinte travaria o crescimento da receita fiscal) e agravaria a competitividade (e por conseguinte deterioraria a trajectória da dívida externa).

O apertar do crédito iria gerar falências e desemprego, aumentando o crédito mal parado e deteriorando a posição dos bancos.

À medida que os bancos fossem cortando crédito ao resto da economia, o peso relativo da sua carteira de crédito à habitação (o tal que passaria a dar sempre prejuízo) iria aumentando, fragilizando ainda mais a posição dos bancos.

Os prejuízos dos bancos criariam uma pressão adicional sobre as finanças públicas, seja ao nível de ajudas aos bancos que se aguentassem, seja através da garantia dos depósitos dos bancos que falissem. Se as coisas se agravarem ao ponto a que estão aqui descritas nem vale a pena argumentar sobre quem tem as responsabilidades pela garantia dos depósitos em tempos “normais”.

Tendo em atenção o que o Estado já gastou com o BPN, imaginar a factura para o conjunto do sistema bancário é do domínio do filme de terror.

Com as finanças públicas ainda mais agravadas (nada do que aqui escrevi está reflectido nas actuais previsões sobre a dívida pública) todo o cenário de descalabro se reforça, com os spreads de financiamento do Estado e da banca a subir.

Já teríamos entrado numa espiral que se alimentaria de vários canais. A dado momento o mais provável é que o crédito externo pura e simplesmente parasse e então teríamos uma catástrofe de proporções bíblicas, sendo muito provável que passássemos a ter mais de um milhão de desempregados.

Há banqueiros que aplaudem os projectos faraónicos de endividamento público (na expectativa de ganhar umas comissões de financiamento), esquecendo que este endividamento ajuda a que o cenário atrás descrito se materialize, colocando os bancos em sério risco.

Há várias conclusões óbvias desta análise, mas escolho a importância de acompanhar o caso grego como indicador avançado do que nos pode vir a acontecer. As condições de finanças públicas são piores na Grécia, mas parecem menos difíceis de resolver. A Grécia tem hoje uma despesa pública ao nível da de 2000 (em Portugal subiu 8pp do PIB) e as receitas fiscais estão abaixo das desse ano (em Portugal subiram 5pp). Para além disso, tem um potencial de crescimento da ordem dos 4% (o nosso é pouco mais de 1%), o que lhe permite ter alguma esperança na capacidade da retoma de melhorar as contas públicas.

Há uma outra diferença, que poderá ser decisiva a fazer-nos “ultrapassar” a Grécia: eles têm um governo maioritário e nós temos um governo minoritário e uma oposição que não prima pela responsabilidade.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Problemas na Educação

Considero que temos três problemas na educação: quantidade, qualidade e eficiência.

O problema da quantidade prende-se com a elevadíssima taxa de abandono escolar precoce. Temos menos alunos porque eles saem demasiado cedo do ensino. Isto tem repercussões gravíssimas ao nível de toda a vida. Que tipo de formação se pode dar a um trabalhador que saiu demasiado cedo da escola? Isto coloca entraves gravíssimos ao crescimento da nossa produtividade, porque há uma massa enorme de trabalhadores sem qualificações ou semi-qualificados. Segundo um estudo recente da CGTP o peso destes trabalhadores no total mantêm-se praticamente inalterado nos últimos 20 anos, em cerca de um terço do total.

Com a aposta da China na educação, Portugal corre o sério risco de passar a ter trabalhadores menos qualificados do que a China incapazes de competir com os salários chineses. A nossa falta de aposta na educação corre o sério risco de se transformar num perigosa fábrica de desemprego.

Não me venham dizer que o abandono escolar existe porque isto e aquilo. Ter explicações sobre porque é que temos um problema não resolve nem desculpa a existência do problema. Quando muito, essas explicações devem servir para construir as soluções e nunca para baixar os braços.

Quanto ao problema da qualidade, ele revela-se nos péssimos resultados obtidos nos testes PISA, em que Portugal obtém resultados muito piores do que seria de esperar do nosso nível de desenvolvimento. Aqui de novo, podem arranjar as melhores explicações para isto, mas certamente que uma delas é que o ministério da Educação não tem dado a devida atenção a este grave problema.

Se os nossos alunos têm piores resultados do que os chineses, que futuro é que isto nos reserva?

O problema da eficiência está espelhado no facto de gastarmos muito mais em educação (nomeadamente quase o dobro de Espanha), apesar de termos menos alunos e obtermos resultados muito fracos. Temos um sério problema orçamental na educação e a discussão recente sobre a avaliação dos professores não passa de uma hipocrisia. Era preferível que o ministério da Educação assumisse que o objectivo é quase exclusivamente orçamental e assumisse a necessidade de fixar limites de vagas nos escalões mais elevados. Estou plenamente de acordo que existam estes limites, tal como existem no ensino superior.

Para terminar gostaria de salientar que não considero que o maior problema na educação sejam os professores. Considero que o maior problema reside, em primeiro lugar, no ministério da Educação (deve haver um vírus na 5 de Outubro que enlouquece quem lá entra…) e, em segundo lugar, nos pais. Os pais são os principais responsáveis pelo abandono escolar precoce e pela indisciplina dos alunos.

Mas também devo dizer que os professores não se podem infantilizar e dizer que não têm nenhuma responsabilidade no actual estado de coisas. Se são o maior grupo profissional na AP, com uma enorme capacidade negocial (como se vê no estatuto remuneratório que conseguiram obter), porque é que não usa(ra)m esse poder para mudar o sistema?

Limitar os direitos adquiridos (2)

Retomando o post anterior, queria insistir na necessidade de estabelecer uma hierarquia entre sustentabilidade das contas públicas e direitos adquiridos, com o primeiro princípio a ter uma claríssima precedência sobre o segundo.

Em seguida, importa esclarecer em que consiste um “direito adquirido”. É importante estabelecer uma clara linha divisória entre os direitos já adquiridos e as expectativas de direitos. Os direitos já adquiridos podem ser encarados como direitos adquiridos, mas as expectativas de direitos não podem ser confundidas com direitos adquiridos. Um funcionário que está hoje na categoria x a receber y pode considerar isso um direito adquirido. Um funcionário que tem a expectativa de chegar daqui a n anos à categoria z não pode encarar isso como um direito adquirido.

Sobretudo porque as expectativas de direitos têm que ser confrontadas com as expectativas dos contribuintes de não terem que pagar mais impostos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Limitar os direitos adquiridos

Uma das chagas maiores em Portugal são os chamados direitos adquiridos. Deve-se aproveitar os poderes constituintes da actual AR para introduzir uma cláusula que limite os direitos adquiridos, sobretudo invocando a necessidade da sustentabilidade das finanças públicas.

A intocabilidade dos direitos adquiridos é hoje tão delirante como já foi a irreversibilidade das nacionalizações.

Uma reivindicação exigida por sindicatos extremamente egoístas e cedida por um governo cobarde e irresponsável não pode ser um direito adquirido intocável.

Na educação em particular chegou-se a uma situação do domínio do absurdo, que não faz qualquer sentido que permaneça um direito adquirido:

  • os aumentos salariais entre o início e o fim de carreira são maiores do que os aumentos no ensino superior, apesar de aqui os obstáculos para passar de assistente estagiário a professor catedrático serem incomparavelmente mais exigentes;
  • no ensino não superior já há um número absurdamente elevado de professores na categoria de “professor catedrático”, isto é, no último escalão;
  • na subida entre escalões chega a haver subida de remuneração superiores a 20%, num país em que a produtividade nem cresce a 1% ao ano;
  • os educadores de infância estão equiparados a professores do ensino não superior, reformando-se com mais de 2500€, num país em que o salário mediano está abaixo dos 1000€;
  • Portugal gasta quase o dobro em educação (em percentagem do PIB) do que Espanha e uma parte anormalmente elevada deste gasto diz respeito a salários dos professores.

Nada disto faz sentido e menos sentido ainda faz que nós tenhamos que pagar ainda mais impostos para manter este absurdo intacto.

Criar imposto sobre crédito ao consumo

O único imposto que faz sentido subir é um que incida sobre o crédito ao consumo. Não é provável que este imposto gere muitas receitas, mas é para criar uma penalização social sobre este tipo de crédito.

Um medida que deveria vir em consonância com este imposto é a proibição da publicidade ao crédito ao consumo.

Como sempre sucede esta medida vai alterar comportamentos. Aliás, já hoje os bancos estão a passar crédito ao consumo para crédito à habitação, mais vantajoso para os bancos, porque tem garantia real, e mais vantajoso para as famílias, porque a taxa de juro é mais baixa. Não é obviamente difícil de prever que este movimento seria acentuado.

Este desvirtuar do crédito ao consumo não seria muito grave porque o objectivo principal deste imposto não é o arrecadar receita, mas transmitir mensagem de reprovação do crédito ao consumo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Subir impostos?

Discute-se se será necessário subir impostos para conseguir controlar as contas públicas até 2013. Sou totalmente contra. Os impostos já estão no limite do insuportável.

Antes de subir impostos é necessário:

a) abortar os grandes investimentos públicos faraónicos e secundaríssimos;

b) congelar os salários dos funcionários públicos;

c) congelar as progressões automáticas na administração pública;

d) congelar as pensões acima de, digamos, 2 mil euros;

e) forçar a despesa pública sectorial a aproximar-se do nível que se verifica em Espanha (em percentagem do PIB), sendo que é na educação que a disparidade é maior.

Quanto à ideia de fazer privatizações para conter o crescimento da dívida pública, não faz muito sentido. Aparentemente pode haver a ilusão de uma dívida menor, mas na verdade o património do Estado ficará intacto com essa operação. Fica com menos dívida porque fica com menos activos, mas não fica mais rico.

O verdadeiro risco das contas públicas

O ministro das Finanças (cada vez mais político e cada vez menos economista) veio finalmente apresentar um orçamento rectificativo e suplementar, embora (para a confusão ser total) incompleto, apenas com a Administração Central.

As perspectivas para os próximos anos são aterradoras e há um compromisso de reduzir o défice para 3% do PIB em 2013. Parece que há a ideia de que, se não o fizermos, seremos multados em Bruxelas. Os mais atentos serão ainda capazes de perceber que seríamos também “multados” pelas agências de rating, com a consequente subida do custo da dívida.

Mas este não é o verdadeiro risco das contas públicas. A nossa dívida externa está numa trajectória insustentável e o descontrolo das contas públicas pode (e deverá) ser a gota de água que leva a fechar a torneira. Este credit crunch deverá gerar falências e desemprego em massa, uma catástrofe que nos fará olhar para a crise presente como uma mera constipação. Com a agravante de se piorar o nosso definhamento. As más condições portuguesas vão afastar ainda mais o investimento, dificultando ainda mais a recuperação. Se não pusermos as contas públicas na ordem, de certeza que esta catástrofe se abaterá sobre nós. Mesmo que púnhamos as contas públicas na ordem, se não tratarmos também da competitividade, teremos também a catástrofe, embora talvez um pouco mais tarde.

Que não haja ilusões de que os outros países europeus nos virão salvar. Muito pelo contrário, eles quererão mostrar-nos como exemplo de qual o castigo para quem não controla as contas públicas. E Portugal reúne todas as condições para sofrer um castigo exemplar.

Em primeiro lugar, Portugal foi o primeiro país a apresentar um défice excessivo, sem ter qualquer desculpa para isso. É importante não esquecer que os outros países com défices excessivos na altura tinham taxas de desemprego próximas de 10%, enquanto em Portugal ela estava próximo dos 4%. O que seria o nosso défice na altura se tivéssemos um desemprego como o de agora? E, ainda por cima, Portugal mentiu nas contas de 2001. Actualmente já é a terceira vez que estamos em défice excessivo.

Em segundo lugar, Portugal é um país muito pequeno (representa menos de 2% do PIB da zona do euro) pelo que problemas económicos cá não vão afectar quase nada os outros países. Problemas em Itália causariam uma mossa significativa no resto da Europa, mas em Portugal não. Sai muito barato usar Portugal como castigo exemplar.

Por tudo isto reafirmo que, se não controlarmos as contas públicas, teremos uma catástrofe de proporções bíblicas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Este país existe? (3)

“Teotónio Pereira considera que igreja do Restelo é uma aberração.

“Apesar do seu exotismo, o projecto da igreja de Troufa Real para o Restelo foi apreciado pelos técnicos camarários como se de outro qualquer se tratasse. Não há, no processo consultado ontem pelo PÚBLICO na Câmara de Lisboa, qualquer referência dos técnicos nem à torre de cem metros, nem tão-pouco às cores a usar ou ao facto de a igreja ter a forma de um barco com ondas por baixo. Os funcionários apenas repararam em questões menores, como o número de lugares de estacionamento ou as taxas de construção a pagar pela igreja à autarquia. E estas, no valor de 198 mil euros, foram perdoadas, dada a finalidade da obra.”

http://www.publico.pt/Local/teotonio-pereira-considera-igreja-do-restelo-uma-aberracao_1410434

Um estilo muito “Banco de Portugal”

“Chefe do fisco que ajudava Godinho foi promovido com três directores-gerais

“Ao longo de dez anos, três directores-gerais de Impostos aceitaram promoções e transferências entre postos de chefia do chefe das Finanças de São João da Madeira, recentemente suspenso pelo tribunal de Aveiro na sequência da operação Face Oculta.”

http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1410469

Temos aqui mais um exemplo do estilo “Banco de Portugal”: não sabiam de nada, não faziam ideia, era impossível saber, só havia uns rumores que não se podia levar a sério, não se pode estar a investigar por dá-cá-aquela-palha, etc., etc.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Desemprego acelera

O desemprego está a acelerar, quer em termos trimestrais (passou de +0,2pp para +0,7pp), quer em termos homólogos (de + 1,8pp para +2,1pp), tendo-se fixado em novo máximo histórico (desde D. Afonso Henriques…) de 9,8%.

Mas estes valores só não são piores porque há muitos desencorajados a sair da população activa. Enquanto a população total subiu em 16 mil pessoas, a população activa caiu em 64 mil pessoas. Se não tivesse havido esta queda da população activa, o número de desempregados estaria acima dos 610 mil, e a taxa de desemprego nos 10,9%.

domingo, 15 de novembro de 2009

Boas novas “que a fortuna não deixa durar muito”

O crescimento trimestral do PIB foi particularmente elevado (0,9%):

a) está quase ao nível do que a CE espera para o conjunto do ano de 2010 (1,0%).

b) deverá permitir que em 2009 o PIB só caia entre 2,5% e 2,6%, menos do que a queda de 2,9% recentemente prevista pela CE.

c) em termos anualizados dá 3,6%, um valor que não se verifica desde 2000.

Na verdade há aqui dois efeitos extra que devem ser meramente temporários:

a) efeito base. Há uma recuperação a partir de níveis muito baixos, o que inflaciona as taxas de crescimento.

b) efeito das exportações líquidas. A crise afecta em particular o investimento (segundo a CE deve cair 15,2% em 2009) e os bens de consumo duradouro. As más perspectivas justificam que não se tente aumentar a capacidade produtiva e a compra de, por exemplo, automóveis, é adiada, a resposta mais fácil para as famílias à diminuição do rendimento. Estas componentes da procura interna são justamente as que têm uma maior componente importada. Por isso a crise é temporariamente benéfica para as exportações líquidas (de importações). Mas, como é evidente, este efeito vai-se dissipar muito em breve.

Para 2010 a CE ainda espera uma queda do investimento (de 4,1%) e provavelmente também dos bens de consumo duradouro (as previsões publicadas incidem sobre o conjunto do consumo e não descriminam as suas componentes).

Logo, é improvável que se repitam taxas de crescimento trimestral tão expressivas nos próximos trimestres.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Muro de Berlim

Completam-se hoje 20 anos sobre a queda do muro de Berlim.

O fim da vergonha.

sábado, 7 de novembro de 2009

Sanção ao PM

Sócrates teve de novo um comportamento lamentável, de total desrespeito pela AR, ao não responder às questões dos deputados. Sócrates pode permitir-se não responder, em primeiro lugar, porque existe em Portugal um duplo défice, de literacia e de empenho cívico. O défice de literacia impede muitos de perceber que aquela chuva de palavras de Sócrates não passa de lábia para evitar responder a perguntas incómodas. O défice de empenho cívico impede muitos outros de, percebendo que o PM não responde, se indignarem com este défice de explicações ao país. Voltamos quase sempre ao país do “respeitinho”.

Mas Sócrates pode permitir-se não responder, em segundo lugar, porque não há nenhuma sanção política para este comportamento de desrespeito pela AR. Sendo assim, proponho a criação dessa mesma sanção. Independentemente de outras ideias para a sanção em concreto, proponho que o governo seja penalizado nos minutos de que dispõe para falar na AR.

Depois do debate parlamentar, cada partido político entregaria ao presidente da AR uma lista das perguntas que considerava que não tinham sido respondidas, segundo uma grelha de complexidade e razoabilidade de tempos de resposta. Se a questão é demasiado específica, não é razoável esperar que o PM tenha sempre a resposta na ponta da língua. Mas é inadmissível que não responda à pergunta “mantém a confiança política em X, nomeado pelo governo e arguido num caso grave de corrupção?”

A comissão encarregue da avaliação das não respostas, presidida pelo presidente da AR, concluiria a lista das perguntas não respondidas, que seriam tornadas públicas, bem como a respectiva sanção. No debate seguinte, o governo seria penalizado em x minutos, pelas suas não respostas.

Este sistema tinha como primeira vantagem que a esperteza saloia de não responder seria claramente denunciada e publicitada. Passaria a ser um jogo pouco razoável de jogar, porque os benefícios passariam a ser mínimos. Em segundo lugar, se o PM se puser a jeito, leva penalizações sucessivas da AR, uma humilhação pública que não deve apreciar.

Penso que actualmente até estão reunidas as condições políticas para avançar com esta ideia. Aliás, mesmo que a ideia não avançasse a mera ameaça de a concretizar já seria boa. Em primeiro lugar, toda a oposição tem um elevado capital de queixa do PM, pela forma como tem desrespeitado a AR. Logo, deverá aprovar este conceito. Em segundo lugar, Sócrates tem chantageado a oposição para não o derrubar. Com esta sanção, após meses e meses de penalizações ao PM e sucessivas acusações de desrespeito pela AR, a oposição fica com toda a legitimidade para derrubar um governo, com o argumento que este vem desrespeitando a AR há imenso tempo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Velhos do Restelo?

Vasco Pulido Valente critica hoje Sócrates, quando este chama “velhos do Restelo” aos seus críticos.

Na verdade, estes velhos do Restelo é que defendem alterações significativas na nossa vidinha. Medina Carreira defende uma transformação profunda do Estado, Êrnani Lopes defende a aposta no hipercluster do mar, etc, etc.

Mas alguém vê Sócrates como Vasco da Gama? Sócrates, na melhor das hipóteses leva-nos a uma excursão às Berlengas e, na pior e mais provável das hipóteses, está a levar-nos em direcção ao triângulo das Bermudas, onde nos afundaremos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Perversidades estatísticas

O governo pretende alargar o acesso ao subsídio de desemprego, respondendo tardiamente aos anseios da oposição e de vários parceiros sociais.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=394727

No entanto, não é inteiramente certo que o governo esteja consciente das consequências desta medida sobre as estatísticas do desemprego. Para se estar incluído nas estatísticas do desemprego é necessário ter estado activamente à procura de emprego. Mas quando já se está desempregado há muito tempo e já não se tem direito a nenhuma prestação social, muitos desempregados deixam de estar activamente à procura de emprego embora permaneçam sem emprego. Para as estatísticas oficiais deixam de estar desempregados.

Com uma maior generosidade no subsídio de desemprego, menos pessoas vão sair das estatísticas, há menos desencorajados, ou seja, o desemprego oficial vai aumentar com esta medida. Esta questão é particularmente relevante em termos políticos para 2011. Segundo a Comissão Europeia o desemprego deverá começar a cair em meados de 2011, uma previsão que me parece optimista. Mas com esta medida o governo deverá adiar o pico do desemprego oficial e poderá ser apanhado ainda com o desemprego a subir, quando a AR for previsivelmente dissolvida dentro de dois anos.

Se o governo tivesse dois dedos de testa, começava já a falar neste fenómeno, para depois não ser apanhado na curva. Mas não me parece que tenha.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Renovar o PSD

O meu artigo deste mês no Jornal de Negócios:

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=394465

Bravo!

Demorou menos tempo do que eu esperava. No BCP lá perceberam que a manutenção de Armando Vara da administração era um erro que lhes ia custar caríssimo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De volta ao fundo da tabela

Para 2011 a CE prevê que Portugal apenas cresça 1,0%, muito abaixo dos 1,6% previstos para a UE. A divergência estrutural segue dentro de momentos, com Portugal de volta ao fundo a tabela do crescimento, conseguindo o penúltimo lugar em 2011, ex-aequo com Espanha e apenas à frente da Grécia.

A CE prevê uma ligeira queda da taxa de desemprego em 2011, apesar de prever que o emprego só deverá crescer uma décima nesse ano, o que é um pouco estranho. O défice externo deverá manter-se intacto acima dos 10% do PIB, continuando a dívida externa a sua trajectória explosiva.

O défice público deverá manter-se sempre acima dos 8% do PIB (segundo a hipótese comum de manutenção das actuais políticas), muito acima da média da zona do euro, tal como sucede com a dívida pública. Como é óbvio, as actuais políticas não se podem manter, mas já é menos óbvio como é que um governo minoritário encontrará o caminho para aplicar os cortes orçamentais necessários.

Ridículo

O ministro das Finanças, em resposta à revisão em alta das previsões da Comissão Europeia, diz que as medidas anti-crise estão a surtir efeito. Como é que é? Portugal tinha um dos mais pequenos pacotes de ajuda anti-crise, e até Setembro ainda só tinha sido gasto 42% do pacote e as medidas estão a surtir efeito?

A CE prevê que Portugal já cresça 0,3% em 2010, mas a procura interna terá ainda uma contribuição negativa de 0,2% para o PIB, sendo o crescimento fruto exclusivo do contributo das exportações líquidas. O que o ministro pretende dizer é que o pacote português teve uma impacto tão forte na Alemanha, França e outros países, que eles desataram a comprar exportações portuguesas?

Entretanto, para grande surpresa nossa (pois, pois), o ministro já vem dizer que afinal o défice de 2009 não vai ser os 5,9% apregoados e que há tão pouco tempo não fazia sentido nenhum rever.

Não aprendem?

Parece que, numa leitura estrita da lei, o Banco de Portugal não pode impedir a continuação de Armando Vara na administração do BCP. Não acredito que não haja uma norma geral que exija uma boa reputação aos membros do conselho de administração.

Mas há ainda a chamada moral persuasion, em que o governador do Banco de Portugal tem uma “conversinha” com a administração do BCP e eventualmente com os maiores accionistas: “Ó meus caros amigos, vocês não têm consciência da péssima imagem para o banco e para os seus negócios que é passarmos os próximos meses a ler notícias nos jornais que o Armando Vara isto e aquilo? Mesmo que ele não esteja directamente envolvido é o caso onde ele está envolvido. Arranjem-lhe lá uma sabaticazinha, ir tirar um MBA nos EUA ou qualquer coisa do género.”

Mas, como estamos em Portugal, já se sabe que isto só vai acontecer muito tempo depois de muitos estragos já terem ocorrido, em vez de se cortar o mal pela raiz. Esperemos que o mercado accionista saiba dar um sinal atempado à administração do BCP sobre o que fazer. Os accionistas estrangeiros devem estar loucos e a perguntar-se: “que país é este onde eu cometi o erro de investir?”

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Tangas

Teixeira dos Santos justificou a descida do outlook do rating da Moody’s com a “crise económica”, ou seja, continua a fingir que não percebe o que está em causa.

É óbvio que, como professor de economia, o ministro está farto de saber que um fraco potencial de crescimento tem um efeito muito negativo sobre a dinâmica das dívidas, pública e externa. E é isso que justifica a alteração na perspectiva de rating.

O problema da tanga do ministro é que a efectiva queda do rating deverá ocorrer quando a crise internacional já tiver passado. O que me consola na recondução do governo é que eles vão assistir a todo o destapar de carecas até ao descrédito total.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Rating com más perspectivas

A Moody’s acaba de mudar o outlook do nosso fraco rating (Aa2) de “estável” para “negativo”, porque a “Moody’s receia que o ténue crescimento pós-crise venha a traduzir-se numa adversa dinâmica da dívida de Portugal”.

Para Anthony Thomas, vice-presidente da divisão de dívida soberana da Moody’s, o “problema parece estar no facto de não haver motivação para agir por parte do governo”

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=393501

O problema começa em o governo nem sequer ter assumido que Portugal está em divergência estrutural com a UE, o que venho considerando como sendo o mais grave problema económico com que nos defrontamos. Se o governo não reconhece um problema porque carga de água há-de tomar medidas para o resolver?

Mas, ironicamente, a Moody’s acaba de criar uma motivação para o governo agir.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Não se percebe

“Cavaco Silva diz-se disposto a ajudar Sócrates a cumprir a legislatura até ao fim.” (capa do Público de hoje). Não se percebe porquê nem para quê.

Este PM, quer por ser minoritário, quer por ter um passado de conflitos (muitos dos quais gratuitos), vai ter uma extrema dificuldade em reformar. Pior ainda, em termos económicos, este PM está completamente inconsciente de alguns dos principais problemas do país (divergência estrutural com a UE, dívida externa galopante) e, por isso, propõe uma política económica que só os vai agravar.

Cada mês a mais deste governo no poder é um mês a mais que Portugal caminha para o abismo. Qual é o interesse em que este governo termine a legislatura?

sábado, 24 de outubro de 2009

Desemprego massajado

O IEFP acaba de revelar novo record de desempregados, 510 mil em Setembro, com uma clara subida face ao mês anterior e, mais grave do que isso, uma possível aceleração do seu crescimento. A taxa de crescimento homólogo do número de desempregados subiu de 28,7% para 29,1%, embora em Julho já tivesse tocado nos 30,1%. Ou seja, não é claro que o desemprego esteja a acelerar, mas é francamente possível.

Convém também referir que, historicamente, os valores do IEFP eram sempre muito superiores aos do INE, sendo mesmo comum diferenças superiores a 100 mil desempregados. A diferença em Dez-04 era de quase 80 mil. Desde que o governo de Sócrates se iniciou que esta diferença se estreitou fortemente, tendo passado a ser negativa a partir do 4º trimestre de 2006. Já havia muitas suspeitas e muita falta de explicação e transparência sobre as “limpezas” de ficheiros, mas a comparação entre os dados públicos lança uma fortíssima suspeita sobre o IEFP. Esta questão é tão evidente que quase de certeza já deve ter sido levantada por sindicatos, embora não me lembre, nem tenha registo de quando.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Salário mínimo

Portugal vive quase há década e meia com um gravíssimo problema de competitividade, que está na base da nossa divergência estrutural com a UE. Neste contexto, aumentos extraordinários do salário mínimo são das medidas mais inoportunas.

O governo cessante negociou aumentos extraordinários do SMN com base em dois argumentos: a) o governo estava muito preocupado com a pobreza; b) os aumentos teriam um impacto muito limitado sobre as empresas.

Parece que o novo governo se prepara para repetir a dose, esquecendo os efeitos dos aumentos acumulados até agora. Sugiro que o governo escolha uma via alternativa, que poria em cheque a sua argumentação: crie um escalão negativo no IRS. Assim seria possível aumentar os rendimentos dos trabalhadores mais pobres, sem colocar em causa a sobrevivência de muitos empregos.

Se o governo está mesmo preocupado com a pobreza, então deve ser ele (o Estado) a pagar a factura e não deve passar estes encargos para as empresas. A função redistribuição pertence ao Estado e não às empresas. Por outro lado, se o governo entende que os custos desta medida são tão diminutos para as empresas, então, por maioria de razão são ainda mais insignificantes para o Estado, não havendo razão para não ser o Estado a pagar a factura. Seguindo a máxima: put your money were your mouth is.

A razão principal para apresentar esta alternativa prende-se com o receio de que mais aumentos do SMN resultem em destruição de emprego. Em 2005 a percentagem de trabalhadores a receber o salário mínimo na agricultura já era de 23,4%. Com os aumentos ocorridos entretanto esta percentagem deve estar substancialmente mais elevada, criando seriíssimos riscos de manutenção do emprego.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Execução orçamental fraca

As receitas fiscais estão a cair menos, mas é quase impossível que consigam alcançar as metas revistas em Maio. Nos impostos directos já se conseguiu cumprir a meta mas nos indirectos está-se muito longe desta.

No IRS há uma melhoria que advém da anulação do efeito de antecipação de reembolsos, mas é muito surpreendente que consiga crescer 4,2% com a economia de rastos e o desemprego a subir. Este valor está mesmo claramente acima do previsto para o conjunto do ano (-1,5%). Esperemos que não resulte de um fundamentalismo fiscal na pior das alturas, ainda por cima quando o plano anticrise ainda só foi executado em 42%.

Os impostos indirectos apresentam uma melhoria muito tímida. Em termos trimestrais passaram de uma queda homóloga de 21,9% no 2T09 para uma queda de 13,7% no 3T09. Destaca-se pela negativa o IVA que passou de um queda homóloga de 30,9% para uma queda de 17,9%. Sendo o IVA um dos indicadores que mais segue de perto a conjuntura, esta evolução é muito desfavorável como sinal para a recuperação económica.

A despesa corrente primária acelerou ligeiramente (de 4,1% para 4,5%) e mantém-se acima da meta para o conjunto do ano (2,7%). O défice anualizado entrou em ligeira queda, estando agora nos 7,4%, sendo possível que fique abaixo dos 7% do PIB, desde que não ocorram eventos extraordinários.

O governo tinha previsto receitas não fiscais elevadíssimas que muito provavelmente não vai usar em 2009 porque há actualmente uma grande complacência na UE sobre os défices orçamentais. É mais provável que use essas receitas extraordinárias para maquilhar as contas de 2010, pressionado por um calendário eleitoral antecipado.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Deflação em Portugal

O Público de hoje tem um extenso artigo sobre o “perigo” da deflação em Portugal. Estou mais interessado em analisar os impactos de uma eventual deflação do que analisar a sua probabilidade, porque os comentários lidos são respostas demasiado “livro de texto”, dando pouca atenção às nossas circunstâncias.

Vamos admitir (uma hipótese com alguma verosimilhança nos dados disponíveis) que Portugal vai entrar em deflação, mas a Europa não. Nos casos típicos a deflação gera uma depressão da procura interna, que atrasa sucessivamente a recuperação. Mas o caso português não é típico: temos excesso de procura interna e défice de competitividade (para além de uma falta temporária de procura externa).

A deflação deprime o consumo, adiado à espera de novas quedas de preços. Esta queda do consumo também deprime o investimento nos sectores que servem o mercado interno, mas não nos sectores exportadores. Por outro lado, é suposto a deflação levar a uma forte moderação salarial, permitindo recuperar parte das fortes perdas de competitividade que sofremos na última década e meia. Este é o elo mais fraco da questão, porque os aumentos salariais em Portugal têm sido um mistério, com aumentos muito superiores aos ganhos de produtividade num cenário de crescimento do desemprego, o que é quase impossível de explicar.

Ou seja, deflação em Portugal diminuiria o nosso excesso de consumo, redireccionaria a estrutura produtiva para os sectores transaccionáveis e melhoraria a nossa competitividade. Ficaríamos assim com uma economia mais equilibrada, com algum crescimento, longe dos cenários que olham a deflação como sinónimo de terror.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fiel?

“José Sócrates garantiu que será fiel ao programa apresentado pelo PS nas Legislativas.”

http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Socrates-determinado-a-fazer-cumprir-programa-socialista.rtp&article=287352&visual=3&layout=10&tm=

Isto é quase recusar-se a ceder às oposições. Quanto mais fiel for ao programa do PS, leia-se quanto menos ceder às condições das oposições para aprovar leis, em especial o orçamento, mais paralisado ficará. Julga ele que pode lançar a responsabilidade dos chumbos sobre as oposições, mas na verdade a responsabilidade será sua, pela indisponibilidade em negociar.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

Condicionar o governo

A aprovação do orçamento para 2010 está dependente do PSD, precisando pelo menos da abstenção deste partido. Julgo que o PSD deve colocar como condição para a abstenção que o PS deixe de lado o TGV. Este projecto é dos que mais mal pode fazer ao país, ao agravar o nosso endividamento sem benefícios relevantes. Em qualquer circunstância, o PSD deve ser duro nas negociações do orçamento.

Mas, curiosamente, a não aprovação do orçamento em 2010 seria pouco preocupante. Como em 2009 a inflação será próximo de zero, termos em 2010 o mesmo orçamento de 2009 introduziria poucas perturbações. 2010 é mesmo um ano excepcionalmente favorável para isso acontecer.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A importância dos salários

Um dos argumentos acenados, sobretudo pelo PC, é que os salários representam uma parcela tão pequena dos custos totais, que não é a subida dos salários que coloca problemas de competitividade às empresas.

Ontem o INE publicou as “Contas Nacionais Trimestrais por Sector Institucional” do 2º trimestre. Aí se pode ver que as remunerações dos empregados representam em média (desde o início da série) 64,4% do Valor Acrescentado Bruto (VAB). Tendo em atenção que o próprio VAB sobrestima o valor da produção (o que conta realmente é o Valor Acrescentado Líquido), conclui-se que as remunerações representam bem mais de dois terços da produção. Como é possível continuar o discurso de que é uma coisinha pouca?

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=56472684&DESTAQUESmodo=2

Uma derrota humilhante, mas não injusta

O PSD tinha a obrigação de ganhar estas eleições. Há uma onda europeia de voltar à direita. O PS teve uma governação de plástico, incompetente e arrogante. Sócrates foi desmascarado como um dos políticos mais desonestos desde sempre. Havia uma política de clara alternativa à do governo, uma demarcação muito mais nítida do que em anteriores eleições. O desemprego estava em máximos históricos e a subir.

Portugal sofre de um doença económica raríssima e gravíssima: é o único país da UE que está em divergência estrutural (há praticamente uma década) e o PSD não soube transformar esta triste e séria realidade num tema central do debate político. Quando, ainda por cima, este problema é um dos mais importantes argumentos para a necessidade de uma mudança de política económica.

Durante a campanha eleitoral o PSD permitiu que casos ridículos desviassem a atenção do essencial, ao contrário de, por exemplo, o CDS, que conseguiu um resultado histórico.

Durante a campanha o PSD recebeu trunfos, que ignorou, para escândalo dos mais atentos: a OCDE apresentou uma proposta de redução das contribuições sociais, em linha com a proposta do PSD e contra o recentemente aprovado código das contribuições do PS.

Por tudo isto afirmo que estas eleições deram uma derrota humilhante ao PSD, mas não injusta.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

TGV e periferia

Sócrates apanhou o TGV entre Paris e Bruxelas pensando com isso estar a fazer um “statement” político. Mas devia ter ido de TGV de Madrid para Bruxelas, para perceber bem o absurdo de tal viagem.

Um dos argumentos mais pífios de defesa do TGV é que nos tira da periferia. Mas, se houvesse TGV alguém o usaria para ir para Berlim? ou Londres? ou mesmo Paris? O TGV só poderia influenciar as deslocações até Madrid e talvez até Barcelona. De resto, não nos aproxima em nada do que já estamos da Europa.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Desbloquear o investimento

O meu artigo deste mês no Jornal de Negócios, com sugestões para desbloquear o investimento privado, que é aliás a componente do PIB que está com mais problemas (agravou a queda homóloga para praticamente 20% no 2º trimestre).

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=386042

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Falta de tudo

Este suspeitíssimo afastamento de Manuela Moura Guedes do Jornal Nacional da TVI demonstra a justeza das acusações de asfixia democrática. Mas revela também uma extraordinária falta de inteligência de que este PM já deu amplas provas (relatório da “OCDE”, etc). Quem é que ele pretende enganar? A minha única preocupação é que a liberdade nunca teve uma cotação elevada no nosso país. Mesmo assim, será ensurdecedor o silêncio de Mário Soares e outros.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Cansaço

O facto mais saliente da entrevista de ontem de Sócrates, pela Judite de Sousa (mais incisiva do que é costume), é o tom de voz, muito mais brando do que o habitual. Parece-me que isso é muito mais fruto do cansaço, do que de uma recém descoberta humildade, em que não acredito. Não admira, de tal maneira Sócrates carregou o governo e a conjuntura não podia ser mais frustrante. Como é que um homem neste estado pode querer iniciar um novo ciclo governativo?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ridículo

Estamos a menos de um mês das eleições e lemos isto:

“O primeiro-ministro disse hoje, em Bragança, que o Governo está a construir uma rede pública de creches para ajudar os jovens casais a ter filhos e dar resposta a um problema que classificou como ‘a nova prioridade do Estado Social’.”

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1398376&idCanal=12

O governo está a “construir”? Inventaram ‘a nova prioridade do Estado Social’? É ridículo imaginar que alguém engole estas patranhas a tão curta distância das eleições.

sábado, 29 de agosto de 2009

Prioridades

“Paula Teixeira da Cruz e Azevedo Soares consideram pobres as propostas da líder do PSD para o País.” (Diário de Notícias)

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1347661

Pina Moura no Expresso afirma que o programa eleitoral do PSD é “mais duro e mais focado” do que o do PS. Prioridades.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Acham normal?

A Fundação Mário Soares tem patente uma exposição fotográfica e documental de “Evocação de Andrei Gromyko (1909-1989)”, descrito como “político e diplomata soviético”, que foi o último líder da URSS antes de Gorbachov. A que propósito é que se evoca um líder de um regime totalitário responsável pelas piores atrocidades do século XX? Mário Soares já perdeu de todo o norte?

http://www.fundacao-mario-soares.pt/iniciativas/iniciativas_registo_individ.asp?id=000732

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Uma andorinha

O surpreendente crescimento trimestral do PIB de 0,3% é certamente uma boa notícia, mas que não deve ser exagerada. O INE não forneceu nenhuma indicação sobre a razão deste bom comportamento, mas já sabemos que as exportações líquidas estão a ter um contributo positivo para o crescimento.

Para além disso, podemos conjecturar que será o consumo que está a crescer. A inflação negativa facilita o crescimento do consumo em termos reais, bem como o alívio permitido pela queda das taxas de juro. O problema é que a inflação negativa se deve à queda dos preços dos produtos alimentares e energéticos, que deverão voltar a subir com a retoma mundial, que também deverá reverter a descida das taxas de juro.

Ou seja, o crescimento do consumo baseia em factores temporários, enquanto as influências mais sustentáveis – os salários e o emprego – deverão ter um contributo muito modesto no caso dos salários e negativo no caso do emprego. Estamos assim perante uma retoma muito frágil.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Reformas e governabilidade

O meu artigo deste mês, no Jornal de Negócios, sobre os problemas que se avizinham no próximo ciclo eleitoral.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=382244

terça-feira, 11 de agosto de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Recomendado

O artigo de Vítor Bento sobre as mirabolantes contas dos benefícios das obras públicas, no blog da Sedes: “Voodoo economics”

http://www.sedes.pt/blog/?p=1320

Adenda: aproveito para felicitar Vítor Bento pela sua nomeação como novo Conselheiro de Estado, uma excelente escolha do PR.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Lembrem-se da Ota!

O meu artigo deste mês no Jornal de Negócios, sobre os diferentes manifestos sobre as grandes obras públicas.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Ilusões

Segundo o Público de hoje, “Sócrates critica concelhia do PS-Porto e põe fim ao clima de intriga”

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1391462&idCanal=12

Sócrates critica severamente a concelhia, sem tentar por um momento perceber a razão do comportamento desta. Parece-me que a concelhia já percebeu o desastre que Elisa é e está a tentar arranjar espaço para outro candidato.

A auto-suficiência de Sócrates é o oposto da intuição política. Com as suas palavras duras conseguiu que o presidente da concelhia, Orlando Soares Gaspar (um histórico) anunciasse “que, para não atrapalhar, irá suspender a sua actividade como presidente da concelhia até às eleições autárquicas.”

É divertida a forma como o jornalista emprenhou de ouvido. Julga ele que Sócrates conseguiu pacificar a concelhia e conquistá-la para participar activamente na campanha de Elisa Ferreira. Imaginem lá que a minha leitura é completamente diferente. Parece-me que a concelhia, se deixar de atacar Elisa, vai baixar completamente os braços e deixá-la sozinha na campanha.

domingo, 12 de julho de 2009

Falta de intuição política

Elisa Ferreira, em vez de aproveitar a nova política do PS para desistir de candidata à câmara do Porto, está a insistir num erro, que a vai conduzir a uma estrondosa e humilhante derrota.

Julga ela que a reconfirmação do apoio de Sócrates a vai ajudar. Está enganadíssima, até porque se está a esquecer que o mais provável é que, aquando das eleições autárquicas (e depois de ter perdido as legislativas), Sócrates já nem sequer seja secretário-geral do PS. Eis como a total ausência de intuição política leva a desbaratar um capital político não despiciendo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A bem da coerência

O PS, por puro oportunismo político, decidiu que não pode haver candidaturas simultâneas a várias eleições. A bem da coerência, espera-se que Ana Gomes e Elisa Ferreira se retirem das candidaturas autárquicas. Por razões morais e práticas. A razão moral é a da coerência; a razão prática é a baixíssima atractividade eleitoral. De Ana Gomes não sei muitos pormenores (adivinho-os), mas sobre Elisa Ferreira saiu uma sondagem desastrosa que lhe dá metade dos votos de Rui Rio. De certeza que o PS consegue outros candidatos que, pelo menos, não percam tão vergonhosamente.

sábado, 4 de julho de 2009

Teoria e prática

Na entrevista de hoje ao Público, Teixeira dos Santos acerta na identificação dos nossos maiores problemas, mas não consegue passar à prática.

O ministro está correctíssimo quando diz: “o sector exportador, que é fundamental para nossa economia e deve ser o motor do crescimento. A curto e médio prazo temos que focar aí as nossas atenções, porque é da dinâmica dele que vai depender o nosso crescimento.” (…) “Havia uma crise de crescimento em Portugal desde 2002.” (…) ”Temos é que identificar os problemas e as soluções correctas. São essencialmente problemas de competitividade.”

Mas depois derrapa: “Temos é tido a preocupação que as medidas de ataque à crise nos auxiliem a enfrentar os desequilíbrios estruturais.” Em que é que o programa de obras nas escolas serve para melhorar a competitividade e promover as exportações?

Mas o mais incompreensível é: “Eu acredito que a ligação de Portugal à rede de TGV europeia é importante para nós podermos aumentar a competitividade da nossa economia.” O TGV é um projecto que claramente não é competitivo: se o preço dos bilhetes tivesse que reflectir todo o custo, ninguém andaria de TGV (talvez as pessoas que têm medo de viajar de avião). Mas como é que um projecto que não é competitivo pode aumentar a competitividade de uma economia?

A verdade é que nunca o governo reconheceu publicamente o gravíssimo problema da queda do nosso potencial de crescimento e nunca assumiu verdadeiramente a necessidade de o voltar a elevar. Mesmo que em teoria o ministro soubesse o que era necessário fazer, nunca conseguiu passar à prática.