sábado, 22 de agosto de 2015

Fantasias, parte II

O programa económico revisto do PS deverá esbarrar rapidamente em Bruxelas

Antes de comentar o programa económico revisto do PS, convém sumariar as restrições que impendem sobre o próximo governo, qualquer que ele seja. Em primeiro lugar, temos que referir as circunstâncias internas, entre as quais avulta uma dívida pública de cerca de 130% do PIB e uma quase estagnação económica que dura há 15 anos. Também se pode acrescentar uma extrema benevolência dos mercados, muito ajudada pelo programa de expansão monetária do BCE, mas que está sujeito ao risco de contágio da crise grega, que não tem acontecido ultimamente, mas que pode voltar sem pré-aviso.

Isto significa, por um lado, que um deslize orçamental nos pode custar muito caro e, por outro, que esperar que a economia cresça com base em estímulos orçamentais, uma receita que não funciona no nosso país há década e meia, é extremamente ariscado.

Em relação às circunstâncias externas, a zona do euro continua com uma grande dificuldade em recuperar dos níveis de rendimento anteriores à crise de 2008, para além de continuar a haver uma enorme pressão (mesmo excessiva) pró-austeridade, como se viu pela capitulação total da Grécia, pelo menos à superfície. Ou seja, não só não temos as coisas facilitadas, com a excepção dos benefícios da depreciação do euro, como continuaremos a estar sujeitos a uma apertada vigilância, não só dos mercados, mas também dos nossos parceiros comunitários.

A primeira referência genérica ao programa do PS, é que, dado que houve uma revisão de várias das principais variáveis, era preferível que tivesse sido apresentadas todas as variáveis que constavam do cenário macroeconómico inicial. As lacunas principais dizem respeito à inflação e às contas externas, onde teríamos muita curiosidade de verificar se as previsões altamente improváveis de que ambas melhorariam se mantinham.

Genericamente, as novas previsões apontam para uma menor consolidação orçamental (défice público de 1,4% do PIB em 2019, contra 1% inicialmente), da qual resultaria um maior crescimento económico (cerca de mais três décimas no período) e uma menor taxa de desemprego (menos duas décimas em 2019). Tem que se reconhecer que esta previsão segue a lógica do exercício anterior em que um estímulo orçamental é muito eficaz a fazer crescer a economia, embora esteja em substancial contradição com a nossa experiência desde o início do século.

Mas estas previsões deverão conhecer um banho de realidade logo na apresentação da proposta de orçamento para 2016, onde é quase certo que um défice de 3,0% do PIB, como previsto pelo PS, não será aceite pelos parceiros europeus, não só porque esse valor já deveria ter sido alcançado este ano, como corresponderia ao segundo ano consecutivo em que não haveria qualquer esforço de consolidação em termos do défice estrutural (corrigido do ciclo económico). Deve-se recordar que Portugal ainda não atingiu a meta de 0,5% de défice estrutural como previsto no Tratado Orçamental, cuja leitura “inteligente” o PS tanto tem pedido, mas é praticamente impossível que António Costa consiga o que Tsipras não obteve, até porque o nosso país está muito longe da crise humanitária que afecta a Grécia.

Ou seja, admitindo que o PS ganha as eleições, o seu programa deverá ser chumbado em Bruxelas logo nos primeiros meses, pelo que muitas das previsões ficarão logo desactualizadas.

PS. Assinalou-se ontem exactamente 600 anos da tomada de Ceuta, início simbólico dos Descobrimentos, a maior contribuição portuguesa para a história e civilização mundiais. Para além de alguns eventos locais, não há comemorações oficiais nem nenhum dos partidos políticos se referiu ao tema. Não sei se isto é fruto de uma ignorância indesculpável ou do politicamente correcto, mas esta lacuna é profundamente lamentável. O mais irónico é que, se não tivesse havido os Descobrimentos, também não haveria António Costa.


[Publicado no jornal “i”]

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Prognósticos

As eleições legislativas podem produzir um parlamento paralisado

As últimas sondagens apontam para um empate técnico entre as duas principais forças políticas e os últimos desenvolvimentos não ajudam a esclarecer este impasse. Em termos económicos, quer o desemprego quer o PIB revelaram recentemente dados positivos, o que favorece o governo, que fica com mais legitimidade em defender o caminho escolhido, pelo facto de este estar a produzir alguns resultados.

Entretanto, o PS conseguiu envolver-se numa telenovela que parecia interminável em relação aos cartazes de campanha (em que a coligação também conseguiu mostrar as suas falhas), revelando um amadorismo estranhíssimo naquele que é o segundo partido português mais antigo, a seguir ao PCP.

Isto reforça a suspeita de que os principais partidos portugueses não constituem verdadeiras instituições, mas são antes um amontoado de pessoas. Parece não existir uma estrutura fixa, com um mínimo de qualidade, que vá acumulando competências com a experiência do passado. O que parece existir é pessoas que vão sendo sucessivamente chamadas, mudando tudo com uma nova liderança. Aliás, dada a animosidade que tipicamente rodeia as lutas pela liderança e a ausência de um quadro de técnicos superiores fixo, o mais natural é que todos os que estavam com o líder derrotado sejam afastados.

Lembro-me de Luís Filipe Menezes, ao ganhar a liderança do PSD, em 2007, se ter queixado, com inteira razão, que o partido não tinha nada, a não ser secretárias e motoristas. Temo que até hoje nada disto tenha mudado.

Esta falta de uma estrutura interna nos partidos é claramente um dos responsáveis pela falta de qualidade do debate político, a que acresce a crescente partidarização e desqualificação da administração pública. Há um conjunto extremamente relevante de competências, jurídicas e técnicas, que foram entretanto privatizadas, o que significa que os governos têm cada vez menos acesso a aconselhamento de qualidade e imparcial. 

Como é evidente, é absurdo sugerir que se legisle para corrigir o problema de falta de estrutura dos partidos, já que teriam que ser estes a aplicar esta mesma legislação.

Voltando à campanha eleitoral, é chocante como ela tem sido ocupada por “casos”, havendo um silêncio ensurdecedor sobre os principais problemas nacionais, tais como o baixo potencial de crescimento, a insustentabilidade do actual Estado social, o desemprego, entre outros.

Passando aos resultados eleitorais, gostaria de fazer algumas simulações, mantendo fixos os números de deputados para os menores partidos. Assim, a CDU manteria os 16 deputados, próximo da sua média desde 1991. O BE perderia mais dois deputados, ficando com seis, enquanto o Livre e o partido de Marinho Pinto teriam, no seu conjunto, apenas quatro deputados. Sobrariam, assim, 204 lugares.

Se o PS tivesse 103 ou mais deputados, teria ganho as eleições, devendo ser chamado a formar governo. No entanto, se tivesse 101 deputados, poder-se-ia colocar uma situação bicuda. O PSD/CDS poderia alegar que, com 103 deputados, seria o vencedor. Mas o PS poderia contestar isso, por ter o maior grupo parlamentar, e poderia mesmo conseguir uma coligação com os novos partidos, o que perfaria 105 deputados. Já se o PS tivesse 100 ou menos deputados (considerando as hipóteses desta simulação) teria perdido as eleições, embora pudesse continuar a contestar isso.

Como vimos, e as sondagens reforçam essa ideia, podemos ter uma AR particularmente confusa – e paralisada – nos próximos tempos. O Presidente da República deverá ficar numa posição muito delicada, podendo pedir um bloco central, mas que poderá ser recusada, sobretudo pelo PS, que, liderado por António Costa, parece muito mais intransigente do que com Seguro.

Na verdade, aqueles que defendem um governo com maioria absoluta no parlamento estão a iludir-se. Com um parlamento assim, o próximo executivo será estruturalmente instável, quer tenha ou não apoio maioritário. Resta saber se o próximo Presidente da República irá ajudar à festa da confusão ou ser um elemento estabilizador.


[Publicado no jornal “i”]

Pensões

A reforma dos sistemas de pensões é o elefante no meio da sala da política portuguesa. As nossas pensões enfermam de quatro problemas, os três primeiros dos quais são estruturais: 1) “generosidade”; 2) demografia; 3) potencial de crescimento da economia; 4) conjuntura.

A questão da generosidade prende-se com o facto de, na maioria dos casos e com a excepção das pensões não contributivas, a média dos montantes totais pagos aos pensionistas exceder em muito a média das suas contribuições e as da entidade patronal. Como é evidente, esta disparidade deve ser eliminada, mesmo para as pensões já em pagamento.

A demografia revela-se de forma terrível no rácio entre trabalhadores e pensionistas, que já desceu para 1,2, um valor tão baixo que deverá impedir que, a prazo, os novos pensionistas possam receber o equivalente a 100% daquilo que contribuíram. Inverter a tendência de inverno demográfico é algo que muitos países europeus já conseguiram, com algum sucesso, mas em Portugal as medidas até agora propostas não passam de irrelevâncias votadas ao fracasso.

Há quinze anos que o nosso potencial de crescimento é baixo, o que nos tem impedido de convergir com a UE desde então. Infelizmente, este também tem sido um problema varrido para debaixo do tapete, de tal modo que medidas estruturais para o corrigir têm que ser impostas do exterior e são pouco e mal adoptadas, no meio de muito rosnar.

Quanto à conjuntura, tem afectado as receitas da Segurança Social através do desemprego e agravado a demografia pelo efeito da emigração. No meio disto tudo, a conjuntura é o menor dos problemas, que o tempo e o evitar asneiras deverá corrigir.

O que o PS propõe é não tocar nas pensões já atribuídas, ou seja não corrigir os graves problemas de pensões claramente acima das carreiras contributivas. Para além disso, pretende aumentar as fontes de financiamento, ou seja ir subindo sucessivamente impostos e contribuições para não reformar a segurança social, como se isso fosse um caminho com algum futuro para além do curto prazo.

O PSD/CDS propõem, para as gerações mais novas, criar um limite superior para as contribuições, o que também limitaria as pensões futuras. Esta medida é claramente extemporânea. Em primeiríssimo lugar, não faz qualquer sentido criar um buraco ainda maior do que aquele que a Segurança Social já tem, sem antes se fazerem reformas que garantem – de facto – a sustentabilidade desta. Mas há outra razão, bastante relevante, para adiar por alguns anos, uma tal medida, que corresponde à criação de um sistema de capitalização e previsível privatização da sua gestão. É que a crise financeira, iniciada em 2007 nos EUA e alastrada ao resto do mundo, revelou um sistema com muitas fragilidades e cuja reforma ainda não foi concluída. Enquanto o sector não for completamente saneado e a nova supervisão devidamente testada parece-me prematura uma tal medida.


 [Publicado no Diário Económico]

sábado, 8 de agosto de 2015

Avisos à navegação

O FMI avisa que o governo ficou aquém da troika e que o próximo governo não deve reverter as reformas alcançadas

O FMI acaba de publicar a sua última avaliação sobre Portugal antes das eleições legislativas, num tom razoavelmente crítico.

Em termos de crescimento económico, há algum optimismo sobre o curto prazo, auxiliado pelos preços baixos das matérias-primas (leia-se petróleo), baixas taxas de juro e depreciação do euro, beneficiando também da ausência de contágio das perturbações na Grécia. No entanto, o FMI estima que aqueles efeitos se desvaneçam nos próximos anos.

Não é possível identificar até que ponto esta instituição teme que a situação grega venha a afectar o crescimento em Portugal, mas deve-se salientar que ela está mais pessimista não só do que o governo português, mas também do que o Banco de Portugal e do que a Comissão Europeia. Em particular, no caso do desemprego, o FMI estima que ele apenas caia para 12,5% em 2017, quando neste momento já desceu para 11,9%.

Em todo o caso, deve salientar-se que tanto o FMI como a Comissão Europeia insistem na necessidade de efectuar mais reformas amigas do crescimento e do emprego, para que Portugal possa retomar a convergência com a UE, que ainda não é evidente.

Acrescento eu que é extraordinário que o facto de o nosso país estar em divergência com a UE há década e meia, apesar dos montantes tão absurdamente elevados quanto mal gastos de fundos destinados a auxiliar a convergência, ainda não provocou nenhum sobressalto nacional. É chocante como a conversa parece manter-se ao nível de mais ou menos austeridade, ou seja mais ou menos despesa pública, quando o nosso problema de crescimento anémico é anterior à troika em uma década.

Esta falta de consciência da necessidade de reformas profundas é transversal a todos os partidos políticos (veja-se como a coligação arrastou os pés em relação à reforma do Estado), aos sindicatos e às associações patronais, bem como às universidades e à população em geral. Parece que todos desejam que passe este “mau momento” da troika, ainda hoje demonizada, para voltarmos ao passado, esquecendo por completo que o “modelo” de desenvolvimento da década anterior era de um endividamento galopante que produziu um crescimento que não podia ser mais raquítico. Mesmo que tivesse trazido uma expansão económica significativa, não o poderíamos repetir porque se baseava num endividamento insustentável.

É chocante como ainda hoje não existe uma única instituição no país, mesmo que minoritária, que assuma a necessidade de reformas profundas, que nos permitam voltar a convergir de forma clara com a UE. Sem uma voz nacional clara e convincente, todas as reformas propostas pela troika, pela OCDE ou por qualquer outra instituição externa, começarão a ser sabotadas pelos próprios governos, sendo posteriormente torpedeadas por sindicatos e todo o tipo de corporações. Deve acrescentar-se que na previsível mudança de ciclo político que se avizinha, o ímpeto reformista deve esmorecer duplamente, ainda que o actual governo esteja muito longe de se poder considerar um exemplo. Por um lado, porque a troika já não tem tanto poder de pressão como quando podia ameaçar com o adiamento do cheque; por outro, porque o PS é o partido dos interesses instalados, sobretudo no sector público.

Voltando ao FMI, as preocupações em torno da Grécia levam a recomendar a manutenção de liquidez elevada, ou seja manter os “cofres cheios”, na expressão equívoca da ministra.

Em termos de contas públicas, estima-se que haja um adiamento por mais um ano da situação de défices excessivos e há críticas sobre a falta de detalhe com que o actual governo tenciona cumprir as exigentes metas orçamentais dos próximos anos. Por isso, as promessas quer do actual executivo quer do PS devem ser encaradas com o maior dos cepticismos, porque nem a economia nem as contas públicas deverão permitir grandes voos.


[Publicado no jornal “i”]

domingo, 2 de agosto de 2015

PREC e Alves dos Reis

O que se sabe sobre o que a Grécia poderia ter feito deve acordar os seus parceiros europeus

Nos últimos dias, tem sido revelado um conjunto de informações sobre o Plano B da Grécia, que parece um misto de PREC com Alves dos Reis.

Em Dezembro do ano passado, ainda antes das eleições de 25 de Janeiro, o futuro (hoje já ex-) ministro das Finanças, o histriónico Varoufakis, planeou o regresso ao dracma de forma rocambolesca. Aparentemente, o sistema informático do ministério das Finanças seria assaltado por um amigo de infância do ministro, que criaria um sistema de pagamentos alternativo. Ou seja, a Grécia sairia do euro pela porta do cavalo, sem negociações, a pior forma possível de retirada. Felizmente, Tsipras não lhe deu autorização para avançar com o plano, o que foi o melhor para todos, a começar pelos gregos.

Em Julho, um dos componentes do Syriza, a Plataforma de Esquerda, organizou uma reunião para preparar a saída forçada do euro, que previa a prisão do governador do Banco da Grécia caso este resistisse e o assalto da entidade que imprime notas. Seguindo as desvairadas indicações, as notas aí existentes (menos de metade do que os conjurados estimavam) poderiam ser usadas para importar combustíveis e alimentos de primeira necessidade.

O lado mais PREC disto tudo, é que havia jornalistas à porta do hotel onde decorria aquela conspiração, a quem os políticos relataram o que se passou, como se fosse imaginável algum golpe com sucesso poder informar previamente a comunicação social. O lado Alves dos Reis consiste em querer apropriar-se de notas emitidas, com a particularidade de o delinquente português ter agido no maior dos segredos e os seus homólogos gregos se prepararem para o imitar com o mais dos espalhafatos. Como é que lhes pôde passar pela cabeça que aquelas notas não seriam imediatamente consideradas forjadas e não aceites por ninguém?

Os disparates desde que o Syriza chegou ao poder já foram tantos, que já há vários gregos, entre presidentes de autarquias, que colocaram Varoufakis em tribunal, esperando-se ainda o levantamento da sua imunidade parlamentar, podendo seguir-se novas acusações a outros políticos no governo.

Numa primeira apreciação, tudo isto é terrível e deve ser alvo de críticas e até das perseguições judiciais referidas. No entanto, num plano mais elevado, o que se sabe até agora do que poderia ter acontecido é demasiado grave e tem que ser interpretado como consequência da situação que os dois primeiros programas de austeridade criaram na Grécia. Em geral, detesto a argumentação que é a “sociedade” que cria os delinquentes mas, neste caso, parece-me que se aplica a ideia de que foram as circunstâncias que geraram o potencial desastre que, felizmente, nem sequer chegou a concretizar-se.

É (quase) totalmente inútil criticar severamente os ex-ministros pelo que se preparavam para fazer. É urgente que os parceiros internacionais tomem consciência que, se os dois primeiros pacotes de “ajuda” criaram este quase desastre, então o terceiro pacote tem condições de criar algo muito mais grave e que é bem possível que não possa ser evitado atempadamente. Por isso, é urgente suavizar as condições impostas há poucas semanas.

Em alternativa, era útil que os gregos deixassem de olhar com tanto horror para a saída do euro, ao ponto de ter feito Tsipras engolir um acordo impossível. A partir do momento em que passe a haver uma maioria a reconhecer o inevitável, este ou qualquer outro primeiro-ministro helénico já poderá negociar uma retirada em condições relativamente favoráveis.

Parece que o programa imposto à Grécia se destina a criar esse mesmo estado de espírito, mas fá-lo duma forma arriscada, porque parece que os pretende empurrar ao desespero. O grande problema é que o desespero é muito mau conselheiro e os desastres mais descontrolados podem acontecer em resultado disso mesmo.


[Publicado no jornal “i”]

terça-feira, 28 de julho de 2015

Saída da Alemanha

Agora que a saída da Grécia do euro passou a fazer praticamente parte do discurso oficial, parece útil referir uma alternativa que há vários anos é considerada a melhor forma de iniciar a desagregação do euro, nomeadamente a saída da Alemanha.

Uma primeira diferença é que a saída da Grécia seria provavelmente imposta pelas circunstâncias, podendo preceder uma sucessiva degradação da imagem da UE. Em contrapartida, a saída da Alemanha poderia ser encarada como uma iniciativa política, que reconhece que o euro foi um projecto bem-intencionado, mas cujos fracos resultados impõem um fim. Enquanto a saída da Grécia seria vista como um fracasso do projecto europeu, a saída da Alemanha seria a eliminação da mais grave fonte de perturbações da UE desde a sua criação, o euro, e a recuperação do seu objectivo essencial: a paz.

Porque é que a Alemanha poderá ter interesse em sair? Devido ao cansaço dos seus eleitores, que também já estão na zona da fadiga da contribuição, porque pagaram mais de duas décadas de reunificação alemã (e continuam a pagar) antes do início da crise do euro. Poderão preferir pagar um preço elevado de uma só vez, em vez de pagar uma factura interminável e geograficamente indefinida. Na verdade, com as taxas de juro actualmente muito baixas, o momento de saída não é apropriado, mas poderá sê-lo quando as taxas de juro dos periféricos subirem e colocarem em causa a sustentabilidade das suas dívidas.

A saída da Alemanha (provavelmente acompanhada por outros países do Norte) permitiria o respeito pelos actuais termos contratuais, em que estes países perderiam vultuosas quantias pela apreciação significativas das suas novas moedas nacionais, mas os contratos em euros manter-se-iam em euros na encurtada zona do euro, enquanto eram redenominados nos países que saíam. Esta redenominação não produziria qualquer problema nos contratos internos, mas seria mais problemática nos contratos entre várias nacionalidades.

Tem havido comentários equivocados de que a depreciação do euro face ao novo marco alemão geraria uma inflação descontrolada, o que não faz sentido, porque o euro tem-se depreciado já fortemente face ao dólar e isso pouco se reflectiu nos preços internos. Para além disso, o BCE manteria a sua meta de inflação, que só por extrema e não previsível incompetência não cumpriria. Trata-se de uma confusão entre uma desvalorização pontual, para corrigir um défice de competitividade, e uma desvalorização recorrente, devido a inflação elevada.

Àquele primeiro grupo de saída poderiam juntar-se, posteriormente, outros grupos, retirando-se de forma semelhante. Vamos simplificar e admitir que o segundo grupo era composto por todos os outros Estados do euro, com a excepção da Grécia e Chipre, que se manteriam no euro por pouco mais tempo, desaparecendo esta moeda de vez.


 [Publicado no Diário Económico]

Syriza e Portugal

A recente capitulação do Syriza vai condicionar fortemente o novo governo português, mas também deverá ser fonte de crises futuras

As eleições legislativas foram finalmente marcadas para o próximo dia 4 de Outubro, tendo Presidente da República manifestado uma clara preferência por um executivo apoiado por uma maioria absoluta, mas não enjeitando alternativas.

As sondagens têm estado relativamente estáveis, dando um empate técnico entre PS e a coligação PSD-CDS. A recente capitulação do Syriza, com o próprio Tsipras a dizer que não lhe explicaram nenhuma alternativa, poderá ter fortes consequências em Espanha, onde o Podemos já teve uma considerável queda nas intenções de voto desde o início do ano.

Em Portugal, como os novos partidos não tem revelado nenhum sucesso relevante, o impacto do fracasso do Syriza não deverá ser muito significativo, embora devesse ser desfavorável ao PS, que inexplicavelmente se colou ao sucesso inicial do novo governo grego, ainda que este tenha destruído o partido socialista irmão, o PASOK.

Parece ser razoável esperar que a nova AR tenha uma grande dificuldade em criar um governo de maioria absoluta. Tudo indica que quer o PS, quer a actual coligação fiquem longe de uma maioria absoluta. Por outro lado, o PSD-CDS não terá parceiros naturais com que se coligar e o PS apenas poderá coligar-se com o Livre e o partido de Marinho Pinto, ambos com resultados muito baixos nas sondagens, que muito dificilmente permitirão uma maioria absoluta à esquerda, dada a irredutibilidade do PCP e BE em participarem em qualquer tipo de executivo, ainda por cima num governo que terá que aplicar a tão odiada austeridade.

Para a criação de um governo de maioria absoluta restará a opção de um bloco central, para o qual o PSD e CDS parecem mais disponíveis do que o PS. Curiosamente, parece que o PS não quer uma grande coligação (com ou sem CDS), quer ganhe ou perca as eleições.

É provável que, no imediato, as eleições produzam um impasse. Por um lado, o PR deverá pressionar a criação dum bloco central, a que o PS resistirá ao máximo. Por outro, é possível que os partidos perdedores, vejam a sua liderança contestada ou que esta tome a iniciativa de sair, dificultando a formação de um novo governo por falta de protagonista com quem negociar.

Em relação ao programa e actuação do novo executivo, é evidente que a recente cedência em toda a linha do Syriza veio colocar grandes freios naquilo que vai ser possível fazer. Muitas das fantasias do PS nunca chegarão sequer a ser experimentadas. Mas também se teme que muitas das reformas, nomeadamente a do Estado, eternamente adiada, também não vejam a luz do dia.

O Syriza deverá condicionar o novo governo também de uma outra forma, na medida em que aceitou um acordo em que não acredita. É verdade que foram impostas condições brutais à Grécia, impossíveis de cumprir, mas a falta de convicção do executivo só irá dificultar as coisas.

Por isso, é natural que dentro de não muito tempo, o executivo helénico venha a ser nova fonte de perturbação da zona do euro e que o cenário de saída deste país volte a estar em cima da mesa. Sempre que isso ocorrer, as taxas de juro da dívida portuguesa devem sofrer, criando uma pressão adicional sobre o novo governo, sobretudo se também ele estiver a aplicar a austeridade a contragosto. Aliás, a atitude do nosso novo executivo será crucial para os mercados decidirem se estamos mais próximos da Grécia (não confiáveis) ou da Irlanda (confiáveis).

Qualquer crise grega tem condições de, em algum grau, se contagiar a Portugal. Curiosamente, na actual conjuntura, não acredito que um governo de bloco central seja mais estável do que um governo de maioria relativa que necessite de acordos parlamentares pontuais. Um bloco central minado por profundas desconfianças mútuas muito dificilmente acabará o seu mandato. Aliás, dados os resultados eleitorais que se antecipam instáveis e a continuação da crise do euro, o mais provável é que haja eleições antecipadas algum tempo depois.


 [Publicado no jornal“i”]

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Acordo arriscadíssimo

O acordo que a Grécia foi forçada a aceitar não tem condições de ser cumprido e deverá levar à saída deste país do euro

Terá sido no último minuto que se conseguiu um acordo com a Grécia, que evitasse que este país saísse do euro. A Alemanha defendia esta solução que, na actual conjuntura, parece ser a única forma de resolver definitivamente o problema daquele Estado.

A França, supostamente com mais visão, é que terá feito a proposta final, que permitiu o acordo. Julgo ser útil fazer um paralelismo com o que se passou com a criação do euro, para percebermos melhor o que aconteceu naquela reunião.

Com a queda do muro de Berlim, em 1989, estaria aberta a porta para a reunificação alemã. No entanto, Mitterrand temeu que o eixo franco-alemão, essencial na construção europeia, ficasse duplamente desequilibrado, quer em termos económicos, com a expansão territorial do vizinho, quer políticos, com uma Alemanha mais assertiva e segura de si própria. Como forma de conter o poder germânico, o presidente francês colocou a condição da abdicação do marco alemão, que seria substituído pela moeda única. Dada a fortíssima oposição do eleitorado alemão e do Bundesbank a ceder um elemento tão central da sua frágil identidade, o chanceler Kohl conseguiu obter de França quase tudo o que quis. O resultado final, que está à vista de todos, é que o euro, que foi criado para conter a Alemanha, acabou por ter o resultado exactamente oposto.

Na reunião da semana passada, Berlim queria a saída da Grécia do euro, mas Paris conseguiu travar isso, apresentando uma proposta que sabia que Berlim não podia recusar. Ou seja, em primeira aproximação, a França venceu ao impor a sua solução, mas, na verdade, os termos do acordo foram ditados pela Alemanha.

Aliás, este pacote pode mesmo acabar por conduzir à saída da Grécia. Em termos políticos, este acordo, é uma humilhação terrível, com a obrigação de acordar toda a legislação com as “Instituições” antes de as colocar em consulta pública ou apresentar ao parlamento. Para além disso, propõe-se também a criação inédita de um fundo com as receitas das privatizações, um sinal claríssimo da falta de confiança na liderança helénica.

Em termos económicos, deverá agravar quase todos os actuais problemas de recessão, desemprego e dívida pública sempre a crescer, sobretudo quando se requer que qualquer derrapagem nas metas orçamentais tenha que ser compensada com cortes de despesa “quase automáticos”. É certo que há um pacote envolvendo 35 mil milhões de euros, mas não é claro quanto dele são fundos já prometidos, reembrulhados de novo.

Apesar de o acordo referir explicitamente que não pode haver cortes nominais na dívida, já houve entretanto alguma abertura neste domínio, o que facilitará a participação do FMI.

O próprio primeiro-ministro Tsipras já afirmou que não acredita no acordo, o que não augura nada de bom. Aliás, mesmo que, por milagre, este programa chegasse ao fim, seria sempre necessário um quarto resgate, porque é impensável que dentro de três anos a dívida grega já seja sustentável e a Grécia se possa financiar nos mercados.

O sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) discordava de Karl Marx (1818-1883), quando este encarava como questão essencial a luta de classes. Para Weber, a relação mais conflituosa encontrava-se entre credores e devedores, ideia provavelmente agravada na perspectiva alemã, já que nesta língua a palavra que designa “dívida” (Schuld) também significa “culpa”.

Ora o euro criou uma montanha de credores e devedores, que jamais teria existido com as moedas nacionais. No caso português, o FMI teria sido chamado dez anos antes. O euro criou aliás uma combinação terrível: a possibilidade de desequilíbrios externos muito maiores e a perda de um instrumento essencial para a sua correcção: a desvalorização.

Por isso e devido ao gigantismo dos desequilíbrios acumulados, a Grécia deverá sair do euro mais cedo ou mais tarde, sobretudo a partir do momento em que essa hipótese passou a ser apresentada nas discussões oficiais.


[Publicado no jornal “i”]

terça-feira, 14 de julho de 2015

Grexit

Quando publiquei o meu livro O fim do euro em Portugal? (Actual, grupo Almedina), em Agosto de 2012, falava-se na saída da Grécia do euro, o que voltou a estar fortemente em cima da mesa, por muitas das razões que então referi.

Após voltar a enganar a UE, como já tinha feito antes da entrada no euro, a Grécia foi forçada a pedir ajuda em 2010, tendo-lhe sido negada re-estruturação da dívida quando ela tinha sido mais necessária. A maior parte dos fundos emprestados à Grécia foram directamente para os seus credores. É curioso como tantos contribuintes, entre os quais de Portugal, não tenham protestado quando lhes forem pedidos fundos que, na prática, se destinavam a salvar bancos alemães e franceses, libertando estes Estados de problema equivalentes ao que Espanha teve que enfrentar.

Hoje, a Grécia está quase há seis anos em crise, o desemprego estratosférico, o sistema partidário esmagado e com o surgimento dos demagogos do Syriza e o melhor que a zona do euro é capaz de fazer é pedir mais austeridade?

Os líderes europeus podem sentir-se muito orgulhosos de terem vergado o Syriza e o seu referendo ou muito contentes de terem obrigado ao cumprimento das regras, mas parecem totalmente inconscientes do desastre que estão a criar. Depois de mais este pacote de austeridade, a Grécia é um desastre à espera de acontecer.

É tão fácil perceber que o Syriza irá aceitar (se o fizer) as condições do terceiro resgate sob reserva mental e que dentro em breve se recusará a cumpri-lo. Os dois resgates anteriores, muito deficientemente aplicados, tiveram como principal problema o facto de não terem sido assumidos como seus pelos governos gregos. Se isto aconteceu com os dois primeiros, imagine-se com o do Syriza.

É facílimo que se criem condições para os bancos gregos voltarem a fechar e que ocorra o pior dos cenários: a saída caótica da Grécia do euro. As externalidades negativas dum tal evento seriam tão elevadas, quer económicas quer geopolíticas, que se justifica uma atitude mais benévola dos dirigentes europeus. Infelizmente, o Syriza fez tudo para dificultar as negociações e existem custos políticos muito elevados por parte dos credores. Mas, se não há condições para a permanência da Grécia, em condições minimamente favoráveis para o país, é preferível negociar a sua saída, do que permitir que se voltem a criar condições para uma retirada desordenada, essa sim, com elevadas probabilidades de contagiar muitos outros países.

É também certo que uma saída ordenada envolveria um perdão maior de dívida do que permanecendo do euro, porque com um dracma desvalorizado o nível de dívida sustentável seria bem menor. Mas a actual dívida grega é impagável, havendo apenas dúvida sobre quem vai anunciar isso: os credores (com perdão) ou o devedor (com incumprimento).

 [Publicado no Diário Económico]

sábado, 11 de julho de 2015

Riscos chineses

Os riscos com origem na China podem não estar iminentes, mas poderão manifestar-se a prazo.

Enquanto a Europa se vê a braços com os problemas na Grécia, na China a bolsa teve uma queda muito significativa, cujas implicações não estão ainda completamente esclarecidas, sobretudo tendo em conta que esta já é a segunda maior economia do mundo.

A primeira questão que se tem que reconhecer é que este país tem um modelo de crescimento sui generis e insustentável. Até à crise de 2008, as exportações eram um grande motor de crescimento, mas a desaceleração das economias avançadas diminuiu a sua importância, tendo havido uma muito substancial redução do superavit externo, de 10% para 3% do PIB. Faria mais sentido a eliminação completa deste excedente externo, porque ele só serve para acumular divisas e o que já foi acumulado até hoje é exagerado e só tem servido para comprar dívida pública americana. É um contra-senso que a China seja hoje um dos maiores fornecedores de capital aos EUA, a maior e mais capitalista economia do mundo. É verdade que uma parte ínfima destas reservas tem permitido aos investidores chineses fazerem compras muito significativas no exterior, como tem sido claramente o caso de Portugal, mas não se justifica um tão elevado montante de divisas.

Houve um reforço do peso do investimento, que já era excessivo, para 45% do PIB, um valor elevadíssimo, mesmo para uma economia que precisa de construir infra-estruturas, havendo aqui um forte elemento de construção imobiliária, surgindo cada vez mais notícias de cidades fantasma, com habitações de luxo que não são minimamente acessíveis ao cidadão comum.

O parente pobre do crescimento nesta economia continua a ser o consumo, que não chega aos 40% do PIB, quando o comum na generalidade das economias são valores da ordem dos 60%-70%.

O que é normal é que se invista para produzir bens de consumo, mas na China tem-se investido para produzir bens de investimento, o que é insustentável e irá requerer uma alteração profunda na estrutura da economia, o que não se consegue de forma rápida e será difícil de conseguir sem uma transição complicada. Se se chegar a uma situação, que se teme que esteja próxima, de um excesso de capacidade instalada, sobretudo no imobiliário, é natural que o investimento caia a pique, por já não ser possível manter os volumes do passado. Por outro lado, dado o peso exageradíssimo desta componente da procura interna, será muitíssimo mais difícil lidar com essa queda do que em outras paragens, embora a China ainda tenha uma margem monetária, que os EUA e a zona do euro já esgotaram.

Há um elemento que poderá minorar isto, que é o compromisso governamental recente de lançar um programa de investimento gigantesco em termos ambientais, em resposta aos elevadíssimos níveis de poluição atingidos, fazendo com que este país deixe de ser, tal como infelizmente os EUA, um dos principais opositores a medidas destinadas a prevenir as alterações climáticas.

De acordo com o FMI, a actual queda da bolsa chinesa não deverá produzir grandes consequências na economia chinesa, porque a bolha especulativa era muito recente (caiu para níveis de Março passado) e porque não tem a dimensão relativa das bolsas das economias avançadas.

No entanto, é necessário ter presente que existe o risco latente de perturbações na China e que uma desaceleração ou mesmo uma recessão aí podem ter consequências graves no resto do mundo, sobretudo se ocorrer num momento em que os instrumentos, orçamentais e monetários, de combate à recessão e à deflação estejam esticados até ao limite, como é o caso presente sobretudo na zona do euro.

A China é um grande importador de matérias-primas, beneficiando muitas economias emergentes. Por isso, um abrandamento do crescimento chinês terá impacto em quase todo o mundo, ao contrário da crise de 2008, que afectou sobretudo as economias avançadas, mas quase poupou as emergentes.


[Publicado no jornal “i”]