segunda-feira, 24 de março de 2014
sábado, 22 de março de 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
Egocentrismo vs. serviço
Diria que há duas formas de estar na política: egocentrismo,
por um lado, e estar ao serviço, por outro.
Depois de ter escrito o que já escrevi contra o manifesto
dos 70 (aqui e aqui), gostaria de deixar claro que me parece razoavelmente provável
que o Estado português venha a ser obrigado a restruturar a sua dívida,
sobretudo quando Portugal sair do euro, como detalho no meu livro O fim do euro em Portugal?, cuja segunda
edição, actualizada e ampliada, deverá estar disponível no início de Abril.
Simplesmente, esta é a pior altura para estar a discutir
isto na praça pública, quando o Estado português está a caminho de passar a
depender quase exclusivamente do financiamento dos mercados. Relembro que não é
apenas o Estado que precisa dos mercados, são também os bancos e, através
deles, todas as empresas e famílias que necessitam de crédito. Dois meses antes
do fim do primeiro resgate da troika e
dois meses antes das eleições europeias é o pior momento para estar a levantar
esta questão.
Ao estarem a angariar o apoio de 74 economistas estrangeiros,
estão apenas a aumentar o estardalhaço e a criar o risco de aumentar a taxa de
juro a que teremos de nos financiar, o que é totalmente contrário aos
interesses do país. Se querem apoio externo, procurem-no – de forma discreta – junto
das principais instâncias da troika,
junto de quem devem ter conhecimentos, aquando da vossa passagem pelo governo.
Ao agirem como o estão a fazer, torna-se perfeitamente óbvio
que o manifesto dos 70 está dominado pelo egocentrismo e tem um mínimo de espírito
de serviço. É mais um flagrante exemplo do ditado “de boas intenções está o
inferno cheio”.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Fracasso na convergência
Ao contrário do que
diz o manifesto dos 70, o problema do crescimento português não está na procura
mas sim na oferta
Retomo o manifesto dos 70 num único tema, o crescimento,
cuja abordagem naquele documento me parece totalmente errada. Os problemas
portugueses de crescimento têm muito pouco a ver com (eventual falta de)
procura e quase tudo a ver com a oferta.
Os problemas do baixo potencial de crescimento da economia
portuguesa foram um dos motivadores essenciais para o enfoque da troika nas reformas estruturais. Na
década que antecedeu o pedido de ajuda à troika
(sublinho que o problema já durava há dez anos e que fomos nós que pedimos
ajuda), a economia portuguesa teve o crescimento mais medíocre dos anteriores
cem anos.
É impossível sobrevalorizar este aspecto: dez anos (leram
bem: dez anos!) antes da troika
chegar a Portugal, já a economia portuguesa estava gravemente doente.
É este problema que precisa de cuidados intensivos e ele tem
pouquíssimo a ver com os juros da dívida pública. Esta questão está
profundamente relacionada com as reformas estruturais na despesa pública (por
encetar) e na intervenção do Estado em diversas instâncias e mercados (com
progressos muito limitados), estranhamente ausentes do manifesto.
No memorando inicial, a troika
esperava que o potencial de crescimento da economia portuguesa subisse para
quase 2%, um progresso assinalável face aos menos de 1% da década precedente,
mas ainda assim insuficiente para regressar à convergência com a UE, que só
poderá estar garantida com taxas em torno dos 2,5%, que conseguiria uma
convergência ainda débil. Convém ainda salientar que há mais de 30 anos que
Portugal recebe fundos estruturais para convergir e que, por isso, é
absolutamente escandaloso que tenha estado em divergência estrutural com a UE
em todo o século XXI.
É essencial também recordar aquilo que pode ser considerado
como o principal responsável pelo fraquíssimo crescimento económico que temos
tido: as PPP, sobretudo as rodoviárias.
As PPP são um dos mais clamorosos erros de política
económica, por múltiplas razões. Elas são, em primeiríssimo lugar, um erro
estratégico No período em que ocorreram, Portugal enfrentava um dificílimo
desafio de globalização. Ao contrário de 1960, quando aderiu à EFTA e que era o
país com mais baixos salários da nova organização, nos anos noventa, Portugal
enfrentava a muito exigente concorrência dos países da Europa de Leste, com
salários mais baixos que Portugal, mais próximos do centro da Europa e com uma
mão-de-obra muito mais qualificada do que a nossa. Como é que, algum dia,
construir auto-estradas e estádios de futebol nos poderia auxiliar a competir
com a Europa de Leste?
Em segundo lugar, as PPP foram um dos mais fragorosos erros
de gestão conjuntural. Numa economia a rebentar com o excesso de procura gerado
pela enorme descida de taxas de juro, só políticos totalmente irresponsáveis é
que agravariam este excesso de procura com investimentos adicionais e
perdulários em PPP.
O terceiro erro foi a forma de financiamento das PPP, uma
carpintaria financeira que duplicou os custos face à dívida normal, com o único
propósito de enganar os nossos parceiros comunitários, para além de outras
suspeitas, que as cláusulas leoninas contra o Estado e contra os contribuintes
legitimam.
Todo este excesso de procura criou um gravíssimo problema de
competitividade no preciso momento em que deixávamos de dispor do instrumento
cambial para o corrigir. Por seu turno, a falta de competitividade e a
decorrente incapacidade de atrair investimento qualificado esmagaram o
potencial de crescimento da nossa economia.
Pior era impossível e termos o pai desta monstruosidade, João
Cravinho, o principal responsável por todos os anos de miséria que se seguiram,
a defender publicamente este manifesto, é um insulto a todos os sofrimentos de
que actualmente padecemos.
Termino com duas interrogações: como é que é possível que
este manifesto escamoteie totalmente todos os custos associados a uma
restruturação da dívida, apresentando-lhe apenas os benefícios? Como é possível
fazer escolhas informadas só com a metade boa da informação?
[Publicado no jornal “i”]
terça-feira, 18 de março de 2014
Prescrições
A escandalosa prescrição das ilegalidades cometidas no BCP e
em outros bancos vem revelar duas coisas. Em primeiro lugar, que temos um
sistema de prescrições absurdo. A partir do momento em que é deduzida uma
acusação, parece evidente que o prazo de prescrição deve ser suspenso. Caso
contrário, é a própria norma das prescrições que cria o incentivo à infinidade
de tropeções processuais e recursos, para tentar ganhar os casos na secretaria.
A propósito, o advogado de Jardim Gonçalves deve imaginar que somos todos
atrasados mentais, ao afirmar que o seu cliente não queria “ganhar na
secretaria”, quando todas as suas acções são prova do contrário.
Uma lei que permite que a norma das prescrições seja
toureada de toda a maneira e feitio, é uma lei que é a principal responsável
pela invenção de todos os incidentes processuais que entopem a nossa justiça.
Em segundo lugar, parece que o nosso sistema de justiça,
perante uma lei absurda, não tem qualquer mecanismo de prevenção das suas
perversidades, antes aceitando ser toureado sob os mais espúrios pretextos.
Caros responsáveis por todas as instituições da justiça: se
ainda não perceberam uma coisa, quero-vos dizer que não há nada – absolutamente
nada – mais demolidor para a credibilidade do nosso sistema de justiça do que
haver casos mediáticos que acabam por prescrição.
“Divergências insanáveis”
Se há coisa que não se aguenta é políticos a tomarem-nos por
parvos. António José Seguro diz que há “divergências insanáveis” entre o PS e o
governo, sobre a estratégia de consolidação orçamental, mas não tem a caridade
de nos explicar exactamente quais são. Oferece-nos também a seguinte pérola: esta
“divergência insanável prestigia a democracia e dá aos portugueses uma
liberdade de escolha”.
Como já conhecemos as propostas do PS, praticamente todas
inconstitucionais à luz da legislação comunitária, somos forçados a concluir
que as “divergências insanáveis” consistem em o governo querer cumprir os
tratados europeus, em particular o Tratado Orçamental, e o PS não os querer
cumprir.
O mais escandaloso nisto tudo é que se o PS fosse governo
seria – obviamente – forçado a cumprir tudo o que este governo tem que cumprir
em termos de redução do défice público, sob pena de Portugal ficar sem
financiamento e ser forçado a pedir um segundo resgate que, meus amigos, seria
muito mais duro do que o primeiro, sobretudo em termos de fiscalização.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Restruturar a dívida?
Restruturar a dívida
implicaria um segundo resgate, mais duro do que o primeiro
Uma estranha associação de figuras, mais notáveis pelos
cargos que ocuparam do que pelo fizeram nesses mesmos cargos, veio propor a
restruturação da dívida pública.
Escolher o pai das SCUTs, “que se pagavam a si próprias”, um
dos maiores responsáveis pelo gigantismo da nossa dívida, para fazer
declarações públicas sobre este manifesto, é abusar da paciência dos
portugueses. Estas PPP contêm cláusulas leoninas, contra os interesses do
Estado e dos contribuintes e nunca ninguém percebeu porque é que, até hoje,
nunca foram investigadas.
Fazem a proposta de uma restruturação, que designam como
“responsável”, não se percebe exactamente porquê. A proposta consiste em
alargar fortemente o prazo dos empréstimos e reduzir a taxa de juro a pagar,
prevendo-se mesmo que, em alguns casos e durante alguns anos não se pagassem
juros.
Podem pintar isto com a conversa que quiserem mas isto é,
para todos os efeitos, um calote. Alargar o prazo dos empréstimos sem alterar a
taxa de juro constituiria já uma perda para os investidores, porque quanto mais
longo o prazo, maior a taxa de juro exigida, como é natural, porque o risco é
maior. Portanto, os investidores vão perder por duas vias.
Escusam de vir com rodriguinhos de que isso se dilui ao
longo do tempo, porque a maior parte dos investidores é obrigado a calcular o
valor actualizado das obrigações e rombo no balanço acontece já hoje.
Para além disso, há uma coisa em que os subscritores estão
profundamente errados: pensar que o débil crescimento português se deve a falta
de procura, que desapareceria com o Estado a gastar mais. Desde 2000, que
Portugal cresce pouquíssimo, apesar de ter sempre sofrido de excesso de
procura, como é evidenciado pelos elevadíssimos défices externos.
De acordo com dados do IGCP, em Janeiro deste ano, a dívida
pública ascendia a 208,6 mil milhões de euros, 35% do qual emprestado pela troika, 56% pelo mercado e os restantes 9%
estão sob a forma não transaccionável, sobretudo em Certificados de Aforro. A
dívida detida pelos bancos portugueses corresponde a 15% do total (Dez-13),
representando mais de um quarto da que está no mercado.
A primeira dúvida que surge é se também pretendem reduzir
unilateralmente as taxas de juro dos Certificados de Aforro e impedir as
pessoas de os levantar, como aconteceria ao resto da dívida?
Em relação às perdas dos investidores, é óbvio que os bancos
portugueses não podem ficar isentos. Até onde poderão ir as perdas? Não se
sabe, mas os capitais próprios poderiam ser completamente eliminados e isso
exigiria novas ajudas públicas e mais dívida. Se as perdas forem mesmo muito
elevadas, os depósitos acima de 100 mil euros também poderiam ser afectados.
O tratamento a dar à troika
é que constituiria um problema delicado. Por um lado, seria difícil que ficasse
a salvo de qualquer perdão, apesar de ter uma dívida sénior, para não se
repetir o desastre do primeiro perdão grego. Mas por outro, também seria muito
complicado a troika sofrer perdas.
Há certamente uma coisa que o manifesto ignora: as
contrapartidas de um perdão de dívida. Digamos que há dois tipos de
contrapartidas, as exigidas pelos mercados e as exigidas pela troika.
Dificilmente os mercados deixariam passar este perdão de
dívida sem uma forte penalização, agravando o custo do financiamento aos
bancos, às empresas e às famílias portuguesas, dificultando as condições de
recuperação económica.
Já a troika
deveria colocar condições muitíssimo mais duras num segundo resgate, que seria
obrigatório. O primeiro resgate foi cumprido de forma muito deficiente,
sobretudo em termos da (inexistente) reforma do Estado. É óbvio que como
contrapartida para aceitar um perdão da dívida, a troika seria extremamente exigente, possivelmente envolvendo maior
perda de soberania do que a associada à primeira ajuda.
Ou muito me engano, ou os subscritores deste manifesto
abriram uma caixa de Pandora, da qual sairão muitas coisas negativas e nenhuma
positiva.
[Publicado no jornal “i”]
quarta-feira, 5 de março de 2014
Ainda o cautelar
Os problemas na
Ucrânia reforçam a necessidade de um programa cautelar
Peço desculpa por continuar a massacrar os leitores com o
tema do pós-troika, mas ele é importante a vários títulos.
Infelizmente, são crescentes as indicações de que o governo
português e a UE se encaminham para um caminho altamente imprudente de saída do
programa da troika, sem um acordo de
financiamento cautelar.
Saliente-se que esta via é imprudente, quer para Portugal,
quer para a UE e a zona do euro. É muito fácil os próximo tempos apresentarem
escolhos, mesmo com origem externa. Em Itália, está em curso mais uma
experiência política, de um novo primeiro-ministro que pretende encetar grandes
reformas, sem a legitimidade eleitoral para o fazer. Tem tudo para correr mal e
mais um fracasso em Itália é perigoso para os países periféricos e para a zona
do euro, porque este país é demasiado grande para poder ser ajudado.
Na Ucrânia, assiste-se a uma escalada de violência, que
colocou o mundo no nível de risco mais elevado desde, pelo menos, o fim da
guerra fria. O que quer que venha a ocorrer nos próximos meses, em termos
militares, pode ter consequências económicas significativas, com uma quebra da
confiança a fazer regressar a recessão às principais economias. Para além
disso, são possíveis cortes no fornecimento de gás russo à Europa, perturbando
a actividade e elevando o preço dos combustíveis. O mero aumento da aversão ao
risco que um conflito desta natureza pode gerar tem todas as condições para
alargar os diferenciais de taxa de juro entre os países periféricos e os mais
seguros.
Estando a retoma portuguesa tão dependente das exportações,
o cenário descrito tem fortes condições de nos afectar, através de vários
canais. A dívida portuguesa continua insustentável e um abrandamento económico
vindo do exterior agravará aquela condição.
Há quem julgue que as taxas de juro a que estiver a dívida
portuguesa em Maio podem ser um referencial da escolha entre ter ou não um
programa cautelar. Para esses, e todos os outros, convém recordar que em menos
de dois meses, entre meados de Maio e o início de Julho de 2013, as nossas
taxas de juro subiram mais de dois pontos percentuais, atingindo quase os 7,5%.
Isto deveu-se inicialmente à percepção de que o programa de estímulo da Reserva
Federal dos EUA tinha chegado ao fim e culminou com a crise “irrevogável” de
Portas. Este episódio, tão recente, deve-nos reforçar a necessidade de um
programa cautelar, porque as taxas de juro podem subir muito e muito
rapidamente, quer por factores externos quer internos.
Mas a ausência de um programa cautelar é também um risco
para a zona do euro e a UE. Com os riscos já enunciados, entre os quais convém
salientar o caracter ainda insustentável da nossa dívida pública, é
perfeitamente possível que Portugal possa ser forçado a pedir um segundo
resgate alguns meses após o fim do primeiro programa de assistência financeira.
Se, ou quando, isso acontecer, Portugal estará transformado
numa segunda Grécia e a zona do euro voltará a ser encarada como sendo incapaz
de resolver os seus próprios problemas. Isto será mau em duas frentes: nos
investidores e nos eleitorados. A percepção da insustentabilidade do próprio
euro regressará, castigando de novo os países, com os investidores a fugir dos
Estados mais arriscados.
Em termos políticos e eleitorais, será um festim para todos
os partidos anti-euro e anti-UE, que deverão ganhar uma expressão histórica nas
próximas eleições europeias, daqui a menos de três meses.
A reacção dos investidores e dos eleitores tem condições de
entrar num ciclo vicioso, em que a fuga inicial dos investidores afecta alguns
países, irritando os eleitorados que vêem nova factura a chegar. Isso gera a
percepção, junto dos investidores, de que não há condições políticas para a
sobrevivência, acentuando a fuga inicial. A correspondente subida das taxas de
juro e o alargamento do número de países em dificuldades deverá irritar ainda
mais os eleitorados, levando a nova fuga de investidores e assim
sucessivamente.
Como é óbvio, tudo o que fragiliza o euro, fragiliza a
própria UE e Portugal deveria usar estes argumentos para solicitar um programa
cautelar.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Cortes permanentes
1. A ideia de que os cortes na despesa pública seriam
temporários, sempre foi uma enorme fantasia.
Em primeiro lugar, porque o crescimento económico posterior
ao programa de ajustamento nunca geraria as receitas fiscais que substituíssem
os cortes na despesa. Em segundo lugar, porque a redução do défice teria que
continuar até atingirmos um deficit estrutural de 0,5% do PIB, imposto pelo
novo tratado orçamental.
Em terceiro lugar, porque aquele tratado previa a
necessidade de redução posterior da dívida pública para todos os países em que
esta fosse superior a 60% do PIB. Mesmo que o ritmo imposto por este tratado
seja irrealista, alguma redução na dívida terá que ser conseguida, para evitar
que uma qualquer recessão futura coloque de novo a nossa dívida num crescimento
explosivo.
Em quarto lugar, porque, durante as próximas décadas, o
envelhecimento da população continuará a exercer uma fortíssima pressão sobre
as contas públicas, quer nas pensões, quer na saúde.
Por tudo isto, a ideia de que os cortes impostos pela troika eram “temporários” foi, desde a
primeira hora, uma “história da carochinha” que o governo contou e que o
Tribunal Constitucional (TC) engoliu, nesta farsa colectiva em que tornou a 3ª
República.
Com as novas condições impostas pela troika, tem de se acabar com esta ficção e esclarecer, preto no
branco, que os cortes são definitivos. Por isso, espero que a primeira decisão
do governo seja enviar estas condições para o TC. Se o executivo insistir no
estratagema de empurrar os problemas com a barriga, espero bem que outras
instituições contestem rapidamente a constitucionalidade desta medida. Não
porque deseje que o TC discorde das medidas, mas para acabar com o delírio do
ajustamento “temporário”. Ou então, que o TC as recuse e caiamos rapidamente em
bancarrota, para destruir de vez a 3ª República e todas as suas instituições, a
começar pelo TC.
2. Klaus Regling, presidente do Mecanismo de Estabilidade
Europeu, pressionou recentemente Portugal a evitar um programa cautelar, porque
seria um “programa mais duro”. Isto é absurdo, porque o essencial da ajuda do
FMI em 1978 e 1983 não foi o dinheiro que nos emprestaram, que não foi muito,
mas o selo de garantia que o seu envolvimento trazia.
Por isso, sem o conforto que um programa cautelar traria aos
investidores, Portugal terá que realizar mais austeridade se enfrentar sozinho
os mercados. Existe, de facto, na cabeça dos menos esclarecidos, a ideia que,
na ausência de um programa com a troika,
não teremos que aplicar tanta austeridade e poderemos voltar aos velhos hábitos
da despesa insustentável. Pois podem ter a certeza que, sem a figura tutelar da
troika, o menor deslize será
duramente castigado pelos mercados.
A irracionalidade da argumentação de Regling é um disfarce
que confirma a indisponibilidade europeia para continuar a ajudar Portugal. Já
todos percebemos que os políticos europeus estão aflitíssimos com as eleições
europeias de Maio próximo, com a subida nas sondagens dos partidos
anti-imigração, anti-euro e anti-UE, mas escusam de nos tomar por atrasados
mentais.
[Publicado no Jornal de Negócios]
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Austeridade até 2016
Ninguém deve acreditar
nas promessas do PS de reverter a austeridade quando regressar ao poder
A última avaliação da troika
deveria trazer uma muito necessária sobriedade ao debate político em Portugal.
Prevê-se que o défice público caia de forma substancial ainda em 2015 e 2016,
devendo as diminuições posteriores ser sobretudo fruto da recuperação
económica.
Pode-se dizer que o programa com a troika deverá ser concluído aquém do que tinha sido inicialmente
negociado Não só se avançou de forma insuficiente na consolidação orçamental, como
se progrediu de forma limitada nas reformas estruturais, que tinham como
objectivo a recuperação do potencial de crescimento e da competitividade.
Para quem tem estado atento, estes documentos não surgem
como surpresa, mas para quem seguiu o assunto pelos comentários políticos e
pela comunicação social parece tratar-se de um enorme balde de água fria.
No entanto, Alberto Martins, líder parlamentar do PS, veio
avisar: "Não contem connosco para mais austeridade". Talvez nos
queiram elucidar como será possível reduzir o défice público para 2,0% do PIB
em 2016 sem mais austeridade. Já iniciaram contactos com o Pai Natal?
António José Seguro também veio dizer que uma saída “à
irlandesa” só poderia ocorrer com juros à irlandesa, no que tem bastante razão,
mas não toda. Na verdade, a taxa de juro que torna a dívida portuguesa tão
sustentável como a irlandesa é claramente àquela que produz idêntico resultado
na Irlanda, pela simples razão que este país tem um potencial de crescimento
muito superior ao nosso. A dívida portuguesa precisa de juros mas baixos do que
a irlandesa, embora seja precisamente o oposto o que se passa actualmente.
Para ter inteira razão, Seguro deveria dizer que uma saída à
irlandesa teria que ser com juros inferiores aos irlandeses, mas também é
verdade que este tipo de argumentação tem um nível de complexidade não
excessivamente elevado em si mesmo, mas a anos-luz daquele que se passa no
debate político.
Onde a argumentação de Seguro começa a apresentar sérios
problemas é na incoerência em, por um lado, pedir juros mais baixos e, por
outro, não entrar em acordo com o governo.
Uma das mais óbvias (mas não a única) razões por que
Portugal não consegue ter juros “à irlandesa” prende-se com a falta de consenso
político sobre o programa da troika.
Quando o PS garante que vai reverter os cortes decididos
pelo governo, previstos no memorando com a troika,
está a lançar as maiores suspeitas sobre os magros resultados orçamentais
conseguidos até agora, criando fundados receios junto dos investidores
internacionais de que comprar dívida pública portuguesa seja algo
excessivamente arriscado.
Em resumo, Seguro tem razão quando diz que o executivo não
deve tentar prosseguir sem um programa cautelar, se não conseguir baixar os
juros suficientemente. Mas, para que isto não se torne num exercício de puro
cinismo político, o PS precisa de ajudar o país (é o país que está em causa,
não o governo) a conseguir pagar menos pela gigantesca dívida, muita da qual da
responsabilidade de executivos do partido socialista.
Para os demagogos de meia-tijela que queiram imputar a
subida da dívida após as eleições de 2011 ao novo governo, convém recordar que
muita desta posterior subida da dívida prende-se com a imposição da troika de tornar explícita muita dívida
escondida, quer a dívida a fornecedores, quer em manigâncias de carpintaria
financeira.
Toda esta demagogia sugere que os partidos ao arco do poder
parecem estar convencidos de que o rotativismo que tem marcado a 3ª República
pode continuar sem beliscadura, não parecendo ter consciência da fragilidade do
regime.
Provavelmente, a estocada final do regime virá aquando da
próxima dança de cadeiras. Quando o PS voltar ao poder e for obrigado a manter,
ou até a intensificar, o essencial dos cortes em vigor, a nudez do regime será
finalmente desvendada e o seu colapso poderá ocorrer pouco depois.
[Publicado no jornal “i”]
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