Reportagem no Observador, onde fui entrevistado, também em vídeo
(um pouco gago).
domingo, 22 de junho de 2014
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Maioria de esquerda?
António Costa e os seus apoiantes têm-se vindo a
especializar em mandar “bocas” sobre as quais não reflectiram nem 10 segundos.
Começou com a própria candidatura, ignorando os estatutos, e
seguiu-se a descoberta da “riqueza”, uma versão adulterada de crescimento
económico, de que ainda ninguém se tinha lembrado. Supõe-se que tencionam
contratar o Pai Natal para alcançar essa tal “riqueza”.
A última ideia “genial” é que António Costa, devido à sua
experiência de consensos na CML, tem condições para formar uma maioria de
esquerda. Como se chegar a acordo sobre jardins e bibliotecas fosse o mesmo que
chegar a acordo sobre como se gere um país no euro.
O PCP tem sempre encarado o PS como inimigo e nunca aceitou
participar em qualquer governo com este partido desde 1976. Agora que os
comunistas defendem a saída do euro é que vão aceitar participar num governo
com o PS? Alguém reflectiu sobre isto 10 segundos?
O PCP defende a saída do euro, sobretudo por uma questão de
soberania. A tese deste partido é inteiramente correcta: a participação no euro
diminuiu fortemente a soberania nacional. Fora do euro, o foco das atenções é o
equilíbrio externo, que pode ser resolvido com uma medida técnica muito
potente, a desvalorização, recomendada e aplicada por uma instituição
essencialmente tecnocrática, o Banco de Portugal. No euro, o foco dos problemas
é o equilíbrio orçamental, uma questão eminentemente política, a ser decidida
pela mais política das instituições: o parlamento. Que ficou com os seus
poderes coarctados com o Tratado de Maastricht e com o Tratado Orçamental.
Como é que, algum dia, o PCP se irá submeter aos rigores do
Tratado Orçamental, com o qual discorda frontalmente, que obrigará –
necessariamente – a sacrificar o seu eleitorado natural, os trabalhadores do
sector público?
Olhamos para o resto da esquerda e o panorama não se altera
substancialmente. O BE, que está em queda livre eleitoral, exige o repúdio da
dívida pública, quando não mesmo a saída do euro. Como é que o BE pode estar no
governo sem afugentar todos os investidores? O Livre quer revogar o Tratado
Orçamental e restruturar a dívida. Como é que pode aceitar fazer parte de um
governo com o PS?
O governo que sair das eleições legislativas continuará
vigiado pela troika e será forçado a
aplicar o Tratado Orçamental, que exige continuadas reduções do défice
orçamental durante muitos anos ainda. Desenganem-se todos aqueles que imaginam
que uma – altamente improvável – revisão deste tratado poderá aliviar a pressão
sobre Portugal, que tem duas dívidas elevadíssimas: a pública e a externa. A
todos aqueles que anseiam por uma libertação por via da restruturação da
dívida, convém recordar que uma – muito eventual – restruturação trará sempre
condições draconianas de reforma da despesa pública e da economia, como o preço
a pagar por esse benefício.
De tudo isto resulta que os únicos parceiros razoáveis do PS
no governo, capazes de cumprir o Tratado Orçamental, são o PSD e o CDS. Qualquer
governo que acene com a possibilidade de não o cumprir verá, imediatamente, os
mercados a fecharem-se e será forçado a um segundo resgate da troika, que obrigará a cumprir aquele
tratado. Ou seja, de uma forma ou de outra, terá que o cumprir.
As taxas de juro de longo prazo estão excepcionalmente
baixas devido aos riscos de deflação na zona do euro, que, de acordo com as
previsões do BCE, já se terão dissipado em 2015. Por isso, é muito provável que
o próximo governo sofra vários sustos na relação com os mercados, sobretudo se
vier com asneiras do calibre que temos ouvido nas últimas semanas.
Será excessivo pedir ao PS que comece a dedicar alguns
minutos de reflexão às suas propostas? Ou querem-nos convencer que ainda vão
conseguir ser piores do que Passos Coelho e Paulo Portas?
Como nota final, gostava de sugerir que tomem notas de todas
as críticas que o PS vier a fazer à proposta de orçamento para 2015, porque
todas elas poderão ser usar contra a proposta de orçamento para 2016 que o novo
governo vier a apresentar.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
O fim do regime?
António Costa iniciou a sua candidatura à liderança do PS da
pior forma possível. Começou por revelar uma estranha ignorância dos estatutos
do PS e, muito pior do que isso, uma profunda inconsciência da sua ignorância.
Pior do que políticos ignorantes, só mesmo políticos inconscientes desse facto,
que dispensam os conselhos de quem sabe. É de esperar os maiores estragos deste
tipo de políticos.
Em segundo lugar, aceitou participar num estranho processo
eleitoral, não previsto nos estatutos, do qual não sairá, pelo menos
directamente, um novo secretário-geral do PS. Muito mais grave do que isso,
aceitou um longuíssimo período eleitoral, que tem todas as condições para
denegrir ao máximo a imagem do PS junto do eleitorado.
Desenganem-se os que imaginam que só as eleições europeias
são de protesto, porque as legislativas de 2015 têm todas as condições para
maximizarem este tipo de voto. Não só o partido de Marinho Pinto tem –
infelizmente – excelentes condições para melhorar imenso a sua expressão
eleitoral, como há óptimas condições para a criação de novos partidos de
protesto, que deverão castigar duramente os partidos do “sistema”.
É altamente improvável que o PS consiga, no próximo ano,
qualquer tipo de votação próxima da maioria absoluta, pelo que deverá ser
forçado a coligar-se com, pelo menos, o PSD. O governo assim formado será
geneticamente muito frágil, que o PSD poderá derrubar a qualquer momento.
Quando António Costa, como tudo indica, for o próximo
primeiro-ministro de Portugal, existirão todas as condições para que seja uma
“reprise” do filme de Hollande, “sem as actrizes”, como diz Rui Ramos, com
fortes probabilidades de transformar o PS num novo PASOK, reduzido a uma
expressão eleitoral mínima.
O não reconhecimento dos graves erros do passado, a absoluta
ausência de ideias concretas de António Costa, acompanhada da sua fantasia de
propostas inconstitucionais perante o Tratado Orçamental, somada à pressão
externa da troika, que deverá
permanecer por largas décadas, deverão promover a maior contestação ao novo
governo. Parece que agora se lembrou de uma “terceira via”, a da “riqueza”.
Certamente que um dos primeiros actos do seu governo será decretar a descoberta
de petróleo no Beato…
Costa deverá cair muito mais nas sondagens do que Hollande,
porque há mais expectativas sobre ele e porque Portugal tem muito menos margem
de manobra do que, apesar de tudo, a França tem.
O PSD só terá que escolher a melhor altura para provocar
eleições antecipadas, para destruir, por completo, o PS. Mas também não se
ficará a rir, porque o regime está demasiado podre. A debilidade física, e não
só, de Cavaco Silva, só agravará o quadro político de calamidade.
Estão reunidas (quase) todas as condições para o fim do
regime. O que se seguirá é que é mais difícil de prever.
[Publicado
no Jornal de Negócios]
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Compreender o (não) crescimento
Ao contrário da
generalidade dos países europeus, a austeridade não é o principal problema para
o crescimento em Portugal e Itália
Agora que se iniciou a corrida para a liderança do PS e,
possivelmente, para a escolha do próximo primeiro-ministro, era conveniente que
os temas essenciais do país fossem tornados conscientes e discutidos.
Um desses temas incontornáveis é o par
crescimento/globalização, intimamente interligados. Ao contrário da
generalidade dos países europeus, e ao contrário da crença generalizada, a
austeridade não é o principal problema para o crescimento em Portugal e Itália.
No nosso caso, estamos com um problema de crescimento económico desde há 15
anos e no caso italiano há mais de 20 anos, muito anteriores à austeridade.
Em 1989, com a queda do muro de Berlim, deu-se a abertura do
Leste Europeu, a forma de globalização que mais nos tocava. Estes países estão
muito mais próximos do centro europeu, tinham trabalhadores com formação muito
superior à portuguesa e salários ainda mais baixos do que os nossos. Competir
com eles ia ser sempre difícil.
Nos primeiros anos, estes países tiveram que criar novas
instituições para passarem a viver em economia de mercado e que alterar a sua
estrutura produtiva, não sendo inicialmente muito atraentes. Neste período,
Portugal respondeu bem ao desafio colocado pela abertura a Leste, tendo
negociado a instalação da Auto-Europa em 1991, o último (!) grande investimento
de raiz que conseguimos atrair, que começou a produzir em 1995.
Este ano de 1995 apresenta um conjunto assinalável de
coincidências. Foi o último ano de um período de virtual equilíbrio externo,
iniciado em 1985, para além de ter marcado uma mudança de ciclo político.
Finalmente, e muito curiosamente, é o primeiro ano para o qual o FMI fornece
dados que nos permitem comparar o nosso rendimento por habitante com o dos
oito países do Leste que viriam a entrar na UE em 2004. Em 1995, todos estes
países eram mais pobres do que nós.
Entretanto, eles foram progredindo e Portugal foi ficando
para trás. Em 2002, a Eslovénia foi o primeiro a ultrapassar-nos, seguindo-se
mais cinco até agora. De acordo com as previsões do FMI, em 2019, a Polónia
também nos deverá passar à frente, sobrando apenas a Letónia e a Hungria como
mais pobres do que nós, mas em condições de nos ultrapassarem pouco tempo
depois.
Entretanto, em 1995, a China, o maior gigante da
globalização, tinha um rendimento por habitante que era 11% do português, mas em
2013 já atingia os 43% e em 2019 deverá subir para 57% do nosso rendimento.
Quem diz que “não podemos competir com a China” tem cada vez menos razão,
porque é cada vez mais isso que seremos forçados a fazer.
Gostava ainda de acrescentar que o envelhecimento da
população obrigaria sempre a uma reforma (leia-se “cortes”) do Estado social.
Se juntarmos a isso uma economia estagnada, seremos forçados a cortar ainda
mais no Estado social.
Por tudo isto, julgo que não é preciso insistir na
necessidade de reformas profundas que nos permitam voltar a crescer e a lidar
com sucesso com a globalização, muito para além de uma eventual reprogramação
da austeridade.
Esta mensagem está com muita dificuldade em passar: não é o
fim da austeridade (que nem poderá chegar tão cedo) que vai trazer crescimento significativo
a Portugal. É preciso muito mais do que isso, mas enquanto esta mensagem não
for assumida, vai ser muito difícil contrariar todos os interesses instalados
que não querem mudar. Em particular, ainda não ouvi nenhum economista da área
do PS a reconhecer isto publicamente. Mas é preciso ir muito para além disto, é
preciso os parceiros sociais reconhecerem isto, é preciso os portugueses
perceberem isto.
Propor a medida A ou B é inútil, enquanto o verdadeiro
objectivo dessas medidas não for colectivamente assumido.
Peço desculpa por me estar a repetir em relação a artigos
anteriores, mas é porque este assunto – crucial – ainda não foi interiorizado.
[Publicado no jornal “i”]
segunda-feira, 16 de junho de 2014
O tratado de Piketty
Thomas Piketty escreveu um dos livros económicos mais
importantes dos últimos anos, quanto mais não seja pela viva polémica (mesmo
que nem sempre interessante) que este tem provocado.
Tentando arrefecer um pouco o tom exacerbado do debate em
torno deste livro, saliento que o próprio autor assume, logo na introdução, que
“as respostas contidas aqui são imperfeitas e incompletas. Mas são baseadas em
dados históricos e comparados muito mais extensos do que os disponíveis a
anteriores investigadores, cobrindo três séculos e mais de vinte países.”
O tema central do livro é a distribuição da riqueza (leia-se
património) que, como este economista refere, já fazia parte das questões chave
da economia política clássica, nascida nos finais do século XVIII.
Na primeira parte, Piketty apresenta conceitos básicos para
a compreensão do resto do livro, revelando a preocupação do autor em o tornar
acessível ao público mais vasto possível.
A segunda parte traça a evolução da riqueza desde o século
XVIII e faz previsões para o século XXI. A extensão das bases empíricas é uma
das mais óbvias mais-valias do livro e este percurso da riqueza apresenta um
perfil muito interessante. Durante os séculos XVIII e XIX, o nível de riqueza
manteve-se relativamente estável, na generalidade dos países estudados, em
torno de seis a sete vezes o PIB contemporâneo. No século XX, as duas guerras
mundiais conduziram a uma queda drástica da riqueza, para níveis de apenas dois
ou três vezes o PIB. Numa nota pessoal, gostaria de sublinhar que este é um
caso claro em que as perdas de uns não têm que corresponder a ganhos de outros.
Retomando o livro, a partir do pós-guerra verificou-se uma subida continuada da
riqueza, aproximando-se, hoje em dia, dos níveis registados em 1913.
Para além disso, devo acrescentar que estimo que o fim do
euro, que poderá ocorrer nos próximos tempos, também deverá provocar uma
substancial queda da riqueza em praticamente todos os países da zona do euro,
inclusive na Alemanha.
Voltando ao livro, Piketty prevê que, devido ao baixo
crescimento, sobretudo por via da demografia, o nível de riqueza suba para
níveis iguais ou superior aos verificados num passado mais longínquo. É de
facto impressionante como mesmo um ligeira redução de algumas décimas no
crescimento faz aumentar de forma substancial o rácio de longo prazo entre a
riqueza e o PIB.
A terceira parte ocupa-se da desigualdade, que o autor prevê
que se agrave profundamente nas próximas décadas, se nada for feito para
contrariar esta tendência, que decorre do facto de a taxa de juro real ser
superior ao crescimento por habitante. Isto significa que os mais ricos, mesmo
gastando uma fracção não negligenciável do seu rendimento, verão o seu
património crescer mais do que o PIB. Desta forma, a riqueza herdada ir-se-á
tornando cada vez mais predominante.
Em termos históricos, a taxa de juro tem sido quase sempre
superior ao ritmo de crescimento, mas isso nem sempre conduziu ao aumento da
desigualdade. A excepção foi o período das duas guerras mundiais, em que os
mais ricos sofreram proporcionalmente mais, e o pós-guerra até aos anos 80, em
que a intervenção pública também contribuiu para limitar a desigualdade. A
partir daí, o liberalismo defendido por Thatcher e Reagan e amplamente copiado
trouxe um grande aumento da desigualdade.
A última parte, de recomendação de política públicas para
tentar minorar o agravamento da desigualdade previsto pelo autor é,
naturalmente, a mais polémica. Piketty começa por propor uma “utopia útil”, um
imposto mundial progressivo sobre o capital, para depois o restringir à escala
europeia.
A principal ideia que deixo é que, dado que este fenómeno é
relativamente lento, para além de incerto, é preferível aguardar pela eventual
concretização das previsões de Piketty, antes de tomar medidas drásticas e de
sucesso também ele arriscado.
No cômputo geral, considero este trabalho iniciador de uma
nova abordagem, extremamente promissora, para além de contribuir para recentrar
o debate público em torno do tema da desigualdade, a partir de um sólido estudo
teórico e empírico.
[Publicado no suplemento “LIV” do jornal “i”]
sábado, 14 de junho de 2014
Poirot e o BES
Ricardo Salgado nega que tenha conhecimento, desde 2008, das
dívidas escondidas no Grupo Espírito Santo, ao contrário do que diz o
ex-contabilista. Olhemos para este diferendo na perspectiva que Hercule Poirot
teria, usando as “celulazinhas cinzentas”.
No verão de 2007, rebentou a crise do sub-prime nos EUA, que
não afectou directamente os bancos portugueses, não devido a qualquer superior
sagacidade dos nossos banqueiros, mas simplesmente porque o sistema bancário
português sofria de um enorme défice de recursos, colmatado no exterior, não
sobrando fundos para investimentos mais criativos.
Aquela crise provocou estragos profundos no sistema
financeiro mundial, tendo levado quase à falência do até então prestigiado
banco de investimento Bear Sterns, salvo em Março de 2008. Em Setembro desse
mesmo ano, não foi possível evitar a falência de outro banco importante, o
Lehman Brothers. A partir daí, a crise passou do sistema bancário para a
economia, gerando-se a mais grave crise económica mundial desde o crash de 1929.
Os mercados monetários paralisaram, com todos os bancos a
desconfiarem de que todos os outros também poderiam estar falidos. Neste
contexto, é totalmente improvável que tenha havido um único banqueiro no mundo
que não tenha reavaliado, de fio a pavio, todos os seus activos e passivos,
para se inteirar da verdadeira situação do seu próprio banco e de todos os
outros com quem mantinha relações comerciais.
A brusca queda de liquidez nos mais variados mercados,
colocou o risco de fortíssimas desvalorizações de activos, sobretudo dos menos
padronizados, e foi necessário definir cenários de cotações a partir das quais
os bancos entrariam em situação de falência técnica.
É do domínio da mais risível implausibilidade imaginar que,
em 2008, sob o espectro da falência, o BES e todas as empresas do grupo não
tenham sido submetidas a um excepcional e exigentíssimo exame contabilístico.
Em contrapartida se, por absurdo, Ricardo Salgado, não tiver realizado esta
verificação, isto seria razão – mais do que suficiente – para o declarar como o
mais irresponsável e incompetente banqueiro português e a ser banido, para o
resto da vida, pelo Banco de Portugal, de exercer qualquer cargo num banco
português.
Mas regressemos a Poirot e à sua pergunta chave: “qual o
motivo?”. Que teria o contabilista a ganhar se escondesse à administração do
grupo BES a verdadeira situação do grupo? Todos conhecemos casos de
contabilistas que “embelezaram” as contas para se apropriarem indevidamente de
dinheiro. Neste caso, o contabilista não é acusado de desviar um único euro.
Não se descortina nenhum motivo que poderia ter levado o contabilista a agir
isoladamente, porque não teria nenhum ganho significativo com isso.
Em contrapartida, o que teria Ricardo Salgado a ganhar de
esconder a verdadeira situação do grupo? Tudo. Manteria o beneplácito dos
accionistas do GES; manteria a supremacia dentro da família (verificamos como
tem sido duramente contestada); ganharia muito mais exibindo lucros em vez de
prejuízos; manteria clientes do BES, entre outros benefícios. Repare-se o que o
grupo foi agora obrigado a fazer, inclusive perder o controlo do BES, para se
perceber o gigantismo da motivação do banqueiro.
De tudo isto, podemos concluir que a probabilidade de o
contabilista estar a dizer a verdade é mil vezes superior à de o mesmo se
passar com o banqueiro.
É preciso ser totalmente destituído de “celulazinhas
cinzentas”, ou, em alternativa, ser patologicamente ingénuo para acreditar na mais
do que inverosímil versão de Ricardo Salgado.
Para além de tudo isto, devemos lembrar que em inúmeros
casos de corrupção que têm vindo a lume, tivemos quase sempre o envolvimento do
BES, para além de um esquecimento de Ricardo Salgado de declarar rendimentos ao
fisco, “distracção” que foi alvo de uma benevolência surpreendente.
[Publicado no Observador]
quarta-feira, 11 de junho de 2014
BCE atrasado
As mais recentes
medidas tomadas pelo BCE poderão ser eficazes, mas vêm tarde
O BCE continua a agir com grande atraso, embora tenha que se
reconhecer que o seu actual presidente, Mario Draghi, tem revelado muito mais
criatividade e ousadia do que os seus demasiado ortodoxos antecessores.
A descida da taxa de referência em 0,1% para 0,15% deve ter
efeitos muito limitados, através da redução das taxas Euribor, que são
referência para muitos empréstimos, sobretudo em Portugal. Isso deverá criar
uma muito ligeira folga nos devedores e pouco mais. Isto é assim, porque os
canais habituais de transmissão da política monetária estão entupidos, tendo a
zona do euro deixado de ser um único mercado, para passar a estar fragmentado
em mercados nacionais, questão a que regressaremos em breve.
A taxa de juro dos depósitos no BCE deixou de ser nula, para
passar a ser negativa em 0,1%, uma decisão inédita no conjunto dos mais
importantes bancos centrais do mundo. Qual o impacto desta medida? Parece-me
que o impacto é incerto, mas potencialmente significativo. No auge da crise do
euro, os bancos dos países excedentários começaram a acumular montantes
prodigiosos de reservas acima do legalmente exigido, pelo receio que tinham de
emprestar estes fundos a bancos da periferia. Este problema ainda não está
completamente resolvido, mas o BCE já tinha conseguido diminuir os depósitos
excessivos duas operações de refinanciamento de longo prazo.
Há quem tenha manifestado o receio de que esta medida
levasse os bancos a exigir um pagamento pelos depósitos à ordem, para além de
baixar a taxa de juro sobre os depósitos a prazo. Julgo que nem na Alemanha tal
ocorrerá, mas em Portugal é que certamente que não (o pagamento pelos depósitos
à ordem). Os bancos portugueses continuam a ter, como um todo, um volume de
empréstimos superior ao de depósitos e, devido à tal fragmentação do mercado
monetário da zona do euro, continuam com dificuldade em financiar esta
diferença. Por isso, não se podem dar ao luxo de hostilizar os depositantes.
Outro efeito mais palpável poderia ser a desejável
depreciação do euro, a forma mais potente de reduzir de forma sensível os
riscos de deflação. Neste domínio, o BCE poderia actuar de forma mais forte,
assumindo – sem ambiguidades – uma severa crítica aos excedentes externos
elevadíssimos de alguns países da zona do euro, em particular da Alemanha.
Já que mais ninguém o faz, o BCE deveria sinalizar a
necessidade de coordenação das políticas macroeconómicas na zona do euro. Os
países periféricos foram obrigados a eliminar os seus défices externos e os
países excedentários deveriam diminuir os seus excedentes, para impedir que a
zona do euro atingisse o seu actual elevadíssimo superavit externo, que tem
duas graves consequências. Por um lado, provoca a apreciação do euro, que
dificulta o ajustamento dos países periféricos e é um dos elementos essenciais
dos riscos de deflação. Por outro, traduz-se na contracção da procura interna
da zona do euro, que debilita o crescimento económico e constitui um elemento
adicional nos riscos de deflação.
A decisão de estímulo ao crédito às PME é mais obviamente
positiva, embora chegue com “apenas” quatro anos de atraso. Em meados de 2010,
o mercado monetário da zona do euro fragmentou-se em mercados nacionais,
impedindo que as sucessivas descidas da taxa de juro de referência do BCE
tivessem o esperado efeito expansionista nos países periféricos.
Passado todo este tempo e os sucessivos resgates às
economias mais fragilizadas, só agora o BCE tomou consciência da necessidade de
reduzir as graves consequências da fragmentação do mercado monetário que
supervisiona. Quando se fizer a história do fim do euro, chegar-se-á –
obviamente – à conclusão que a incompetência do BCE, minorada por algumas decisões
acertadas, mas tardias, terão sido uma das causas mais importantes pela
gravidade com que o fim da união monetária chegou.
[Publicado no jornal “i”]
sábado, 7 de junho de 2014
Exame parlamentar
Como o primeiro-ministro muito bem salientou (alguma vez
tinha que acertar…), é preciso escrutinar muito melhor os juízes do Tribunal
Constitucional (TC), cujas decisões se têm revelado uma autêntica roleta
jurídica.
Como temos vindo a verificar, nem a própria maioria conhecia
o pensamento dos juízes que recomendou para fazerem parte deste tribunal. Isto
é a prova dos nove de que o actual sistema é completamente opaco.
Para resolver este magno problema sugiro que se copie a
solução adoptada pelos países que já inventaram a roda, nomeadamente os EUA,
onde os juízes candidatos ao Supremo Tribunal de Justiça são submetidos a um
exigente e extensivo exame parlamentar.
Todos precisamos de conhecer o pensamento dos juízes candidatos
ao nosso TC, em provas públicas no parlamento.
Exponho de seguida algumas das perguntas que me parecem
relevantes nesse exame. O carácter invulgarmalmente programático da
Constituição de 1976, dentro do panorama europeu (consegue imaginar a constituição
alemã dizer que o país está a caminho de uma sociedade democrata-cristã?),
parece-lhe um defeito a minorar pelo TC ou, pelo contrário, uma qualidade a
acentuar por este tribunal? Considera o Tratado de Maastricht, incorporado nos
actuais tratados europeus, conforme com a Constituição? Considera o Tratado
Orçamental, uma condição essencial para a permanência bem-sucedida do país no
euro, conforme com a Constituição? Considera que o Memorando de Entendimento,
assinado com a troika,
constitucional? Considera que os privilégios anteriormente atribuídos à função
pública, tais como reformas muito mais favoráveis do que no sector privado, o
acesso exclusivo à ADSE, proibição de despedimentos, entre outros, violaram o
princípio da igualdade e que deveriam ter sido declarados inconstitucionais
quando foram aprovados? Considera que a redução destes privilégios constitui
uma aplicação do princípio da igualdade ou, pelo contrário, uma violação deste
mesmo princípio? Considera que os sucessivos aumentos de impostos, sempre
declarados como provisórios, desde 2002, constituem uma clara violação do
princípio da confiança dos contribuintes no Estado, ou não? Considera que os
direitos de quem recebe pagamentos do Estado são superiores aos direitos dos
contribuintes? Considera que os princípios meramente implícitos na Constituição
têm força superior às obrigações do Estado português perante os tratados
europeus?
Deixo ao critério dos leitores a formulação de outras
perguntas relevantes para o conhecimento do pensamento dos candidatos ao TC.
Gostaria ainda de salientar que todos os candidatos a juiz do TC, mesmo os
cooptados, se deveriam submeter a este exame.
Como é evidente, este exame parlamentar não deveria ser
restrito apenas aos candidatos ao TC, mas também aos candidatos aos principais
cargos públicos. Seria utilíssimo que pudéssemos conhecer o pensamento do
candidato a governador do Banco de Portugal (e eventualmente dos seus
vice-governadores), a presidente do IGCP, do INE, da RTP (deverá dar um
festival memorável, muito mais interessante do que os festivais da canção) e
muitos outros, incluindo outras empresas públicas.
Imagino dois benefícios principais deste exame parlamentar
nos casos de cargos públicos, para além do TC. Em primeiríssimo lugar, a
eliminação prévia dos “boys” para além de medíocres, que se recusariam a ser
publicamente trucidados por uma comissão parlamentar particularmente exigente.
Também é provável que “boys” meramente medíocres fossem chumbados, retirando
parte substancial do atractivo actual desta “qualificação”.
Em segundo lugar, pela pressão que isso colocaria na escolha
dos deputados, que deixariam de poder ser escolhidos pelos mais misteriosos
critérios, para passarem a ter que ser pessoas (muito) mais qualificadas do que
hoje em dia.
[Publicado no Observador]
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Falta de responsabilidade
A decisão do TC é das
mais injustas e irresponsáveis
O chumbo do Tribunal Constitucional (TC) é uma decisão das
mais injustas e irresponsáveis de que há notícia. Quando se criaram privilégios
no sector público, sobretudo na forma de cálculo da pensão, impossíveis de
replicar, jamais foi invocado qualquer princípio de igualdade para declarar a
sua inconstitucionalidade. Quando agora se pretende corrigir a injustiça
vigente, harmonizando as condições nos sectores público e privado, eis que
surge, lesto, o outrora esquecido princípio de igualdade.
Para não falar na desigualdade existente nestes sectores em
relação ao desemprego, que, apesar de estar em queda, continua em máximos
históricos.
A irresponsabilidade do TC reside na ignorância das regras
do Tratado Orçamental, que implicará exigentes restrições orçamentais nas
próximas décadas e na insegurança com que Portugal concluiu o programa da troika. Será o cúmulo da
irresponsabilidade se o chumbo do TC nos levar a pedir um segundo resgate, o
que nos colocaria numa fragilidade profunda.
A má qualidade, no próprio plano jurídico, do acórdão do TC
ressalta também evidente da contundência das críticas dos votos de vencido,
sobretudo da juíza Maria Lúcia Amaral: “Não se invalida uma norma editada pelo
legislador democraticamente legitimado invocando para tal apenas a violação de
um princípio (seja ele o da igualdade ou da proporcionalidade) se se não
apresentarem como fundamento para o juízo razões que sustentem a evidência da
violação.”
Este abuso do TC, de violar – da forma mais escandalosa – o
princípio da separação de poderes e apropriar-se de poderes de decisão do
parlamento e do governo, tem, infelizmente, sido repetido em várias outras
instâncias do poder judicial. É urgente pôr cobro a estes abusos, ainda por
cima quando se verificam tantos atrasos na justiça. Se não têm tempo para fazer
o que apenas a vós compete, como se atrevem a desrespeitar o princípio de
separação de poderes e gastar os escassos recursos da justiça em matérias que
estão fora da vossa alçada?
Há uma questão que me inquieta sobremaneira e gostaria que
os leitores se perguntassem a si próprios: qual é a pessoa que sentem que,
neste momento, se assume, de forma profunda, verdadeiramente responsável pelo
futuro a médio e longo prazo de Portugal? Reparem que não estou a perguntar
quem é que se preocupa com o futuro, mas quem é que se sente responsável por
ele. A responsabilidade advém de duas características simultâneas: pensamento
estratégico e poder.
Comecemos pela negativa: Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo
Portas têm dado provas de apenas se preocuparem com a eleição seguinte. Eles
têm poder, mas não pensamento estratégico. Na oposição, Seguro e António Costa
competem pelo vazio de ideias para o curto prazo, quanto mais para o médio e
longo prazo.
Noutros cargos, continuamos com respostas negativas, em
relação ao TC e à generalidade das principais instituições públicas. As
universidades demitiram-se – por completo – de pensar o país, quanto mais de
assumir responsabilidades por ele. No sector privado, haverá responsabilidades
sectoriais, quando as há, e pouco mais.
Sou forçado a chegar à mais dramática das conclusões: desde
há décadas a esta parte, ninguém se tem sentido como verdadeiramente
responsável pelo futuro do país. Não admira, assim, que Portugal esteja há
tanto tempo à deriva e venha coleccionando erros, que redundam em desastres,
que todos pagamos com língua de palmo.
Estamos a precisar de um terramoto político, que reforme
compulsivamente a generalidade dos actuais líderes, não apenas políticos. Em
Itália, a operação Mãos Limpas conseguiu isso, mas não se pode dizer que os
novos protagonistas se recomendem.
Em Portugal, um terramoto semelhante jamais poderia ter
origem na justiça, que também está a precisar de uma purga profunda, não só
pelas razões invocadas acima. De onde surgirá este terramoto e quando? Não sei
de onde, mas imagino que será após as legislativas de 2015, que revelarão o
novo líder do PS como uma decepção ainda mais dramática do que a de Hollande.
[Publicado no jornal “i”]
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