quarta-feira, 30 de abril de 2008

Passos Coelho a esticar-se

Declaração de interesses: sou apoiante de Manuela Ferreira Leite, mas tenho simpatia pela candidatura de Passos Coelho. Dito isto parece-me que Passos Coelho se está a esticar, repetindo um dos piores tiques de Menezes.

Segundo o Diário de Notícias de hoje, p. 18, “Passos Coelho rejeita coligações pré-eleitorais”. Este tipo de afirmações só pode ser encarado como agressivo pelo CDS. A esta altura do campeonato, esta é das questões menos importantes. Por isso, estar a levantá-la é estar a criar anti-corpos desnecessários. Neste momento pensar que o centro direita pode ganhar as eleições de 2009 é difícil, agora imaginar que o PSD as vai ganhar com maioria absoluta parece um pouco delirante.

http://dn.sapo.pt/2008/04/30/nacional/passos_coelho_rejeita_coligacoes_pre.html

Mais à frente: "Alguns comentaristas achavam que eu estava aqui para marcar terreno para o futuro, agora já começam a acreditar que posso vencer e que possa ser uma surpresa para o PS e uma boa surpresa para Portugal." Como é possível dizer isto? Ainda não ouvi ninguém dizer tal coisa. Se imagina que, interiormente, alguns comentaristas pensam isto, apesar de não o dizerem, guarde para si essas fantasias. Isto parece-se horrivelmente com o tipo de afirmações delirantes que o Menezes fazia. Faça o seu caminho, mas evite este tipo de afirmações. Não se esqueça, NUNCA, que o PSD precisa de CREDIBILIDADE, que manifestamente não se constrói com comentários deste tipo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Finalmente, Dra. Manuela

“Não esperem de mim uma campanha com espectáculo, que não sei fazer. Não esperem de mim o uso de grandes meios, de que, de resto, não disponho, nem penso serem desejáveis.” Gostei imenso destas palavras no discurso de apresentação da candidatura de Manuela Ferreira Leite à liderança do PSD.

Ainda “um maior descrédito nas legislativas poderá ter um efeito de contágio nas autárquicas.” Este recado para os autarcas do PSD parece-me muito bem apanhado, para lhes limitar as tentações populistas.

Realidade ultrapassa ficção

Do Diário de Notícias de hoje, p. 12: “ ‘Dona Branca de Valbom’ sacou dez milhões ao BCP” Esta alma “também é catequista e tesoureira do Centro Social e Cultural”. Palavras para quê?

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Divergência continua

A Comissão Europeia publicou hoje as suas previsões da Primavera, mais negativas que no Outono passado, com um 2009 (PIB da UE27 de 1,8%) pior que 2008 (2,0%) e muito pior que 2007 (2,8%). Insisto na ideia que 2009 se prevê ainda pior que o ano corrente.

http://ec.europa.eu/economy_finance/pdfs_files/2008/spring-forecasts/all-countries.pdf

Para Portugal, prevê-se a continuação da divergência face à média europeia com o nosso PIB a crescer apenas 1,7% este ano e 1,6% em 2009. Mesmo esta previsão tem uma composição estranha: num contexto de forte desaceleração externa, são as exportações líquidas que vão impedir uma maior desaceleração da actividade. Daí, a CE avisar: “It is worth noting, however, that the projections for export activity are subject to considerable risks.”

Para o desemprego a CE prevê uma estabilização próximo dos actuais níveis até 2009. Mesmo com as actuais previsões de crescimento esta estimativa parece arriscada. Se incluirmos as fragilidades de previsão do PIB, mais provável fica uma subida da taxa de desemprego.

Finalmente, em relação às contas públicas, a CE prevê uma interrupção da consolidação orçamental, com aumento do défice, quer em percentagem do PIB, quer em termos estruturais. Reforça a ideia de que a descida do IVA foi um jogo arriscado. Se o governo chegar às eleições com défice a subir e desemprego a subir, vai estar em mau lençóis.

domingo, 27 de abril de 2008

Estado esquizofrénico e proibidor

Segundo o Diário de Notícias de hoje, p. 48, “A Junta de Freguesia da Ericeira, Mafra, foi multada pelo Ministério das Finanças por lesar o Estado na venda de combustível. Tudo porque, a partir dos óleos recolhidos para reciclagem, a junta produzia o biodiesel para o funcionamento de uma viatura do lixo. A multa, de apenas um trimestre, rondou os oito mil euros. Já o Ministério do Ambiente multou a junta, mas desta vez por recolha não autorizada de lixo.”

http://dn.sapo.pt/2008/04/27/sociedade/ericeira_multada_lesar_o_estado.html

A primeira observação é sobre a esquizofrenia do Estado. Há um Estado que quer reduzir as emissões de CO2 e um Estado que multa quem o tenta fazer com alguma iniciativa e originalidade. O Estado subsidia, e não é pouco, energias alternativas mas esta situação, que não lhe exige subsídio nenhum, é multada. Ninguém consegue perceber esta lógica. É evidente que estamos no domínio das quintinhas e que, no Estado, ninguém quer saber dos objectivos da quintinha do lado. A recomendação que deixo é que, sobretudo em novas situações, não haja logo a sanção da multa. Parece-me para lá de evidente que a Junta estava a agir de boa fé e se, contra o mais elementar bom senso, o Ministério das Finanças insistir na ilegalidade da acção, ao menos que sinalize isso primeiro. O Estado tem que começar por ter uma intervenção pedagógica e só depois passar para a penalização.

Já a actuação do Ministério do Ambiente é do domínio do delírio. Parte do princípio de que o que não é explicitamente autorizado é proibido. Julgava que o 25 de Abril tinha sido feito para, entre outras coisas, acabar com esta mentalidade. Repare-se que este Ministério nem critica a actividade em si, mas apenas o facto de ela estar a ser feita sem ter sido pedida autorização. Mas quem realiza esta actividade nem é um privado qualquer mas sim uma Junta de Freguesia. Quando as empresas privadas se queixam da hiper-intervenção do Estado e assistimos este tipo de intervenção contra uma entidade pública, só podemos imaginar intervenções do mais insensato. Esta também é uma das razões que ajuda a explicar a falta de competitividade e o desemprego elevado.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Equívocos sobre a unidade do PSD

Tal como a renovação parece que a unidade é um elemento importante do futuro do PSD. O primeiro equívoco é a unidade ser possível. Parece-me impossível, o PSD tem demasiadas “visões”, até devido à ausência de uma linha ideológica definida. Mas há dois ramos que se perfilam: o sério e o populista. Menezes era uma populista instável, o que o tornava imprestável. Tenho ideia que se fosse um populista consistente não teria tido tantos problemas. Santana perfila-se como populista menos instável que Menezes. Se Santana ganhar (uma hipótese académica) o PSD voltava à instabilidade de Menezes. O PSD sério jamais o deixaria disparatar em silêncio.

A propósito, Passos Coelho parece pertencer à parte séria do PSD mas, talvez sedento de apoios, não se tem conseguido distanciar do apoio envenenado de Menezes. Estará a tentar a unidade mas por vezes é preferível uma identidade mais nítida do que a integração de facções inconciliáveis a todo o custo.

Há o equívoco de unidade significar o silêncio das críticas a seguir à eleição do líder. Não me preocupam as críticas no dia seguinte à eleição. Uma coisa me parece certa, se as sondagens mostrarem que o PSD sobe e PS desce para níveis próximos um do outro, então aí as críticas baixam porque vai efectivamente "cheirar a poder". E quem me parece mais bem colocado para provocar essa reviravolta nas sondagens é Manuela Ferreira Leite. Nesse momento o PSD vai parecer unido, mas na verdade estará com as divergências silenciadas.

Para reforçar esta ideia das sondagens leia-se o Expresso de hoje, p. 4, onde João Cravinho, Vera Jardim e Vitalino Canas dão claramente a entender que Manuela Ferreira Leite é o adversário mais temido pelo PS.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Equívocos na renovação do PSD

Há quem fale na necessidade de renovação do PSD e elabore alguns equívocos sobre o tema. É para lá de evidente que o PSD precisa de retirar de cena os inenarráveis Santana, Menezes e “sus muchachos”. Que esses devem sair, não há qualquer dúvida.

Mas há quem defenda renovação nos protagonistas seguintes. Antes de mais, convém lembrar o que a última renovação trouxe (Menezes, Ribau, etc.) para se perceber que, se a renovação poderá ser um bem, não o é necessariamente e não será, assim, o principal critério de avaliação. É-me muito mais importante uma direcção com qualidade, responsabilidade, rigor do que com “renovação.”

Mas há um outro equívoco de “renovação”. Pensar que é preciso trocar uns protagonistas do PSD por outros do PSD é um equívoco. O que é preciso é renovar o próprio PSD e abri-lo ao exterior. O que é preciso é renovar com pessoas de fora, com experiência nos seus sectores e com contributos válidos para uma agenda reformista. Manuela Ferreira Leite tem, de longe, a melhor imagem junto dos profissionais qualificados e é capaz de atrair o maior número deles, transmitindo-lhes a credibilidade de irem participar num projecto sério. Mas não só é capaz de atrair mais, como está mais disponível para os receber. Sempre a tenho ouvido falar dessa necessidade de abertura do PSD ao exterior. Por isto tudo, e ironicamente, é a pessoa mais velha a que poderá trazer maior renovação, para além da qualidade, qualidade, responsabilidade e rigor.

Quando é que ele se vai desdizer?

Do Público de hoje, p. 4, Menezes “garantiu que, a partir de agora e até às legislativas de 2009, vai ‘dar o exemplo’ e manter-se em silêncio.

Quanto tempo é que ele vai aguentar, até voltar a desdizer-se, mais uma vez? Aceitam-se apostas: um dia? uma semana? um mês?

Coelho fraquinho

Segundo o Diário de Notícias de hoje (p. 7) “Passos Coelho tem emprego como tema forte”. Quer “flexibilização das leis laborais” e propõe baixar taxa de contribuição das empresas para a Segurança Social. Parece que tem andado um pouco distraído e não reparou que o governo acaba justamente de fazer as duas coisas. Para quem se quer diferenciar, parece um pouco fraco.

Quanto à substância da proposta a “flexibilização das leis laborais” é muito vaga, sendo que dificilmente alguém viria propor torná-las mais “rígidas”. A descida da taxa de contribuição parece-me uma má medida, pior ainda do que a do governo, que a apresenta como alternativa à subida das contribuições para contratos a prazo e recibos verdes. Como economista, Passos Coelho tinha obrigação de não propor uma medida com riscos de por em causa a sustentabilidade da Segurança Social e com magras perspectivas de conseguir animar o emprego.

A falta de emprego tem muito mais a ver com falta de competitividade do que com flexibilização das leis laborais, que são apenas uma das componentes do problema. Se quer tomar medidas sobre um problema, é melhor que comece por percebê-lo. Para medidas avulsas já nos chegou o Menezes.

Jornalismo divertido

O Diário de Notícias publica hoje (p. 6-7) um comentário de opinião, que aparece confundido como notícia. Como opinião tem algumas pérolas divertidas.

http://dn.sapo.pt/2008/04/24/nacional/jardim_fora_e_santana_mais_vez_dispo.html

“Menezes e Pedro Santana Lopes resolveram equacionar uma candidatura da ala mais próxima das chamadas bases do partido, na qual também se enquadrava bem Alberto João Jardim.” Ala mais populista, certamente, mas “mais popular”, tenho sérias dúvidas.

A melhor de todas:

“Mas Menezes pensou em tudo até ao milímetro [já pararam de rir?]. No caso de obter negas de Jardim e Santana, Menezes pensou em transferir todos os seus apoios para Passos Coelho, o que faria dele um adversário temível para Ferreira Leite.”

Este passe de mágica de “transferir todos os seus apoios”, como se faz, quando as eleições são directas? Aguardo esclarecimentos. Quanto ao “adversário temível”, ia caindo da cadeira a rir.