quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Heterodoxia

A Reserva Federal (RF) está a ficar sem munições para impedir que os EUA passem por um período de deflação. Em relação a 2009 é improvável que o consigam evitar. Mas, para os anos seguintes faria sentido definirem uma meta de inflação, para criarem expectativas inflacionistas.

Entretanto, uma medida extrema bem heterodoxa seria a RF investir no mercado do petróleo para fazer subir o preço deste. Como se sabe, é sobretudo pela via dos produtos energéticos que a inflação tem sofrido uma desaceleração mais forte. O investimento poderia tomar a forma de aquisição de reservas estratégicas, ou investimento no mercado de futuros. Dado que os preços estão a menos de um terço do que já estiveram este ano, dificilmente esta medida poderia levar a perder dinheiro.

A nível internacional, um preço de petróleo mais elevado iria travar deflação de forma generalizada. Para além disso evitaria mudanças demasiado bruscas nos rendimentos relativos de muitos países. Neste momento, o BCE ainda não tem dificuldades semelhantes à da RF, mas poderia depois ajudar, tal como outros bancos centrais, como o da China, que poderia com grande vantagem diversificar a sua carteira de divisas.

2 comentários:

Tiago Tavares disse...

Concordo consigo em que uma economia presa numa situação em que os agentes esperam que a deflação seja continuada encontra-se numa situação muito perigosa. Também concordo que a Reserva Federal deveria ser mais explicita em avançar com um alvo concreto para a inflação (um bom modelo é o da Nova Zelândia).

O ponto onde me afasto da sua posição é relativamente ao instrumento a utilizar quando a Reserva Federal "fica sem munições" (sem política monetária no curto prazo). Na minha opinião, o relaxamento quantitativo no mercado de petróleo seria ineficaz e desapropriada:
(a) a razão principal é que parece não existir uma relação muito forte entre a evolução do preço do petróleo e as expectativas de inflação, como podemos verificar durante o ano de 2007-2008 (utilizando os TIPS e T-bills como aproximação às expectativas).
(b) o impacto do preço do petróleo nos tempos correntes é relativamente baixo (ex. eficiência energética, energias alternativas, etc.). A inflação nuclear nos EUA manteve-se praticamente inalterável com a variação recente dos preços dessa mercadoria.
(c) como já tinha tentado argumentar há uns tempos, um intervenção no mercado de futuros de petróleo que poderá influenciar o preço dessa mercadoria deverá implicar um armazenamento da mercadoria. Claro que o Fed não dispõe dessas infraestruturas necessárias para um armazenamento prolongado de petróleo (não nos esqueçamos que o petróleo transacciona mais de 80 milhões de barris por dia).

É claro que podemos sempre imaginar uma situação em que o governo americano ligava as impressoras apenas para adquirir petróleo no exterior. Mas sendo este mercado caracterizado por oportunidades escassas de arbitragem o mais provável é que intervenções desse género fossem apropriadas pelos arbitragistas de todo o mundo.

Melhor mesmo era que essa transferência ficasse consignada no mercado americano. Para isso existem outros instrumentos. A política quantitativa têm ainda alguma margem de manobra nas taxas de juro de prazo mais alargado - papel comercial, dívida hipotecária, notas municipalizadas, entre outras. De facto esse é o passo que a Reserva Federal parece estar a seguir neste momento.

Carlos Santos disse...

Caro Pedro Braz Teixeira,

O seu comentário é muito interessante e mercerá análise séria amanhã. Para já convido-o a uma festa. O Nuno Branco do inflacionista disse-me que não acreditava em nenhum tipo de Política Económica. Deixei-lhe um desafio em http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/01/cor-da-verdade-o-cinzento.html
Espero ansiosamente pelas respostas.

Carlos Santos