A UE está numa
encruzilhada difícil e insisto em afirmar que nas últimas décadas se instalou
um grave equívoco, em que se esqueceu que o objectivo último da “Europa” era a
paz e não a integração, muito menos a integração forçada.
Pode-se defender que a integração serve a paz, a
prosperidade, a segurança, etc., mas tem que se perceber que a integração é
sempre um instrumento e que os verdadeiros objectivos são a paz, a
prosperidade, a segurança, etc.
Inverter a hierarquia
entre objectivos e instrumentos já gerou problemas gravíssimos no passado,
sendo que o maior deles foi o euro, em que a integração monetária se revelou
contrária à paz e a prosperidade. Pior ainda, ao ter-se pretendido uma
integração forçada criaram-se ainda mais anti-corpos.
É necessário recordar que se pretendeu obrigar o Reino Unido
a entrar no euro e que este país teve que lutar muito para não ser arrastado
para o erro épico que foi a constituição do euro.
Uma das razões do Brexit estará, justamente, neste episódio,
em que a concessão da cláusula de excepção britânica foi concedida com
relutância e gerando ressentimentos de parte a parte. Mas com legitimidades
muito diferentes. É evidente que o Reino Unido tem todo o direito em ficar
ressentido de o quererem forçar a entrar numa integração com a qual não
concordava. Repare-se que a atitude britânica não era dizer que o euro não se
devia fazer, mas simplesmente que o fizessem sem o Reino Unido. Isto tem-se
repetido: os britânicos não querem obrigar os outros países a participar num
modelo único, mas são – e ainda bem – extremamente ciosos da sua liberdade.
Já o ressentimento comunitário é ilegítimo, não só porque é
abusivo pretender uma integração forçada, como porque o euro se revelou um
projecto com gravíssimas falhas, tendo o tempo reforçado essa avaliação.
Pior ainda, Bruxelas pretendeu que o Reino Unido
contribuísse para resolver os problemas do euro. Isto é francamente demais.
Primeiro, avançam com um projecto que os britânicos achavam repleto de
problemas e, agora, quando estes se revelaram ainda piores do que o esperado,
quer em termos políticos, quer económicos, exigem dinheiro britânico para lidar
com uma asneira em que estes, em boa hora, se recusaram a participar.
Há uma questão que se impõe: quando é que os parceiros
comunitários pediram publicamente desculpa ao Reino Unido por os terem forçado
a integrar o desastre do euro?
Como é evidente, este pedido de desculpas deveria ajudar a
perceber que, demasiadas vezes, apesar de extremamente minoritária, a posição
britânica era a correcta. Isto também deveria levar a rever o ressentimento
passado com o Reino Unido, por estes se oporem a certos projectos europeus, que
mais valia que não se tivessem realizado. Também deveria contribuir para
adoptar uma atitude muito mais amistosa nas negociações do Brexit.
Infelizmente, tenho muito poucas expectativas de que os
líderes europeus saibam arrepiar caminho. Estou mesmo convicto de que os
historiadores do futuro encararão o euro como o principal responsável pela
morte da UE.
Aliás, houve ainda recentemente uma reunião, entre Merkel,
Hollande e Renzi, que revela tudo o que está errada na “Europa”. Por um lado, a
opção por um directório extremamente restrito, em que nem sequer países grandes
como a Espanha e a Polónia têm assento e, por outro, a ideia que os problemas
se resolvem com mais integração. Tentar resolver o excesso de integração com
ainda mais integração só pode trazer o desastre. É que a UE podia dissolver-se
de forma pacífica e planeada, mas tudo indica que se irá decompondo com o
máximo de ressentimentos e de forma desorganizada.
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