segunda-feira, 5 de maio de 2014

Cautelar ou 2º resgate?

Sem grandes surpresas, quer porque era isso que os nossos parceiros desejavam, quer porque os mercados estão particularmente favoráveis, o governo optou por uma saída sem programa cautelar.

O Estado tem, neste momento, uma almofada financeira, quelhe permitiria dispensar os mercados até Março de 2015. Por isso, diz o governo, o cautelar fica como uma opção a que poderemos recorrer no futuro.


Isto é verdade se, ao contrário do previsto no Orçamento de Estado de 2014, o governo não reduzir os depósitos (em cerca de 2% do PIB). Se deixamos de ter o financiamento da troika, precisamos de manter uma margem de segurança, que nos permita pagar as contas, mesmo que os mercados se fechem por largos meses. Caso contrário, será mais provável pediremos um segundo resgate do que um programa cautelar. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O 25 de Abril e a economia

O 25 de Abril trouxe fortes perturbações à economia e agravou o choque petrolífero de 1973

O 25 de Abril de 1974 ocorreu num momento económico particularmente azarado. Em Agosto de 1971, o presidente dos EUA, Nixon, tinha declarado a fim da convertibilidade do dólar em ouro, colocando um ponto final no sistema monetário de Bretton Woods, criado em 1944. Quase três décadas de câmbios fixos chegavam ao fim, bem como a estabilidade que este sistema tinha trazido.

Mais grave do que isso, o choque petrolífero de Outubro de 1973 ajudou a pôr termo ao um “período de ouro” de crescimento, que seria seguido pela Grande Inflação dos anos 70. A redução do potencial de crescimento que se lhe seguiu, por toda a Europa, travou a forte emigração portuguesa dos anos 60, que tinha sido uma importante válvula de escape da nossa economia, bem como uma muito significativa fonte de rendimentos.

Pode-se tentar despejar sobre o choque petrolífero de 1973 muitos problemas de que a economia portuguesa veio a sofrer posteriormente, mas isso não é inteiramente honesto.

Um choque externo nunca é apenas um choque externo, já que temos sempre que considerar a resposta nacional. Só nos casos em que a reacção nacional tenha sido no sentido de o minimizar é que poderemos falar sobretudo num choque externo.

O que fizemos em relação àquele choque petrolífero foi no sentido de o minimizar? Não, pelo contrário, maximizámo-lo e isso foi consequência directa do 25 de Abril. Um país altamente importador de petróleo tem que responder a uma subida dos preços desta matéria-prima com uma desvalorização, uma redução dos salários reais e contracção da procura interna.

Como a política de “escudo forte” era um aspecto muito valorizado do Estado Novo, os governos do novo regime tiveram um enorme receio de desvalorizar, com medo de que surgissem saudades do anterior regime. Por isso, a desvalorização do escudo foi adiada da forma mais irresponsável possível.

Quanto aos salários reais, não só não desceram como subiram fortemente. Basta recordar a criação do salário mínimo, em 1974, que foi fixado a um nível tão estratosférico, que nunca voltou a ser igualado, em termos reais, até hoje, apesar dos significativos progressos económicos registados desde então.

Outra consequência economicamente devastadora da revolução dos cravos foi as nacionalizações, directas e indirectas, decididas em Março de 1975. Por mais que se critique os principais grupos económicos da altura, pelos benefícios decorrentes do “condicionamento industrial”, é impossível pretender que as empresas públicas decorrentes daquelas nacionalizações, mastodônticas e proverbialmente ineficientes, pudessem constituir uma alternativa ao dinamismo da iniciativa privada.

Aliás, as nacionalizações e perseguição aos dirigentes levou à fuga de Portugal de alguns dos nossos melhores quadros, uma “fuga de cérebros” grave num país com fortes debilidades na formação. O discurso anti-capital também gerou uma relevante fuga de capitais, que a legislação que a proibia não conseguiu impedir.

Por tudo isto, não é minimamente credível argumentar que o abrandamento da economia se deveu ao choque petrolífero e não ao 25 de Abril.

O fim da guerra colonial também trouxe um enorme “dividendo de paz”, já que as forças armadas consumiam 40% do orçamento. Esta folga terá permitido aumentar o Estado social, então muito incipiente.

A forma como a descolonização foi conduzida pelo MFA, a favor da URSS e não das populações das ex-colónias, gerou também um êxodo maciço de “retornados”, cuja integração foi um autêntico milagre, sem os conflitos que outros fenómenos semelhantes, mas muito menos expressivos, ocorreram em outros países, nomeadamente em França.

O rapto do 25 de Abril pelas forças pró-comunistas e anti-capitalistas gerou, em suma, gravíssimas consequências económicas, que constitui um fortíssimo exemplo negativo. O nosso cardápio completo, de todos os erros que não se devem cometer, ajudou enormemente Espanha a fazer uma transição democrática muito mais tranquila e muito menos perturbadora da economia.


[Publicado no jornal “i”]

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Recuo de sintomas

A correcção dos défices externos dos países periféricos não está a ser acompanhada de uma correcção simétrica dos superavits externos dos Estados mais fortes, que ocorreria, num grau significativo, se cada país mantivesse a sua própria moeda.

O excessivo superavit externo daí resultante para a zona do euro como um todo tem conduzido à apreciação do euro que, por seu turno, tem agravado os riscos de deflação. Como os países com margem para uma expansão orçamental, sobretudo a Alemanha, não têm querido usar essa folga, parece que teremos que recorrer a uma expansão monetária para corrigir a escassez de procura interna da zona do euro. Mas, como estamos numa situação clássica de “armadilha da liquidez”, com a taxa de juro de referência quase a zero, a eficácia da política monetária é muito inferior à da política orçamental.
Por pura teimosia moralista dos países do Norte da Europa, em vez de usarmos o instrumento mais eficaz, teremos que utilizar o instrumento mais débil.

O BCE já deu indicações de que estaria a ponderar uma política de expansão quantitativa, envolvendo a compra significativa de obrigações, públicas e privadas, em moldes ainda não definidos. Antecipando estas sugestões, os mercados têm vindo a fazer descer, de forma generalizada, as taxas de juro das obrigações de dívida soberana, mesmo a dos países mais afligidos pela crise.

Como estas taxas de juro têm sido o termómetro da crise do euro, estamos a assistir a um claro recuo dos sintomas daquela crise. É mesmo provável que nos próximos meses venhamos a testemunhar uma continuação da redução destes sintomas. A própria Grécia, que tem as suas necessidades de financiamento asseguradas pela troika até 2023, já conseguiu voltar a financiar-se no mercado, apesar de ter um dívida pública de quase 180% do PIB, praticamente insustentável.

Todas estas boas notícias, aliadas à proverbial miopia dos mercados financeiros, demasiado focados no curto prazo, têm todas as condições para criar dois graves riscos: a ilusão e a complacência.

É altamente provável que se instale a ilusão de que a crise do euro está a chegar ao fim. Esta ilusão tem todas as condições para sedimentar a crença fantasiosa de que estamos a chegar a um novo “bom” equilíbrio, gerador de auto-concretização de expectativas, com redução sucessiva das taxas de juro de longo prazo.

O problema da complacência reside na ideia, junto dos principais actores políticos, de que tudo está bem e que novas reformas estruturais na arquitectura do euro – absolutamente essenciais – são, afinal, dispensáveis.

Estas reformas, politicamente dificílimas, ficarão mais longe, e a sobrevivência a médio prazo do euro ficará mais ameaçada.

Estamos, assim, perante um presente envenenadíssimo: quanto mais os sintomas da crise recuarem, mais longe estaremos de construir uma solução duradoura para o euro.

[Publicado no Jornal de Negócios]

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Democracia e mau governo

O mau governo dos últimos 40 anos tem dado mau nome à democracia

Nos últimos 40 anos, Portugal já esteve três vezes à beira da bancarrota, o que legitima associar um mau governo à democracia. A fraca apreciação que os portugueses fazem da democracia (segundo o estudo recente do ICS/Expresso), como bem aventa Pedro Magalhães, não se deve tanto ao menosprezo da liberdade, mas ao facto de um mau governo ser demasiado frequente. Nos países nórdicos, onde a democracia também está associada a bom governo, é natural que a democracia seja muito mais valorizada.

Como explicar então o mau governo em democracia em Portugal? Julgo que ele decorre de três características principais: a irresponsabilidade dos executivos, a falta de continuidade das políticas e a corrupção.

Portugal, como a generalidade dos países do Sul da Europa, exibe níveis elevados de distância ao poder. Infelizmente, parece que este padrão continua a ser reproduzido nas gerações mais novas, em que os caloiros toleram, silenciosos e demasiado obedientes, as mais inacreditáveis praxes. As praxes são o exemplo mais flagrante de obediência a ordens estúpidas, que são acatadas sem o menor protesto.

Esta excessiva subserviência a chefes, por mais incompetentes que estes sejam, traduz-se numa impotência, que tem como benefício a irresponsabilidade. Os eleitores portugueses, mesmo aqueles de quem se esperaria mais, demitem-se dos seus deveres cívicos, de responsabilidade e exigência, e esperam que “eles” resolvam tudo. Daqui decorre a exigência, generalizada a todo o espectro político, de que o Estado resolva tudo e mais um par de botas.

Nesta exigência há vários pensamentos mágicos, desde a ideia de que o Estado tem recursos inesgotáveis, até à fantasia de que o Estado decide sempre bem, como se as decisões fossem do Estado, quando são de pessoas, políticos e bur(r)ocratas, que, demasiadas vezes, decidem na sua incompetência e a pensar nos seus interesses.

Neste contexto, políticos responsáveis estão votados ao fracasso, enquanto políticos mentirosos e irresponsáveis, que dêem gás ao pensamento mágico dos eleitores, têm a vitória assegurada.
Julgo poder deduzir-se que as políticas de governos irresponsáveis em democracia se devem à irresponsabilidade dos eleitores.

Se a irresponsabilidade das políticas se encontram com frequência, nos países do Sul da Europa, a falta de continuidade das políticas parece constituir uma especificidade portuguesa.

Em Portugal, a falta de continuidade das políticas verifica-se, não apenas quando há uma mudança de governo, mas também quando há uma mudança de ministro, dentro do mesmo executivo.

Esta mudança constante envolve custos brutais de adaptações sucessivas. Por outro lado, dado que há custos de aprendizagem, mesmo que cada novo modelo fosse bom, ele nunca chega a produzir os seus melhores resultados, porque é interrompido entretanto. Como é evidente, há aqui doses brutais de desperdício, de investimentos deitados à rua, que são um travão ao crescimento económico.

A corrupção não será específica da democracia, mas o estudo recente citado, identifica-o como a segunda questão que mais se deteriorou a seguir ao 25 de Abril, apenas suplantado pelo crime/insegurança. O que mais choca no problema da corrupção em Portugal são, julgo eu, duas coisas: a falta de pudor como muito é feito às claras, sem a menor necessidade de disfarçar; e o estado da justiça, que permite que aconteçam situações tão inacreditáveis que só o mais crédulo dos crédulos pode imaginar que se explicam com as leis, a alegada “falta de meios” e outras desculpas de que nunca há défice. Aliás, a justiça ocupa mesmo a quarta posição nos temas que mais se deterioraram desde a revolução dos cravos, sendo a terceira o desemprego.

Pode a democracia em Portugal passar a estar associada a um bom governo? Sim, se os eleitores assumirem as suas responsabilidades, em que se inclui não dar ouvidos a propostas demagógicas (difícil) e serem mais exigentes com o Estado que pagamos com os nossos impostos, sobretudo com a justiça, que se tem mantido demasiado longe do essencial escrutínio público.


[Publicado no jornal “i”]

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Subir o salário mínimo?

Aumentar o salário mínimo neste momento arrisca-se a agravar o desemprego, sobretudo entre as mulheres

Ao contrário do que muitíssimas pessoas desejavam que fosse verdade, os governos não podem determinar os salários na economia, que dependem sobretudo da produtividade.

No caso do salário mínimo é preciso reconhecer que este tem um impacto assimétrico no emprego. Se for definido muito abaixo da produtividade dos trabalhadores com menor produtividade (os mais jovens, sem experiência, e aqueles com menores qualificações), ele torna-se irrelevante porque as empresas pagariam sempre salários acima do mínimo legal. Se for legislado acima daquela produtividade, proíbe a contratação dos trabalhadores em situação mais frágil, agravando o desemprego neste segmento.

Como os governos desprezam geralmente as leis económicas e procuram a maior popularidade, o risco de decidirem salários mínimos demasiado abaixo daquele limiar de produtividade é insignificante. Mas persiste o risco de os governos tomarem decisões fantasiosas sobre o salário mínimo.

Até aqui há alguns anos, havia duas restrições muito importantes que limitavam a demagogia na fixação do salário mínimo: a necessidade de ter contas externas equilibradas e o facto de o salário mínimo ser um importante indexante de prestações públicas, com fortes implicações orçamentais. Infelizmente ambas as restrições foram destruídas entretanto, permitindo a políticos irresponsáveis perpetrarem os maiores erros neste domínio.

Antes da entrada no euro, subidas do salário mínimo acima do crescimento da produtividade criavam graves problemas de competitividade, que se traduziam em défices externos elevados, cuja correcção exigia uma forte desvalorização, que diminuía os salários reais, eliminando os excessos anteriores. Após a entrada no euro, por pura ignorância e irresponsabilidade dos governantes e com a indesculpável conivência do governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, criou-se a ilusão de que os desequilíbrios externos tinham deixado de ser importantes e destruiu-se a primeira restrição sobre os aumentos do salário mínimo. Em 2007, antes da grave crise internacional, Portugal apresentava um défice externo de 9,5% do PIB e uma dívida externa de 89% do PIB. Estes valores indicavam um gravíssimo problema de competitividade, que foi olimpicamente ignorado.

Em 2006, com a criação do Indexante dos Apoios Sociais (IAS), o salário mínimo perdeu a sua importante função de indexante de um conjunto muito variado de situações, em particular de prestações sociais pagas pelo Estado.

Liberto desta segunda restrição, o governo da época pôde ser extremamente generoso com o dinheiro dos outros. Dado que uma subida do salário mínimo deixou de ter impacto nas contas públicas, isso deixou mãos livres ao executivo para decretar substanciais aumentos desta remuneração básica.

Sublinhe-se que a subida extraordinária plurianual do salário mínimo que foi negociada na altura aconteceu quando já havia sinais extremamente preocupantes de falta de competitividade, que desaconselhavam em absoluto esta medida.

Os resultados foram muito preocupantes, como não podia deixar de ser: enquanto em 2005 a percentagem de pessoas a receber o salário mínimo era de apenas 4,5%, ela foi subindo sucessivamente, encontrando-se nos 11,7% em Abril de 2013. Isto é grave porque indicia que se está a gerar desemprego, sobretudo nas mulheres, já que nestas a percentagem a receber a retribuição mínima é superior a 15%. Há mesmo um conjunto de actividades em que mais de um quinto das trabalhadoras aufere o salário mínimo: indústria têxtil, alimentar, da madeira e em vários serviços (restauração e imobiliária).

É extraordinário que ainda a troika não tenha saído e já estejamos a prepararmo-nos para repetir todos os erros que nos forçaram a pedir auxílio externo. Parece que três quase bancarrotas em menos de 40 anos é pouco e precisamos de começar, desde já, a trabalhar para a próxima crise.

Esta ideia de subir, neste momento, o salário mínimo parece ser mais um claro exemplo do ditado “de boas intenções está o inferno cheio”.


[Publicado no jornal “i”]

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Intolerância ao erro

Em Portugal, a intolerância ao erro é, paradoxalmente, uma enorme fonte de bandalheira

Os erros são a coisa mais natural da vida, não têm absolutamente nada de anormal. O que já não é normal, nem desejável, é a intolerância ao erro. Claro que não se defende a bandalheira mas, paradoxalmente, a forma de intolerância ao erro que existe em Portugal é a maior fonte de laxismo.

A intolerância ao erro faz com que seja dificílimo, quer em termos pessoais, quer em termos institucionais, assumir um erro. É quase impossível encontrar uma instituição portuguesa que tenha assumido um erro. Em vez disso, encobrem-se as mais graves incompetências e corrupções, recorrendo-se ao discurso mais despudorado, incluindo frases ocas como “cumprimos a lei”, “fizemos o melhor possível” e outras afirmações de puro branqueamento de responsabilidades.

Onde se encontra também muito presente a intolerância ao erro é no meio empresarial. Um empresário que lance um projecto que falhe fica logo estigmatizado, ainda que o “direito ao erro” seja essencial para criar mais empresas e mais emprego.

É interessante contrastar esta atitude com outra semelhante existente nos países do norte da Europa. Em certo sentido, pode dizer-se que nestes Estados a intolerância ao erro seria superior à existente em Portugal, onde é frequente ministros pedirem a demissão, por razões que a nós nos parecem secundárias, quase risíveis em alguns casos. Mas nesses países, onde domina a ética protestante, há um claro foco na responsabilidade, fomentando uma elevada exigência cívica. Por seu turno, esta exigência cívica limita a demagogia dos políticos e produz instituições públicas que se responsabilizam pelos seus erros, os assumem e os corrigem.

De tudo isto, parece poder concluir-se que o tipo de intolerância ao erro vigente em Portugal conduz ao pior dos dois mundos. Por um lado, constitui uma barreira social a muitos comportamentos que nos poderiam ser benéficos. Por outro, e de uma forma extremamente paradoxal, que é impossível de sobrevalorizar, conduz a uma degradação ética, em clara oposição ao que se passa no Norte da Europa. Enquanto aí, em que a responsabilidade domina, a intolerância ao erro eleva a ética social, em Portugal, bem como em outros países do Sul da Europa, onde a responsabilidade é substituída por uma culpa pesada e ingerível, de forte inspiração católica, a intolerância ao erro gera um abafamento generalizado de erros e responsabilidades, degradando de forma muito profunda a ética social.

Parece que a intolerância ao erro tem, entre nós, uma dimensão tendencialmente hierárquica. Os países do Norte da Europa são genericamente menos hierárquicos do que os Estados mais a Sul. Por isso, naqueles, um deslize, ainda que mínimo, de um superior hierárquico, como um ministro, recebe uma forte sanção social. Nos países a Sul, como Portugal, é muito fácil criticar violentamente um subordinado ou um igual, mas já é muito complicado colocar em causa um chefe directo.

Vejam-se, por exemplo, os graves erros do Banco de Portugal, quer a nível de recomendação da gestão macroeconómica (a conversa delirante de Constâncio sobre a suposta irrelevância do desequilíbrio externo dentro do euro), quer a nível da supervisão bancária (quando o BPN teve graves problemas com os auditores já sobre o exercício de 2002). Como é possível que uma instituição com um dos maiores números de doutorados fora das universidades se tenha subjugado a um dos seus piores líderes? Como é possível que uma instituição das mais prestigiadas do país tenha assistido – toda ela –, silenciosa e reverente, à destruição desse prestígio às mãos do pior chefe que jamais teve? Este é um dos maiores dramas nacionais: a forma como milhares de trabalhadores altamente qualificados assistem, impávidos, à destruição do prestígio de uma instituição por um chefe para lá de inconcebível.

Em relação aos chefes indirectos, como deputados e ministros, há uma contestação, espalhafatosa e inconsequente, que se aceita, na verdade, que não tenha quaisquer efeitos práticos. Este é mesmo um dos piores defeitos do país: a contestação inconsequente que, por isso, se torna irrelevante.


[Publicado no jornal “i”]

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Prefácio à 2ª edição

Pré-publicação do meu livro, que deverá estar disponível na próxima semana:

Passado cerca de ano e meio do lançamento da primeira edição deste livro, é chegada a hora de uma nova edição, revista e actualizada.

A revisão incide sobretudo sobre gralhas, questões de pormenor e de estilo. A única revisão importante prende-se com a previsão que fiz inicialmente, que o euro iria acabar em Portugal até ao final de 2012. Como é evidente, isso não se confirmou, mas continuo a prever que o euro não deverá ter muito mais tempo de vida. Saliento que nenhum dos problemas estruturais do euro foi até agora resolvido. Para além disso, também não parece existir margem, sobretudo política, para que isso venha a ocorrer em tempo útil.
A actualização prende-se com o tempo que decorreu entretanto, que trouxe algumas novidades, com destaque para o pedido de ajuda de Chipre, em Março de 2013, que foi excepcionalmente mal gerido. A inépcia em torno deste episódio reforça a ideia de que as lideranças europeias não têm soluções preparadas de antemão, estão a gerir a crise à medida que os problemas ocorrem e nem isso estão a fazer de forma minimamente satisfatória.

Foi acrescentado um capítulo sobre o programa da troika, onde se faz a sua avaliação, com algumas limitações, por estarmos ainda demasiado próximos.

A decepção em relação à prometida união bancária, quase inútil na forma aprovada, também reforça o cepticismo em relação à capacidade política dos líderes europeus de construírem as condições de sobrevivência a médio prazo do euro.

No início de 2014, verificou-se uma descida generalizada das taxas de juro de longo prazo, o que poderá transmitir uma sensação de fim da crise, mas isto não passa de um alívio temporário. A própria decisão, com alguma ambiguidade, do Tribunal Constitucional alemão também não deve inspirar tranquilidade.

Saliento que não defendo a saída do euro, apenas prevejo que isso venha a acontecer, devido às fragilidades da moeda única e da impossibilidade de se gerarem condições políticas para construir uma solução estrutural.


Esta nova edição mantém a estrutura da primeira, com duas partes sobre o passado e duas outras sobre o futuro.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Por más razões

As taxas de juro da dívida portuguesa estão a cair, porque há o receio de que a zona do euro entre em deflação

Nos últimos meses, as taxas de juro da dívida pública na zona do euro têm vindo a cair de forma pronunciada. Em Itália, no pico da crise, a taxa da dívida a 10 anos ultrapassou os 7%, começando o ano de 2014 nos 4,1% e estando esta semana nos 3,3%. As taxas em Espanha seguiram uma trajectória muito semelhante à italiana, encontrando-se hoje em valores idênticos aos do daquele Estado.

Em Portugal, as taxas chegaram a ultrapassar os 14%, mas iniciaram o corrente ano nos 5,5%, estando agora em torno dos 4%.

Isto significa que a excelente evolução das taxas de juro portuguesas se deve essencialmente a um movimento externo, ainda que o previsível fim do programa da troika também esteja a ajudar.

Estamos aqui a viver a versão favorável da auto-concretização das expectativas. Com os mercados confiantes, como estão actualmente, há uma descida das taxas de juro, o que facilita a sustentabilidade da dívida portuguesa. No entanto, deve também dizer-se que, no essencial, a nossa dívida ainda não atingiu o patamar da sustentabilidade e que qualquer desconfiança futura dos mercados pode levar à versão negativa da auto-concretização das expectativas. Um evento suficientemente negativo, como mais um chumbo do Tribunal Constitucional (TC) que impossibilite, na prática, o cumprimento da meta orçamental para 2014, pode fazer disparar as taxas de juro portuguesas dificultando a sustentabilidade orçamental e agravando a desconfiança.

Confesso que tenho curiosidade em saber se o TC considera o Tratado Orçamental inconstitucional, já que é este que está a condicionar a redução actual e futura dos défices portugueses. Também gostava de saber, embora para isso já seja um pouco tarde, se o TC considera inconstitucional o memorando com a troika, que previa que dois terços da consolidação orçamental se fizesse do lado da despesa.

É que a fantasia de que os cortes em salários e pensões seriam temporários foi sempre isso mesmo: uma fantasia. Ficamos a aguardar, para percebermos se o TC ainda acredita no Pai Natal.

Mas voltando às taxas de juro da dívida pública na zona do euro, deve-se esclarecer que esta queda, que se saúda, se deve – infelizmente – a más razões.

A economia da zona do euro, após dois anos de queda, deverá conhecer um crescimento tímido em 2014, numa recuperação ainda frágil, que os últimos desenvolvimentos na Ucrânia poderão fazer descarrilar.

A inflação, que em 2013 ficou longe da meta do BCE, deveria ficar ainda mais longe, ao fixar-se nos 1,0% em 2014 (Previsões da Comissão Europeia, de Fev-14). No entanto, devido à debilidade da procura e ao fortalecimento cambial do euro, os preços estão a subir ainda menos do que o previsto.

Este desvio da inflação face à meta do BCE (abaixo mas próximo dos 2%) está a modificar o discurso desta instituição e, inclusive, do próprio Bundesbank, que começa a ponderar a utilização de medidas não convencionais para impedir que a zona do euro entre numa muito temida deflação (inflação negativa), que agravaria todos os problemas de dívidas e crescimento.

Por isso, os mercados têm antecipado um programa generalizado de compra de dívida soberana, o que tem motivado esta descida generalizada das taxas de juro.

Ou seja, as taxas de juro da dívida soberana estão a cair porque se está a instalar o receio de que estejamos próximo de um problema muito difícil: a deflação. Por isso digo que estas boas notícias surgem por más razões.

Entretanto, há fortes expectativas de que na reunião de amanhã o BCE dê indicação de estímulos adicionais, que dificilmente podem passar por descida da taxa de juro de referência, que já se encontra nos 0,25%.


[Publicado no jornal “i”]

domingo, 30 de março de 2014

Um exemplo para as prisões portuguesas e não só


The method contrasts sharply with most prison self-help programs (Alcoholics Anonymous, say, or cognitive behavioral therapy workshops), which tend to emphasize rules, goals, steps, and stages. In Council, the basic format is strikingly simple: Participants sit in a circle, pass a “talking piece” (a ritual object denoting the bearer’s right to undivided attention), and take turns speaking and listening “from the heart.” The topic can be anything the group chooses, and any member can lead the discussion. That open-endedness reflects the technique’s folk origins: Although the version to be practiced today at SVSP grew out of the human-potential movement of the 1970s, Council is based on the kind of talking circle used by Native American and other aboriginal cultures—in Hawaii, it’s called “ho‘oponopono”; in Zimbabwe, it’s “daré”—as an egalitarian way of resolving disputes and making communal decisions.

An aura of earnest spirituality suffuses the practice, but there’s no religious content. Nor is there a specific therapeutic agenda. “Council doesn’t start with the assumption that something’s wrong with you,” says retired warden David Winett, a longtime supporter. In corrections, he observes, the custom is to tell inmates, “What you need is a good talking-to.” Council’s core belief, Winett says, is that what everyone needs is “a good listening-to.” By hearing others deeply, the theory goes, people learn compassion; by being heard, they learn to better understand themselves.

(…)

Advocates of Council argue that the practice could transform U.S. prisons, curbing violence while helping inmates open up emotionally in ways that are all too rare behind bars. That, in turn, would allow them to make better use of other rehabilitation programs as well, from substance abuse treatment to remedial education. For such programs to be effective, notes SVSP’s warden, Randolf Grounds, “you’ve got to have inmate buy-in. Until you get that, you’re not gonna have significant change.” By encouraging prisoners to shed their psychic armor and overcome their us-versus-them mentality, Grounds asserts, Council’s influence can spread “like an antibiotic” through every level of prison culture. The larger effect, boosters say, could be a reduction in recidivism.

With their wary faces, weight lifter’s muscles, and masses of tattoos, the men in the circle don’t appear to be the ideal candidates for a practice based on letting down one’s defenses. Although they’re curious about Council—one of the trainers, Jared Seide, has given brief presentations for each of the yard’s main ethnic blocs—their presence doesn’t mean they’re buying it. In prison, the motivations for attending “program” (as rehabilitation offerings are generically known) can include a desire to impress parole boards or simply escape boredom.

As they wait for the session to start, the blacks and Indians fall into separate conversations, seasoned with a mix of anger and helplessness, while the transsexual and the Honduran sit silent and apart. One man gripes about the treatment of visiting family members: “They make the women pull up their shirts in the visiting room to check for weapons.” Another disparages the officers at his previous prison: “They’re all corn-fed crackers. They love to spit on you and knock you down.” A third rails against a scheduled wave of transfers, which will send some inmates to facilities farther from their loved ones: “If they try to move me, I’ll take drastic measures. I’m not gonna say what, but there are ways.”

Seide calls the meeting to order. “Thank you for showing up for this,” says the kind-faced 50-year-old, whose skull is shorn like a monk’s. The group, he explains, will be “diving into the question of ‘Who am I? Who is my brother?’ ” We’ll be exploring “that territory of brothers and others.” The inmates keep their arms crossed, their expressions neutral. But they lean forward perceptibly when the taller trainer speaks.

(…)

“I want to move us into doing this,” Seide says. “Let’s begin.”

He and Mobley have laid a white embroidered mat at the center of the circle, covered with vaguely numinous items: a brass Tibetan bowl, a Buddhist temple bell, LED candles, seashells, a sage bundle, a Hopi doll, carved stones. Seide invites each participant to choose an object that he finds meaningful and say a few words of dedication to open the session.

An inmate who calls himself Jaguar—Mojave on his father’s side, Mexican American on his mother’s, but Native in the polarized context of prison—takes the talking piece, which today is an ordinary Hacky Sack. He’s 32, serving a 14-year term for assault with a deadly weapon, and covered in tattoos from the top of his shaved head to his knuckles. Jaguar picks up the Tibetan bowl. “To me,” he says, “this represents when we’re in the womb, and the circle of life is before us, and we have to decide what we’re going to be.”

One of the black inmates dedicates a stone heart to the family members he’s lost while imprisoned. “My heart is exactly like this,” he says. The Honduran rings the temple bell in honor of “all the voices that have been silent.”

I’m taken aback by the speed with which these hardened convicts slip into poetic self-revelation. During a break, however, Seide tells me that Council’s spell is usually fast-acting: “It comes naturally, by virtue of the choreography.” By creating a sacred space and a sense of solemn ceremony, he says, Council triggers responses rooted in thousands of years of human culture.

(…)

A Pomo named Edward—37 years old, with a pompadour and a biker mustache, doing life without parole for a drug-related murder—gestures for the talking piece. “A lot of us are curious,” he says. “What are the guidelines? When we take this to the yard, people are going to be asking, ‘What kind of group is it? What does it consist of? How is it gonna help me?’ ”

Seide gives a quick overview. Council, he says, is a “container” for whatever participants need to talk about. Ritual (the talking piece, the dedications) is key to the vessel’s integrity, setting it off from ordinary conversation. Each session is led by a facilitator, who throws out “prompts”—short statements that invite narrative responses. Speakers are encouraged to tell stories rather than offer ideas or opinions (“You can’t argue with a story”), and to be spontaneous, emotionally open, and succinct. Listeners are discouraged from interrupting, criticizing, or judging. If they’re moved by what’s said, they’re welcome to say “aho” (a Lakota version of “amen,” first brought to the foundation by visiting tribal elders). Everyone is asked to maintain confidentiality, unless permission is given—as it was to me—to share outside the circle.

But Council is like Zen, Seide likes to say: You can’t understand it by talking about it. The only way to find the answers, he tells the men, is by “living into the questions.”

To get things rolling, Seide tosses out the first prompt: Tell me about your lineage. He names his grandparents and parents, then passes the talking piece. One by one, the others do the same—some adding siblings, children and grandchildren, or their ancestral ethnicities. Mobley claims both Jewish and Plains Indian heritage. Some of the Indians admit to the presence of Austrians or Africans among their forebears.

Talk about a time when someone gave you a gift you’re carrying into this circle. Raven, 47, a Pima with a teardrop tattoo beside his left eye (receiving stolen property, third strike, 25 to life), speaks of his father-in-law, a Japanese American who taught him how to roof a house and install an HVAC system. The Honduran, a 34-year-old ex-gangbanger called Omar (attempted murder, 25 to life), acknowledges his stepfather: “He told me, ‘Stay away from your homeys, man.’ ” Jeffrey, 60, a diminutive, balding black man (robbery, 30 to life), names his parents, for “bringing me the word of the Lord.” Trixie, 46 (robbery, 25 years), whose five o’clock shadow contrasts strikingly with her cascade of copper hair, names her daughter: “She gave me hope. She taught me to leave the hurt behind and move on.”

Over lunch, we’re asked to pair off and tell each other something few people know about us. Jaguar tells me proudly about a night at his grandparents’ farm in Jalisco, Mexico, when he helped a distressed sow give birth by reaching inside her and pulling out a piglet, then did the same for a struggling cow. I tell him about my grandfather, an immigrant from Russia, who died in 1931 after being clubbed by a policeman. Jaguar seems as surprised by my story of urban bloodshed as I am by his tale of rural bliss.

When the circle re-forms, Edward takes a seat next to Trixie. “I ain’t afraid of you,” he says with a smile. The divisions that the Council began with seem to be breaking down.

Seide has us do a Council without words, in which the holder of the talking piece hands it off when he feels “seen,” after exchanging eye contact with each person in the circle. That’s followed by an exercise in which we regroup again and again, based on shifting criteria—those over 50 on one side of the room, under 50 on the other; those born in California on one side, out-of-staters on the other. When we sit again, the demographic pie chart has dissolved further.

The talking piece completes more circuits, and the hours pass. Seide throws out a final prompt: What does the word “legacy” mean to you?

“Someone lost their life at my hands,” says Edward. “I took my life from my children, my wife, my mother, my father. There will never be no one to blame but myself.”

There is a long silence. This is the kind of talk that can get your ass kicked in prison, under normal circumstances—but the inmates gaze at Edward with expressions of tenderness and sorrow. I’m reminded of something Seide told me: “It’s really difficult, when you encounter someone whose story has moved you, to demean or hurt them.… The bell of recognition cannot be unrung.”

Trixie tells how she was sold into prostitution as a small child in Tijuana and wound up running with a gang in East L.A.: “My mom has to carry the pain for her mistakes. She says, ‘I cry because I feel like it’s my fault you’re in prison.’ ” Trixie chokes back tears. “She’s a lonely lady.”

Hump, a pensive-looking 28-year-old with short dreadlocks, talks about his own mother. She became addicted to crack when he was small, and he and his sisters often went hungry. The gang that controlled his block in Oakland set him up in the drug trade. When he was 18, and members of a rival gang snatched his cousin’s gold chain, Hump and his comrades took revenge by shooting up a New Year’s Eve party. Hump landed a 25-year sentence for inflicting grievous bodily injury with an automatic weapon.

Hump’s mother, conscience-stricken, quit the pipe; as he cycled through penitentiaries, she drove long hours to visit him, sent cards and care packages, reminded him of how they used to snuggle together. Hump’s gratitude was tinged with a sense of entitlement: He felt she owed him. Meanwhile, he fell in with a prison-based gang. One day it ordered him to stab an inmate he’d known since childhood. Hump warned the intended victim, and the two of them knifed the plotters instead. The (nonlethal) attack earned him 17 months in solitary, after which members of his gang stabbed him in retaliation. Once he recovered, he was shipped to SVSP.

Up to that point, his story had followed a depressingly familiar pattern: Poor kid from fractured family joins gang to survive, which leads to downward spiral of violence, prison, and violence in prison. In the protected zone of A Yard, however, Hump began rethinking his life. Soon after his arrival, in 2009, he started studying for his GED. He signed up for AA and NA, and when Warden Grounds began introducing more rehabilitation programs, he joined every one he could. He even wrote remorseful letters to his victims’ families.

But he never heard inmates talk the way they’ve done today. After listening to Edward and Trixie, it occurs to him that he owes something to his mom.

“I’ve never asked her to forgive me,” he says. “I’m gonna make sure to ask tomorrow.”

The Council says, “Aho.”

In Making Good (2001), an essential text of the restorative justice movement, the Irish criminologist Shadd Maruna analyzes hundreds of interviews with British “desisters”—ex-cons who have abandoned crime. What they have in common is something Maruna calls a “redemption script.” To stay straight, he writes, “ex-offenders need to make sense of their lives. This sense-making commonly takes the form of a life story or self-narrative.” Desisters “need to account for and understand their criminal pasts…and they also need to understand why they are now ‘not like that anymore.’ ” In the stories they tell, these men and women start out as victims of circumstance, but they discover ways to seize control and let their better selves emerge.

On the second morning of Council training, the inmates begin to take charge of their own stories. At Seide’s request, they’ve brought objects that have personal meaning to place on the mat in the center of the circle. A gray-haired black man in a wheelchair, known to everyone as Mr. Brown (first-degree murder, life without parole), holds up a chess piece: “It’s a king with a broken head, because I’m in prison. I made a mistake somewhere, right? And hopefully my game will get better.” Omar waves a small Honduran flag: “That’s one of the loveliest places I know on Earth.” Jaguar displays an oversize watch: “Time,” he says, adding that Hump’s decision to ask his mother for forgiveness inspired him to write a seven-page letter to his brother last night, with a similar message. “There’s just not enough time in the day for me to do what I need to do—and that’s to be right within myself and my family.”

Seide leads the assembly in a few more rounds. He asks them to list themes they’ve picked up from the day’s discussions, jotting them on a whiteboard. Then he makes what seems to me a serious error: He forgets what he said yesterday about “living into the questions.” Instead, he launches into a lecture on the principles of Council. There are five elements, he says. The first three are the circle, the center, and the threshold—that is, the opening ritual. The fourth element is the Four Intentions. The first intention…

This spiel may go over well in Ojai, but for this audience, it’s poison. The inmates’ eyes grow unfocused; their bodies slump or sprawl. After reciting the fifth element, Seide asks, “So how do we go from a theme to what we talk about in Council? We find the Council prompt!” He goes on for a while, explaining how to tailor a prompt so that it elicits a story rather than something else.

But when he asks the inmates to come up with prompts based on the themes they’ve listed, all the suggestions are off-base—too broad, too imprecise. As Seide tactfully rejects each idea, the men shout out others (equally unusable) or snippets of anecdotes.  For a half hour, the chaos mounts. I begin to wonder if these men, after all their traumas and deprivations, are capable of grasping the abstract concepts required to master Council. Seide’s Zen calm looks like it’s starting to slip.

Finally, Jaguar declares, “I say we stop asking how we’re going to do it and just see what works for us.”

Seide agrees. He has the men count off by threes, then assigns each group a theme: healing, loss, family. Over lunch, the groups huddle in separate corners of the classroom, quietly hashing out their prompts.

The circle forms again, with Hump facilitating the first round. Tell a story about the healing you did when you lost someone close to you.

Raven tells how his brother called from another prison to say he was dying of cancer. “He started crying on me. I told him, ‘Man up,’ ” he recalls. “I didn’t have a heart then.” Two weeks later, his sister called to report that the end had come. “She’s crying hysterically.…” Raven, too, is crying. He stands, apologizes, and stumbles out of the room.

After a respectful silence, more stories follow. Jeffrey grieves for his baby daughter, shaken to death by a babysitter. Seide talks about the chasm that opened with his daughter after his divorce, and his struggle to close it. Mobley describes the death of his best prison buddy, and the growth of new friendships afterward. Mr. Brown tells of losing half a dozen family members while incarcerated.

Raven returns. He never cried about his losses in prison, he says, because “people will pick you apart like piranhas,” and his pent-up sadness and anger sometimes led him to attack other inmates. This group, he adds, “is allowing me to let go of some of that.”

Jaguar leads the next round. Tell me something positive about your family.

Mobley remembers how his parents stood by him through his decade of imprisonment: “That gave me something to live up to, I think.” Mr. Brown recalls a conversation with his sister: “I’m trying to explain to her, ‘Robbie, I don’t even remember killing nobody. I was that loaded.’ She says, ‘It don’t matter what happened…I’ll always be there for you.’ ” James, a tall Lakota with a long black braid (possession of a controlled substance, three years), gestures to the group. “Here’s to my new family,” he says.

Edward leads the third round. In five words or less, define yourself as you’ve been shaped by your losses. He kicks it off with his own list: “Enduring. Hardheaded. Unsympathetic at times. Afraid. Humble.”

The others toss out adjectives: Broken. Blessed. Lucky. Loved. Focused. Regretful. Thankful. Impatient. Accepting. Bald.

The talking piece completes more revolutions. When it’s time to adjourn, Hump says, “I appreciate all you tough guys letting your guard down and letting me get to know you. And you getting to know me.”

The Council says, “Aho.”

The next day, during rec period, hundreds of inmates churn up the dust in A Yard. Under a chilly, cloudless sky, battalions of black men do calisthenics; platoons of Latinos kick soccer balls; squads of whites jog or play checkers. On a bench by the fence, a pair of African Americans with bulging arms sit listening to a Native American with a teardrop tattoo.


“It’s a circle, and you tell your story,” he explains, tracing the shape in the dirt with his sneaker. “Not your opinion, not your thought, but your story. We’ll be meeting every Monday. I’m Raven, by the way. Thank you, gentlemen.”