Minha participação, com Nuno Garoupa e Bernardo Pires de Lima, no programa "Decisão Nacional", da RTP Internacional, um pouco atrasado.
http://www.rtp.pt/play/p2119/decisao-nacional
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Conversão da Comissão Europeia
A Comissão Europeia deveria
agora pressionar a Alemanha a estimular a zona do euro
Começo este texto por agradecer ao Pedro Romano, o seu texto
no blog desviocolossal.wordpress.com, “A comissão converte-se”, que serve de
mote para o que se segue, para além das ideias que aproveitarei.
No início da crise do euro, pensou-se que os problemas que
os diferentes países tinham decorriam de excessos orçamentais, tendo a
correcção dos défices públicos ganho uma extraordinária atenção desde então.
No entanto, algum tempo depois, surgiu uma outra
interpretação da crise, que identificava como foco de infecção as contas
externas, que explicava muito melhor porque é que países com dívidas públicas
muito elevadas, tais como a Bélgica e a Itália, não sofreram tanto como países
como Portugal.
Para além disso, também os excessos bancários foram
identificados como um problema de algum modo autónomo, em particular nos casos
da Irlanda, Chipre e Espanha, que se mantêm como causa significativa de
dificuldades nestes países.
Ao longo dos anos, o relevo dado às contas externas passou
de interpretação “alternativa”, para “interpretação consensual”. Agora, no seu
último relatório trimestral sobre a zona do euro (Jan-16), a própria Comissão
Europeia reconhece a validade desta leitura:
“Uma narrativa alargada está agora a emergir da literatura
económica sobre as causas da crise da dívida na zona do euro e das assimetrias
na transmissão da crise financeira global. Esta narrativa, que é relativamente
consensual entre os economistas académicos se
não entre os políticos, envolve tanto vulnerabilidades específicas de
países como amplificadores de choques comuns próprios da área do euro. (…) Em
particular, a exposição externa (…) está fortemente correlacionada com os
choques cíclicos sofridos pelos Estados Membros” (p. 10, minha tradução e
negrito).
Saúdo especialmente esta conversão da Comissão, dado que os
desequilíbrios externos dentro do euro sempre me preocuparam, como tive
oportunidade de chamar a atenção no artigo “Défice e endividamento externos”,
publicado na revista Economia Pura, dez
anos antes de sermos forçados a pedir ajuda à troika, e quando Constâncio andava com a conversa – tão danosa! –
de que Portugal era como o Mississípi nos EUA.
No entanto, sublinho também a parte que coloquei em negrito,
que indica que esta conversão não é generalizada, com particular destaque para
a Alemanha, que sempre insistiu no problema das contas públicas, com uma ênfase
mais moral do que técnica, muito certamente decorrente do facto de na língua
germânica a palavra que designa “dívida” ser a mesma da que designa “culpa”
(Schuld).
Esta errada visão alemã tem constituído um poderoso travão à
recuperação económica da zona do euro. A Alemanha possui uma claríssima margem
para estímulos orçamentais, quanto mais não seja pelas taxas de juro negativas
(em termos reais) a que se consegue financiar. Mas não o faz, porque encara
isso como “imoral”, porque conduziria, temporariamente, a uma dívida maior.
Por isso, aguardam-se as consequências da conversão da
Comissão, nomeadamente começar a fazer pressão sobre a Alemanha para reduzir os
seus superavits externos, que muito prejudicam os países do Sul e impedem uma
maior depreciação do euro. O próprio BCE se poderia juntar a esta pressão,
porque um euro mais fraco estimularia a economia e facilitaria o cumprimento
das metas de inflação que há muito não são cumpridas.
PS. O Tribunal Constitucional voltou a decidir de forma
vergonhosa, com a grande vantagem de a esquerda ter perdido o respeito por esta
instituição, que talvez não seja reformável.
[Publicado no jornal “i”]
sábado, 16 de janeiro de 2016
Reforma da Administração Pública
A sociedade civil tem
um papel relevante a desempenhar na reforma do Estado
Saiu no Público de
8 de Janeiro passado, o texto “Reformar a Administração Pública”, assinado por Fernando
Bello, Francisco Seixas da Costa, João Costa Pinto, João Ferreira do Amaral, João
Salgueiro, José Manuel Félix Ribeiro e Miguel Lobo Antunes, fruto de reflexões
que este grupo vem fazendo sobre este e outros temas.
Em primeiro lugar, é de louvar o esforço da “sociedade
civil” em reflectir sobre o país, o que parece escassear em outros locais onde
esta reflexão deveria ser obrigatória, como os partidos políticos e as universidades.
Em segundo lugar, correndo o risco de errar, fiquei com a
sensação que a divulgação deste contributo sobre a reforma da Administração
Pública (AP) foi muito reduzida e o seu impacto, infelizmente, mínimo.
Como considero que aquele texto é um bom ponto de partida,
embora ainda demasiado genérico, dou aqui algumas achegas ao tema, ainda no
domínio da generalidade.
Reproduzo o início do ponto 2 daquele texto: “Se há tantos
anos se fala em reformar a AP, porque não se põe em prática? Será que é possível
fazê-lo?”
Pergunto eu: porque é que as reformas não têm ido avante
e/ou não têm sido suficientemente profundas e eficazes? Em particular, porque
que é que a proposta de reforma apresentada pelo XIX governo foi tão tardia e
fraca (para não lhe chamar outros nomes, que bem merecia)? Este governo não só
parecia imbuído de espírito reformador, como estava obrigado, por pressão
externa, a fazê-lo, o que poderia servir de pretexto para ir bem longe.
Portugal tinha estado na iminência da bancarrota e o governo recém eleito tinha
também legitimidade para desencadear mudanças profundas.
O primeiro problema, encadeado no segundo (o medo de
reformar), é que os partidos na oposição não se preparam verdadeiramente para
governar, não havendo um governo sombra, de ministros-sombra que se vão
inteirando dos problemas e iniciam atempadamente o que irão fazer quando
fizerem parte de um novo executivo. Ao perder dois anos preciosos, o governo de
Passos Coelho terá perdido o tempo certo para encetar uma verdadeira reforma da
AP.
O segundo problema, bem mais grave, considero que seja o
medo de reformar. E porquê este medo? Mais uma vez, sem ter a certeza de estar
certo, imagino que este temor esteja associado à dificuldade em alterar as
condições dos funcionários públicos e o medo dos sindicatos do sector público,
quase os únicos com poder em Portugal.
Antes de mais, tal como em outros casos, parece-me que estes
sindicatos estão mais preocupados em defender uma agenda político-partidária,
do que em defender os verdadeiros interesses dos trabalhadores, sendo, em
última análise, fracos representantes destes.
Por tudo isto, parece-me essencial envolver estes sindicatos
em qualquer tipo de reforma da AP, prevendo dois tipos de resultados, extremos,
para simplificar. Na melhor das hipóteses, poderemos descobrir que estes
sindicatos não são tão contrários a uma reforma da AP, sobretudo se forem
levados a bem.
Na pior das hipóteses, estes sindicatos poderão revelar-se
completamente reaccionários e imobilistas. Neste caso, mesmo assim, não há
razões para desesperar. Se, perante propostas de mudanças de elevada qualidade
e obviamente boas para a generalidade dos portugueses, os sindicatos ficariam
perante uma forte possibilidade de perda de poder. A oposição dos sindicatos a
mudanças consensuais e altamente elogiadas pela generalidade da população
deveriam levar a uma forte diminuição da sua aceitação e a uma clara diminuição
do seu poder reivindicativo. Os sindicatos que se rebelassem contra estas
reformas pagariam um elevado preço por isso, o que poderá constituir um
poderoso travão a que o venham a fazer.
[Publicado no jornal “i”]
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Sucesso ou fracasso
O indicador de sucesso
ou fracasso do programa económico do governo será o saldo externo
Relembro que aquilo que nos forçou a pedir auxílio à troika foi o acumular de défices
externos “excessivos”, que se traduziram numa explosão da dívida externa, de um
nível insignificante em 1995 (8% do PIB) para um nível catastrófico, superior a
100% do PIB, a partir de 2009.
O maior sucesso no programa de ajustamento foi – justamente
– na frente externa, em que conseguimos passar de défices elevadíssimos para
superavits externos, uma evolução muito mais favorável do que o previsto.
O programa económico do governo socialista resume-se a
repetir os anteriores programas do PS, de estímulo da procura interna, que se
revelaram um extraordinário fracasso, gerando uma estagnação económica desde
2001, apesar de uma dívida externa em permanente crescimento. Na Grécia, um
programa equivalente, apesar de também ter acumulado dívidas (pública e
externa) elevadíssimas, ao menos conseguiu um crescimento considerável, ainda
que parte deste tenha sido artificial.
Alguns socialistas têm argumentado que o novo programa
governamental assenta numa combinação equilibrada de estímulo da procura e da
oferta, que se traduzirá em crescimento económico, sem o retorno aos
desequilíbrios externos.
Quando se olha para o perfil temporal da recuperação
projectada pela equipa liderada pelo actual ministro das Finanças, parece
extremamente difícil de acreditar em tal combinação. Mário Centeno estima um crescimento
mais forte nos primeiros anos, que desacelera posteriormente. Ora, este perfil
é exactamente o oposto do que se esperaria dum estímulo “equilibrado” da
procura e da oferta. Como o estímulo da procura é rápido e o da oferta é lento,
seria nos anos mais distantes em que se deveria esperar um crescimento
superior, quando a acção sobre a oferta, sempre lenta, estaria a produzir o
máximo de efeitos.
Um aumento da procura, quer através do aumento da despesa
pública, quer através da redução dos impostos, deixa mais dinheiro nos bolsos
das pessoas, que não hesitarão em passar imediatamente a gastar grande parte
dele, sobretudo dado que têm vivido alguns anos de aperto. Já um estímulo da
oferta é um processo sempre moroso, por se basear geralmente em reformas
estruturais. Primeiro, é preciso identificar a área onde intervir, depois
preparar a intervenção, em seguida iniciar a transformação. Em alguns casos só
mesmo ao fim de vários anos é que se poderão começar a sentir efeitos e, mesmo
assim, apenas parciais.
Por tudo isto, considero que o sucesso ou o fracasso do
programa económico do PS deverá depender do que acontecer às contas externas.
Se se conseguir crescimento económico sem agravar as contas externas, o PS
estará de parabéns. Se o crescimento resultar num aumento das importações, no
regresso aos défices externos e a um agravamento do endividamento externo, que
nos conduziu aos braços da troika,
estaremos perante um fracasso rotundo.
Coloco apenas uma ressalva. É possível que o programa do PS
tenha um duplo efeito. Por um lado, deverá estimular o consumo privado, através
do orçamento. Mas, por outro, pode deprimir o investimento, pelo discurso e
medidas contra a classe empresarial. É assim possível que não haja um
agravamento do défice externo, se o investimento tiver uma queda significativa.
Mas neste caso, também estaríamos perante um claro fracasso, porque o nosso
nível de investimento já é preocupantemente baixo e diminui-lo ainda mais seria
colocar em causa qualquer condição de recuperação económica a prazo.
[Publicado no jornal “i”]
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
2016
Espera-se um ano
turbulento, quer em termos políticos, quer económicos, quer na perspectiva
internacional, quer nacional
As nuvens sobre 2016 têm-se vindo a adensar nas últimas
semanas. Em termos de política internacional, a novidade foram as eleições
espanholas, que quebraram a tradição das últimas décadas, em que havia sempre
um resultado conclusivo, que permitia a formação de governos muito estáveis, ao
contrário, diga-se de passagem, do caso português. Não é ainda claro que se
consiga criar uma coligação de governo, provavelmente de esquerda, e menos
ainda incerto que a solução que venha a ser encontrada seja estável.
A criação sucessiva de executivos de esquerda na Europa do
Sul (França, Itália, Grécia, Portugal e Espanha), com orientação
anti-austeridade, deverá criar confrontos com o Norte da Europa. Na melhor das
hipóteses, isso permitiria ajudar a criar novas soluções para a zona do euro,
que permitissem conferir maior estabilidade a uma área monetária muito longe de
ser óptima.
Parece-me que seria extremamente útil que a estabilidade
macroeconómica do conjunto dos países do euro passasse a ser encarada com muito
mais prioritária, com maior empenho na redução do desemprego e dos
desequilíbrios externos.
Em particular, julgo da maior importância que os países do
Sul exercessem pressão para que os países do Norte reduzissem os seus
excedentes externos, particularmente gritantes no caso da Alemanha (7% do PIB
em 2015 e o maior do mundo, em termos absolutos). Se tal pressão surtisse
efeito, isso poderia beneficiar os países do Sul, duplamente. Por um lado, pelo
estímulo da procura interna de toda a zona do euro e, por outro, pela
consequente tendência de depreciação do euro, que melhoraria a competitividade
das nossas economias, contribuindo também para um maior crescimento económico e
melhoria das contas públicas, aliviando naturalmente a necessidade de mais
austeridade.
Infelizmente, parece-me que iremos assistir à pior das
hipóteses: os governos socialistas deverão insistir no maior egoísmo e na fuga
às responsabilidades. Por um lado, em vez de contribuírem para a criação de uma
solução colectiva, deverão fixar-se unicamente nos interesses nacionais. Por
outro, em vez de se concentrarem nos problemas económicos domésticos
estruturais, deverão continuar a esperar a ajuda externa e o financiamento externo,
quase sem perguntas, acreditando mais no Pai Natal do que uma criança de sete
anos.
Em termos económicos internacionais, o FMI voltou a avisar
sobre a deterioração das perspectivas e temo que a procissão ainda nem tenha
saído da igreja.
Em termos políticos nacionais, já se percebeu a fragilidade
da coligação que suporta o executivo minoritário do PS na votação do orçamento
rectificativo de 2015. O PSD ajudou a superar o problema, mas é menos claro que
se preste a um papel idêntico no caso do orçamento para 2016. Mesmo que este
seja aprovado, muito pouco tempo depois começará o Semestre Europeu, uma
espécie de visto prévio sobre as contas públicas, abrangendo já as linhas
mestras da proposta orçamental para 2017. Ou seja, não haverá tréguas em relação
às contas públicas, o que deverá colocar em permanente desgaste a instável base
de apoio do executivo minoritário.
Em termos económicos nacionais, a conjuntura externa em
deterioração, conjugada com as decisões do governo, nomeadamente a reversão da
privatização da TAP bem como uma subida do salário mínimo sem acordo na
Concertação Social, uma situação provavelmente inédita, deverão arrefecer a
economia e aumentar o desemprego.
A isto tudo deveremos acrescentar as surpresas completamente
inesperadas que sempre ocorrem, para concluirmos que temos um ano cheio de
desafios pela frente.
[Publicado no jornal “i”]
domingo, 27 de dezembro de 2015
Mais um “presente”
Estamos perplexos com
mais um buraco bancário, bem como surpreendidos com a “solução” escolhida pelo
governo
Pode-se dizer que em 1995 as nossas contas externas estavam
equilibradas num triplo sentido, que os anos seguintes destruíram. Por um lado,
o saldo corrente era ligeiramente positivo, por outro, a dívida externa era
praticamente inexistente e, finalmente, nesse ano iniciou-se a produção da
AutoEuropa, quase integralmente destinada à exportação, de produtos
tecnologicamente sofisticados.
Em vez de prosseguir a política de angariar grandes
investimentos externos e exportadores, para enfrentar a globalização e
sobretudo a concorrência emergente da libertada Europa de Leste, os governos de
Guterres e os seguintes lançaram-se numa fúria despesista, que gerou défices
externos, por duas vias. Quer pelo efeito directo de aumento da despesa, quer
pela pressão sobre preços e salários, que esmagaram as margens do sector
exportador.
Começam aqui parte das raízes dos problemas da banca com que
nos temos defrontado. Este excesso de procura que se verificou precisou de ser
financiado, o que os bancos fizeram com facilidade, devido ao optimismo da
caminhada para o euro. Hoje acusa-se a banca, com alguma razão, de ter
concentrado os seus créditos no sector não transaccionável, sobretudo
construção e imobiliário. No entanto, naqueles anos, era isso que fazia
sentido, quer no curto quer no médio prazo, já que aí as condições de
rentabilidade eram melhores e o risco menor, enquanto o sector exportador, com
as margens esmagadas, constituía um risco considerável. Infelizmente, a aposta
no sector não transaccionável não fazia sentido a longo prazo, por ser
insustentável.
Em termos estratégicos, a banca cometeu um erro, mas esse
erro foi induzido pelos incentivos errados gerados pela política macroeconómica
desastrosa a partir do final dos anos noventa.
A facilidade no acesso ao crédito no exterior, por parte dos
próprios bancos, levou muitos deles a criar um conglomerado de empresas, muitas
vezes incongruente e sem qualquer relação com o negócio bancário. Ainda não é
claro se isto foi a principal fonte de problemas do Banif.
O que é evidente é que a factura do Banif é
proporcionalmente superior à do BES e isso é extremamente surpreendente. Como o
são outros factos.
Como é possível que a gestão do Banif tenha proposto
sucessivamente oito (!) planos de reestruturação, que foram todos chumbados
pela Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia? Como é que o anterior
governo, com elevadas responsabilidades devido ao facto de o Estado se ter
tornado o accionista maioritário deste banco, permitiu isto? Como é que esta
série interminável de chumbos não alarmou o Banco de Portugal?
O Banif recebeu ajuda pública no final de 2012, pelo que
deveria ter passado a ser vigiado com particular cuidado. Em Julho de 2014, com
o desastre do BES, o Banco de Portugal deveria ter aprendido que muitos
problemas no sector poderiam estar escondidos, em particular nas empresas não
financeiras relacionadas, que o banco central tinha antes anunciado aos quatro
ventos que não fiscalizaria. Como é evidente, isso deu indicação aos bancos
onde é que deveriam esconder a “porcaria”. Como é que, um ano e meio depois do
colapso do BES, somos confrontados com um problema proporcionalmente ainda mais
grave?
Sem – de modo algum – esgotar as perplexidades associadas a
este caso, que deveriam ser esclarecidas por uma comissão verdadeiramente
independente, também tenho uma grande dificuldade em perceber os contornos da
“solução” escolhida pelo governo. Salvar os grandes depositantes ainda poderá
ser defendido, com o argumento de evitar o contágio aos outros bancos, mas
poupar os obrigacionistas seniores, agravando a factura dos contribuintes, é
absurdo.
[Publicado no jornal “i”]
domingo, 13 de dezembro de 2015
Perspectivas em deterioração
Quer o contexto
internacional quer o novo governo deverão resfriar a economia portuguesa
Esta semana, o Banco de Portugal divulgou as suas novas
previsões para a economia portuguesa, que foram ligeiramente revistas em baixa
(para 2016, o PIB deverá agora crescer agora 1,7% em vez de 1,9%), sobretudo
devido ao abrandamento do contexto internacional. Estas perspectivas estão
agora alinhadas com as da Comissão Europeia, mas ainda um pouco acima das do
FMI (1,5%), que está mais pessimista, não só em relação ao próximo ano, mas em
relação aos seguintes, em que prevê uma desaceleração da actividade, ao
contrário das outras duas instituições, que antecipam uma aceleração da
recuperação.
Infelizmente, penso que as estimativas do FMI são ainda
optimistas, porque assumem uma desaceleração mínima na China, de 6,8% em 2015
para 6,3% em 2016, o que parece estar longe do que se avizinha. A queda recente
do preço do petróleo, para um mínimo desde o início da crise de 2008, é um
indicador do enfraquecimento da procura global, da qual a China tem sido, de
longe, o principal motor.
Regressando a Portugal, em relação às influências internas,
os números do banco central foram calculados com base na usual hipótese técnica
de “políticas invariantes”.
Na verdade, sem tentar colocar números nos resultados,
parece que se podem inferir algumas consequências económicas resultantes do
novo enquadramento político. Em primeiro lugar, tem havido uma enorme
dificuldade em concretizar os acordos de esquerda e aquilo que aqui designei
como “prólogo orçamental” continua por concluir. Ou seja, é de admitir que as
decisões do novo governo permaneçam envoltas numa elevada incerteza até à
última hora, enquanto o próprio momento de decisão parece ser sucessivamente
protelado. Excepto nos casos em que a demora poderia permitir um debate e uma
reflexão aprofundada, como infelizmente foi o caso da decisão de eliminar as
provas do 4º quarto.
Esta incerteza deverá adiar decisões de investimento e pode
também levar os consumidores a criar poupanças de precaução.
Para além disso, as decisões já tomadas e outras que parecem
em vias de o ser, como a reversão de privatizações, a marcha atrás na reforma
do IRC e a subalternização da Concertação Social, espelham uma atitude anti-empresarial,
que só pode ter como consequência um recuo no investimento previsto, movimento
de que já há sinais evidentes, sobretudo naqueles que contactam de perto com
investidores.
Parece que o novo governo está a ignorar este tipo de
efeitos, enquanto espera que os estímulos orçamentais se traduzam numa forte
aceleração da economia, para 2,4% em 2016 e uns miraculosos 3,1% em 2017, um
valor que não é atingido há quinze anos. Estas perspectivas terão que ser em
breve revistas, quer devido à referida desaceleração internacional, quer devido
ao reconhecimento de que as metas orçamentais exigidas pela UE não permitem os
estímulos sonhados pelo PS. Para além disso, mas em relação a isso não espero
que haja já um reconhecimento deste facto, despejar dinheiros públicos pela
economia não se deverá traduzir tanto em crescimento, mas sobretudo em
importações.
Em relação ao futuro próximo, vejo duas incertezas
principais. Em primeiro lugar, qual o grau de influência que o PCP conseguirá
obter junto do governo, o que terá impactos significativos na relação com as
entidades patronais e recuo no investimento, bem como num maior descontrolo das
contas públicas.
Em segundo lugar, como é que a UE reagirá, quer à reversão
de reformas penosamente alcançadas com a troika,
quer a um menor controlo orçamental.
Teremos assim uma luta entre o PCP e a UE, por interposta
pessoa do governo socialista. Veremos quanto tempo levará até que a UE vença
este combate tão desigual.
[Publicado no jornal “i”]
domingo, 6 de dezembro de 2015
Programa de naufrágio
O programa do novo
governo baseia-se num diagnóstico errado, pelo que só pode defender uma terapia
desadequada
Um dos factos mais surpreendentes do novo governo é o
recurso a académicos prestigiados, não para usar as suas contribuições, mas
como sinal de qualidade, ao mesmo tempo que se lhes exige que desdigam os
estudos que fizeram no passado e que são a base da sua reputação. É estranho
que António Costa imagine que isso possa ser prestigiante para o executivo,
quando logo a discussão do programa do governo já mostrou que isso é mortal
para os ministros que se prestam a esse tipo de malabarismos.
Mas é também misterioso como é que alguém se presta a
destruir a sua reputação em troca de adquirir o estatuto de ministro, sobretudo
quando se antecipa que este será um cargo de duração limitada, quer devido à
fragilidade política deste governo, quer devido às múltiplas contradições em
que o ministro será confrontado, entre aquilo que afirmou como académico no
passado e o que agora diz no executivo, sendo impossível de acreditar que há
hoje um mínimo de convicção no que defende.
Temos assim um governo que faz um diagnóstico completamente
errado do problema de crescimento económico do país, o que só é possível porque
não há uma consciência nacional deste mesmo problema. Se houvesse a
consciencialização generalizada de que Portugal tem um grave problema de
crescimento há quinze anos, seria impossível qualquer executivo atrever-se a
sugerir que tínhamos deixado de crescer a partir de 2011, quando fomos forçados
a pedir auxílio à troika. Se houvesse
aquela consciência, provavelmente já teria sido possível gerar um alargado
consensual nacional, unindo partidos políticos, patronato e sindicatos, para
definir medidas que nos permitissem voltar a crescer de forma robusta. Infeliz
e extraordinariamente, apesar de este seriíssimo problema já estar connosco há
quinze anos, ele ainda não foi interiorizado.
Mas vamos aos factos. Em primeiro lugar, o crescimento médio
entre 2001 e 2007 (antes da crise) foi de 1% e entre 2001 e 2015 a média deverá
ser nula. Em segundo lugar, entre 1996 e 2011, a procura interna foi sempre
superior ao PIB, uma outra forma de dizer que tivemos défices externos.
Estes factos permitem-nos dizer duas coisas simples: há
quinze anos que Portugal tem um problema grave de crescimento; este défice de
crescimento não pode ser assacado a qualquer insuficiência da procura, que não
existiu durante aquele período. Ou seja, o programa do PS parte de pressupostos
completamente errados sobre os nossos problemas económicos, pelo que a terapia
sugerida (estimular a procura para promover o crescimento) vai falhar
rotundamente.
Esta terapia já foi aplicada no passado, pelos governos do
PS, e falhou estrondosamente: produziu estagnação económica e um endividamento
externo galopante (de 9% do PIB em 1995 para 104% do PIB em 2010), que nos
lançou nos braços da troika. Como é
que é possível de acreditar que aquilo que não funcionou, de modo algum, no
passado agora é que vai produzir efeitos? Mais ainda, este “modelo” de
funcionamento produziu crescimento e emprego na Grécia (algum dele artificial)
à conta de endividamento externo. Em Portugal, só produziu endividamento, não
teve sequer benefícios.
Para além de tudo isto, que não é pouco, temos que lembrar
que o nosso financiamento, do Estado, da banca e, indirectamente, das empresas,
está dependente de uma única agência de rating.
Não precisamos de fazer muita asneira para voltarmos a ter o financiamento
cortado e, eventualmente, a necessitar de novo de implorar por auxílio da troika.
O nosso passado está recheado de episódios de história
trágico-marítima e não necessitamos que este governo lhe acrescente mais um.
[Publicado no jornal “i”]
domingo, 29 de novembro de 2015
Recuo no tempo
O novo governo deverá
desfazer algumas das boas reformas dos últimos anos
As últimas semanas têm-se caracterizado pela confusão. Após o anunciado chumbo do novo governo
de Passos Coelho, parece que o PR imaginou que o poderia deixar em autogestão,
quando este enfrentaria um parlamento com uma maioria negativa em clima de
permanente guerrilha. Depois, pensou-se que poderia nomear António Costa, mas
com um pesadíssimo caderno de encargos, que lhe daria os mais variados
pretextos para uma demissão no curto prazo que medeia até ao fim do mandato
presidencial. Finalmente, conjecturou-se que o presidente aguardava pelas
votações decisivas agendadas para 26 de Novembro (a que chamei aqui de “prólogo
orçamental”), que revelariam a inviabilidade dos acordos de esquerda e
destruiriam, à vista de todos, a possibilidade de esta dar suporte parlamentar
a um governo minoritário do PS.
No entanto, Cavaco Silva optou por algo incompreensível,
quer no modo, quer no tempo. O PR indigitou António Costa com condições
aparentemente exigentes e também demasiado extensas. Era preferível que tivesse
feito apenas duas ou três exigências, mas que fossem de tal forma óbvias, que
se tornassem indiscutíveis. No entanto, cedeu logo, aceitando um documento do
PS, aparentemente sem quaisquer compromissos de onde eles eram necessários, do
BE e do PCP, que nem sequer foi tornado público.
A gestão do tempo também foi surpreendente, pela negativa.
Gastou demasiado tempo para a opção que fez, mas insuficiente para se conhecer
os resultados das votações da última quinta-feira. A propósito, como tinha
previsto, a esquerda não se entendeu. Assim, os diplomas baixaram à
especialidade sem serem (ainda) votados.
A confusão seguinte foi a do momento escolhido para a tomada
de posse do novo executivo, que veio a coincidir com o momento em que estavam
previstos as importantes votações parlamentares já referidas. Para a
generalidade das pessoas, isto será uma trivialidade.
Não concordo. Em primeiro lugar, é altamente surpreendente
este grau de amadorismo num regime com quatro décadas de existência e em dois
políticos que há tanto tempo ocupam posições cimeiras no sistema. Em segundo
lugar, isso revela também como ambos não estavam a dar a devida importância a
votações que podem ser decisivas para a sobrevivência do novo governo. Tudo
isto revela uma falta de profissionalismo e de consciência, que não é nada
tranquilizante.
Em relação ao novo governo, parece-me que este será não só de
desperdício de tempo em relação às reformas necessárias para interromper a
última década e meia de estagnação económica, como me parece que iremos
assistir a um recuo em relação aos tímidos progressos alcançados nos últimos
anos, devido sobretudo à pressão da troika.
Tenho uma extraordinária dificuldade em ouvir economistas
reputados a defender o estímulo da procura para o crescimento em Portugal,
quando essa receita não funciona há 15 anos nestas paragens, sendo muito mais
importante – e também muito mais difícil e lento – agir do lado da oferta.
Infelizmente, há economistas que, perante a pressão de
políticos, cedem tudo, engolem as ideias que resultam dos seus próprios estudos
e se mostram incapazes de mostrar firmeza e impedir os disparates de políticos
que vivem de manobras tácticas, para quem o bem comum é o mais insignificante
dos propósitos.
Há vários novos ministros sem força política e a quem parece
faltar também uma certa fibra psicológica, que lhes permitiria imporem-se. Para
garantir que este é um governo, do princípio ao fim, de António Costa, este
recusou dar o estatuto de ministro de Estado a qualquer membro do seu gabinete,
o que poderia colmatar algumas das insuficiências apontadas.
domingo, 22 de novembro de 2015
Prólogo orçamental
Os acordos de esquerda
podem revelar a sua insuficiência já na próxima semana
Algumas das medidas mais importantes de consolidação
orçamental foram deixadas fora do orçamento para que uma eventual declaração de
inconstitucionalidade não arrastasse consigo tudo o resto. Elas caducarão a 31
de Dezembro deste ano, não se lhe aplicando o princípio dos duodécimos, que é
usado quando no início de um determinado ano não existe ainda orçamento
aprovado e em que vigora o do ano anterior, mês a mês.
Entre aquelas medidas conta-se a sobretaxa do IRS e o corte
nos vencimentos dos funcionários públicos.
Os deputados do PàF já apresentaram uma proposta no
parlamento de uma reposição mitigada daquelas medidas, agendada para quinta-feira,
26 de Novembro, em que se prevê a eliminação em três anos da sobretaxa do IRS e
a redução do corte nos vencimentos dos funcionários públicos.
O PS tem plena consciência da necessidade da aprovação de
medidas semelhantes, embora defenda uma mais rápida supressão daquelas medidas
extraordinárias de consolidação orçamental, também agendadas para o mesmo dia.
Dado que existe esta divergência, o mais provável é que a
proposta da PàF seja chumbada pela esquerda, nesta matéria que poderá ser
encarada como o prólogo do orçamento para 2016.
O que já é mais incerto é o que o resto da esquerda fará,
dado os seus acordos conterem importantes omissões em matéria orçamental. É
possível que alguns partidos, em particular o PCP, não aceitem aprovar as
propostas do PS.
Alguns apelos de António Costa para que a direita se acalme
parecem sugerir que espera que seja ela a permitir a aprovação destas medidas
de restrição orçamental, que o resto da esquerda, mesmo em versão aliviada, poderá
reprovar. Ora o mais provável, por todas as razões, é que o PàF vote contra as
proposta do PS, quanto mais não seja para expor a incapacidade da esquerda em
se unir em torno do cumprimento dos nossos compromissos orçamentais. O fracasso
desta votação pode bem ditar o fim da ideia de um governo de maioria de
esquerda e, com isso, também o fim de António Costa como secretário-geral do
PS.
É provável que se iniciem movimentações para um congresso
extraordinário dos socialistas e que perca peso neste partido a tentação de
continuar a política de uma coligação negativa de esquerda. Aliás, é também
muito provável que regressem as lutas fratricidas à esquerda, sob os mais
diversos pretextos, entre os quais deverá avultar o que deverá opor a UGT e a
CGTP, em que aquela se livra da ameaça de ser esmagada pela central sindical
comunista.
Em termos políticos, esta derrota da esquerda poderá criar
espaço a que o PR nomeie um novo primeiro-ministro, que até poderá ser Passos
Coelho, que já não deverá enfrentar uma coligação negativa na AR e até poderá
aspirar a atingir a maioria absoluta, se conseguir negociar a participação do
BE no novo executivo, como tenho vindo a sugerir.
Em termos orçamentais, o novo governo poderá propor este
conjunto de medidas, numa versão a meio caminho entre as propostas iniciais do
PàF e do PS. Para que possam entrar em vigor, bastaria que o PS se abstivesse,
o que parece legítimo de esperar. Repare-se que, se as coisas se passarem como
estou a descrever (uma mera, mas provável conjectura), então o que se revelaria
como uma pura “perda de tempo” seria o chumbo do executivo de maioria relativa
do PàF, agravando a imagem de irresponsabilidade que recairia sobre António
Costa, mas também sobre o PS.
[Publicado no jornal “i”]
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