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domingo, 23 de maio de 2010

Começa mal

O futuro governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, declarou: "Nós atravessamos em termos internacionais uma fase de alguma desconfiança. Por força não da nossa situação, mas da situação de outros". Eu admitiria que se falasse num exagero de desconfiança e, mesmo assim, só pela carga simbólica das palavras de um responsável. Mas negar a existência de razões objectivas para essa desconfiança parece-me muito mau. Se vamos ter um governador em estado de negação a juntar a um PM também em negação, estamos fritos.

http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Carlos-Costa-admite-%93alguma-desconfianca-internacional%94.rtp&article=346784&visual=3&layout=10&tm=6

O elogio a Teixeira dos Santos (“estamos bem entregues”), de quem é amigo e que foi quem o convidou para o cargo parece-me também muito descabido. Um dos mais graves problemas de Constâncio foi a perda de independência do Banco de Portugal, cuja agenda e declarações passaram a estar sujeitas aos interesses do governo. Um novo governador que não percebe que o Banco precisa de se distanciar claramente do governo, começa mal.

Pode ter ouvido elogios à actuação do ministro das Finanças algures, mas não podemos esquecer duas coisas (para além das objecções já referidas): Teixeira do Santos conseguiu a notável proeza de ser “eleito” o pior ministro das Finanças da UE. O ministro tem também um inimigo implacável, que tudo fará para o impedir de fazer um bom trabalho: Sócrates.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Constâncio deve ser melhor no BCE

Constâncio tem uma excelente reputação como técnico, mas ignorou o nosso défice externo que nos está a perseguir, o que constitui um grave erro técnico. Foi laxista na supervisão e incapaz de afirmar a independência do Banco de Portugal face ao poder político.

Mas, ironicamente, é bem capaz de fazer um melhor lugar no BCE do que fez no Banco de Portugal. As suas capacidades técnicas aliadas à lição que aprendeu por não ter prestado a devida atenção à supervisão deverão ajudá-lo muito. A sua falta de independência em relação ao governo português passará a ser um não problema no BCE. Mas, acima de tudo, no Banco de Portugal Constâncio estava na sua “zona de conforto” e no BCE vai ser forçado a dar o litro. Será provavelmente mais um caso de um português que só lá fora é que pode dar o seu melhor. Ou é chamado a dar o seu melhor.

Para o substituir no Banco de Portugal o meu “voto” vai para Vítor Bento, que alia uma sólida competência a uma forte independência.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Machadada final

Circulam rumores de que Manuel Pinho poderá ser o novo governador do Banco de Portugal. Se assim for, essa será a machadada final na credibilidade do nosso banco central. Não só ele não tem competência técnica para o lugar, como seria governamentalizar de vez essa desgraçada instituição, que tanto tem sofrido às mãos de Constâncio.

http://www.ionline.pt/conteudo/45870-ja-chovem-nomes-suceder-constancio-no-banco-portugal

Espero que quer os antigos governadores se expressem contra esta degradação, quer o BCE.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

“António de Sousa ‘não é prestigiado nem consensual’ “

Mira Amaral, no Público de hoje, vem afirmar que “António de Sousa ‘não é prestigiado nem consensual’ “ para liderar a APB.

“Mira Amaral defende que na passagem pelo sector bancário (liderou a Caixa Geral de Depósitos), António de Sousa não revelou ‘uma performance aceitável’ e como governador do Banco de Portugal ‘esteve calado no período mais agudo do despesismo do Governo Guterres, em que deveria ter usado a independência do banco para que o governador fosse uma voz forte em termos de magistratura de influências’. Ao ter ‘mantido um silêncio ensurdecedor’, salienta o ex-ministro da Indústria de Cavaco Silva, ‘fez com que estejamos ‘todos a pagar a factura’.”

http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1388284

É verdade em Mira Amaral e António de Sousa tiveram conflitos quando estiveram em conjunto no governo, mas as críticas do primeiro são mais do que justas, como já tive oportunidade de detalhar aqui. Infelizmente, tem vigorado em Portugal a norma de que não se critica os membros do próprio partido, por mais erros que aquele cometa. Mas se o PSD fizesse (melhor ainda se tivesse feito) críticas duras a António de Sousa como péssimo governador do Banco de Portugal, hoje em dia estaria em muito melhor posição de criticar Constâncio.

sábado, 16 de maio de 2009

Previsões em saldos

O governo volta a rever as previsões, com grande atraso e, mesmo assim consegue que estas surjam logo desactualizadas. O PIB a cair apenas 3,4% em 2009, a menor previsão até agora. O desemprego a subir apenas para 8,8%. Muito ironicamente, no próprio dia que em o governo anuncia estas previsões, o INE anunciou que o desemprego já se fixou nos 8,9% no 1T09. Conhecendo a forte correlação e desfasamento entre PIB e desemprego os valores para o PIB e o desemprego do governo são completamente inconsistentes.

Mas o melhor mesmo são as previsões para o défice público. Em Janeiro o governo “previa” 3,9% do PIB e agora “prevê” 5,9% do PIB. Estes valores são do mais suspeito que há, desde logo porque se parecem a preços de promoções em que os artigos não custam 60€, mas “apenas” 59€. Qual é a probabilidade de em duas revisões sucessivas o algarismo da casa decimal coincida em ser 9? Se nos lembrarmos do défice ficcionado por Constâncio dos 6,83% e de que o défice de 2005 ter ficado nos 6,1% do PIB, mais se reforça a suspeita de estarmos perante números “martelados”. É evidente que o governo está desesperado em se despedir com um défice inferior ao que herdou.

A seu tempo apresentarei aqui uma análise mais detalhada destas “previsões”.

E já agora, qual é a lógica que um documento designado “Relatório de Orientação da Política Orçamental” não actualize as previsões para 2010?

http://www.min-financas.pt/inf_economica/ROPO052009.pdf

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Mais valia estar calado, II

Como já tinha avisado, Constâncio acaba de ver desmentidas mais cedo do que se pensava umas palavras altamente imprudentes sobre as previsões da Comissão Europeia. Com o PIB do último trimestre de 2008 a cair 2,1% em termos homólogos, até as previsões da CE soam agora a demasiado optimistas.

Em 2009 tudo se vem agravando, pelo que o mais provável é que para o conjunto do ano o PIB caia mais de 2%.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Mais valia estar calado

Constâncio (Público de hoje, p. 34) considera as previsões da Comissão Europeia “sem fundamento”, ainda que reconheça que as previsões do BdP ficaram desactualizadas em duas semanas. Se as previsões do BdP perderam a validade em tão pouco tempo, não mandaria a prudência estar caladinho? Cheira-me que Constâncio ainda vai ser obrigado a engolir estas palavras e que a última previsão (não a próxima, que ainda faltam umas quantas) do BdP para 2009 será pior do que a actual da CE.

Mas o mais divertido é que “Segundo Vítor Constâncio, estudos recentes mostram que as crises bancárias anteriores tiveram "enormes custos na economia e dívida pública". Além de provocarem quedas no PIB de 9,3 por cento, em média, e de se arrastam pelo menos por dois anos”. Então, qual é a lógica dos números do BdP, que estão tão longe dos valores indicados pelos estudos que Constâncio cita?

Para tanta imprudência e contradição, mais valia estar calado.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Constâncio que se demita

Constâncio, para justificar a diferença entre as previsões do BdP e as da Comissão Europeia, vem dizer que a economia mudou nas últimas duas semanas. Isto é uma piada? Constâncio está a comportar-se como um animal acossado, aflito. As caixas de comentários, no Público por exemplo, são altamente esclarecedores sobre o descrédito generalizado que o afectam.

Para bem do BdP era mil vezes preferível que Constâncio se demitisse. Mas já sabemos que ele está mais interessado em se servir da sua posição para ajudar o governo do que servir o BdP e o país.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Recessão e défice externo

A revisão em baixa da previsão do PIB de 2008 pelo Banco de Portugal tem implícito uma queda no último trimestre do ano de quase 1%. Para 2009 continuam as quedas (-0,8% no conjunto do ano) e para 2010 provavelmente ainda algumas quedas de modo que o conjunto do ano se fica apenas por uns míseros 0,3%.

A diminuição do défice externo para 2009 deve-se exclusivamente à redução do preço das matérias-primas, enquanto a subida para 2010 resulta de uma deterioração da balança de rendimentos, bem de um “aumento limitado e gradual das taxas de juro”.

O défice externo flutua em função de influências externas, não havendo nenhuns efeitos de políticas nacionais de recuperação da competitividade que possam: 1º) abrandar o actual ritmo explosivo de crescimento da dívida externa; 2º) mais tarde, colocar mesmo um tecto na dívida externa em percentagem do PIB.

Neste contexto estranham-se as declarações de Constâncio: "No curto prazo, conter mais o crescimento do endividamento externo implicaria o agravamento da recessão, que não seria aceitável face aos riscos de desemprego e perda de rendimento que implica" (Público de hoje, p. 2). Não existe apenas uma forma de conter o endividamento externo (conter a procura privada), existem várias (eg, melhorar a competitividade). Portugal não precisa de conquistar novos mercados com o mundo em recessão, precisa de conquistar o seu próprio mercado, invadido por produções mais competitivas do que a portuguesa. E este objectivo faz sentido não só no curto prazo, como a mais longo prazo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Sr. Governador, demita-se

O que mais irrita na atitude de Vítor Constâncio é não reconhecer os erros cometidos pela supervisão do Banco de Portugal. Vem com uma argumentação tautológica, que se cumpriu as normas e que não haveria nada que se pudesse fazer melhor com as normas existentes. Nunca põe em causa que as normas deveriam ser revistas. Por exemplo, António Marta disse que “os bancos são máquinas muito complexas, muito informatizadas”, mas o BdP não possui inspecção informática. Mas isto não é absurdo?

Cometer erros é mau, mas não os reconhecer é muito pior. Constâncio já não inspira um mínimo de confiança. São erros atrás de erros (apenas 60 técnicos em 1700 para a supervisão), normas deficientes, etc., etc. Também não nos esquecemos da farsa do défice dos 6,83% (nunca um défice foi previsto até à centésima casa decimal…).

Manifestamente, Constâncio já não tem condições mínimas para continuar à frente do BdP. Por favor, poupe-se os enxovalhos que o esperam, e tenha o bom senso de se demitir.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A ler, sobre o Banco de Portugal

Paulo Ferreira, no Público de hoje, p. 3 (sem link directo):

“Há vários anos que o BPN era comentado nos corredores do poder político e financeiro.” (…)
“Mas como se deixou chegar a este ponto uma instituição que está há anos sob suspeita?” (…)
“O governador do Banco de Portugal tentou ontem justificar a actuação da instituição que dirige, mas dela sobraram ainda mais dúvidas. Depois de em 2002 e 2003 ter detectado irregularidades e falhas na informação prestada pelo BPN, o banco central passou, estranhamente, a confiar nos relatórios que a própria instituição lhe fazia chegar. E durante os cinco anos seguintes nada fez o Banco de Portugal acordar da sonolência, até que as denúncias internas tornaram o caso demasiado grave para até o supervisor perceber que tinha que ver o que se passava.
“Foi assim no BCP. Repete-se agora no caso, muito mais grave, no BPN. Provavelmente, a próxima auditoria do sistema financeiro devia ser feita ao funcionamento e à cultura de supervisão do Banco de Portugal.”

Com a entrada no euro, a gestão (directa) da conjuntura quase passou a inexistente e a supervisão tornou-se na primeiríssima tarefa do Banco de Portugal. Se o BdP anda a cumprir mal a sua mais importante tarefa, o que anda a fazer?
Há ainda a ironia de Constâncio durante muito tempo ter criticado empresários, sindicatos e governos por não terem interiorizado as alterações estruturais que estavam associadas à participação no euro. Pois parece que o próprio Constâncio também não percebeu as implicações estruturais que a entrada no euro tinha sobre as prioridades do Banco de Portugal…
Constâncio tinha um óptimo perfil para as anteriores prioridades do Banco de Portugal, mas tem um fraco perfil para as actuais prioridades.