sábado, 27 de setembro de 2008

Vendam as casas

Segundo o Expresso de hoje, a CML tem 3246 fogos no seu património disperso, com uma renda média de 35,48 euros, sendo que 40% estarão vagos (e os privados é que são responsáveis pela desertificação de Lisboa…). A atribuição destes fogos a rendas mais do que subsidiadas não tem seguido nenhum critério razoável.

Admitindo um valor médio (baixo) de 150 mil euros por fogo estamos a falar de um património de perto de 500 milhões de euros. Um património que a CML nem conhece com exactidão, segundo Manuel Damásio, coordenador do levantamento deste património “concluído, mas não entregue por falta de pagamento.” Palavras para quê?

Esta é a mesma CML que ainda há pouco estava aflita e incapaz de obter um empréstimo. Se isto não é incompetência, o que é incompetência? Das estórias que se conhece de atribuição destas casas, surge uma ideia clara: é mil vezes preferível que a CML venda a maioria destes fogos (desde logo os que estão vagos), para evitar criar situações obscuras, tendo o óbvio cuidado de desocupar previamente os fogos a vender. O resto poderia ser utilizado para rejuvenescer a cidade, atribuindo casas a jovens, mas por períodos limitados e, sobretudo, bem definidos. Assim, poderia haver um renovar sucessivo de rejuvenescimento.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Primeiras medidas

O Congresso americano chegou a acordo sobre os princípios do pacote de ajuda ao sector financeiro:

http://media.ft.com/cms/9db1e4f6-8b47-11dd-b634-0000779fd18c.pdf

Estamos longe das condições extravagantes que o secretário do Tesouro tinha pedido (praticamente fazer o que lhe apetecesse sem explicações) e também ainda estamos longe de uma solução concreta.

Tenho algumas sugestões. Os activos tóxicos a ser comprados pelo fundo público (FP) a constituir deveriam ser avaliados de forma independente por instituições que ponha o dinheiro onde a boca está. As agências de rating, dos maiores culpados da actual situação, não estão em condições de o fazer, quer porque não têm capitais para o fazer, quer porque têm a imagem estragada. Eis o que sugiro: o banco A paga ao banco B uma comissão para este avaliar o activo tóxico X que A tem no seu balanço. Com base nesta avaliação, A consegue vender o activo X ao FP com 20% de desconto. Para que B esteja mesmo empenhado em avaliar correctamente (ou eventualmente por baixo) o activo X, B fica responsável por uma eventual perda de valor até, digamos, 25% do valor de X.

Detendo o activo X até à maturidade, o fundo público fica com razoáveis possibilidades de vir a ganhar dinheiro, sendo essa a remuneração extra por suportar um activo tóxico. Até perdas de 20%, FP está garantido, por ter comprado o activo com desconto. De perdas entre 20% e 25%, FP continua garantido, porque aí B é responsável por estas perdas. Só a partir daí é que FP regista mesmo perdas.

Este sistema evita que os activos tóxicos sejam avaliados por excesso e penaliza claramente os bancos que têm estes activos. Os valores numéricos são indicativos e há outras questões a afinar. Parece-me que deveria haver uma qualquer penalização para B, quando as perdas estão entre 0% e 20%.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Fim do sector não regulado

Na sexta feira já tinha previsto o fim do sector bancário não regulado nos EUA. Mas afinal o seu fim veio de uma outra forma. Foram os próprios bancos não regulados (Goldman Sachs e Morgan Stanley) que pediram para passarem a ser regulados.

http://www.ft.com/cms/s/0/97a410b6-884a-11dd-b114-0000779fd18c.html

Um dos aspectos mais surpreendentes do status quo era que os bancos menos supervisionados (os não regulados) tinham uma base de capital muito inferior ao dos bancos mais vigiados. Bancos com mais risco, mas com menos capital? Vão agora ter que proceder a aumentos maciços de capital, embora tenham um período alargado para proceder ao ajustamento. Mas com muito mais capital, a sua estrutura de negócio muda radicalmente. Aguardemos os próximos capítulos…

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Recessão?

O indicador coincidente calculado pelo Banco de Portugal (referente a Agosto e publicado hoje) prosseguiu a sua trajectória descendente, embora com uma mensagem com alguma ambiguidade. Os valores passados foram revistos em baixa ligeira (2 décimas nos últimos meses), mas o ritmo de deterioração abrandou (passou de cerca de 3 décimas por mês para 1 décima).

O valor de um único mês é claramente insuficiente para redefinir uma tendência, mas seria uma boa notícia. Infelizmente, os últimos desenvolvimentos nos mercados de crédito dizem-nos que os problemas económicos se vão ainda agravar antes de começar a recuperar.

Além disso, o valor numérico do indicador foi zero em Agosto, pelo que tudo indica que o valor referente a Setembro seja negativo. Ou seja, estaremos já no início de uma recessão, pelo menos no sentido técnico (2 trimestres consecutivos de crescimento negativo). Ainda me lembro de declarações oficiais muito recentes de que a economia portuguesa estaria a “resistir” muito bem…

Fim da não regulação financeira

Está em preparação um pacote financeiro nos EUA para absorver os “activos tóxicos” que estão a envenenar o sector financeiro. Uma questão não pacífica, que se poderá arrastar pelas objecções a que venha aí mais uma pesada factura para o contribuinte americano. Este processo pode demorar tanto tempo até chegar tarde demais.

A parte não regulada do sector, nomeadamente os bancos de investimento, estão a revelar-se tão frágeis que parece que vai haver uma solução radical para o problema da regulação: a parte não regulada desaparecer (por falência ou compra pela parte regulada) por falta de confiança do mercado. Dos dois bancos de investimento que sobram, o Morgan Stanely está a preparar ser comprado por um banco chinês e é duvidoso que o Goldman Sachs consiga manter-se incólume.

A resposta do mercado ao mercado financeiro auto-regulado é a morte deste.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Falta de coluna vertebral

O PS sobre o casamento gay, depois de (tentar) insultar Manuela Ferreira Leite, vai impor disciplina à sua bancada e proibi-la de votar a favor. Que bem escreve Luís Nunes Vicente: “MFL disse o que sinceramente pensa sobre o assunto. Com razão ou sem ela, é preferível essa posição à manha pré-eleitoral de um partido pseudo-fracturante. Dizer o que se pensa, sem medo das consequências, é um sinal de respeito para com a cidade.”

Muito esclarecedor

O PR disse ontem “que qualquer ofensa à dignidade e ao prestígio do poder judicial constitui uma ameaça grave para a democracia de qualidade a que aspiramos”. Infelizmente, esqueceu-se de referir todas as ofensas perpetradas pelos juízes, por acção e, especialmente, por omissão. Se há causas externas para o descalabro a que chegou a justiça (qualquer semelhança com Justiça é mera coincidência), porque é que os juízes não reivindicam que esses problemas sejam resolvidos, em vez de fazerem reivindicações salariais num momento de grave crise económica? Aliás, como é que deixaram que as coisas chegassem a este estado (volta Salgueiro Maia)?

Ler os comentários no Público a esta notícia é muito esclarecedor. A esmagadora maioria é altamente crítica dos juízes. Parece que estamos perante uma classe profissional que, pelo menos ao mais elevado nível, padece de um grave problema de autismo.

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1342970&idCanal=62

A mensagem do presidente do STJ então é extraordinária, ao fazer-se Presidente do sindicato e fazer reivindicações salariais! Ainda por cima com a chantagem de que salários baixos podem por em causa a independência dos juízes. O quê? O Presidente do STJ acredita que os juízes só não são corrompidos se forem muito bem pagos? Como é possível confiar em tais juízes? E então o que se pode esperar do comportamento de todos os portugueses que ganham muito menos do que os juízes?

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Consequências da falência do Lehman Brothers

O desfecho inesperado da crise na Lehman (ainda na semana passada havia vários interessados na compra) e a ideia que ainda não chegámos ao fim da crise no crédito, deverão alargar os spreads de crédito e apertar as condições da sua concessão. A falta de confiança entre bancos ainda está para durar. Os bancos centrais (mesmo que o quisessem) não deverão ser capazes de contrariar o aperto do crédito, porque a escassez é de confiança e não de liquidez. Assim, teremos ainda mais arrefecimento económico do que já vinha sendo previsto.

Este arrefecimento vai abrandar a inflação (como se vê já no petróleo), mas é improvável que a nesga de espaço para respirar permita uma descida das taxas de juro pelo BCE. Mas como parece que a procissão ainda vai no adro…

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Terramoto em Wall Street

O 4º maior banco de investimento em Wall Street, Lehman Brothers, acaba de pedir protecção de falência. Dos outros três, a Merryl Lynch conseguiu proteger-se aceitando ser comprado pelo Bank of América. Restam, por enquanto incólumes, o Morgan Stanley e o Goldman Sachs. Veremos quanto mais vai mudar nos próximos tempos.

http://www.ft.com/cms/s/0/f8834910-82aa-11dd-a019-000077b07658.html

Estas últimas reviravoltas retomam a crise do crédito, podendo estender-se a todo o mundo, inclusive Portugal, onde o sector bancário está profundamente dependente do crédito externo. Havia alguma expectativa de que a crise económica ainda estivesse para vir, como impacto ao retardador da crise no crédito. Infelizmente, as notícias que nos chegam é que no epicentro do terramoto, a terra ainda treme.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Para quem ainda tinha dúvidas

Ontem o preço do petróleo (Brent) caiu abaixo da marca psicológica dos 100 dólares. Logo a OPEP anunciou uma redução simbólica da produção. Alguém precisa de mais alguma prova de que a OPEP é a maior especuladora no preço do petróleo? Com uma vantagem muito significativa sobre os especuladores que actuam atomisticamente no mercado financeiro dos futuros de petróleo: a OPEP tem mesmo capacidade de influenciar o preço.
Desenganem-se os que acreditaram na existência de uma bolha especulativa e que o preço cairia claramente abaixo dos 100 dólares: a OPEP não vai deixar. O 3º choque petrolífero está mesmo para ficar. Há agora uma pausa para respirar enquanto a economia mundial está a arrefecer. Dos países do G7 só o Canadá deverá crescer mais em 2009 do que em 2008. A retoma deverá chegar em 2010, mas os mercados financeiros têm por hábito antecipá-la, pelo que em meados de 2009 é provável que voltem as subidas de preços do petróleo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Economia está a “resistir”?

Mais cedo do que se esperava o governo teve que engolir a conversa de que a economia estava a resistir. Afinal, em vez de ter estabilizado nuns fracos 0,9% (em termos homólogos) no 2º trimestre, o PIB continuou a desacelerar para 0,7%. A probabilidade de crescer sequer 1% no conjunto do ano é cada vez mais reduzida.

Há uma ligeira boa notícia no facto de a contribuição da procura externa líquida ter sido menos negativa (de -1,5p.p. para -0,9p.p.), embora aqui o alívio foi o ter-se passado de uma situação péssima para uma situação má. É uma melhoria, mas não se justifica abrir uma garrafa de champanhe (importado…). Se o governo tivesse apostado num programa agressivo de recuperação de competitividade, mesmo num contexto de desaceleração económica global, Portugal poderia estar a receber um contributo positivo deste lado. Assim, estamos neste apeadeiro.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Péssimas notícias

O Economist poll of forecasters de Setembro deteriorou-se fortemente face ao mês anterior. Quando parecia que se assistia a um desacelerar da deterioração de perspectivas, eis que o pessimismo acelera.

O crescimento para a zona do euro em 2008 já só deverá ser 1,3% (contra expectativa de 1,6% no mês anterior) e em 2009 as coisas deverão a piorar, com o PIB a crescer apenas 0,9% (1,2% no mês anterior).

Duas ideias a reter: 1) com o padrão de correlação nas previsões, é altamente improvável que tenhamos chegado ao fim das revisões em baixa; 2) confirma-se, mas não se agrava por enquanto, a ideia de que 2009 vai ser pior do que 2008.

Neste quadro aguarda-se com curiosidade acrescida quais as “previsões” que o governo vai escolher apresentar dentro de um mês no relatório do Orçamento. Com o irrealismo que tem caracterizado as “previsões” do governo, teme-se que insista ainda em cenários cor-de-rosa. Ou vai assumir a realidade e reduzir em fortíssima baixa as previsões que vinha apresentando até aqui? Em qualquer dos casos irá sempre pagar caro pelo erro indesculpável do “optimismo” passado.

Evidentemente que o pior de tudo vai ser explicar como é que, de repente (segundo o discurso oficial) no ano de eleições a economia ainda vai crescer menos que em 2008. Se Portugal estava a “resistir” tão bem, como explicar que nos vamos afundar para o ano? E que esperar do desemprego, uma das variáveis eleitoralmente mais relevantes? O desemprego é das variáveis mais desfasadas (entre 3 a 6 trimestre atrasada em relação ao PIB). Logo, mesmo que a recuperação chegue no 2º semestre de 2009 (uma ideia não demasiado optimista), ela chegará demasiado tarde para o actual governo, que deverá chegar às eleições horrorizado com a subida sucessiva da taxa de desemprego.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Para quê?

Segundo o DN de hoje (supl. DN Bolsa, p. 7), Sócrates afirmou que o PIB deverá crescer em 2008 entre “1,2% e 1,5%”, abaixo dos 1,5% anunciados em Maio.

1) Qual a utilidade de uma estimativa pouco trabalhada e sem credibilidade? Se no 1º semestre o PIB cresceu 0,9% e tudo indica que 2009 vai ser pior que 2008, a que propósito vamos ter um segundo semestre milagroso?
2) Estamos no final do 3º trimestre de 2008. Qual a utilidade de apresentar uma estimativa coxa para um ano que está próximo do fim e não apresentar uma previsão para 2009, neste momento radicalmente mais importante, quando as empresas começam a preparar os seus orçamentos para o ano que vem?

Para quê um valor pouco credível para um indicador com utilidade decrescente (PIB de 2008) e um silêncio sobre o que verdadeiramente interessa (PIB de 2009)? O objectivo é agravar a perda de credibilidade das previsões do governo?