sábado, 11 de abril de 2015

Desemprego

Um dos desastres maiores da política portuguesa é a falta de memória e a falta de visão com que demasiadas medidas são tomadas. Parece que já (quase) todos se esqueceram que a principal razão porque fomos obrigados a pedir auxílio à troika foi porque acumulámos enormes problemas de excesso de procura e défice de competitividade, entre outros, que geraram uma série interminável de elevadíssimos défices externos e uma dívida externa superior a 100% do PIB, algo que seria impossível de acontecer fora do euro, porque teríamos sido obrigados a chamar o FMI muito antes de atingir aquela infeliz marca.

Para aquele défice de competitividade certamente que contribuiu o aumento nominal excepcional do salário mínimo de 25,7% entre 2007 e 2011, com as implicações que teve sobre todos os outros salários. Este aumento foi “permitido” porque se deixou de usar este valor como referência para as prestações sociais, tendo sido substituído pelo IAS (indexante de apoios sociais), cujo valor está congelado desde 2009 em 419€, muito abaixo do salário mínimo.

Para recuperar a competitividade, uma das medidas exigidas pela lógica e pela troika foi a “desvalorização interna”, já que uma desvalorização externa deixou de estar disponível desde a adesão ao euro. Esta “desvalorização interna” consiste, entre outras coisas, na descida dos salários reais. Isto tem acontecido de forma clara nos salários mais qualificados, em que os novos salários são muito inferiores aos daqueles que já estão empregados.

Dado que o salário mínimo tinha subido tanto antes da chegada da troika, era evidente que era aí que era necessário um congelamento salarial mais prolongado. Aliás, recorde-se que na Grécia foi exigido mesmo uma queda muito significativa do salário mínimo, de 22%.

Por todas estas razões, foi com enorme surpresa e desagrado que vários economistas (em que me incluo), bem como o FMI, assistiram à subida do salário mínimo, em Outubro passado, numa altura em que o desemprego permanecia demasiado elevado e o equilíbrio externo insuficientemente consolidado.

É verdade que no 4º trimestre de 2014 a economia registou alguma desaceleração, mais patente nos indicadores coincidentes calculados pelo Banco de Portugal do que nos valores do PIB divulgados pelo INE, mas não deixa de ser inquietante constatar a coincidência entre a data da subida do salário mínimo e o momento a partir do qual o desemprego começou a subir.

O mais importante é que o próximo governo, cuja composição e duração parecem cada vez mais incertos, perceba que o salário mínimo não pode ser alvo de voluntarismo nem de demagogia, sob pena de se aumentar o desemprego e reverter os benefícios da “desvalorização interna” entretanto alcançados.


[Publicado no DiárioEconómico]

Crise era inevitável?

O pensamento de Fernando Medina é um misto de fatalismo e de branqueamento de responsabilidades

Agora que Fernando Medina passou a ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa, ao contrário do que nos tinha sido prometido, é importante prestar mais atenção ao que ele pensa e já disse, porque é evidente que a sua proximidade a António Costa é elevada e o seu peso no PS está em crescimento.

Entre 2005 e 2009, foi nomeado Secretário de Estado do Emprego e da Formação Profissional, sendo Ministro do Trabalho Vieira da Silva. É importante recordar que foi durante este período que se fez a manigância de criar o Indexante de Apoios Sociais (IAS), que substituiu o salário mínimo como referência para diversas prestações sociais.

Com esta “esperteza”, o aumento do salário mínimo deixou de ter custos para o Estado e foi possível fazer toda a demagogia em torno de uma irresponsável subida extraordinária daquele referencial salarial. Para além disso, isso também permitiu aos governos de Sócrates desprezar os mais pobres, que praticamente não têm quem os defenda no espaço público. Recorde-se que o IAS está congelado, desde 2009, claramente antes da troika, em apenas 419€.

Medina foi ainda Secretário de Estado da Industria e Desenvolvimento no último governo socialista, o que, não lhe conferindo especiais responsabilidades, deixa-o próximo da sua actuação e consequências.

Mas, penso eu, mais grave do que fez e deixou fazer, é a visão que apresenta sobre esse período porque é como que uma promessa para o futuro.

Fernando Medina defende que não podíamos ter evitado a crise, mesmo que se tivessem tomado algumas medidas a partir de 2009. Esta descrição é um misto de fatalismo e de branqueamento de responsabilidades.

Antes de mais, dizer, como disse em entrevista recente ao jornal Observador, que o problema foi uma ruptura no mecanismo de financiamento da nossa dívida externa é escamotear que o problema era o crescimento imparável que esta vinha registando. É evidente que a nossa dívida externa estava numa trajectória insustentável e que em qualquer momento do tempo haveria uma ruptura nesse financiamento. Eu próprio avisei para o que se estava a preparar, no artigo “Défice e endividamento externo”, publicado na revista Economia Pura, em 2001, uma década antes de sermos obrigados a chamar a troika.

A argumentação de que a dívida externa era do sector privado e que o Estado não tinha nada a ver com isso é triplamente errada. Em primeiro lugar, o endividamento das famílias para a compra de habitação própria era estimulada por benefícios fiscais. Em segundo lugar, parte do endividamento das empresas e bancos tinha a ver com as manigâncias de financiamento que se criaram com as PPP, que apenas tentavam esconder dívida pública para que não aparecesse nas contas. Finalmente, o Estado tem a obrigação de zelar pela estabilidade macroeconómica do país, nomeadamente pelo equilíbrio externo e não pode simplesmente dizer que um desequilíbrio externo nos caiu do céu. Mesmo que isso fosse verdade, que não era, era obrigação dos sucessivos governos diminuir aquele desequilíbrio.

Esta coisa de dizer que a crise era inevitável sugere a comparação com uma pessoa que fumou três maços por dia durante 15 anos, ficou com um cancro e depois diz que o cancro era inevitável. Então e se só tivesse fumado um maço, também teria desenvolvido uma doença oncológica? Ou se tivesse fumado muito, mas durante muito menos tempo?

É evidente que há aqui doses maciças de branqueamento de responsabilidades e uma visão estritamente de curto prazo, incapaz de medir as consequências a prazo das acções governativas.

Isto é uma promessa de voltar a repetir todos os erros do passado e, nas eventuais novidades, pensar apenas se elas são imediatamente boas, independentemente das pesadas heranças que deixem.


[Publicado no jornal “i”]

Silva Lopes (1932-2015)

José da Silva Lopes era um dos nossos melhores economistas e certamente um dos mais intelectualmente honestos

O facto de ter morrido quinta-feira passada, no mesmo dia de Manoel de Oliveira, essa lenda do cinema, poderia ter feito com que os obituários a José da Silva Lopes fossem escassos. Felizmente, não tem sido esse o caso, vindo dos mais diversos quadrantes, a um dos nossos melhores economistas, que aliava um profundo conhecimento a uma rara independência de opinião. Apesar de ser de esquerda, nunca evitou dizer verdades inconvenientes, inclusive contra si próprio. Julgo que terá sido o único economista já reformado que defendeu os cortes nas pensões mais altas, sabendo obviamente que isso o prejudicaria, destacando-se claramente de todos os outros que colocaram os seus interesses pessoais acima dos interesses do país.

Era também um orador cativante e recordo-me vivamente do discurso que fez, no agradecimento de uma conferência organizada pelo Banco de Portugal em sua homenagem. O banco central já anunciou, aliás, em boa hora, que deverá organizar uma outra conferência em memória deste economista.

Naquela conferência falou da sua experiência profissional e política, tendo dito que começou numa época boa, com a procura por técnicos qualificados a subir muito e a oferta limitada.

A seguir ao 25 de Abril foi brevemente ministro das Finanças, durante um período conturbado, sendo governador do Banco de Portugal entre 1975 e 1980. Durante este período teve que se debater com a óbvia necessidade de desvalorizar o escudo e a oposição dos políticos, que temiam que isso colocasse em causa o apoio da população ao novo regime. Pode-se dizer que, pelo menos em alguma medida, foram os políticos que, ao ignorarem os avisos dos economistas, forçaram a primeira vinda do FMI, pouco tempo depois.

Em 1976, uma equipa do MIT, liderada por Eckhaus e incluindo Paul Krugman, esteve em Portugal, a pedido de Silva Lopes, para ajudar naquela fase de grandes mudanças. No obituário que já lhe escreveu no seu blog, Krugman recorda que este lhe disse que ter só seis meses de reservas [de divisas] é como não ter reservas nenhumas. Segundo este economista americano, esta ideia foi uma inspiração chave num dos seus primeiros trabalhos sobre as crises cambiais. Não resisto também a comparar a previdência do falecido economista com a imprudência de Sócrates, que gastou as reservas até ao limite, antes de pedir ajuda à troika, bem como o perigosíssimo jogo que o actual governo grego está a fazer, esgotando todas as reservas e preparando-se para ser o primeiro país desenvolvido a não pagar ao FMI.

Krugman também salienta a inteligência e o bom humor do nosso economista que, fazendo menção à importância da indústria têxtil no nosso país nessa época lhe disse que Portugal não era uma república das bananas, mas sim uma república dos pijamas.

Mas voltando àquela conferência em homenagem a Silva Lopes, o momento mais memorável da sua intervenção foi a descrição da luta entre economistas e políticos sobre a construção do porto de Sines. Com a subida do preço do petróleo em 1973 e a perda das colónias em 1975, era evidente que todo o complexo petroquímico que estava previsto para Sines tinha que ser revisto. Em particular, os economistas sugeriam que uma mera redução da capacidade do porto em 20% permitiria uma brutal contenção de custos, na ordem dos 50%. Mas os políticos levaram a sua avante. Pergunto eu: como é que querem que não associemos obras públicas a corrupção?

Como recordou Henrique Monteiro, no Expresso, enquanto presidente do Montepio criou o Prémio Escolar Montepio, destinado a premiar não as melhores escolas, mas algumas das piores que mais progrediam. Uma excelente iniciativa, de dar a mão aos mais desfavorecidos, uma marca nítida da sua genuína consciência social.

Pessoalmente, só contactei com ele uma única vez, quando ambos fomos a um programa do Prós e Contras, tendo falado só um pouco com ele no carro em que ambos apanhámos boleia, sobre o filho dele, Paulo, que eu conhecia, e a quem mando um abraço sentido.

[Publicado no jornal “i”]

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Justiça a regenerar-se?

As graves acusações contra Pinto Monteiro precisam urgentemente de ser investigadas

Nos últimos tempos, sobretudo após a mudança das primeiras figuras do sector, têm-se notado algumas mudanças na justiça.

Durante imensos anos, os portugueses não confiavam na justiça, porque esta era insuportavelmente morosa. Mas, a partir de certa altura, o foco da desconfiança mudou, porque passou a haver demasiados casos altamente suspeitos, que eram tratados com uma displicência desconcertante, que impedia de acreditar na isenção da justiça.

O centro comercial Freeport foi aprovado num local onde anteriormente tinha sido proibido um cemitério, com o argumento de que este atrairia demasiado tráfego. No entanto, o ministro do ambiente que ocupava o cargo quando essa espantosa autorização foi concedida quase não foi ouvido.

Aliás, em relação a este caso, sabemos que dois magistrados foram pressionados para não incomodar Sócrates e quem exerceu a pressão foi alvo de uma sanção disciplinar levíssima, quando deveria ter sido pura e simplesmente expulso do ministério público.

Também houve o estranhíssimo caso dos submarinos, em que houve culpados na Alemanha e que, num processo análogo, conduziram à prisão de um ex-ministro da Defesa na Grécia. Em Portugal, tivemos o vergonhoso arquivamento do processo por prescrição, que é sempre a situação mais escandalosa de todas.

Assistimos – indignadíssimos – a Cândida Almeida a declarar a uma televisão que um processo contra Sócrates foi arquivado, porque não foi paga uma taxa de justiça. Como é que algo de inimaginável como isto é sequer possível, quanto mais regular? Para além de termos sido insultados por esta mesma senhora, a dizer que não havia corrupção em Portugal.

Até que, muito recentemente, as coisas parece que começaram a mudar. Temos visto vários altos dirigentes públicos serem presos e agora até já temos um ex-primeiro-ministro preso, ainda que ainda em prisão preventiva e sem conhecer a acusação. Este último aspecto é altamente deplorável, porque não é admissível que alguém esteja preso durante vários meses sem conhecer, pelo menos, parte da acusação que justifica uma tal medida de coacção.

Infelizmente, ainda não estamos seguros que isto seja uma mudança e não uma mera alteração de protagonista, que poderá não durar. O juiz Carlos Alexandre já recebeu uma ameaça, uma pistola em cima de uma fotografia dos filhos, e esta semana teve o seu cão morto por envenenamento. Dois comentários breves: é evidente que isto não foi feito a mando de um inocente, mas de alguém que arrisca uma pena muito pesada e com ligações muito perigosas; é óbvia a necessidade de aumentar a segurança deste juiz e da sua família.

Finalmente, esta semana, ouvimos o novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas, acusar o antigo procurador-geral da República, Pinto Monteiro, de impedir investigações aos mais poderosos.

Esta acusação é, simultaneamente, extremamente grave e altamente verosímil. Só para os mais esquecidos, ainda há poucos meses, Pinto Monteiro teve o desplante de dizer que o almoço que teve com Sócrates pouco dias antes da prisão deste foi uma “coincidência”.

Perante esta fortíssima acusação, o ex-PGR já veio dizer que isto são “falsidades absolutas” e que prefere não “alimentar” o assunto. Esta reacção é inadmissível, porque Pinto Monteiro não pode permitir que se manche assim a reputação da instituição que liderou. A suspeita que se instala é que tem medo de “alimentar” algo que lhe pode ser altamente prejudicial.

Quem não precisa de andar em flutuações de estados de alma é a PGR, que tem a estrita obrigação de investigar as acusações gravíssimas de António Ventinhas. Das duas uma, ou elas são delírios sem fundamento e então o seu autor deve ser severamente punido; ou têm fundamento e, nesse caso, Pinto Monteiro deve pagar caro pelo que fez (e pelo que não deixou fazer).

[Publicado no jornal “i”]


PS. Por um curioso lapso, no jornal o título foi alterado para “Justiça a renegar-se?”

segunda-feira, 23 de março de 2015

Previsões do PS

Por estes dias, o PS deverá apresentar as suas previsões macroeconómicas para o período de 2015-2019, o da próxima legislatura, que servirá de base ao seu programa eleitoral. Vou antecipar-me a esse exercício, não criticando os números, como é evidente, mas os riscos conceptuais desta escolha.

Em primeiro lugar, será necessário explicitar um cenário para a envolvente internacional, disponível por parte de várias instituições, tais como o FMI (as que abarcam um período mais alargado), a OCDE, a Comissão Europeia, entre outras. Esperemos que o PS não venha com lirismos de mudança de políticas na Alemanha, que aconteceriam pela luminosa pressão dos socialistas. Não que tais alterações não sejam altamente desejáveis, nomeadamente na redução do excedente externo germânico, mas simplesmente porque isso não deve fazer parte do cenário central.

Só acrescento que percebo que não se considere isso nas previsões mas, pelo andar da carruagem, parece-me que a zona do euro é bem capaz de se desintegrar em algum momento deste período.

Em segundo lugar, aquelas previsões deverão ter subjacente um potencial de crescimento da economia portuguesa, que tem que ser coerente com o resto do programa eleitoral, que poderá estar a ser preparado nos bastidores.

Recordemos que este é o verdadeiro calcanhar de Aquiles da economia portuguesa, razão porque não cresce há 15 anos. No Memorando inicial com a troika, este potencial era suposto quase duplicar, de menos de 1% para 1,6% a partir de 2015. No entanto, devido à limitada extensão das reformas estruturais concretizadas, o FMI tem vindo a diminuir sucessivamente esta previsão, que está actualmente em apenas 1,1%, uma modestíssima melhoria face à década e meia perdida.

Este ponto é decisivo na avaliação das previsões do PS. Como todos sabemos, os socialistas opuseram-se a quase todas as reformas estruturais, essenciais para elevar o potencial de crescimento, tendo o seu foco permanecido nas questões mais “populares”, evitando falar nas medidas desagradáveis mas necessárias para voltarmos a crescer.

Se apresentarem previsões optimistas baseadas num aumento do potencial de crescimento, têm também de explicitar as reformas estruturais (inclusive sobre a competitividade) em que este aumento se baseia, sob pena de serem acusados de incoerência.

Em terceiro lugar, o crescimento dependerá da evolução da procura interna e, dentro desta, das previsões sobre as contas públicas. Ou seja, o cenário macroeconómico não pode ser muito claro sobre a margem orçamental, porque ele próprio depende das políticas orçamentais que venham a ser escolhidas.

Em resumo, estas previsões económicas que deverão ser apresentadas pelo PS, desligadas de opções políticas sobre reformas estruturais e de escolhas sobre a política orçamental, arriscam-se a ser um castelo de cartas.

[Publicado no Diário Económico]

Fiscalizar o Estado

A falta de fiscalização tem gerado um sentimento de impunidade, que poderá estar a mudar

Os últimos tempos têm sido pródigos em revelar vários podres do Estado português. Tivemos responsáveis da segurança social envolvidos em declarações falsas, grandes nebulosas em torno dos vistos Gold, um ex-primeiro-ministro em prisão preventiva e agora a lista VIP das finanças.

Entre estes casos e outros que me terão escapado parece pairar no ar a sensação de inédito, pese embora a fraquíssima memória no espaço público e a minha própria falta de memória.

É como se, até há alguns anos houvesse uma combinação infeliz de factores. Por um lado, uma fiscalização mínima, que fazia com que a probabilidade de ser apanhado fosse muito baixa. Para agravar este facto, as sanções disciplinares eram levíssimas e incluíam essa extraordinária “sanção”, a da aposentação compulsiva. Nunca consegui compreender como é que uma reforma antecipada sem qualquer tipo de penalização podia ser considerada uma sanção. Os culpados ficavam ganhar o mesmo do que os inocentes, mas com o “castigo” de já não precisarem de trabalhar. Parece que só no absurdo que é o Estado português é que uma coisa destas poderia acontecer.

Esta combinação de uma baixa probabilidade de penalização associada a uma penalização mínima é o caldo indicado para promover a corrupção e, o pior de tudo, o sentimento de impunidade pelos potenciais prevaricadores.

Note-se que não estou a lançar nenhum manto de suspeita generalizado sobre o sector público, mas apenas a chamar a atenção para os resultados que se devem esperar de diferentes conjuntos de incentivos. Se houver um sistema de fiscalização forte, que detecta desvios com elevada probabilidade, associado a um sistema de penalizações duras, é muito provável que a percentagem dos que, mesmo assim, são tentados a prevaricar, seja muito reduzida, digamos, apenas 1% do total.

Se, em contrapartida, o sistema fechar os olhos a quase tudo e, nos raríssimos casos em detecta um erro, a sanção é mínima, é muito mais provável que a percentagem dos que desrespeitam as regras seja muito mais elevada, de, digamos, 20%.

Reparem que em ambos os casos, a percentagem de prevaricadores é claramente minoritária, sendo ambos compatíveis com funcionários públicos maioritariamente respeitadores da lei. Só que o caso do 1% deve ser o que se verifica na Suécia e em Portugal a percentagem será certamente maior, por ambas as razões apontadas.

Estes casos que têm vindo a lume em Portugal parecem apontar para uma fiscalização que acordou e que está agora a analisar uma série de departamentos em que se tinha instalado um sentimento profundo de impunidade.

Considero o caso mais flagrante deste sentimento de impunidade o de José Sócrates, pela forma como passou a exibir “sinais exteriores de riqueza”. Estes sinais não residiam apenas no novo-riquismo constrangedor, como revelavam uma profunda insensibilidade social (um ex-primeiro-ministro que condena o país a uma duríssima austeridade ir esbanjar dinheiro para Paris), como estavam em profunda contradição com todas as suas declarações de rendimento e de património. Ficamos com a nítida sensação que ele, e muitos dos seus correligionários, nunca imaginou que “eles” se “atrevessem” a tocar-lhe.

Já há imensos anos que dizia que a prisão de José Sócrates era uma coisa que faria mais pelo combate à corrupção em Portugal do que mil leis e discursos.

Espera-se também que haja uma clara tomada de consciência da necessidade de fiscalizar muito mais o Estado. O que, ironicamente, deverá revelar ao princípio muitos casos, aqueles que foram cometidos no tempo do sentimento de impunidade. À medida que começar a ser interiorizado o sentimento de que isto agora mudou, agora a fiscalização é a sério, é provável pressentirmos uma redução da prevaricação, embora isso seja uma variável não observável.

Em relação à lista VIP das finanças, é possível que ela tenha sido criada por uma razão semi-boa: para proteger as figuras mais mediáticas da bisbilhotice dos funcionários dos impostos. No entanto, todos nós devíamos estar protegidos pelo sigilo fiscal e não apenas um pequeno número.


[Publicado no jornal “i”]

segunda-feira, 16 de março de 2015

1975

A Constituição que nasceu “torta” precisa de ser substituída

Há 40 anos, o golpe falhado de Spínola de 11 de Março de 1975 iniciou um período dos mais graves da nossa história recente, só em parte culminando a 25 de Novembro desse mesmo ano. O falhanço da tentativa insensata de Spínola (re)tomar o poder, serviu de pretexto para um recrudescer do poder comunista.

Poucos dias depois, deu-se início ao processo de nacionalizações (directas e indirectas), com graves danos para a economia nacional, de que ainda hoje sofremos as consequências. Em vez de darem lugar a indemnizações minimamente razoáveis, elas deram lugar a um quase confisco, uma brutal transferência de capital do sector privado para o público, onde foi drasticamente delapidado.

O país perdeu empresas dinâmicas, com gestão qualificada, muita da qual foi forçada a exilar-se, devido à histeria anticapitalista do momento. É verdade que hoje se regista uma fuga de cérebros, muitos dos quais em início de carreira, mas naquele momento emigraram aqueles que estavam no auge.

Entretanto, nacionalizadas as empresas, o lucro ou o serviço dos clientes deixou de constituir preocupação dos novos gestores. Aliás, numa empresa pública, um problema laboral não é apenas laboral, é também e talvez sobretudo político. Não tardou muito a que os sindicatos se apercebessem disso e durante anos foi o abuso foi total. Para quem não viveu esses anos, imaginem o que se passa hoje na TAP e no Metropolitano de Lisboa generalizado às maiores empresas nacionais.

Para além disso, dois factos da maior importância ocorreram, o choque petrolífero de 1973 e a perda do império colonial português, esta última em péssimas condições, em parte também devido ao aumento do poder dos comunistas, que tudo fizeram para sabotar uma descolonização digna. Estas duas alterações estruturais exigiriam repensar estrategicamente as maiores empresas portuguesas, mas para isso não havia tempo nem cabeça.

Entretanto, para animar à festa, teve início um conjunto de ocupações de herdades no Alentejo, onde ocorreu nova destruição de capital físico e uma forte quebra da produção.

Mais grave do que passou com a economia foi o que ocorreu com a criação de uma nova constituição. Para aceitar a realização de eleições para uma Assembleia Constituinte, os partidos políticos foram obrigados a assinar um Pacto MFA-Partidos, que impunha inúmeras condições sobre o conteúdo programático do que seria a próxima constituição, um total desrespeito pelas regras elementares de uma democracia.

A gravidade deste desrespeito é acentuada pelo resultado das eleições de 25 de Abril de 1975, que dão apenas 12,5% aos comunistas, fonte de inspiração daquelas restrições. Para além dos trabalhos da Assembleia Constituinte terem sido condicionados pelo malfadado Pacto, a acção dos IV e V governos, incompreensivelmente dominados por comunistas, em flagrante contradição com os resultados eleitorais, também teve o seu papel.

Um dos momentos mais escandalosos foi o sequestro da Assembleia Constituinte, em Novembro desse ano, se ainda restassem as menores dúvidas de que os deputados estão a trabalhar sob coacção.

Poucos dias depois, com o golpe militar de 25 de Novembro, os comunistas foram finalmente apeados do poder que usurpavam. No entanto, todos os artigos da Constituição já votados, sobretudo referentes à parte económica, mantiveram-se como estavam, não tendo ninguém tido a coragem de denunciar o óbvio, de que os trabalhos da Constituinte não tinham decorrido em liberdade.

Pois é este desastre constitucional que nos rege, ainda que parcialmente expurgado das partes mais abstrusas, como a irreversibilidade das nacionalizações.

Como diz o povo, “o que nasce torto, cedo ou nunca se endireita”. Parece assim que não vale a pena continuar a remendar esta Constituição “torta”, sendo preferível substituí-la por uma nova, que não seja um documento de facção, mas uma verdadeira constituição nacional, como têm as democracias europeias.


[Publicado no jornal “i”]

segunda-feira, 9 de março de 2015

Leis azuis

Nas últimas quatro décadas, a par do Estado social, vimos crescer um Estado burocrático, gigantesco e absurdo. Nos sectores mais surpreendentes, como a educação, é chocante a diferença entre a burocracia que era exigida aos professores então e aquela que é imposta agora.

Parece evidente a necessidade de fazer recuar este Estado burocrático, em particular aquele que tem origem na UE, onde um bando de insensatos pretende agora regulamentar autoclismos e aspiradores.

Desde logo, Portugal deve fazer pressão, juntamente com outros países, para haver um recuo na legislação europeia, para que haja, na prática, uma maior valorização do princípio da subsidiariedade.

Para além disso, é preciso parar com esta mania nacional de ser mais papista do que o papa, no que toca à UE. Houve uma destruição da agricultura e pescas, sem paralelo em Espanha, de cedências absurdas e lesivas do interesse nacional.

Em parte, esta híper-regulamentação europeia parece que já mais do que foi assimilada pelo legislador nacional e, pior do que isso, na fiscalização, onde se chegou ao cúmulo de andar a inspeccionar colheres de pau e bolas de Berlim. 

Em relação aos excessos de Bruxelas, leis absurdas que jamais deveriam ter sido aprovadas, nem lá nem em Lisboa, seria preferível que se instituísse a definição informal de “leis azuis”. Esta designação aplicar-se aos exageros legislativos comunitários, que os governos são forçados a fazer aprovar internamente, mas sobre as quais seria transmitida aos serviços uma instrução, redigida por um advogado competente, para se tornar totalmente incompreensível, que seria o código para algo muito simples: “esta lei é um aborto de Bruxelas e isto não se aplica nem se fiscaliza”.

Com este mesmo espírito, muita da actual legislação, de origem meramente nacional, deveria ser revista e, se possível, eliminada para todo o sempre.

Com esta abordagem, poupar-se-iam os cidadãos e empresas de muita micro-regulamentação vigente, cujo único propósito parece ser o de lhes infernizar a vida, sem qualquer benefício social visível. Também o Estado poderia emagrecer pela redução da carga burocrática a aplicar e a fiscalizar.

As presentes e futuras condições económicas, sobretudo o envelhecimento da população, irão provavelmente obrigar a uma redução do Estado social, quer queiramos, quer não. No entanto, se não desmantelarmos, em larga medida, o Estado burocrático absurdo que foi criado em paralelo e cujo benefício é mais do que duvidoso, mais cortes seremos forçados a fazer no Estado social.


[Publicado no DiárioEconómico]

domingo, 8 de março de 2015

Ilusões

A “austeridade” vai-se manter nas próximas décadas e o seu fim não traria o crescimento económico

Há em Portugal, e não só, muitas pessoas que pensam que a única coisa que nos separa da prosperidade é o fim da austeridade. Esta extrema ingenuidade, mais grave em dirigentes partidários, está a bloquear a reflexão sobre o muito que é necessário fazer.

Em primeiro lugar, quando se fala em austeridade, também se deveria considerar a reforma da despesa pública, que seria a forma “inteligente” de fazer austeridade. Em segundo lugar, é preciso perceber que nos aguardam várias décadas de “austeridade”, não imposta pela Alemanha, nem por nenhum outro papão externo, mas ditada pela nossa realidade interna.

Nesta realidade interna começa por pesar a dívida que acumulámos até hoje e não vale a pena dizer que muita dela surgiu após a chegada da troika (ou das “instituições”, se fizerem questão). É preciso repetir que parte se deveu ao reconhecimento de dívidas escondidas. Há quem defenda que poderia ter sido desenhado um programa mais escalonado no tempo, esquecendo que politicamente isso seria muito mais difícil de concretizar, devido ao cansaço provocado pela austeridade e à proximidade das eleições, o que é extremamente visível no orçamento deste ano.

De qualquer forma, partindo de um défice orçamental de quase 10% do PIB em 2010, era praticamente impossível reduzi-lo sem que isso provocasse um impacto recessivo. A recessão poderia ter apresentado um perfil diferente, mas não era evitável. Por isso, não faz sentido dizer que foi a troika que criou a “espiral recessiva”, porque esta foi gerada pelo descalabro orçamental produzido por um certo futuro presidiário.  

O que se pode criticar – duramente – é a impreparação do PSD, que, tendo chamado a atenção para a situação orçamental, não ter preparado qualquer tipo de reforma da despesa pública, menos ainda qualquer reforma do Estado, enquanto estava na oposição. Aliás, nem sequer no governo foram capazes de o fazer, tendo Paulo Portas fracassado vergonhosamente nesta tarefa que lhe foi confiada.

A outra dimensão da realidade interna que vai forçar a haver “austeridade” durante as próximas décadas é, em parte, o fraco potencial de crescimento (que poderá ser lentamente melhorado), mas, sobretudo, o envelhecimento da população, que vai pressionar duplamente as contas públicas, na saúde e nas pensões.

Para além disso, a nossa fraca natalidade (a mais baixa da Europa), que continua – inexplicavelmente – a não ser um tema sério de reflexão sustentada do debate político, vai contribuir para agravar estas perspectivas, já de si “desafiantes”.

Ou seja, não se espere que o Estado possa desempenhar qualquer papel de estímulo do crescimento, através da despesa pública, mesmo que esta tenha o nome aparentemente atraente de “investimento público”, rótulo sob o qual se têm perpetrado os mais incríveis disparates (não preciso de dar exemplos, pois não?) e as maiores corrupções (sugestões?).

Mas ainda bem que o Estado não pode estimular a procura interna, porque foi isso que foi feito na década antes de termos sido obrigados a pedir auxílio à troika, e em que Portugal teve a década de mais baixo crescimento do século precedente e isto não é uma figura de estilo. Essa despesa pública só nos trouxe endividamento, sobretudo externo, e muita dívida pública encapotada nas PPP.

Para crescer mais, o essencial é aumentar o nosso potencial de crescimento, um problema do lado da oferta e não da procura, muito mais difícil de concretizar.

Apesar dos progressos alcançados, é evidente que há ainda muito a fazer, sendo que a ineficiência da burocracia pública, as elevadas taxas de imposto, a dificuldade de financiamento, a instabilidade das políticas públicas e a legislação laboral são considerados os cinco maiores obstáculos ao investimento externo no país (Global Competitiveness Index, 2014, do Fórum Económico Mundial). Esqueçam a panaceia do investimento público, é aqui que está a chave do crescimento genuíno e saudável (e não estou a falar dos vistos Gold).


[Publicado no jornal “i”]

segunda-feira, 2 de março de 2015

Desfaçatez

António Costa começa a perceber que não poderá fazer nada de substancialmente diferente do que o actual governo tem feito

O novo governo grego não poderia ter começado pior. Inicialmente, hostilizou todos os parceiros a quem queria pedir favores, nomeadamente decidindo unilateralmente reverter algumas medidas negociadas com a troika.

Depois de umas semanas calamitosas, incluindo uma sangria imensa de depósitos dos bancos gregos, acabou por ceder em quase tudo. Para além disso, perdeu por completo a confiança dos seus parceiros, a quem diz uma coisa, enquanto ao seu eleitorado declara o fim da austeridade. Dá vontade de perguntar: estará a falar verdade a algum deles?

O máximo que a Grécia conseguiu foram mais quatro meses do actual programa de ajuda, mas nem um euro mais de financiamento, restando saber quão atribulados vão ser os próximos tempos.

Na linha de qualquer demagogo, o líder do Syriza descobriu uma mina de ouro chamada evasão fiscal e pretende tapar os buracos orçamentais com o minério que espera extrair daí.

Isto é sempre uma fantasia, mas o mais irónico é que, antes mesmo de ganhar as eleições, as perspectivas de vitória do Syriza introduziram a perspectiva de que alguns impostos impopulares seriam abolidos e que haveria um geral laxismo fiscal, um ambiente que levou muitos a não pagar impostos, ao ponto de as receitas fiscais em Janeiro terem ficado 23% abaixo do esperado. Ou seja, o novo governo grego apostava em algo, que ele próprio acaba de deteriorar. Desejo-lhe boa sorte.

Entretanto, em Portugal, António Costa tem protagonizado a mais extraordinária sequência de ziguezagues e falta de transparência. Primeiro, eram os ataques ao governo por se vergar à Europa, prometendo que o PS faria algo de muito diferente, falando com voz muito grossa, um dos seus acólitos até chegou a sonhar com a Alemanha a “tremer como varas verdes”.

Com a vitória do Syriza, sucedeu-se uma extraordinária série de piruetas, entre vitoriar o sucesso do Bloco de Esquerda grego, que praticamente liquidou o PS helénico, o PASOK, e defender o partido irmão. 

Agora que o Syriza teve que engolir praticamente todas as suas promessas eleitorais, António Costa teve o cúmulo da desfaçatez, num descarado insulto à inteligência dos eleitores e veio afirmar: “numa união a 28 não é possível prometer um resultado que depende de negociações com várias instituições, múltiplos governos, de orientações diversas”, pretendendo assim desculpar-se de não apresentar propostas concretas para um governo que tenciona liderar dentro de pouco mais de seis meses.

Dar o (péssimo) exemplo do Syriza não explica nada porque o novo governo grego fez tudo mal. Para além disso, se é evidente que o resultado final tem que ser negociado com os nossos parceiros comunitários, também é óbvio que Portugal tem que inciar as negociações com uma determinada posição de partida. É essa posição de partida que o PS tinha a obrigação de tornar pública.

Já que querem aprender com o exemplo do Syriza, uma das coisas que mais escandalizou os parceiros europeus durante as negociações foi a falta de trabalho de casa feito pelo novo executivo. Primeiro, começaram por umas vagas ou inaceitáveis declarações. Quando finalmente conseguiram entregar um documento, este era só conversa, sem números, sem definição de metas específicas em datas determinadas.

Não gostaríamos de ver Portugal humilhado nas instâncias comunitárias, por o próximo governo não se ter preparado convenientemente.

Na verdade, tudo indica é que António Costa começa a perceber que não poderá fazer nada de substancialmente diferente do que o actual governo tem feito, tal como já aconteceu com Hollande e agora com o Syriza amestrado, e está a tentar que o eleitorado português só perceba isso quando for tarde demais.

Finalmente, em relação às declarações perante investidores chineses, de que Portugal estava muito “diferente” do que há quatro anos, ficamos com a dúvida sobre quem é que o líder do PS quer enganar: os investidores estrangeiros ou os eleitores portugueses?


[Publicado no jornal “i”]