quinta-feira, 22 de maio de 2014

Problemas políticos do euro

A criação do euro foi o mais grave erro cometido pelos Estados-membros da UE, que pode bem vir a ditar o fim desta.

O euro tem criado um nível ímpar de acrimónia dentro da UE, fazendo ressuscitar os piores fantasmas, que se julgavam mais do que enterrados. Isto deve-se à sua deficiente arquitectura económica e política.

O euro mudou o foco dos problemas e trouxe escassez e ineficácia nos instrumentos para a sua resolução.

Num país com moeda própria, o foco reside nas contas externas. Um país com um défice externo insustentável é obrigado a corrigi-lo e tem como primeiro instrumento a desvalorização. Do ponto de vista económico, é facílimo e rapidíssimo usar este instrumento e os resultados surgem com relativa rapidez. Em termos internos pode haver algumas resistências políticas, mas a inevitabilidade da medida cedo as dissipa. Em termos externos, a eventual oposição política dos parceiros comerciais também se ultrapassa com facilidade, devido ao caracter incontornável desta correcção.

No euro, o foco dos problemas desloca-se para as contas públicas. Em termos económicos, corrigir um défice público elevado é um processo que demora vários anos e é pouco eficaz na recuperação da competitividade. Mas as dificuldades principais, não são as económicas, que não são pequenas, mas os obstáculos políticos.

No plano político interno, a redução do défice público implica reduções da despesa e aumentos de impostos, que são medidas altamente impopulares. Em termos externos, o Tratado Orçamental de 2012 trouxe insuportáveis pressões externas, que são um verdadeiro insulto à soberania nacional. Não contesto a necessidade das regras deste tratado, concordando mais com as determinações sobre o défice público do que sobre a dívida pública, mas saliento as suas graves e continuadas implicações políticas.

Portugal, com a sua proverbial falta de auto-estima e subserviência às potências europeias, poderá não sentir inteiramente a gravidade destes problemas. Mas, para outros países, a interferência de outros Estados no orçamento anual é vista como uma inadmissível afronta à soberania nacional.

Não surpreende, por isso, a esmagadora oposição à UE, que se deverá materializar nas eleições desta semana. Desiludam-se todos aqueles que imaginam que se trata de um problema apenas nas margens dos sistemas políticos, por duas razões. Em primeiro lugar, porque, pelo menos em França e no Reino Unido, esses partidos poderão ganhar as eleições. Mas sobretudo pela segunda razão: é quase impossível os partidos do centro político assistirem impávidos a estes rombos eleitorais e não serem, em alguma medida, contagiados pela agenda contestatária.

Por tudo isto, há fortes condições para que a crise do euro renasça nos próximos tempos. A recente descida acentuada das taxas de juro na zona do euro, sobretudo nos países periféricos, é fruto de um problema, o risco de deflação, e não de se ter encontrado uma solução para a crise. Os sintomas da doença abrandaram, mas esta permanece quase intacta.

Por isso, o euro será sempre perseguido por conflitos internacionais graves até àquele que provocará o seu colapso.

[Publicado no Jornal de Negócios]

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um país desfocado

Parece que a troika é que é o problema e que não foram os nossos erros que nos obrigaram a pedir ajuda

Ao chegar ao fim o programa de resgate da troika, estamos perante um país profundamente desfocado.

Parece que para a maioria dos portugueses e, pior ainda, das “elites”, o principal problema do país são os estragos provocados pela troika. A votação do eleitorado, nas últimas décadas, em governos desastrosos, que nos atiraram para os braços da troika, não constitui o menor problema, o que é mesmo grave é a troika.

Toda a incompetência, irresponsabilidade e corrupção dos governos das últimas décadas é uma questão de somenos. Fizeram-se os mais ruinosos – e suspeitos –contratos públicos, mas o problema mesmo foi a troika. Em vez de enfrentarmos o dificílimo desafio da globalização, andámos a construir estradas sem tráfego e estádios de futebol, mas a Merkel é que é má.

Isto é o equivalente a uma pessoa que fumava três maços de cigarros por dia e que desenvolveu um cancro no pulmão culpar a quimioterapia pelo seu sofrimento. Como se a quimioterapia tivesse caído do céu, por puro sadismo médico, e houvesse uma óbvia alternativa indolor, talvez tomar uma chávena de chá esverdeado com raspas de limão ao pequeno-almoço, almoço e jantar. E já há quem defenda que devemos voltar a fumar dois ou três maços de tabaco por dia.

Em relação ao nosso – grave – problema de (falta de) crescimento, o desnorte não poderia ser maior. Há 15 anos que Portugal enfrenta um problema gravíssimo e raríssimo de fraco crescimento, que nos colocou numa trajectória de divergência estrutural da UE, apesar de estarmos a receber fundos comunitários, com o propósito de convergirmos. Apesar destes desastrosos resultados, parece que ainda ninguém colocou em causa o destino disparatado que tem sido dado a estes fundos, sempre na ânsia de inventar “investimentos” absurdos, para “aproveitar os fundos europeus”.

Parece que a falta de crescimento económico surgiu com a “malvada” troika e que antes disso vivíamos no paraíso, sem a necessidade da mais leve correcção. 

O capítulo das reformas estruturais da troika, que nos permitiriam – talvez – voltar a crescer de forma robusta, foi desvalorizado pelo governo e completamente ignorado e atacado por todas as corporações e interesses, empenhadas em permanecer as mais gulosas sanguessugas do Estado e dos contribuintes.

Nada é mais surreal do que isto. Em vez de sermos nós a preocuparmo-nos com a nossa saúde, são os nossos credores que, contra a “nossa” vontade, mais se preocupam com a nossa saúde. Eles bem tentam que deixemos de fumar, mas “nós” insistimos em voltar a fumar o máximo de cigarros possível. Parece que estamos empenhados em maximizar a cigarra em “nós” e em minimizar a formiga.

Os curandeiros nacionais, numa visão caricatural da teoria keynesiana, insistem em que o nosso problema de crescimento reside na falta de procura, apesar de o nosso crescimento miserável dos últimos 15 anos ter convivido, quase sempre, com um excesso de procura, obviamente visível nos nossos gigantescos défices externos, recentemente corrigidos.

É evidente que a austeridade teve o seu impacto recessivo, mas não é o fim da austeridade que nos vai trazer o crescimento de volta, porque o essencial desse problema é muito mais antigo e está do lado da oferta e não da procura.

Andam para aí umas discussões de mudar umas décimas à austeridade, como se isso mudasse alguma coisa de essencial, quando é uma questão completamente à margem do que é fundamental.

Para voltarmos a crescer a sério temos que nos tornar verdadeiramente atraentes para o investimento directo externo (IDE). Menos austeridade para gastar dinheiro em coisas que tornem Portugal mais atraente para o IDE faz todo o sentido. Menos austeridade para adiar reformas da despesa pública não faz sentido nenhum.

Parece que os portugueses não aprenderam nada com aquilo que nos levou à troika e que caminhamos, na maior das inconsciências, para o quarto resgate externo desde o 25 de Abril.

[Publicado no jornal “i”]

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Riscos de deflação

Estamos num equilíbrio estreito, beneficiando com os riscos de deflação, mas podendo ser muito prejudicados, quer pela eliminação destes riscos, quer pela sua concretização

A deflação é o oposto da inflação. Quando há deflação, os preços baixam de forma continuada. Para muitos, isto poderia ser visto como uma vantagem, mas não é assim.

Comecemos com o problema de uma inflação muito baixa, que já apresenta desvantagens assinaláveis. Para que os diferentes mercados de uma economia estejam em equilíbrio é necessário que os preços evoluam de forma diferenciada, porque a procura não varia uniformemente em todos os mercados e os progressos tecnológicos e os custos também variam de forma específica a cada mercado. Em particular, são necessárias variações dos salários reais (corrigidos da inflação) que, em alguns casos, necessitariam de diminuir.

Um sector que necessite de uma redução dos salários reais em 5% para se re-equilibrar poderá conseguir isso congelando os salários nominais durante dois anos, se a inflação estiver nos 2,5%. Mas, se a inflação for apenas de 0,5%, precisaria de 10 anos para obter o mesmo resultado e, muito provavelmente, teria que recorrer a despedimentos em número significativo, porque as empresas não conseguem ficar tanto tempo a suportar custos excessivos. Isto também resulta da quase impossibilidade legal de reduzir os salários nominais, pelo que um nível moderado de inflação ajuda ao ajustamento da economia e das empresas e evita algum desemprego.

O caso da deflação é mais grave. Para além de agravar o problema descrito atrás, a deflação cria dois novos problemas: o adiamento da despesa e a subida das dívidas em termos reais. Quando se instala a expectativa da redução continuada dos preços, muitos consumidores e empresas adiam decisões de consumo e investimento, esperando fazê-las mais tarde, a preços menores. Estes comportamentos, inteiramente razoáveis a nível individual, criam graves problemas colectivos, de baixo crescimento ou mesmo recessão.

A descida dos preços torna as dívidas mais pesadas em termos reais e isso é péssimo para uma economia tão endividada como a portuguesa.

O exemplo mais flagrante deste problema registou-se no Japão, que lutou quase vinte anos com um problema de deflação persistente, estando finalmente a sair desta situação.

Neste momento, a zona do euro já está a lidar com a questão da inflação baixa, que se poderá agravar com a passagem para um estado de deflação. O BCE, ainda que desvalorize os riscos de deflação, já começou a prometer lutar contra eles. É isso que explica a extraordinária descida das taxas de juro de longo prazo, de que Portugal tem vindo a beneficiar de forma muito significativa. 

Estamos perante um caso muito irónico. Por um lado, Portugal tem beneficiado – muitíssimo – dos receios de deflação, com quedas excepcionais das taxas de juro, mas, por outro lado, teria imenso a perder com a concretização destes riscos.

Esta questão é um pouco subtil e espero conseguir transmiti-la aos leitores. A eliminação completa dos riscos de deflação na zona do euro seria muito negativa para Portugal, porque faria subir as taxas de juro de longo prazo para níveis mais consentâneos com a nossa verdadeira condição económica. É possível, e até mesmo provável, que fossemos obrigados a pedir um segundo resgate, se uma qualquer perturbação externa desencadeasse uma escalada das taxas de juro.

O ideal, neste momento, para Portugal, não é nem o desaparecimento completo dos riscos de deflação, nem a concretização destes riscos, mas apenas um caminho estreito, em que há riscos de deflação mas estes não se materializam.

Se as expectativas do BCE se confirmarem, ajudadas pelas medidas que este banco central venha a tomar, em meados de 2015, é provável que os riscos de deflação se tenham desvanecido. Ou seja, é possível que, aquando das próximas eleições legislativas, no próximo ano, Portugal assista a um aumento das taxas de juro de longo prazo, que deverão condicionar, de forma sensível, as opções políticas do governo saído dessas eleições.


[Publicado no jornal “i”]

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Constituição inadaptada

 Ou mudamos a Constituição ou saímos do euro

1. As subidas de impostos incluídas no DEO 2014-2018 são apenas um aperitivo do que nos espera, pelo menos, nas duas próximas décadas. Bem pode o governo tentar enganar-nos, mas julgo que nem o mais ferrenho militante dos partidos da maioria não percebe o óbvio.

Estes aumentos de impostos resultam de duas causas: a inépcia do governo e a Constituição. A incapacidade do governo resulta evidente da ausência de uma sombra de reforma da despesa pública, quase três anos após tomar posse, em circunstâncias dificílimas, que não só pediam como legitimavam a tomada de medidas duras mas eficazes, logo no início do seu mandato.

A segunda causa reside na Constituição e, em particular, na abstrusa interpretação que o Tribunal Constitucional (TC) tem vindo a fazer dela, em especial no menosprezo pelas restrições impostas pelos tratados internacionais assinados pelo Estado português, com um larguíssimo consenso parlamentar, em particular o Tratado de Maastricht de 1992, e o Tratado Orçamental de 2012.

Estes tratados impõem uma forte redução dos défices orçamentais e deverão obrigar a uma apertadíssima disciplina orçamental durante, pelo menos, mais vinte anos. Para além disso, mesmo após o cumprimento das exigentes metas destes tratados, Portugal continuará sujeito a uma forte pressão sobre as contas públicas, devido ao envelhecimento da população, que gerará dificuldades brutais, pelo seu impacto sobre a saúde e as pensões.

Mas, de acordo com a absurda leitura que o TC faz da Constituição, cortes permanentes da despesa são inconstitucionais, pelo que só nos restaria uma continuada e sufocante subida de impostos nas próximas décadas.

Este cenário é uma loucura em termos económicos, para além de ser uma escandalosa injustiça, quando os trabalhadores com mais baixos salários são obrigados a pagar impostos crescentes para manter intocadas generosíssimas pensões públicas, que não têm nada a ver com as carreiras contributivas de quem as recebe.
Por tudo isto, é óbvia a conclusão: ou Portugal adapta a Constituição às condições exigidas à permanência no euro, ou saímos do euro.

2. As redes sociais andam – muito legitimamente – inflamadas com uma multa aplicada a um músico de rua em Lisboa que, logo da primeira vez que foi abordado, desconhecendo a absurda regulamentação camarária, foi multado por não ter licença para o fazer. Porque é que existe a necessidade desta licença? Por acaso o funcionário municipal que passa a licença exige provas de que o músico seja afinado? Tem este funcionário a menor habilitação para o fazer?

Este caso é excelente para exemplificar o Estado anti-social que temos. Também sugere a reforma da despesa pública que é urgente concretizar.

Estamos perante um caso de perfeito masoquismo fiscal. Pagamos impostos para pagar uma administração pública que exige coisas sem sentido. Depois, pagamos mais impostos para financiar uma polícia municipal, que se entretém com questões de lana caprina, para reprimir actividades com um alto valor acrescentado em termos turísticos, um sector com uma das maiores potencialidades de nos retirar do buraco em que estamos.
Tudo isto não é obviamente errado? Pagar impostos para que o Estado reprima as hipóteses do nosso sucesso não é o mais disparatado dos erros? Nós, cidadãos, podemos continuar a tolerar isto? Queremos mesmo pagar impostos para subsidiar o absurdo? Queremos pagar impostos para criar miséria? Digam de vossa justiça.


[Publicado no jornal “i”]

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Cautelar ou 2º resgate?

Sem grandes surpresas, quer porque era isso que os nossos parceiros desejavam, quer porque os mercados estão particularmente favoráveis, o governo optou por uma saída sem programa cautelar.

O Estado tem, neste momento, uma almofada financeira, quelhe permitiria dispensar os mercados até Março de 2015. Por isso, diz o governo, o cautelar fica como uma opção a que poderemos recorrer no futuro.


Isto é verdade se, ao contrário do previsto no Orçamento de Estado de 2014, o governo não reduzir os depósitos (em cerca de 2% do PIB). Se deixamos de ter o financiamento da troika, precisamos de manter uma margem de segurança, que nos permita pagar as contas, mesmo que os mercados se fechem por largos meses. Caso contrário, será mais provável pediremos um segundo resgate do que um programa cautelar. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O 25 de Abril e a economia

O 25 de Abril trouxe fortes perturbações à economia e agravou o choque petrolífero de 1973

O 25 de Abril de 1974 ocorreu num momento económico particularmente azarado. Em Agosto de 1971, o presidente dos EUA, Nixon, tinha declarado a fim da convertibilidade do dólar em ouro, colocando um ponto final no sistema monetário de Bretton Woods, criado em 1944. Quase três décadas de câmbios fixos chegavam ao fim, bem como a estabilidade que este sistema tinha trazido.

Mais grave do que isso, o choque petrolífero de Outubro de 1973 ajudou a pôr termo ao um “período de ouro” de crescimento, que seria seguido pela Grande Inflação dos anos 70. A redução do potencial de crescimento que se lhe seguiu, por toda a Europa, travou a forte emigração portuguesa dos anos 60, que tinha sido uma importante válvula de escape da nossa economia, bem como uma muito significativa fonte de rendimentos.

Pode-se tentar despejar sobre o choque petrolífero de 1973 muitos problemas de que a economia portuguesa veio a sofrer posteriormente, mas isso não é inteiramente honesto.

Um choque externo nunca é apenas um choque externo, já que temos sempre que considerar a resposta nacional. Só nos casos em que a reacção nacional tenha sido no sentido de o minimizar é que poderemos falar sobretudo num choque externo.

O que fizemos em relação àquele choque petrolífero foi no sentido de o minimizar? Não, pelo contrário, maximizámo-lo e isso foi consequência directa do 25 de Abril. Um país altamente importador de petróleo tem que responder a uma subida dos preços desta matéria-prima com uma desvalorização, uma redução dos salários reais e contracção da procura interna.

Como a política de “escudo forte” era um aspecto muito valorizado do Estado Novo, os governos do novo regime tiveram um enorme receio de desvalorizar, com medo de que surgissem saudades do anterior regime. Por isso, a desvalorização do escudo foi adiada da forma mais irresponsável possível.

Quanto aos salários reais, não só não desceram como subiram fortemente. Basta recordar a criação do salário mínimo, em 1974, que foi fixado a um nível tão estratosférico, que nunca voltou a ser igualado, em termos reais, até hoje, apesar dos significativos progressos económicos registados desde então.

Outra consequência economicamente devastadora da revolução dos cravos foi as nacionalizações, directas e indirectas, decididas em Março de 1975. Por mais que se critique os principais grupos económicos da altura, pelos benefícios decorrentes do “condicionamento industrial”, é impossível pretender que as empresas públicas decorrentes daquelas nacionalizações, mastodônticas e proverbialmente ineficientes, pudessem constituir uma alternativa ao dinamismo da iniciativa privada.

Aliás, as nacionalizações e perseguição aos dirigentes levou à fuga de Portugal de alguns dos nossos melhores quadros, uma “fuga de cérebros” grave num país com fortes debilidades na formação. O discurso anti-capital também gerou uma relevante fuga de capitais, que a legislação que a proibia não conseguiu impedir.

Por tudo isto, não é minimamente credível argumentar que o abrandamento da economia se deveu ao choque petrolífero e não ao 25 de Abril.

O fim da guerra colonial também trouxe um enorme “dividendo de paz”, já que as forças armadas consumiam 40% do orçamento. Esta folga terá permitido aumentar o Estado social, então muito incipiente.

A forma como a descolonização foi conduzida pelo MFA, a favor da URSS e não das populações das ex-colónias, gerou também um êxodo maciço de “retornados”, cuja integração foi um autêntico milagre, sem os conflitos que outros fenómenos semelhantes, mas muito menos expressivos, ocorreram em outros países, nomeadamente em França.

O rapto do 25 de Abril pelas forças pró-comunistas e anti-capitalistas gerou, em suma, gravíssimas consequências económicas, que constitui um fortíssimo exemplo negativo. O nosso cardápio completo, de todos os erros que não se devem cometer, ajudou enormemente Espanha a fazer uma transição democrática muito mais tranquila e muito menos perturbadora da economia.


[Publicado no jornal “i”]

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Recuo de sintomas

A correcção dos défices externos dos países periféricos não está a ser acompanhada de uma correcção simétrica dos superavits externos dos Estados mais fortes, que ocorreria, num grau significativo, se cada país mantivesse a sua própria moeda.

O excessivo superavit externo daí resultante para a zona do euro como um todo tem conduzido à apreciação do euro que, por seu turno, tem agravado os riscos de deflação. Como os países com margem para uma expansão orçamental, sobretudo a Alemanha, não têm querido usar essa folga, parece que teremos que recorrer a uma expansão monetária para corrigir a escassez de procura interna da zona do euro. Mas, como estamos numa situação clássica de “armadilha da liquidez”, com a taxa de juro de referência quase a zero, a eficácia da política monetária é muito inferior à da política orçamental.
Por pura teimosia moralista dos países do Norte da Europa, em vez de usarmos o instrumento mais eficaz, teremos que utilizar o instrumento mais débil.

O BCE já deu indicações de que estaria a ponderar uma política de expansão quantitativa, envolvendo a compra significativa de obrigações, públicas e privadas, em moldes ainda não definidos. Antecipando estas sugestões, os mercados têm vindo a fazer descer, de forma generalizada, as taxas de juro das obrigações de dívida soberana, mesmo a dos países mais afligidos pela crise.

Como estas taxas de juro têm sido o termómetro da crise do euro, estamos a assistir a um claro recuo dos sintomas daquela crise. É mesmo provável que nos próximos meses venhamos a testemunhar uma continuação da redução destes sintomas. A própria Grécia, que tem as suas necessidades de financiamento asseguradas pela troika até 2023, já conseguiu voltar a financiar-se no mercado, apesar de ter um dívida pública de quase 180% do PIB, praticamente insustentável.

Todas estas boas notícias, aliadas à proverbial miopia dos mercados financeiros, demasiado focados no curto prazo, têm todas as condições para criar dois graves riscos: a ilusão e a complacência.

É altamente provável que se instale a ilusão de que a crise do euro está a chegar ao fim. Esta ilusão tem todas as condições para sedimentar a crença fantasiosa de que estamos a chegar a um novo “bom” equilíbrio, gerador de auto-concretização de expectativas, com redução sucessiva das taxas de juro de longo prazo.

O problema da complacência reside na ideia, junto dos principais actores políticos, de que tudo está bem e que novas reformas estruturais na arquitectura do euro – absolutamente essenciais – são, afinal, dispensáveis.

Estas reformas, politicamente dificílimas, ficarão mais longe, e a sobrevivência a médio prazo do euro ficará mais ameaçada.

Estamos, assim, perante um presente envenenadíssimo: quanto mais os sintomas da crise recuarem, mais longe estaremos de construir uma solução duradoura para o euro.

[Publicado no Jornal de Negócios]

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Democracia e mau governo

O mau governo dos últimos 40 anos tem dado mau nome à democracia

Nos últimos 40 anos, Portugal já esteve três vezes à beira da bancarrota, o que legitima associar um mau governo à democracia. A fraca apreciação que os portugueses fazem da democracia (segundo o estudo recente do ICS/Expresso), como bem aventa Pedro Magalhães, não se deve tanto ao menosprezo da liberdade, mas ao facto de um mau governo ser demasiado frequente. Nos países nórdicos, onde a democracia também está associada a bom governo, é natural que a democracia seja muito mais valorizada.

Como explicar então o mau governo em democracia em Portugal? Julgo que ele decorre de três características principais: a irresponsabilidade dos executivos, a falta de continuidade das políticas e a corrupção.

Portugal, como a generalidade dos países do Sul da Europa, exibe níveis elevados de distância ao poder. Infelizmente, parece que este padrão continua a ser reproduzido nas gerações mais novas, em que os caloiros toleram, silenciosos e demasiado obedientes, as mais inacreditáveis praxes. As praxes são o exemplo mais flagrante de obediência a ordens estúpidas, que são acatadas sem o menor protesto.

Esta excessiva subserviência a chefes, por mais incompetentes que estes sejam, traduz-se numa impotência, que tem como benefício a irresponsabilidade. Os eleitores portugueses, mesmo aqueles de quem se esperaria mais, demitem-se dos seus deveres cívicos, de responsabilidade e exigência, e esperam que “eles” resolvam tudo. Daqui decorre a exigência, generalizada a todo o espectro político, de que o Estado resolva tudo e mais um par de botas.

Nesta exigência há vários pensamentos mágicos, desde a ideia de que o Estado tem recursos inesgotáveis, até à fantasia de que o Estado decide sempre bem, como se as decisões fossem do Estado, quando são de pessoas, políticos e bur(r)ocratas, que, demasiadas vezes, decidem na sua incompetência e a pensar nos seus interesses.

Neste contexto, políticos responsáveis estão votados ao fracasso, enquanto políticos mentirosos e irresponsáveis, que dêem gás ao pensamento mágico dos eleitores, têm a vitória assegurada.
Julgo poder deduzir-se que as políticas de governos irresponsáveis em democracia se devem à irresponsabilidade dos eleitores.

Se a irresponsabilidade das políticas se encontram com frequência, nos países do Sul da Europa, a falta de continuidade das políticas parece constituir uma especificidade portuguesa.

Em Portugal, a falta de continuidade das políticas verifica-se, não apenas quando há uma mudança de governo, mas também quando há uma mudança de ministro, dentro do mesmo executivo.

Esta mudança constante envolve custos brutais de adaptações sucessivas. Por outro lado, dado que há custos de aprendizagem, mesmo que cada novo modelo fosse bom, ele nunca chega a produzir os seus melhores resultados, porque é interrompido entretanto. Como é evidente, há aqui doses brutais de desperdício, de investimentos deitados à rua, que são um travão ao crescimento económico.

A corrupção não será específica da democracia, mas o estudo recente citado, identifica-o como a segunda questão que mais se deteriorou a seguir ao 25 de Abril, apenas suplantado pelo crime/insegurança. O que mais choca no problema da corrupção em Portugal são, julgo eu, duas coisas: a falta de pudor como muito é feito às claras, sem a menor necessidade de disfarçar; e o estado da justiça, que permite que aconteçam situações tão inacreditáveis que só o mais crédulo dos crédulos pode imaginar que se explicam com as leis, a alegada “falta de meios” e outras desculpas de que nunca há défice. Aliás, a justiça ocupa mesmo a quarta posição nos temas que mais se deterioraram desde a revolução dos cravos, sendo a terceira o desemprego.

Pode a democracia em Portugal passar a estar associada a um bom governo? Sim, se os eleitores assumirem as suas responsabilidades, em que se inclui não dar ouvidos a propostas demagógicas (difícil) e serem mais exigentes com o Estado que pagamos com os nossos impostos, sobretudo com a justiça, que se tem mantido demasiado longe do essencial escrutínio público.


[Publicado no jornal “i”]

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Subir o salário mínimo?

Aumentar o salário mínimo neste momento arrisca-se a agravar o desemprego, sobretudo entre as mulheres

Ao contrário do que muitíssimas pessoas desejavam que fosse verdade, os governos não podem determinar os salários na economia, que dependem sobretudo da produtividade.

No caso do salário mínimo é preciso reconhecer que este tem um impacto assimétrico no emprego. Se for definido muito abaixo da produtividade dos trabalhadores com menor produtividade (os mais jovens, sem experiência, e aqueles com menores qualificações), ele torna-se irrelevante porque as empresas pagariam sempre salários acima do mínimo legal. Se for legislado acima daquela produtividade, proíbe a contratação dos trabalhadores em situação mais frágil, agravando o desemprego neste segmento.

Como os governos desprezam geralmente as leis económicas e procuram a maior popularidade, o risco de decidirem salários mínimos demasiado abaixo daquele limiar de produtividade é insignificante. Mas persiste o risco de os governos tomarem decisões fantasiosas sobre o salário mínimo.

Até aqui há alguns anos, havia duas restrições muito importantes que limitavam a demagogia na fixação do salário mínimo: a necessidade de ter contas externas equilibradas e o facto de o salário mínimo ser um importante indexante de prestações públicas, com fortes implicações orçamentais. Infelizmente ambas as restrições foram destruídas entretanto, permitindo a políticos irresponsáveis perpetrarem os maiores erros neste domínio.

Antes da entrada no euro, subidas do salário mínimo acima do crescimento da produtividade criavam graves problemas de competitividade, que se traduziam em défices externos elevados, cuja correcção exigia uma forte desvalorização, que diminuía os salários reais, eliminando os excessos anteriores. Após a entrada no euro, por pura ignorância e irresponsabilidade dos governantes e com a indesculpável conivência do governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, criou-se a ilusão de que os desequilíbrios externos tinham deixado de ser importantes e destruiu-se a primeira restrição sobre os aumentos do salário mínimo. Em 2007, antes da grave crise internacional, Portugal apresentava um défice externo de 9,5% do PIB e uma dívida externa de 89% do PIB. Estes valores indicavam um gravíssimo problema de competitividade, que foi olimpicamente ignorado.

Em 2006, com a criação do Indexante dos Apoios Sociais (IAS), o salário mínimo perdeu a sua importante função de indexante de um conjunto muito variado de situações, em particular de prestações sociais pagas pelo Estado.

Liberto desta segunda restrição, o governo da época pôde ser extremamente generoso com o dinheiro dos outros. Dado que uma subida do salário mínimo deixou de ter impacto nas contas públicas, isso deixou mãos livres ao executivo para decretar substanciais aumentos desta remuneração básica.

Sublinhe-se que a subida extraordinária plurianual do salário mínimo que foi negociada na altura aconteceu quando já havia sinais extremamente preocupantes de falta de competitividade, que desaconselhavam em absoluto esta medida.

Os resultados foram muito preocupantes, como não podia deixar de ser: enquanto em 2005 a percentagem de pessoas a receber o salário mínimo era de apenas 4,5%, ela foi subindo sucessivamente, encontrando-se nos 11,7% em Abril de 2013. Isto é grave porque indicia que se está a gerar desemprego, sobretudo nas mulheres, já que nestas a percentagem a receber a retribuição mínima é superior a 15%. Há mesmo um conjunto de actividades em que mais de um quinto das trabalhadoras aufere o salário mínimo: indústria têxtil, alimentar, da madeira e em vários serviços (restauração e imobiliária).

É extraordinário que ainda a troika não tenha saído e já estejamos a prepararmo-nos para repetir todos os erros que nos forçaram a pedir auxílio externo. Parece que três quase bancarrotas em menos de 40 anos é pouco e precisamos de começar, desde já, a trabalhar para a próxima crise.

Esta ideia de subir, neste momento, o salário mínimo parece ser mais um claro exemplo do ditado “de boas intenções está o inferno cheio”.


[Publicado no jornal “i”]

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Intolerância ao erro

Em Portugal, a intolerância ao erro é, paradoxalmente, uma enorme fonte de bandalheira

Os erros são a coisa mais natural da vida, não têm absolutamente nada de anormal. O que já não é normal, nem desejável, é a intolerância ao erro. Claro que não se defende a bandalheira mas, paradoxalmente, a forma de intolerância ao erro que existe em Portugal é a maior fonte de laxismo.

A intolerância ao erro faz com que seja dificílimo, quer em termos pessoais, quer em termos institucionais, assumir um erro. É quase impossível encontrar uma instituição portuguesa que tenha assumido um erro. Em vez disso, encobrem-se as mais graves incompetências e corrupções, recorrendo-se ao discurso mais despudorado, incluindo frases ocas como “cumprimos a lei”, “fizemos o melhor possível” e outras afirmações de puro branqueamento de responsabilidades.

Onde se encontra também muito presente a intolerância ao erro é no meio empresarial. Um empresário que lance um projecto que falhe fica logo estigmatizado, ainda que o “direito ao erro” seja essencial para criar mais empresas e mais emprego.

É interessante contrastar esta atitude com outra semelhante existente nos países do norte da Europa. Em certo sentido, pode dizer-se que nestes Estados a intolerância ao erro seria superior à existente em Portugal, onde é frequente ministros pedirem a demissão, por razões que a nós nos parecem secundárias, quase risíveis em alguns casos. Mas nesses países, onde domina a ética protestante, há um claro foco na responsabilidade, fomentando uma elevada exigência cívica. Por seu turno, esta exigência cívica limita a demagogia dos políticos e produz instituições públicas que se responsabilizam pelos seus erros, os assumem e os corrigem.

De tudo isto, parece poder concluir-se que o tipo de intolerância ao erro vigente em Portugal conduz ao pior dos dois mundos. Por um lado, constitui uma barreira social a muitos comportamentos que nos poderiam ser benéficos. Por outro, e de uma forma extremamente paradoxal, que é impossível de sobrevalorizar, conduz a uma degradação ética, em clara oposição ao que se passa no Norte da Europa. Enquanto aí, em que a responsabilidade domina, a intolerância ao erro eleva a ética social, em Portugal, bem como em outros países do Sul da Europa, onde a responsabilidade é substituída por uma culpa pesada e ingerível, de forte inspiração católica, a intolerância ao erro gera um abafamento generalizado de erros e responsabilidades, degradando de forma muito profunda a ética social.

Parece que a intolerância ao erro tem, entre nós, uma dimensão tendencialmente hierárquica. Os países do Norte da Europa são genericamente menos hierárquicos do que os Estados mais a Sul. Por isso, naqueles, um deslize, ainda que mínimo, de um superior hierárquico, como um ministro, recebe uma forte sanção social. Nos países a Sul, como Portugal, é muito fácil criticar violentamente um subordinado ou um igual, mas já é muito complicado colocar em causa um chefe directo.

Vejam-se, por exemplo, os graves erros do Banco de Portugal, quer a nível de recomendação da gestão macroeconómica (a conversa delirante de Constâncio sobre a suposta irrelevância do desequilíbrio externo dentro do euro), quer a nível da supervisão bancária (quando o BPN teve graves problemas com os auditores já sobre o exercício de 2002). Como é possível que uma instituição com um dos maiores números de doutorados fora das universidades se tenha subjugado a um dos seus piores líderes? Como é possível que uma instituição das mais prestigiadas do país tenha assistido – toda ela –, silenciosa e reverente, à destruição desse prestígio às mãos do pior chefe que jamais teve? Este é um dos maiores dramas nacionais: a forma como milhares de trabalhadores altamente qualificados assistem, impávidos, à destruição do prestígio de uma instituição por um chefe para lá de inconcebível.

Em relação aos chefes indirectos, como deputados e ministros, há uma contestação, espalhafatosa e inconsequente, que se aceita, na verdade, que não tenha quaisquer efeitos práticos. Este é mesmo um dos piores defeitos do país: a contestação inconsequente que, por isso, se torna irrelevante.


[Publicado no jornal “i”]