O juiz Ivo Rosa está sempre presente em casos suspeitos. É
uma “coincidência” tramada. A última é ordenar destruir emails, impedindo o
avanço na investigação da EDP. Não há instâncias superiores para resolverem
este problema?
quinta-feira, 24 de maio de 2018
segunda-feira, 7 de maio de 2018
Conversas de salão?
Agora que o regime está a ganhar um pingo de vergonha (um "pingo" e não um "mínimo"), será que já se pode falar de Noronha do Nascimento, Pinto Monteiro e Cândida Almeida? Não se arranja uma comissãozinha de inquérito? Uma entrevistazita? Não há uma curiosidadezita em saber melhor o papel destas pessoas no atraso de todas estas investigações? Não há uma instituição ou outra a precisar de ser investigada? Não há - talvez - a necessidade de recorrer a investigadores estrangeiros para se esclarecer alguma coisa que valha a pena? Alguém no regime está interessado nisto? Ou é só conversa de salão?
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
Poupar é preciso!
As pensões do futuro
estão muito longe de estar asseguradas e era importante que as famílias
interiorizassem isso e poupassem mais.
Aproveitando o facto de hoje ser dia mundial da poupança,
escrevo hoje sobre a poupança das famílias, que está em mínimos. Neste momento
temos um ligeiro superavit externo (possivelmente inferior a 1% do PIB em
2017), que se poderá rapidamente transformar num défice, se o investimento
subir do seu actual nível muito deprimido para valores mais próximos da sua média
histórica. É, aliás, imperioso que o investimento suba, porque o seu nível é
insuficiente para compensar o desgaste do investimento passado.
Haverá quem justifique o baixo nível de poupança com, por um
lado, as baixas taxas de juro e, por outro, com o deprimido valor dos
rendimentos. Se taxas de juro diminutas tornam a poupança pouco atraente, elas
também exigem que se poupe mais para conseguir reunir um determinado valor de
poupança. Mais ainda, se o objectivo de poupança for conseguir um certo
rendimento do dinheiro aforrado, uma baixa taxa de juro obrigará a poupar ainda
mais.
Aliás, as taxas de juro ainda são mais baixas na Alemanha do
que em Portugal, mas este país poupa muitíssimo mais do que o nosso, tendo, em
termos agregados, um excesso de poupança (medido pelo superavit externo) de 8%
do PIB, o que é muitíssimo elevado. Ou seja, as baixas taxas de juro não podem
servir de desculpa para pouparmos pouco.
Em relação ao nível de rendimentos, estamos próximo do
máximo histórico, já que a economia portuguesa se tem desenvolvido quase
continuamente no último século e meio. Com a queda do desemprego, até se pode
dizer que as condições de poupança teriam melhorado.
Parece que o problema maior reside na falta de consciência
de que as pensões do futuro estão muito longe de estar asseguradas e que os
trabalhadores deveriam investir o quanto antes em complementos de pensão para
minimizar as quebras que são largamente expectáveis nas reformas que venham a
ser atribuídas nas próximas décadas.
Como fomentar este investimento? A primeira solução seria
avisar as populações destes factos, embora seja difícil de acreditar que isso
possa ser feito por políticos que passam a vida a dizer que a n-ésima reforma
das pensões é a última e que agora já está tudo resolvido. Não está nem nunca
vai estar, porque os políticos (e os eleitores…) não estão, nem nunca vão
estar, disponíveis para ter custos políticos hoje para resolver um problema que
vai surgir daqui a 20 ou 30 anos.
Uma segunda solução, que muitos são logo tentados a propor,
é a criação de benefícios fiscais para estes complementos de reforma,
eventualmente feitos em conjunto entre o trabalhador e a empresa. É uma
resposta fácil, aquela que todos imaginam ser a resposta para todo e qualquer
problema.
Chamo a atenção para dois tipos de problema, que é
necessário garantir que são resolvidos. O primeiro é não criar um mero desvio
de poupança de um instrumento para outros, o que será difícil. A pessoa está
mesmo a prescindir de consumo ou está apenas a substituir depósitos a prazo por
aplicações que proporcionam benefícios fiscais?
O segundo problema é garantir que existe total mobilidade e
concorrência na gestão dos complementos de reforma. Lembro-me bem do caso dos
depósitos poupança habitação (viram alguém deixar de fazer férias no Brasil
para fazer um depósito poupança habitação?), que davam benefícios fiscais e,
por isso, os bancos remuneravam com taxas de juro muito mais baixas do que os
depósitos a prazo. Ou seja, os bancos apropriavam-se indirectamente dos
benefícios fiscais, porque não havia concorrência entre eles em relação a estes
produtos, após a sua constituição.
Sem acautelar estes problemas, a criação de benefícios
fiscais (que são poupança pública negativa) pode bem ter o efeito perverso de
diminuir a poupança nacional.
[Publicado no jornal online ECO]
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Factos sobre os incêndios que o governo não percebeu
Sem perceber as razões
estruturais dos incêndios, não há reforma que seja eficaz.
1. Falta de
rentabilidade da floresta. O primeiro facto que o governo não percebeu, e
para o qual não fez qualquer proposta, é que os incêndios decorrem do abandono
a que é votado grande parte do território “florestal”. Há dois tipos de
abandono: i) o esquecimento puro, de que resultam os matos, sem valor
económico, onde se expandem os fogos com mais facilidade, terrenos que nem
sequer deveriam ser considerados “floresta”; ii) terrenos com árvores com algum
valor, mas com exploração amadora, sem meios para cobrir os custos de uma gestão
profissional. Por seu turno, este abandono decorre do facto de a generalidade
dos benefícios sociais da floresta (absorção do dióxido de carbono,
biodiversidade, estabilização das temperaturas e da humidade, espaço de lazer, etc.)
não ser remunerada pelo mercado. O que se impunha é que esta falha de mercado
fosse corrigida pelo Estado, criando uma remuneração para estes benefícios, mas
este governo ignorou completamente este aspecto crucial de qualquer reforma da
floresta digna desse nome.
2. Falta de escala. Mesmo
que a questão anterior fosse acautelada, ela iria esbarrar noutro obstáculo: a
extrema fragmentação da propriedade silvícola, com mais de meio milhão de
proprietários, inviabilizando a sua rentabilização, mesmo com subsídios
ambientais. É fundamental haver mecanismos de agregação da floresta (sugeri
dois tipos, um pelas câmaras municipais, outro por fundos silvícolas, no artigo
da semana passada). Como é possível que o documento do executivo seja
completamente omisso sobre este tema incontornável?
3. Insuficiente
passagem do foco do combate para a prevenção. As medidas apresentadas,
demasiado pressionadas pelas insuficiências no combate (desde o SIRESP, à
promoção de boys na Protecção Civil), acabam por não ter visão de fundo e não
fazer a inversão essencial do trabalho, reforçando a prevenção e, assim,
aliviando o combate.
Para além destas questões essenciais, acrescem os erros
avulsos:
4. Compromissos
vagos. Fala-se em limpeza das estradas. Mas, como muito bem pergunta o
Henrique Pereira dos Santos, “Tem quantos dias [para ser feito]? Quantos meios?
Quem paga? De que forma é que vai ser feito? Vai ser sistemático?”.
5. Estado accionista
do SIRESP. O SIRESP tem funcionado de forma absolutamente vergonhosa e o
que o Estado deveria fazer era exigir indemnizações em conformidade com o
desastre de serviço fornecido. No limite, os actuais accionistas do SIPRESP
deveriam oferecer as suas acções (completamente desvalorizadas) ao Estado. De
forma alguma faz sentido o Estado tornar-se já accionista desta calamidade, o
que corresponde a salvar a pele dos actuais donos (quase todos eles com um belo
cadastro), e, na prática, impedir o Estado no futuro de exigir indemnizações ao
SIRESP, porque estaria a exigir indemnizações a si próprio.
6. Novas centrais de
biomassa. Segundo os industriais do sector, a floresta portuguesa já não
tem capacidade de alimentar as existentes. Querem promover mais incêndios para
promover as novas centrais? Em contrapartida, estes empresários sugerem como
muito mais útil a criação de estufas de preservação da madeira ardida, “para
assegurar uma gradual entrada nos mercados dessa madeira, impedindo a queda
brusca do seu preço”.
Há dois tipos de políticos: os que se preocupam genuinamente
em resolver problemas e os que se preocupam em passar a imagem de quererem
resolver problemas. Em que grupo acha o leitor que este governo deve ser
incluído?
[Publicado no jornal online ECO]
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
13 soluções para os incêndios
É necessária uma
reflexão alargada sobre soluções para o problema dos incêndios e aqui ficam
algumas ideias, para fomentar o debate.
1. Identificar os
bur(r)ocratas. É preciso acabar com o anonimato na administração pública e
identificar publicamente os autores dos erros mais clamorosos, para ver se no
futuro há mais cuidado nas decisões. Para começar, queremos saber quem foram
aqueles que, por acção ou omissão, permitiram que o período oficial de perigo
de incêndio terminasse a 30 de Setembro deste ano, ainda que a maior parte da
mancha florestal estivesse em condição de seca severa ou extrema.
2. Limpeza de
terrenos junto de vias de comunicação. Não vale a pena continuar com a
hipocrisia de a responsabilidade desta limpeza ser dos donos dos terrenos, mas
o Estado se demitir de obrigar ao cumprimento da lei. Julgo que é preferível
que esta responsabilidade passe para os municípios, sem prejuízo de poderem ser
ressarcidos, posteriormente, pelos proprietários.
3. Legislação sobre
incendiários. As mais de 100 mortes deste ano obrigam a que se reveja a
legislação sobre incendiários, reconhecendo que é uma actividade muito mais
criminosa do que se supunha, agravando as suas penas em conformidade.
4. Avaliação dos juízes.
Os juízes que deixam em liberdade incendiários confessos e reincidentes
devem ser extensamente investigados pela comunicação social, nomeadamente sobre
a classificação recebida. O Conselho Superior de Magistratura deve ficar bem
ciente que a população considera intolerável que estes juízes recebam notas
elevadas. Será que este laxismo se deve a cumplicidades com redes de fogo
criminoso?
5. Investigação das
indústrias do combate. Em Espanha foram identificadas associações
criminosas entre muitos daqueles que ganham dinheiro com o combate aos
incêndios, sobretudo os que vendem equipamentos e serviços, e isso deveria ser
replicado no nosso país.
6. Limpeza de boys. É preciso expulsar os boys (incompetentes que só detêm o lugar
pelo cartão partidário) de toda a administração pública, em particular da
Protecção Civil, onde a sua presença é mais do que inadmissível, já que estão
em causa vidas humanas.
7. Profissionalização
dos bombeiros. Por mais heróico que seja o trabalho dos bombeiros
voluntários, é evidente que o actual modelo está esgotado e é essencial haver
bombeiros profissionais durante todo o ano, actuando na prevenção e conhecendo
o terreno em detalhe.
8. Preparação das
populações. Não se compreende a inexistência de planos de reacção aos
incêndios devidamente transmitidos às populações, bem como verificar que os
espaços junto das casas estão limpos, que há água, etc.
9. Avaliação dos
prejuízos. É necessário um levantamento dos prejuízos – imediatos e futuros
– dos incêndios no turismo, agricultura, indústria e Estado, para se ter uma
noção mais clara de quanto compensa gastar para os evitar.
10. Remunerar os
serviços ambientais da floresta. A floresta produz muitos serviços que
actualmente não são remunerados: absorção do dióxido de carbono,
biodiversidade, estabilização das temperaturas e da humidade, espaço de lazer,
etc. Sem remuneração, os proprietários não têm condições de manter os espaços
em condições, havendo casos excessivos de puro abandono, onde crescem os matos,
principal terreno de propagação dos fogos.
11. Agregação da
propriedade. Um dos principais problemas de gestão da floresta portuguesa é
a sua excessiva fragmentação, com mais de meio milhão de proprietários. As
câmaras municipais deveriam dedicar-se a agregar pequenas parcelas em zonas
contíguas, que posteriormente poderiam ser vendidas a gestores profissionais.
12. Criar fundos
florestais. É imperioso criar alguns fundos florestais, com capital inicial
do Estado, mas abertos a subscrição pública, em que o Estado tenderia a ter uma
participação minoritária. A função destes fundos seria a compra, agregação e
gestão de pequenas propriedades florestais, que deveriam receber do Estado
remuneração pelos serviços ambientais prestados, devidamente certificados.
Seriam admitidos à cotação na bolsa de Lisboa, como forma de facilitar a
angariação de pequenos investidores. É importante que haja concorrência entre
estes fundos, que não devem ter especialização geográfica, para estimular a
inventividade, na escolha das espécies e sua combinação, na gestão, na
prevenção dos incêndios e na limpeza dos terrenos.
13. Reorientar apoios
do combate para a prevenção. Gastamos muito em combate e muito pouco em
prevenção, num ciclo vicioso, em que quanto menos gastamos em prevenção, mais
necessário se torna gastar em combate. É preciso inverter esta situação e ser
muito mais criativo na prevenção, explorando, por exemplo, as queimas
controladas no Inverno, que diminuem a carga combustível disponível no Verão.
[Publicado no jornal online ECO]
domingo, 15 de outubro de 2017
Catalunha e impacto económico em Portugal
Os problemas na
Catalunha podem afectar as exportações portuguesas, mas também podem constituir
uma oportunidade de angariar investimento estrangeiro.
O movimento secessionista na Catalunha tem estado em choque
frontal com Madrid e é ainda incerto o resultado final. No entanto, apesar de
muita irracionalidade que se tem passado e deverá continuar a acontecer (em
“homenagem” ao novo prémio da economia, Richard Thaler), há vários sinais que
apontam para que a independência não se concretize.
O sinal mais forte, de vacina, foi dado pelas maiores
empresas catalãs, que mudaram as suas sedes para fora da região. Para estas
entidades, o custo de transferir o centro é relativamente pequeno, comparado
com o benefício de não sofrer com a permanência. Isto é particularmente verdade
para o caso dos bancos, que eliminam assim o risco de deixarem de ter acesso
aos fundos do BCE. Se a probabilidade de independência subisse, este fenómeno
alastrar-se-ia às médias empresas, devendo crescer de forma avassaladora ao
ponto de resfriar um ímpeto de maior autonomia. Estaríamos a falar da perda
potencial de milhares de empregos e de parte muito significativa da receita
fiscal do novo Estado.
Mas há travões mais importantes. Quando os catalães (e
restantes residentes da região) se apercebessem que estariam a caminho de sair
da UE e que enfrentariam a forte oposição de Espanha para voltar a entrar,
passariam a tomar a consciência de que iriam perder a liberdade de circulação
de bens, serviços, trabalhadores e capitais com o resto da UE, um grave
retrocesso, com profundas implicações económicas. Não é difícil imaginar Madrid
a impor controlos draconianos na fronteira com a Catalunha, dificultando ao
máximo o trânsito de bens e pessoas. Para os portugueses que já sentiram na
pele a forma como as autoridades espanholas fazem impor a sua vontade, muitas
vezes contornando as directivas comunitárias, isto não deve ser difícil de
antecipar.
No entanto, o mais importante de todos seria a perspectiva
de saída unilateral do euro, de um Estado que nem sequer tem banco central, com
o potencial de produzir o caos no sistema de pagamentos, uma depressão profunda
e forte desvalorização, que reduziria fortemente o poder de compra daqueles que
preservassem os seus empregos. A forte subida das taxas de juro que a
acompanharia deveria produzir uma forte queda no valor dos activos, em
particular o imobiliário, com fortes prejuízos para todos os endividados, cuja
habitação poderia passar a valer menos do que o empréstimo com que a compraram.
Em resumo, o fortalecimento do impulso independentista
deverá gerar anti-corpos mais do que suficientes para o fazer recuar. Isto
dito, parece que os extremos a que chegaram ambas as partes deverão conduzir a
uma situação de guerrilha institucional que, sem levar à ruptura, deverá
corroer a confiança do investimento, sobretudo na Catalunha, mas também em
Espanha. A probabilidade da catástrofe poderá ser pequena, mas os custos que lhe
estariam associados seriam de tal maneira elevados, que o prémio de risco
deverá ser relevante.
Parece que há duas vias em que isso irá afectar Portugal. Em
primeiro lugar, é provável um arrefecimento do crescimento económico no nosso
vizinho e principal destino das nossas exportações (quase o dobro do segundo, a
Alemanha) e, assim, do nosso próprio desempenho económico. Em segundo lugar,
muitos investidores, sobretudo novos investidores, deverão evitar Espanha e
Portugal poderá surgir como alternativa interessante. No entanto, para esta
oportunidade se materializar, será necessário que o governo português assuma o
objectivo de atrair investimento estrangeiro, o que não tem sido o caso até
agora.
[Publicado no jornal online ECO]
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Ilusões orçamentais de Paulo Trigo Pereira
A “alternativa”
orçamental de Paulo Trigo Pereira, para além de ser uma dura crítica ao
Programa de Estabilidade 2017-2021, ignora a evidência empírica das últimas
décadas, para além de esquecer a verdadeira razão porque fomos obrigados a
pedir ajuda à troika: a gigantesca
dívida externa.
Até 1995, a política económica portuguesa enfrentou a
necessidade de respeitar o equilíbrio das contas externas. Quando esta
restrição não era respeitada, éramos forçados a pedir ajuda ao FMI, como
aconteceu em 1978 e 1983, devido a respostas erradas aos choques petrolíferos
de, respectivamente, 1973 e 1979.
Com o governo de Guterres, embalados pela perspectiva de
entrada no euro, criou-se a ilusão de que poderíamos ignorar as contas
externas, e tentou-se estimular o crescimento económico com base no aumento da
procura interna, aumentando a despesa pública. Os resultados desta política não
podiam ter sido mais desastrosos: o potencial de crescimento da economia foi
diminuindo até passarmos a divergir da UE a partir de 2000, tendo Portugal
registado o terceiro pior desempenho económico deste espaço desde então, menos
mau apenas do que a Itália e a Grécia; passámos a ter elevados défices
externos, em torno de 10% do PIB (o que anteriormente nos teria levado a pedir
ajuda ao FMI), e a dívida externa explodiu de uns insignificantes 8% do PIB em
1995 para 110% do PIB em 2011.
Pela n-ésima vez é necessário repetir isto: não foram as
contas públicas que nos obrigaram a chamar a troika, foram as contas externas, que nos colocaram numa posição de
extrema vulnerabilidade perante os investidores estrangeiros. A Itália tinha,
então, uma dívida pública claramente superior à portuguesa, mas uma dívida
externa pouco significativa, dependendo sobretudo dos investidores nacionais
para se financiar. Acresce que grandes investidores que queiram investir em
dívida pública da zona do euro, dificilmente podem deixar de investir em
Itália, pela dimensão da sua economia e da sua dívida, enquanto a dívida
portuguesa é claramente dispensável, pela sua pequenez e risco elevado.
O documento do deputado Paulo Trigo Pereira, de Ricardo
Cabral, Luís Teles Morais e Joana Andrade Vicente, “Estratégias orçamentais
2017-2021: as opções de política”, do Institute of Public Policy, apresenta uma
via “alternativa”, com défices públicos mais elevados, mas maior crescimento do
PIB e dívida pública semelhante ao do Programa de Estabilidade 2017-2021.
O que há de errado com este documento, que nos promete o
paraíso? Em primeiro lugar, imaginar que o problema de crescimento português é
um problema de falta de procura, quando os estrangulamentos se encontram do
lado da oferta. A evidência empírica do país dentro do euro é que viveu sempre
com elevado excesso de procura (uma outra forma de designar os défices
externos) e isso traduziu-se em dívida externa e não em crescimento.
Em segundo lugar, partir do dogma de que mais despesa
pública significa mais crescimento, o que é contrariado pela experiência dos
últimos anos. Em terceiro lugar, e eticamente mais grave, a ausência de uma
secção sobre as consequências sobre as contas e dívida externas, que têm uma
elevada probabilidade de apresentar problemas, como já estamos a assistir em
2017, em que o maior crescimento económico está a reduzir fortemente o
excedente externo. Tem ainda que se acrescentar que o saldo positivo nas contas
externas é extremamente frágil, porque se baseia num nível de investimento
muito abaixo da média histórica, enquanto a poupança das famílias está em
mínimos. Para além disso, a reposição de rendimentos conduz à compra de bens de
consumo duradouro, com uma componente importada da ordem dos 90%, que no caso
dos automóveis é ainda superior.
Aliás, esta estratégia de só falar nas vantagens e se
esquecer – muito convenientemente – de qualquer contra-indicação ou efeito
secundário, já tinha sido utilizada por este deputado do PS, aquando do
documento de proposta de reestruturação da dívida.
No texto sobre a “alternativa” salvam-se as duras críticas
ao irrealismo do Programa de Estabilidade 2017-2021 nas promessas de contenção
da despesa, em contradição com as promessas eleitorais.
[Publicado no jornal online ECO]
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Quando é que se recuperam os milhões desviados por corrupção?
Quantos milhares de
milhões de euros da nossa dívida pública são devidos à inoperância da justiça
perante a corrupção?
Temos sabido de muitos factos em investigação e ficamos
muito surpreendidos: porque é que só agora estão a ser investigados? Não se
justificaria investigar este atraso? Os responsáveis que diziam que não havia
corrupção em Portugal e que, tudo indica, eram os primeiros a impedir as
investigações, vão ser levados a tribunal? Ou já tudo prescreveu?
Precisamos de uma auditoria à nossa justiça, analisando os
últimos 20 anos, incluindo muitos casos prescritos, mas exclusivamente composta
por estrangeiros. No estado em que as coisas estão e com as inúmeras
cumplicidades que nos trouxeram até aqui, não é possível acreditar nos
resultados de uma auditoria feita por portugueses, pelo menos por portugueses
que tenham vida profissional em Portugal.
Estou convicto que a calamidade que se instalou na justiça
portuguesa (e que talvez esteja em vias de ser corrigida) foi responsável por
um clima de impunidade que permitiu que houvesse dez vezes mais corrupção do
que se a justiça funcionasse. Considero, assim, que a parte mais grave da
corrupção em Portugal não está nos políticos, mas na “inoperância” da justiça.
Há um outro problema que gostaria de levantar, porque me
parece que está esquecido. Os contribuintes foram roubados em milhares de
milhões de euros no conjunto de casos de corrupção que vamos conhecendo, fora
aqueles que ainda não foram investigados. Não são precisos muitos casos graúdos
para se chegar a mil milhões de euros, basta considerar que só o SIRESP poderá
corresponder a um desvio de quase 500 milhões de euros. Tudo indica que o
ministério público está exclusivamente preocupado em prender os culpados e não
está minimamente empenhado em recuperar o dinheiro roubado.
Como é que se admite que Ricardo Salgado, envolvido em tanto
do que é negócio escuro das últimas décadas, como vem sendo crescentemente
divulgado, e o principal responsável pelo buraco aberto no BES, que já custou
tanto aos contribuintes, se continue a passear por aí? Porque é que o seu
património pessoal, não foi ainda “confiscado”, para pagar aos lesados do BES e
porque é que são os contribuintes que estão a pagar a factura?
É muito questionável a estratégia seguida pelo ministério
público na acusação a Sócrates, não só pela sua (falta de) eficácia, mas também
porque constitui uma flagrante violação dos direitos dos cidadãos. É
inadmissível alguém ter sido preso preventivamente sem que tenha sido informado
do que está acusado.
Admite-se que o conjunto de que Sócrates venha a ser acusado
seja vastíssimo, mas não se percebe porque não há já uma acusação inicial, com
os casos em que as provas são mais irrefutáveis. A partir da primeira
condenação, deveria ser obrigado a devolver o dinheiro roubado e toda a sua
defesa futura ficaria muito mais frágil, até economicamente, deixado este réu
de poder tourear a justiça, como é frequente suceder aos mais ricos.
Não tenho ilusões de que se possam recuperar todos os
milhares de milhões de euros subtraídos aos contribuintes, até porque muito foi
desbaratado em obras da mais duvidosa utilidade, mas já custa muito a aceitar
que quase não haja qualquer esforço em recuperar os fundos públicos desviados.
[Publicado no jornal online ECO]
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
A ilusão do sucesso
Os dados do PIB do 2º
trimestre, o “mais elevado do século”, não passam de um efeito estatístico,
porque o trimestre homólogo foi mau e em Novembro isso tornar-se-á mais claro.
O crescimento de 2,9% no 2º trimestre é fruto de um efeito
base e não resultado de uma transformação duradoura na economia, que não
existiu. É certo que há actividades, como o turismo e a construção, que estão a
conhecer um bom momento, mas as condições gerais de funcionamento da economia
não melhoraram.
Pelo contrário, teve lugar a reversão de algumas das tímidas
reformas forçadas pela troika e não
há no horizonte qualquer proposta de mudança pelo actual executivo. Aliás, a
paz social que vivemos tem como reverso o imobilismo total, que estão a impedir
o país de responder aos desafios que o mundo, em acelerada mudança, nos vem
colocando.
Neste momento vivemos na ilusão do sucesso, mas que será
desfeito já em meados de Novembro, quando for divulgada a estimativa rápida do
PIB do 3º trimestre, que deverá mostrar uma clara desaceleração em termos
homólogos. Antes disso, o governo terá divulgado o cenário macroeconómico
referente a 2017 e 2018, onde se deverá constatar que o crescimento para o
conjunto do corrente ano será pior do que o 1º semestre, indicando que o
segundo semestre deverá ser pior do que o primeiro. Para além disso, é muito
provável que a previsão de crescimento para 2018 seja de desaceleração,
reforçando a ideia de que não virámos nenhuma página em relação à quase
estagnação dos últimos 16 anos.
Se não atingimos o sucesso, muito pelo contrário, isto tem
que ser claríssimo e um governo que não quer reconhecer isto tem que pagar um
preço político elevado pela sua omissão.
Desde logo, a oposição ao governo tem que ser muito mais
clara em relação a este aspecto do que tem sido, para além de que deveria ter
defendido muito mais as reformas que realizou e que o actual executivo
destruiu. Agora poderá não ser a altura melhor para fazer isto, mas deve-se
preparar para confissão de fracasso que deverá estar contida no cenário
macroeconómico apresentado com o orçamento, em meados de Outubro. Em meados de
Novembro deverá ter uma outra oportunidade com os dados do PIB do 3º trimestre.
Além disso, a sociedade civil tem que ser muito mais
exigente, com este e com todos os governos vindouros. Se os executivos não
pagarem um elevado preço político pelos seus erros e omissões, é evidente que
estes serão muito mais frequentes e graves, pagando depois todos nós as suas
facturas.
Neste momento, temos vindo a saber várias das acusações que
impendem sobre Sócrates, mas poucos se podem mostrar surpreendidos. Alguém
tinha dúvidas da sua pressão sobre a PT? Houve algum ingénuo que não se apercebeu
que o contrato com o TGV foi especialmente alterado para prever uma grande
indemnização caso o projecto abortasse? Etc., etc., etc.
A impunidade com que o então primeiro-ministro se permitiu
fazer tudo isto prende-se, em primeiro lugar, com a inoperância (a prudência
obriga-me a este eufemismo) da justiça e, em segundo lugar, a uma sociedade
civil incapaz de se manifestar com força. Querem continuar assim? Querem um
histerismo por causa de uns livros para actividades extra-escolares de crianças
de seis anos, mas a total incapacidade de igual empenho em casos de corrupção
de centenas de milhões de euros feitos à vista de todos?
[Publicado no jornal online ECO]
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Os absurdos de Lisboa (3)
A Câmara não está
verdadeiramente interessada em que os espaços verdes lisboetas sirvam a
população, por puro desleixo.
Nos espaços verdes de Lisboa parece haver uma grande falta
de preocupação com os resultados. Investe-se neles, mas não há uma genuína
preocupação em que eles preencham de forma cabal as suas funções: oxigenar a
cidade e proporcionar um espaço de lazer.
Em geral, os espaços verdes da capital têm um excesso de
relva e défice de árvores, totalmente contrários às condições climatéricas
actuais e, sobretudo, futuras. Não temos clima para ter tanta relva, onde se
gasta uma quantidade absurda de água, para além de ainda não se ter aprendido
aquilo que os israelitas, especialistas em viver com escassez de água, já
ensinaram: só se rega ou ao início ou ao final do dia. Aliás a descentralização
da gestão dos espaços verdes foi um desastre, porque a nível municipal havia competência
técnica especializada, que não existe a nível das freguesias.
Os Verões secos, de tipo mediterrânico, recomendariam que se
plantassem muitas mais árvores na cidade, de tipo caducifólio, para que no
Inverno se pudesse aproveitar melhor as poucas horas de Sol. A escolha de
espécies autóctones reduziria drasticamente a necessidade de rega, para além de
pedir cuidados mínimos.
Um dos erros maiores dos últimos investimentos em canteiros,
nestas obras faraónicas em curso, é não se pensar minimamente nos custos de
manutenção posteriores. A asneira é tão flagrante que, poucos meses depois das
obras concluídas e a tão pouco tempo das eleições, já se vêm (Av. 24 de Julho) canteiros
cheios de ervas daninhas, com um péssimo aspecto. Se isto se passa na véspera
do acto eleitoral, conseguem imaginar a bandalheira e o abandono que se
instalará depois, com o pretexto que não há dinheiro para a manutenção?
Não se pode dizer que Lisboa tenha uma falta óbvia de
espaços verdes no seu conjunto, embora faltem em zonas mais antigas e, em
geral, estes espaços sejam pouco usufruídos. Entendo que isto se passa assim,
porque a câmara não se preocupa em fazê-los apetecíveis.
Há uma generalizada falta de bares e cafés nestas áreas, que
geralmente funcionam como âncora, bem como há uma clara falta de estacionamento.
Para além disso, há uma grande falta de mesas, que poderiam ser centros de
convívio ou ser usados por estudantes.
Há também intervenções completamente descoordenadas, numa
lógica de “quintinhas”, com resultados absurdos. Na zona da Expo, a Leste da
Torre Vasco da Gama, há muitas árvores (devia haver mais) e muitos bancos. Pois
desafio-os a encontrar um banco que esteja à sombra, já que no Verão é a única
solução aceitável.
Apesar de haver uma enorme procura de hortas urbanas (num
dos últimos concursos, a procura foi o décuplo da oferta), a sua expansão está
paralisada, ainda que haja muitas áreas onde elas poderiam ser instaladas,
sendo de salientar que elas reduzem os custos de manutenção para o município,
que poucos mais custos tem do que a água, ficando todo o trabalho a cargo dos
agricultores urbanos. Destaco o Parque da Bela Vista, que ainda está em obras,
e geralmente às moscas, tendo inclusive várias hortas urbanas clandestinas em
terrenos próximos.
O que esperam para mudar este triste estado de coisas?
[Publicado no jornal online ECO]
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