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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Soluções para a “geração Deolinda”

Aqui vão algumas propostas de solução para os problemas identificados na canção dos Deolinda “Que parva que eu sou”. Estas propostas têm contornos assumidamente vagos, para evitar a tendência portuguesa do desvio do essencial para tagarelar sobre o acessório.

Em relação à precariedade do emprego, seguindo uma solução já anteriormente proposta por Campos e Cunha, crie-se um novo tipo de contrato de trabalho, com muito menos garantias do que os actuais, mas claramente com mais do que os actuais falsos recibos verdes.

Em princípio um novo contrato de trabalho muito mais flexível seria suficiente para dissuadir as empresas de recorrerem aos falsos recibos verdes. As contribuições para a segurança social dos recibos verdes a tempo inteiro ou quase (falsos ou não) deveriam ser pagos como para os trabalhadores em geral. As empresas pagariam o equivalente ao que pagam para o regime geral e os trabalhadores “verdes” descontariam como os seus colegas “do quadro”. Para além disso, as empresas teriam a responsabilidade de descontar todas as contribuições dos ordenados, como acontece para o regime geral. A segurança social veria assim o universo de entidades a fiscalizar reduzir-se muito significativamente, porque há muito menos empresas do que trabalhadores.

O que é totalmente absurdo é a revisão recente do código contributivo, que veio penalizar os trabalhadores a recibo verde, esquecendo que eles é que são as vítimas deste mercado de trabalho em regime de apartheid. É certo que a minha proposta é a oficialização desse mesmo apartheid, mas talvez o reconhecimento oficial da realidade seja o que é necessário para a transformar. Enquanto estivermos em negação não vamos longe.

Para além disso, em processos de reestruturação de empresas, um dos instrumentos de negociação poderia ser os trabalhadores passarem dos antigos contratos de trabalho para os novos.

Outro aspecto importante do novo contrato de trabalho é que os conflitos relacionados com ele não seriam dirimidos nos Tribunais do Trabalho, mas num tribunal arbitral a criar.

Em relação ao problema dos jovens terem que ficar até tarde em casa dos pais o problema essencial (para lá do rendimento) é a lei de arrendamento (cuja última revisão bloqueou ainda mais o mercado), bem como a inoperância do sistema a despejar inquilinos caloteiros, que já gerou milhares de profissionais deste “esquema”, que tem evitado que inúmeros proprietários se tornem em senhorios. É absurdo que tenhamos centenas de milhares de habitações fechadas porque o enquadramento legal e prático é um poderosíssimo obstáculo ao arrendamento.

Outro problema identificado é a incapacidade da economia gerar empregos compatíveis com a qualificação crescente dos nossos jovens. Isto em parte decorre da incapacidade no sentido lato de criar emprego, cujos obstáculos têm sido genericamente apelidados de “custos de contexto” de investir em Portugal e que não vou reproduzir aqui. É um conjunto de reformas que é quase um programa de governo.

Em relação a este aspecto só gostaria de acrescentar que os nossos empresários mais velhos precisam de mais formação (um tema que até recebeu atenção recentemente), para se sentirem mais tranquilos em contratar jovens com mais qualificações do que eles, mas parece que os nossos jovens também estão a necessitar de alguma formação em empreendedorismo.

Só para terminar, gostaria de salientar que estas propostas não são uma tentativa de agradar a um grupo de descontentes a ocupar momentaneamente a agenda mediática, sacrificando o bem comum, como demasiadas vezes ocorre. Olhando para as propostas do ponto de vista macroeconómico, elas continuam a fazer sentido.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Reformazinhas reactivas

O governo pretende realizar umas reformazinhas no mercado de trabalho, sob o pretexto de que a Espanha também o fez. Desde logo note-se a dificuldade de acção, sobrando a reacção.

Mas olhemos para a avaliação que o Fórum Económico Mundial (Out-10) faz da eficiência do nosso mercado de trabalho, que nos coloca na 117ª posição em 139 países. O governo tem a ambição de nos colocar numa posição próxima da, já não digo da Dinamarca (4ª posição), mas, vá lá, da Irlanda (20ª), da República Checa (33ª) ou mesmo da Bulgária (58ª)? Não, o governo quer que ambicionemos acompanhar a Espanha (115ª). Ainda bem que nos poupa de propagandear que estamos melhor do que a Itália (118ª) e a Grécia (125ª).

Convém também recordar que outro indicador de que o mercado de trabalho espanhol funciona mal é o facto de o desemprego ser historicamente muito elevado e estar actualmente acima dos 20%. Como é possível querer usar a Espanha como referencial neste caso particular?

Para além disso, há uma fixação excessiva em associar reformas no mercado de trabalho com facilidade de despedimento. No entanto, há outros aspectos que precisam de melhorias, como a flexibilidade de horários, bem como a regulamentação em geral. Aquele mesmo relatório aponta como os dois maiores obstáculos a fazer negócios a burocracia ineficiente e as regulações restritivas do trabalho. Alguém compreende que para mudar um horário de almoço seja necessário pedir autorização ao ministério? É politicamente compreensível (mas economicamente não) que um governo evite legislação que facilite o despedimento, mas já não se percebe que evite simplificar a regulamentação, que tem imensos custos de cumprimento (compliance costs).

Os próprios tribunais do trabalho fazem parte do problema da ineficiência do mercado laboral, com os seus atrasos e a sua notória parcialidade.

Se querem mexer no mercado laboral, convinha que tivessem objectivos mais amplos e não uma mera reacção às medidas de um dos piores exemplos sobre o assunto, a Espanha. Uma coisa é certa, não é com reformazinhas destas que vamos evitar o FMI ou mais uma década perdida.