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sábado, 22 de maio de 2010

Estão loucos

As sondagens de hoje do Expresso são elucidativas sobre o divórcio entre o governo e o país. 79% dos inquiridos acha que o TGV deve ser adiado. Praticamente quatro quintos do país percebe o óbvio que o governo se recusa a interiorizar. Apenas 14,5% acham que deve continuar. Ou seja, parece que menos de metade do equivalente ao eleitorado do PS está de acordo com o governo.

Um governo que toma uma decisão duramente criticada pelos nossos melhores e esmagadoramente repudiada pelo eleitorado não está louco?

Mas parece que não estamos sós:

http://www.publico.pt/Economia/tgv-portugal-espanha-e-franca-vao-pedir-a-ue-prioridade-maxima_1438303

“TGV: Portugal, Espanha e França vão pedir à UE prioridade máxima”

Se a Alemanha não puser um travão nesta loucura colectiva, se a Alemanha não tomar consciência do bando de irresponsáveis que a acompanham no euro, vamos esbarrar muito proximamente “numa parede junto de si”.

Se na segunda-feira os investidores tiverem um ataque de pânico perante a pura incompetência destes governos, não se esqueçam de repetir a fábula dos “especuladores”.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fumo branco

Finalmente, os países europeus acordaram num pacote de empréstimos à Grécia, no montante de 30 mil milhões, por três anos, com uma taxa de juro no primeiro ano de cerca de 5%. É pena que ainda tenhamos que falar de “no primeiro ano” e “cerca de”, mas parece que os mercados gostaram muito desta notícia.

Com dinheiro adicional do FMI e ainda sem estar claro se há condições a impor à Grécia para receber estes fundos, parece que nos espera algum tempo de bonança.

Curiosamente, parece-me que esta decisão coloca a Espanha mais na linha da frente do que Portugal. Nós precisaríamos de uma ajuda inferior à da Grécia, pelo que é muito improvável que ela não se materializasse, mas uma ajuda a Espanha seria tão volumosa que, essa sim, se poderia tornar proibitiva.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Independência

Fernando Ulrich, presidente executivo do BPI, preserva a independência na entrevista de hoje ao Público. Destaco:

“Neste momento, o único banco a que o Governo pode tirar a garantia do Estado é a Caixa Geral de Depósitos (CGD), que foi o único que a utilizou.”

“Todos temos que estar disponíveis para nos sentarmos à volta da mesa e discutir quais são as melhores soluções. Não vejo nenhuma vantagem em andarmos a atirar pedras uns aos outros. Isso não vai ajudar a resolver os problemas.” Revela mais serenidade do que o governo.

“Portugal é um dos países com um dos maiores défices da BTC do mundo. Quer em percentagem do PIB, quer em valor absoluto. O país com maior défice da BTC é os EUA, o segundo é a Espanha. E Portugal está nos dez primeiros. E o desafio é este, pois financiar este défice vai ser muito mais difícil do que foi até aqui. E pode até não ser possível.”

“A CGD não pode ser o saco azul do partido que está no governo”

“O que digo é que não está excluído que o BPP tenha que ser liquidado e não está excluído que o BPP tenha capitais próprios negativos.” [Meus sublinhados].

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Perspectivas económicas pioram, défice espreita

Banco de Espanha descreve como “pronunciada desaceleración” o andamento da taxa de crescimento do PIB homólogo, que passou de 3,5% no último trimestre de 2007, para 2,8% no 1º trimestre de 2008. Trata-se de uma desaceleração generalizada a todas as componentes da procura.

http://www.bde.es/informes/be/boleco/may2008/evo.pdf

Como é evidente, vai sobrar para Portugal. Não só Espanha é nosso principal parceiro comercial, como algum do desemprego português está disfarçado como emprego nas zonas de fronteira do país vizinho.

Se soubesse o que sabe hoje, Sócrates nunca teria descido o IVA. É divertido que ele tenha acusado de “levianas” as propostas de descida de impostos antes de saber como ia a economia no início de 2008. Tinha razão: foi leviano, sim senhor. E, diga-se, também incompreensível. Em termos eleitorais, os eleitores ligam à descida do IVA, mas querem lá saber em que mês ela é anunciada. Ao anunciá-la tão cedo (antes de conhecer a estimativa rápida do PIB do 1º trimestre) Sócrates arriscou muito, já que todos os sinais externos já eram bastante negros. Ainda por cima, o anúncio da descida do IVA muito antes da sua entrada em vigor tem um efeito negativo de atrasar algumas aquisições, que ficam à espera que o IVA baixe. Houve uma medida errada com um timing errado. Com a particularidade de que o timing certo (um pormenor não despiciendo) poderia ter justamente evitado a medida errada.

A probabilidade de o défice de 2008 ficar acima dos 2,6% de 2007 vai crescendo. Vai crescendo de tal maneira, com cada notícia que surge que, não tarda nada, a dúvida se vai ultrapassar os 3% vai-se colocar. Seria um fracasso económico e político estrondoso. Sócrates apresentar-se às eleições com as contas públicas outra vez descontroladas seria correr o sério risco de perder as eleições. Tudo por uma decisão errada (descida do IVA), tomada antes do tempo certo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Há males que vêm por bem

Do Público de hoje, p. 41: Espanha está atrasada no TGV para Badajoz. Tanto melhor, ajuda a atrasar/suspender o disparate do TGV em Portugal.

Já se sabe que os preços das viagens de TGV serão uma ficção política. Mas os custos, esses imaginam-se estratosféricos. O TGV vai proporcionar viagens mais caras e mais lentas que de avião. Qual a lógica de investir numa tecnologia mais cara e pior do que temos actualmente? Nem a desculpa temos de ter dinheiro para gastar…

quinta-feira, 15 de maio de 2008

“Horta Osório diz que Portugal será um dos países mais afectados pela crise do crédito de alto risco”

Título do Público de hoje, p. 41. Afectado quer pela via real (desaceleração das economias externas, em especial Espanha), quer pela via financeira (aumento do custo e da dificuldade de obtenção de crédito). Horta Osório acredita que Portugal será mais afectado do que a média e eu tenho que concordar. Em termos de economia real, Portugal tem um gravíssimo problema de competitividade, o que o coloca na pior situação para enfrentar esta desaceleração internacional.

Em termos financeiros, não só Portugal tem dos maiores rácios de endividamento da UE, como é dos países em que esmagadora maioria dos empréstimos são a taxa variável, o que o torna muito mais sensível a esta subida das taxas de juro.

Há um “problemazinho” extra, que tem levantado a cabeça, mas que ainda não surgiu verdadeiramente, que é a ameaça de um crash imobiliário. Eu penso que Portugal tem todas as condições para termos um crash destes. Há centenas de milhar de casas vazias, compradas apenas com intuitos especulativos. Dantes, esperar que elas se valorizassem era muito barato (taxas de juro baixíssimas) e rendia muito (as casas valorizaram-se imenso). Agora, ambas as condições se inverteram. Esperar pela valorização está cada vez mais caro e a valorização está a passar para desvalorização em várias zonas do país. Então faz mais sentido vender já, pressionando uma queda dos preços. O que agrava a desvalorização e força mais vendas. Um crash, em suma.

terça-feira, 25 de março de 2008

CGD e o nosso dinheiro

Segundo o Diário Económico de hoje: “A compra do banco basco Guipuzcoano, que vale 1,5 mil milhões, está em cima da mesa. Caixa aposta no mercado espanhol.”

http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/edicion_impresa/destaque/pt/desarrollo/1103855.html

Os bancos portugueses são dos mais ineficientes da Europa e os espanhóis são dos mais eficientes. Não se vislumbra nenhuma vantagem comparativa que justifique que os bancos portugueses entrem em Espanha, porque eles entram no país vizinho com uma “tecnologia” pior do que eles já têm.

Algum tipo de entrada, para apoiar o investimento e comércio português com Espanha tem justificação, mas lidar com o cliente espanhol típico não tem sentido. Agora, apostar num banco regional, situado numa região com a qual Portugal nem tem especial afinidade, que lógica tem?

Isto cheira à velha lógica da burocracia pública, explicada por Niskanen, que visa a maximização da dimensão e não do lucro. Estas internacionalizações baseadas apenas em ter fundos para investir (e têm?), sem ter uma vantagem comparativa que justifique o negócio, já se sabe que vão dar para o torto. E quem paga é o contribuinte.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Remodelação

Duas saídas óbvias (Saúde e Cultura). Mário Lino deveria acompanhá-los. Maria de Lurdes Rodrigues quase poderia sair com base nos mesmos argumentos de Correia de Campos. Manuel Pinho aprendeu a estar calado, com grande benefício nosso e, por isso, já não se estranha tanto que permaneça, até porque tinha outros à sua frente para sair e Sócrates pretendeu mexer o mínimo.

Há um problema comum aos ministros remodelados e remodeláveis: praticamente nenhum tinha experiência governativa anterior e começaram-na logo como ministros. Este não é aliás um problema específico deste governo, mas tem-se repetido frequentes vezes. Portugal tem produzido um número de ministros muito superior ao de Espanha nas últimas décadas, com a agravante de começarem a carreira no topo.

Por um lado há o problema de um país mais pequeno não poder estar a gerar assim tantas pessoas capazes, muito mais do que Espanha. Por outro lado, há o problema de muitos deles nem sequer poderem beneficiar de uma experiência governativa, ao estrearem-se logo como ministros.

Sócrates não aprendeu a lição, embora no seu caso o risco seja aparentemente menor, dada a rédea curta em que tem os ministros. Voltou a cair no erro de escolher dois ministros que não têm qualquer experiência governativa. Que não estão habituados a lidar diariamente com a luta política. Que têm que tomar decisões polémicas e visíveis.

Revela-se aqui um outro traço de improviso da política à portuguesa. Apesar de o regime já ter mais de 30 anos, continua a não haver uma aposta numa formação de base para estes cargos. Quando chega a altura de uma necessidade, vão-se buscar uns óvnis. Que, com a idade que estes têm, vão ser usados uma vez e provavelmente não voltarão a ser utilizados.