Corre por aí a ideia de que analisar e criticar as decisões passadas e futuras do Tribunal Constitucional (TC) seria não só uma forma de o pressionar, como constituiria algo de ilegítimo.
Este preconceito é próprio de quem se julga dono da constituição e do regime, uma atitude muito pouco democrática, reflexo da constituição de 1976, ainda em vigor. Insisto numa ideia que já aqui referi: quem quer usar a constituição como um documento de facção e a impede de ser um diploma de âmbito genuinamente nacional, está a contribuir para assinar a certidão de óbito desta legislação. Por enquanto, podem retirar alguns benefícios disso mas, em última instância, estão a minar a credibilidade daquele texto constitucional.
Na verdade, é inteiramente legítimo criticar o TC em, pelo menos, três linhas principais. A primeira reside na profunda assimetria das suas decisões. No passado, todo e qualquer privilégio que foi atribuído – em exclusividade – ao sector público, jamais foi submetido à mais leve suspeita de inconstitucionalidade, por violação grosseira do princípio da equidade. Hoje, qualquer tentativa de repor uma equidade violada no passado encontra os mais intransponíveis obstáculos.
O segundo tipo de problemas diz respeito ao tipo de argumentação a que o TC vem recorrendo, invocando os mais latos princípios, como a confiança, a equidade, a proporcionalidade, entre outros. Ao usar este tipo de argumentação, vaguíssima, está a usurpar poder político à Assembleia da República. Está a entrar claramente no domínio das escolhas políticas, que devem ser feitas em eleições legislativas, com a agravante de estar a ignorar as condições económicas excepcionais que vivemos. Ao invocar aqueles princípios está também a entrar num caminho de arbitrariedade, destruindo previsibilidade e entrando numa autêntica lotaria jurídica.
O terceiro problema diz respeito à condição de que as medidas de contenção são aceitáveis, desde que sejam "temporárias". Esta é a mais delirante das fantasias, que tem vindo a ser alimentada por governos em estado de necessidade, que fingem que as medidas são temporárias, com o único fito de obter o acordo do TC, sabendo perfeitamente que são permanentes.
A dúvida que nos fica é: será que a constituição de 1976 prevê a descoberta de petróleo no Beato? Há um século, Afonso Costa queixava-se de que os portugueses faziam pedidos ao Estado como se este possuísse uma mina de ouro. Passado este tempo todo, parece que não só os portugueses pouco aprenderam, como os juízes do TC também ainda vivem num conto de fadas.
A 3ª República está num momento crucial, a tentar salvar-se da terceira quase bancarrota em menos de quatro décadas. Só isso, já é extremamente negativo para o regime. Para agravar a situação, tem havido dificuldades excepcionais em resolver o problema, persistindo a fantasia de que o excesso de despesa que nos conduziu aos braços da "troika" é algo a que poderemos regressar dentro em breve.
Em resumo, as instituições da 3ª República parecem empenhadíssimas em fazer tudo e mais um par de botas para destruir toda e qualquer réstia de credibilidade que ainda lhes sobre.
[Publicado no Jornal de Negócios]
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
O regime no banco dos réus
O verdadeiro responsável pelas agruras do presente
não é o actual governo, mas os anteriores executivos que acumularam uma
gigantesca factura que agora é preciso pagar
Uma das questões mais inquietantes do momento em que vivemos
é verificar que demasiada gente – com responsabilidades – pensa que as medidas
aplicadas pelo actual governo são da exclusiva responsabilidade deste executivo
e da troika.
O que se passou nas últimas décadas até sermos empurrados
para a troika parece que entrou num
buraco negro de memória. É verdade que a profunda inépcia deste governo, e
também a sua megalomania (“vamos para além da troika”), ajudou a criar aquela
imagem, mas não é por isso que ela passa a ser verdadeira.
Há um grupo de privilegiados do regime que pretende que o
povo se rebele, não para impor justiça, mas para que o actual governo caia na
rua, em total contradição com os princípios da 3ª República.
Uma rebelião da turba tem todas as condições para agravar
todos os males presentes. Sem um governo capaz de cumprir as condições dos
nossos credores, terá que haver uma redução drástica do défice público, por
manifesta incapacidade de financiamento. Poderemos mesmo ser expulsos do euro
ou ser forçados a sair, sem qualquer garantia de ajuda, e então é que
entraríamos num inferno.
Em termos económicos, seria uma desgraça; em termos
políticos, teríamos o caminho aberto para todos os desmandos e injustiças e é
bom não esquecer como as revoluções comem os seus próprios filhos; em termos de
ordem pública, seria uma calamidade.
Mas temos uma alternativa, em moldes semelhantes aos da
Islândia: colocar o regime no banco dos réus ou, no mínimo, colocar os últimos
governos em tribunal. Porque, mais do que qualquer outra coisa, precisamos de
uma tomada de consciência, para não voltarmos a repetir todos os erros do
passado.
No entanto, começamos com um grave problema: o descrédito da
justiça portuguesa. O risco de assistirmos a um descarado branqueamento dos
últimos executivos é elevado.
Para escolhermos os acusados, temos que fazer um inquérito
sobre os problemas mais graves.
Quais foram os governos que tomaram medidas de destruição da
nossa competitividade e, com isso, deram uma machadada brutal no nosso
potencial de crescimento? É importante recordar que até final dos anos 90 a
economia portuguesa crescia a 3% ao ano, mas que na década seguinte não
conseguiu nem um terço disso. Não há nada que mais tenha destruído a capacidade
de Portugal ter um estado social forte do que isto.
Que governos estiveram omissos na degradação da nossa
natalidade, outra valente causa do enfraquecimento do estado social?
Quais os governos que conduziram ao descalabro das contas
públicas e explosão da dívida pública? Quais foram os governos que assinaram
contratos de PPP, que são dívida pública escondida (só para enganar Bruxelas),
com o dobro do custo? Em particular, quais os governos que se comprometeram com
PPP, com cláusulas frontalmente contrárias ao interesse do Estado e dos
contribuintes?
Que governos tomaram medidas eficazes para enfrentarmos a
globalização e que governos assobiaram para o lado? Quais os governos que
assistiram impávidos à explosão da dívida externa?
Mário Soares, no seu apelo a uma rebelião, esquece duas
coisas. A primeira é que aquilo que o actual tem sido forçado a fazer é aquilo
que, grosso modo, qualquer governo no momento presente teria que fazer, como
consequência dos desmandos das últimas décadas.
A segunda coisa que Soares esquece é que a linha que separa
o país não é entre a esquerda, que se continua a julgar dona do regime, por
obséquio da constituição não democrática de 1976, e a direita; a linha que
divide profundamente o país é a que separa a classe política da 3ª República,
que se auto-atribuiu as mais luxuosas mordomias, e o resto do país.
Por isso, Soares está do lado errado e, se apelar muito à
violência (que desaprovo completamente), corre bem o risco de ser uma das
principais vítimas.
[Publicado no jornal “i”]
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Excedente alemão (2)
As críticas ao
excedente alemão só podem aumentar o sentimento anti-euro na Alemanha
Retomo o tema da semana passada, por duas razões: para o
explicar com mais detalhe; para olhá-lo do lado da Alemanha e para as suas
implicações políticas.
O saldo das contas externas
depende, essencialmente, de três factores: da competitividade, da procura
interna e da procura externa. Há ideia de que só a competitividade contaria,
mas essa visão é incompleta. Para percebermos melhor a importância da procura
interna darei dois exemplos. A Alemanha teve sempre tendência para ter
excedentes externos, mas a seguir à reunificação passou a ter défices externos.
Isso deveu-se ao facto de se ter lançado num enorme programa de investimento na
Alemanha de Leste, para colocar as infra-estruturas nessa zona do país ao nível
do que se verificava no resto. Foi esse forte estímulo da procura interna que
conduziu esta economia competitiva a ter défices externos durante uma década.
Um outro exemplo é o actual caso português. Apesar de termos
tendência para ter défices externos, estamos agora com um excedente externo.
Neste caso, a alteração também não é fruto de uma recuperação da
competitividade, mas sim de uma queda drástica da procura interna, em resultado
das medidas de austeridade.
Em relação à procura externa, ela também afecta as contas
externas, embora de forma menos diferenciada do que os outros dois efeitos, por
ser mais genérico.
Vejamos agora porque a Alemanha tem um excedente sem
paralelo nos pós-guerra e porque isso é grave. A razão porque a Alemanha tem um
excedente externo tão elevado deve-se a dois factores. Por um lado, a uma
procura interna insuficiente; por outro, devido a uma taxa de câmbio demasiado
baixa para este país.
Se a Alemanha mantivesse o marco, este já se teria apreciado
muitíssimo e este país não conseguiria ter um excedente tão elevado. Já que a
Alemanha está a beneficiar de uma taxa de câmbio tão favorável, por estar no
euro, deveria “compensar” os seus parceiros por isso.
A razão porque este excedente é grave é porque quer a
Europa, quer o mundo estão a passar por um período de escassez de procura,
agravada pela política alemã.
Passemos agora a analisar esta questão na perspectiva do
eleitorado germânico. Para ele, esta reivindicação é absurda e inédita. Mais
uma vez, é necessário assinalar que este é mais um conflito político criado
unicamente pelo euro e que jamais existiria sem o euro. Com o marco alemão,
este moeda apreciar-se-ia muito mais e não haveria tantas razões de queixa, até
porque o excedente nunca seria tão elevado.
Para o eleitorado alemão, desconhecedor da análise económica
que expus hoje e na semana passada, esta queixa inédita dos parceiros europeus
e EUA não faz sentido. Para a opinião pública germânica, um excedente externo é
um sinal de saúde e de robustez, uma óbvia qualidade, que é absurdo criticar.
Imaginem uma pessoa inteligente ser acusada de ser inteligente, uma pessoa
simpática ser insultada por ser simpática.
É natural que protestem, indignados, que a Alemanha não faz dumping (venda abaixo de custo) social
nem ambiental, como a China, mas isso não deverá desarmar as críticas
internacionais.
Os alemães já estavam bastante desagradados com o facto de o
euro estar a desrespeitar aquilo que lhes tinha sido prometido em Maastricht,
de que nunca teriam que pagar pelos erros dos outros. Agora, a somar a este
descontentamento, vem esta crítica que, para eles, é incompreensível. O
resultado final só pode ser uma ainda maior deterioração da imagem desta moeda.
Se as críticas ao excedente alemão se prolongarem e
intensificarem não é difícil prever um crescimento eleitoral do partido
Alternativa para a Alemanha, que defende a saída do euro, nas eleições
europeias, de Maio de 2014. Por seu turno, este crescimento do sentimento anti-euro
tem todas as condições para acelerar o fim da moeda única.
[Publicado no jornal “i”]
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Excedente alemão
O excedente externo
alemão é mau não só para a zona do euro, como para o mundo como um todo
Políticos demagogos e irresponsáveis, demasiadas vezes o
espelho do eleitorado, têm tendência para criar défices públicos e défices
externos. Os défices públicos surgem de despesas públicas imparáveis, para
satisfazer inúmeras clientelas, a par de impostos insuficientes, devido à sua
impopularidade.
As políticas que gerem défices públicos têm tendência para
gerar défices externos (por isso, muitas vezes designados como défices gémeos),
a que muitas vezes se adiciona outra, uma taxa de câmbio artificialmente
elevada, que os agrava. Uma taxa de câmbio elevada diminui o preço dos bens
importados, o que no caso dos bens alimentares e combustíveis é muito popular e
atraente para políticos de todas as cores.
Em 1978 e 1983, foi exactamente o problema de um défice
externo elevado a razão porque tivemos que pedir ajuda ao FMI. Em 2011, embora
não fosse essa a face visível, foi também esse o motivo porque tivemos de pedir
ajuda à troika. Com moeda própria, os
défices públicos não são um problema porque podemos sempre imprimir moeda para
os financiarmos. Mas como não podemos imprimir dólares, temos mesmo que
eliminar o défice externo. Dentro do euro, é o défice público que tem que ser
corrigido, porque imprimir moeda deixou de ser uma opção.
Há, no entanto, uma diferença muitíssimo importante entre um
défice público e um défice externo. Se um país tem um défice público elevado,
isso não tem implicações sobre o saldo orçamental dos outros, que tanto pode
ser positivo, como negativo.
Com as contas externas já não se passa o mesmo. Se um
determinado país tem um défice externo, então há algures no mundo um
correspondente excedente externo de igual montante. Tudo isto porque a soma de
todos os saldos externos de todos os países é zero.
Por isso, se um grande país, como a Alemanha ou a China, têm
um elevado excedente externo, eles estão – necessariamente – a gerar, algures
no mundo, défices externos elevados.
O problema é que existe uma brutal assimetria nos desvios ao
equilíbrio externo. Se os desvios a um saldo nulo forem negativos (défices), o
país terá rapidamente que encontrar forma de os reduzir, sob pena de ficar sem
financiamento externo. Já se os desvios forem positivos (excedentes), o país
não é forçado a fazer nada, podendo limitar-se a acumular reservas em divisas,
ir emprestando dinheiros aos países deficitários ou comprar activos no
exterior.
Se os desvios do equilíbrio externo produzissem,
naturalmente, uma pressão idêntica de ambos os lados, o trabalho dos países
deficitários ficava muito mais facilitado. Por isso é que faz sentido que, para
corrigir esta imperfeição natural, se introduzam medidas de política que forcem
os países excedentários a reduzir o seu excedente.
Segundo as actuais regras europeias, ao ultrapassar um
superavit de 6% do PIB (entre 2012 e 2015), a Alemanha comete uma infracção,
embora seja muito duvidoso que seja alvo de alguma sanção.
No entanto, defendo que o limite para o superavit seja
reduzido, como seja introduzido um outro limite nominal, porque aqui é isso que
conta. Um excedente de 1% do PIB na Alemanha é muitíssimo mais importante do
que um excedente de 10% do PIB no Luxemburgo.
Ao ter um excedente elevado, a Alemanha está a prejudicar a
periferia da Europa de duas formas. Em primeiro lugar, por lhes dificultar
reduzir os défices externos e, em segundo, por estar a conduzir a uma
apreciação do euro, que também aumenta aquela dificuldade.
Mas a Alemanha também está a dificultar a recuperação da
economia mundial. Um excedente externo ocorre quando um país gasta menos do que
o que produz. Como a economia mundial se depara, neste momento, com um défice
de procura, a Alemanha, está a agravar este défice e a reduzir o crescimento da
economia mundial.
Por tudo isto, os países periféricos deveriam estar a fazer
pressão para a Alemanha reduzir o seu excedente externo. Qualquer que seja a
política usada para isso, subida dos salários alemães ou aumento da sua despesa
pública, ela ajudaria os outros países. Para além disso, este tema também
deveria fazer parte do debate do G20.
[Publicado no jornal i]
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Anti-europeísmo
O facto de a UE ter
ido longe demais provocou esta revolta anti-europeia
As próximas eleições para o Parlamento Europeu, em Maio de
2014, preparam-se para ter o maior contingente de deputados anti-europeus de
que há memória.
Para os mais europeístas, isto é uma tal heresia, que alguns
até se indignam com o facto de eles se candidatarem a lugares numa instituição
que os próprios consideram que nem deveria existir. A esses convém lembrar os
deputados da Ala Liberal do tempo do marcelismo, que tentaram mudar o Estado
Novo por dentro. Infelizmente, não tiveram sucesso e foi necessário o uso das
armas a 25 de Abril de 1974 para mudar o regime. Se a Ala Liberal tivesse
conseguido os seus intentos, poderíamos ter tido uma transição pacífica para a
democracia, como em Espanha, sem as loucuras do PREC, que tanto nos custaram e
custam, ainda hoje, sob a forma de uma Constituição deplorável.
Concedendo o direito dos anti-europeístas a candidatarem-se,
permanece, para muitos, um ferrete de menoridade moral, como se a sua
existência fosse um erro.
A excessiva moralização da política não é boa conselheira,
parecendo mais útil tentar perceber qual a razão porque estes partidos
anti-europeus estão a ter um crescimento eleitoral tão importante. Será que a
UE não terá responsabilidades nesta expansão? Julgo que foi o facto de a UE ter
ido longe demais que provocou esta revolta anti-europeia.
Convém recordar o voluntarismo da construção europeia, em
que demasiados líderes políticos quiseram ir muito mais depressa do que aquilo para
o qual os seus próprios eleitorados estavam preparados.
A vitória de vários “não” em referendo parecia que tinha
trazido uma tomada de consciência em relação aos excessos “europeus”. Houve
algum acto de contricção com o reforço do princípio da subsidiariedade.
Infelizmente, a pulsão burocratizadora da UE é demasiado forte e ainda agora
tivemos notícia do projecto de regulamentação de autoclismos. Parece uma ficção
cómica, mas é verdade.
Outro passo muito maior do que a perna foi a criação do
euro, cheio de falhas estruturais. Desde o início da crise desta moeda, há
quase quatro anos, até agora nenhum dos problemas estruturais foi resolvido e
não se vislumbra a resolução de nenhum em prazo útil.
O euro permitiu a acumulação de desequilíbrios externos brutais,
que jamais seriam possíveis com as moedas nacionais (o FMI teria chegado a
Portugal uma década antes) e rouba-nos um instrumento precioso de correcção: a
desvalorização. Por isso, a correcção tem sido especialmente dolorosa em todos
os países que registaram aqueles desequilíbrios, com recessões graves,
desemprego galopante e muito sofrimento.
Como se os problemas económicos não fossem suficientes, o
euro trouxe graves conflitos políticos entre os diferentes países, trazendo à
superfície os fantasmas da II Guerra Mundial, que se pensava estarem já
enterrados.
O actual nível de animosidade entre países e dentro dos
países contra o projecto europeu é, assim, da responsabilidade dos
“visionários” que quiseram ir muito mais longe do que havia condições para ir.
Por isso, eles são os grandes responsáveis pelo sucesso eleitoral dos partidos
anti-europeus.
Há aqui um aspecto que merece reflexão: apesar de serem os
países do Sul que mais têm sofrido com a crise do euro, tem sido nos países do
Norte onde os partidos anti-europeus mais têm crescido. Os países do Sul,
apesar do sofrimento, continuam a sentir que permanecer na UE e no euro é
preferível a sair. Nos países do Norte, as contribuições para o euro já estão a
pesar e ainda estão a um nível muito limitado. Isto também reforça a ideia da
dificuldade política em construir uma solução para o euro.
A solução ideal para a crise do euro seria o seu fim
combinado num fim-de-semana entre a França e a Alemanha, para minimizar os
sentimentos anti-germânicos. Ironicamente, o sucesso de Marine Le Pen em França
poderá empurrar Hollande para se entender com Merkel sobre isto, quando o
processo estiver um pouco mais maduro.
Uma outra razão da força eleitoral dos partidos anti-UE
reside no seu ataque às políticas de imigração. Aqui também é demasiado
atraente rasgar as vestes de indignação, em vez de tentar perceber as razões
deste sentimento. Mas este tema terá que ficar para um próximo artigo.
[Publicado no jornal i]
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Nova Constituição
A Constituição de 1976 é um documento lamentável, a vários
títulos. Tal como as duas anteriores constituições portuguesas, é uma
constituição de facção, em que uma parte do país se impõe ao restante.
A Constituição de 1911, republicana e anti-clerical, foi
mesmo das mais minoritárias, imposta a um país em que 80% vivia no campo, uma
percentagem superior era católica e tendencialmente monárquica.
A Constituição de 1933 também não se recomenda, embora não
deixe de ser irónico que o regime corporativo em que aquela se baseava só tenha
sido verdadeiramente concretizado no actual regime. Nos nossos dias é que as
corporações tomaram o Estado de assalto, sobretudo as do sector público.
A Constituição de 1976, tal como as anteriores, é também um
diploma de facção, em particular na versão original, que previa a
irreversibilidade das nacionalizações, entre outras pérolas.
Apesar da limpeza realizada pelas sucessivas revisões
constitucionais, a actual Constituição continuar a ser um texto deplorável e
anti-democrático, em particular no seu preâmbulo onde se continua a querer “abrir
caminho para uma sociedade socialista”.
O problema não está apenas na Constituição, mas na
jurisprudência que se tem gerado a partir dela, demasiado politizada e
declarando inconstitucionalidades baseadas em argumentação tão pobre e vaga
como a violação do princípio da confiança. Aliás, pergunto-me se entrar em
bancarrota não violará também esse princípio, tendo em atenção que a última vez
que isso aconteceu foi em 1892 e que tanto esforço foi feito posteriormente
para não o repetir.
Os deputados que impedem a limpeza do texto constitucional
de toda a sua canga de facção e os juízes do Tribunal Constitucional que têm
uma leitura extremamente rígida da Constituição julgam que a estão a defender.
Não percebem que é exactamente o oposto que estão a provocar.
O caracter de facção da Constituição é uma vergonha e quem o
defende só contribui para o desprestígio daquela legislação.
Por tudo isto, estou cada vez mais convicto que já não basta
uma revisão constitucional, é mesmo necessária uma nova constituição. Não
podemos continuar com uma constituição de facção, queremos uma constituição que
seja verdadeiramente para o todo nacional, como deveria ser sempre.
[Publicado no Jornal de Negócios]
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Impunidades e mudança de regime
Quando se iniciar a
quarta república, muita impunidade chegará ao fim
Há em Portugal um grupo de pessoas que se sente no coração
do regime, quer na política quer na economia, entre as quais, aliás, há grande
transumância, e que, por isso, se sente impune. Podem protagonizar as mais
escandalosas e descaradas corrupções, que nem sentem necessidade de disfarçar.
O que mais choca é – justamente – esse descaramento e esse
não sentir a necessidade de disfarçar. A impunidade é tão total e tão segura,
que se pode fazer tudo na praça pública de forma escancarada.
É evidente que para que esta impunidade funcione há dois
elementos essenciais. Por um lado, uma legislação feita para proteger os
delinquentes. Pode-se roubar descaradamente, mas não se pode chamar “ladrão” a
quem roubou. Quem roubou, se acaso chegar a ser alvo de um simulacro de
investigação, será ilibado porque a acusação se esqueceu de preencher em
triplicado o impresso X, mas quem chama o boi pelos nomes será muito
prontamente condenado por difamação e assassínio de carácter.
Este pendor da legislação para proteger os prevaricadores
parece ser propositado, para deixar os legisladores e os seus amigos longe de
qualquer problema.
O segundo elemento essencial da impunidade é a cumplicidade
até às mais altas esferas da justiça.
Sem qualquer pudor, a triste trupe que tem desgovernado os
destinos nacionais nas últimas décadas continua a exibir um descaramento
inaudito, julgando que o infeliz estado de coisas se manterá e o regime
resistirá a tudo. No entanto, ou muito me engano, ou a 3ª República estará a
viver os seus últimos tempos.
Antecipam-se as maiores dificuldades em dois cenários
distintos, qualquer dos quais com o potencial para destruir mais do que o
governo, o próprio regime.
Ainda antes do fim do euro, é bem provável que haja eleições
antecipadas e o PS demonstre finalmente que não tem nenhuma alternativa para
mostrar. A obrigação de aplicar medidas a contragosto pode bem destruir
politicamente este partido, se os conflitos internos não o conduzirem primeiro
à implosão. Dentro do euro, teríamos mais duas décadas de austeridade, sem luz
ao fundo do túnel. Estas são as condições ideais para trucidar governos a
grande velocidade e, com eles, muito pessoal político. Seria impossível o
regime não rebentar em algum momento.
Com o fim do euro, e as eleições europeias de Maio de 2014
serão um foco de grande instabilidade, tudo se precipitará, porque as condições
económicas se agravarão muitíssimo e a falência da 3ª república se tornará
muito mais evidente, tornando ainda mais provável o seu fim e substituição por
um novo regime.
A seguir ao 25 de Abril, a anterior elite política teve que
se exilar, a principal elite económica foi presa e despojada do seu património,
mas a elite judicial foi deixada intacta. Na nova mudança de regime a que
iremos assistir, parece-me que todas estas três elites sofrerão pelas suas
responsabilidades na situação actual, que ainda vai piorar antes de melhorar.
A corrupção num período de prosperidade é desagradável, mas
será tolerável. No entanto, em condições de adversidade extrema, a corrupção
torna-se revoltante e insuportável.
Vêem-se já hoje, movimentos ainda inorgânicos de tentativa
de organização de alternativas. Por enquanto, são ainda demasiado amadores e
inexperientes e, como não seria de estranhar, fortemente demagógicos. No
entanto, com o passar do tempo e o agravamento das condições económicas, podem
bem ganhar uma outra dimensão.
[Publicado no jornal "i"]
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Orçamentos alternativos
Quem está a pedir o
perdão da dívida pode bem estar a pedir o fim do euro.
A esmagadora maioria das críticas à proposta de orçamento
para 2014 é profundamente irrealista ou insincera. Não por o documento ser um
poço de virtudes, mas por as críticas serem uma fantasia, que nunca explica as
alternativas.
Por isso mesmo, vou listar algumas alternativas a este
orçamento, por grau decrescente de radicalidade. O orçamento mais radicalmente
diferente deste seria aquele que seria feito após a saída do euro. Quando
sairmos do euro, dar-se-á uma alteração profunda sobre o foco do que é urgente.
Neste momento, as atenções estão focadas no défice público, mas nessa altura o
tema mais quente vai passar a ser as contas externas. Elas serão tanto mais
importantes, quanto mais desordenado for o fim do euro e quanto maiores
dificuldades Portugal tiver nos financiamentos externos.
De volta ao escudo, não será necessário cortar salários e
pensões nominais, porque a inflação, o imposto inflação, se encarregará de
produzir cortes muito mais fundos. Ou seja, os que defendem (eu não defendo,
apenas prevejo) a alternativa da retirada do euro têm tido o cuidado de
escamotear as graves consequências que ela trará em termos de redução do poder
de compra.
Uma segunda alternativa é negociar um perdão de dívida,
mantendo-nos no euro. Este perdão, para fazer sentido, tem que envolver,
necessariamente, os credores oficiais. Se envolvesse apenas os credores
privados, como no caso do primeiro perdão grego, arriscava-se a levar à
falência os bancos portugueses, que depois teriam que pedir mais ajuda ao
Estado, que seria forçado a emitir mais dívida, o que seria absurdo.
Já o perdão dos credores oficiais arrisca-se a atravessar
várias linhas vermelhas. A perda de fundos por parte do FMI pode ditar a sua
retirada da troika e tornar os
resgates mais pesados para a Europa. No caso do BCE, pode levar à sua falência,
um acontecimento gravíssimo do ponto de vista simbólico. Seria o mundo virado
do avesso: o Estado americano em risco de não pagar a sua dívida e a zona do
euro, a segunda maior do mundo, com o banco central falido.
Para além disto, o perdão da dívida por parte dos Estados
seria desrespeitar a promessa que, há mais de vinte anos, foi feita em
Maastricht, de que os contribuintes (em particular os alemães) não pagariam as
facturas dos outros. Isso pode soltar todos os diabos, que poderão mesmo
conduzir à retirada da Alemanha do euro.
Nem sei o que seria pior: a) Portugal dar início a este
processo (no primeiro caso grego não houve perdão aos credores oficiais); b)
Portugal só pedir perdão da dívida depois do segundo perdão grego, que terá
necessariamente que envolver credores oficiais. Nesta segunda hipótese, caso o
novo perdão helénico não fosse suficientemente catastrófico, provocaria o
sentimento expresso no ditado alemão: “é melhor um fim com horror do que um
horror sem fim”. Em resumo, quem está a pedir o perdão da dívida pode bem estar
a pedir o fim do euro.
Um terceiro orçamento alternativo decorreria da renegociação
das metas orçamentais com a troika.
Mas como é que se chegaria lá? Teria que ser um novo governo, após eleições
antecipadas, devido à queda deste governo pela incapacidade de respeitar as
condições impostas pelos nossos financiadores. Se o novo governo poderia obter
algum alívio nas metas, seria duramente castigado pelos mercados, porque isso
demonstraria a incapacidade portuguesa em fazer a consolidação orçamental. Os
eventuais benefícios da suavização dos objectivos para as contas públicas
seriam destruídos pelos mercados. E não seria apenas o orçamento a sofrer com
isso, mas também os bancos e as empresas, que ficariam com custos de
financiamento mais elevados.
Finalmente, o quarto orçamento alternativo seria aquele que
respeitasse a actual meta com a troika,
mas chegasse lá de forma diferente. Aqui não vou entrar em detalhes, justamente
para expor o vazio das críticas que se têm ouvido. As sugestões são
irrealidades do tipo “não se devia cortar aqui”, sem qualquer corte substituto
ou, no melhor dos casos, devia-se cortar 10 aqui em vez de 1000 ali, como se
isso fosse uma solução admissível.
[Publicado no jornal "i"]
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Eleições antecipadas
A vitória do PS em eleições
antecipadas tornará todos os cortes de pensões e salários constitucionais
1. Ainda sem conhecer muitos detalhes sobre a proposta de orçamento
para 2014, arrisco-me a prever que teremos eleições antecipadas num futuro não
muito distante. A quase cisão da coligação, aquando a demissão “irrevogável” de
Portas, em Julho, não foi resolvida de nenhuma forma credível.
O novo vice-primeiro-ministro recebeu vários presentes
envenenados, mas não me parece que esteja disponível para beber o veneno até ao
fim. Parece-me razoável prever o fracasso da reforma do Estado, bem como da
própria proposta de orçamento. O momento da ruptura final poderá ocorrer fruto
de quaisquer novas exigências da troika,
que, ainda assim, está muito benevolente, porque já tomou consciência da
necessidade de um segundo resgate. No entanto, também poderá ocorrer por outro
qualquer pretexto, dada a fragilidade da coligação.
Das eleições antecipadas poderá resultar um governo de
coligação do PS, por um lado, com o PSD ou o CDS. Dados os malabarismos que
Paulo Portas já fez, parece mesmo que a segunda hipótese tem alguma
probabilidade de se concretizar, desde que os resultados eleitorais permitam
gerar um governo maioritário dessa forma.
Tenho mesmo que confessar que essa solução me parece a
ideal, já que um novo Bloco Central reduz a possibilidade de desenho de
alternativas.
O novo governo, espero que não tenham ilusões sobre isso,
será obrigado a ter uma política muito semelhante ao actual, até por estar
muito condicionado pelo acordo com a troika
(seja ele o primeiro ou o segundo). Haverá certamente uma outra roupagem no
anúncio das medidas, mas estas serão, no essencial, as mesmas.
Nem sequer é de esperar mais competência, antes pelo
contrário.
Espero que então os portugueses percebam que muitas das
políticas actuais não são escolhas do actual executivo, mas medidas ditadas
pela necessidade de pagar as facturas das últimas décadas de desvarios.
A parte que antecipo com maior divertimento é a expectável
alteração radical na posição do Tribunal Constitucional (TC). O que antes era
obviamente inconstitucional vai passar a ser claramente constitucional. Tem
sido sempre assim: o TC tem um enviesamento partidário anti-direita,
independente das questões concretas em análise. Assim, todos os cortes em
pensões e salários, toda a “destruição do Estado social” passará a estar
conforme com a constituição.
O eleitorado é que é capaz de se rebelar contra os partidos
do arco da governação, que nos trouxeram até aqui, que não têm competência para
resolver os problemas criados e, ainda por cima, nem falam verdade. Pode bem
ser a certidão de óbito de todos eles, embora seja hoje ainda incerto o que os
poderá substituir.
2. Em França, em Brignoles, a Frente Nacional de Marine Le
Pen ganhou as eleições intercalares. De acordo com uma sondagem a nível
nacional, este partido estaria à frente dos dois principais partidos do regime,
uma situação inédita. Mais importante ainda, ela está a ganhar votos em antigos
bastiões socialistas.
Marine não é tão extremista como o pai e já não é encarada
como um atentado à democracia. No entanto, ela pretende referendar a
permanência do país na UE e, sobretudo, defende a saída do euro.
As próximas eleições europeias, a disputar em Maio de 2014,
prometem, assim, ser muito interessantes. Em França deve ganhar o partido que
defende uma retirada rápida e concertada do euro; na Alemanha, o partido
Alternativa para a Alemanha também deverá conquistar alguns lugares, sendo a
sua bandeira principal a saída do euro; em outros países, como a Holanda,
também se antecipa a conquista de assentos parlamentares por parte de partidos
com idêntica orientação.
Teremos então um grupo parlamentar europeu significativo,
mesmo que não formal, a tornar este tema incontornável. As consequências disto
só podem ser acelerar o fim do euro.
[Publicado no jornal "i"]
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Orçamento de 2014
Teme-se que a proposta
de orçamento para 2014 seja simultaneamente muito dolorosa e insuficiente
Na próxima semana teremos a divulgação da proposta de
orçamento para 2014, um documento dificílimo e que, teme-se, será muito
decepcionante.
Tive sempre a sensação que, apesar de o governo ter tentado
aliviar a meta do défice para o próximo ano, de 4,0% para 4,5% do PIB, o
executivo não estava preparado para alcançar a sua proposta, quanto mais a
exigência da troika.
No entanto, devido à crise política criada por Paulo Portas,
que quase destruiu dois anos de trabalho, em que ele esteve intimamente
envolvido, os nossos financiadores mantiveram-se inflexíveis.
O documento disponível de avaliação da 8ª e 9ª avaliação da troika é demasiado sucinto para permitir
uma apreciação conclusiva. No entanto, apesar de termos tido nota positiva é
essencial avisar que os nossos avaliadores não tinham inteira liberdade para
escrever o que verdadeiramente pensavam. Neste momento, na crise do euro, temos
dois casos perdidos, a Grécia e Chipre, um caso de sucesso, a Irlanda, e várias
dúvidas, entre as quais Portugal.
Para os mercados financeiros, não há qualquer dúvida:
Portugal está muito mais próximo de ser uma segunda Grécia do que uma segunda
Irlanda. Por isso é que a troika não
lhes pode dar grandes hipóteses de confirmação daquilo que eles já hoje pensam.
Será extremamente grave que a Irlanda fique isolada como único caso de sucesso,
até porque este país teve problemas por razões sui generis, devido ao facto de o seu sistema bancário ter crescido
desmesuradamente.
Com a Irlanda como único país a ser bem-sucedido
agravar-se-ão as já actualmente fortes suspeitas de que estamos perante um
problema sistémico do euro. E isso pode ser a fonte de novos problemas, de mais
contágio a países frágeis, como Espanha e Itália.
Julgo que existe actualmente um outro obstáculo, que se
prende com a dificuldade em gerar um novo executivo na Alemanha, pelo que a troika não tem o menor interesse em
deixar transparecer dificuldades.
Apesar da benevolência com que a troika tem avaliado Portugal, tenho sérias dificuldades em
acreditar que consiga “engolir” uma proposta de orçamento para 2014 cheia de
boas intenções, mas com números não credíveis.
Dado o passado do personagem, também não acredito que a
reforma do Estado, sobre a qual continua a não se saber nada, tenha qualquer
coisa de verdadeiramente substancial e consequente.
Em relação ao corte nas pensões, que muitos criticam como
não sendo reforma “do” Estado, tenho que discordar no aspecto em que as
prestações sociais são uma das maiores componentes da despesa pública, pelo que
é inevitável que sejam afectadas. Em relação ao corte nas “pensões das viúvas”
devo confessar que foi mais dos extraordinários erros de comunicação deste
governo, uma qualidade em que, aliás, se tem especializado. Se ainda não sabiam
os moldes concretos em que iam fazer os cortes, estivessem caladinhos. Assim, o
que fizeram foi assustar desnecessariamente pessoas em situação muito frágil,
quando aparentemente 97% das pensões não serão afectadas pela medida prevista.
Ainda por cima, esta medida, apesar de ser tomada devido a
uma urgência financeira, é de elementar justiça. As pensões de viuvez
justificavam-se quando a esmagadora maioria das mulheres não trabalhavam. Hoje
em dia, quando esse já não é o caso, já não fazem sentido nos moldes em que
existiram no passado. Tem algum sentido uma pessoa que já recebe uma pensão de 3000
euros ainda receber mais uma pensão de viuvez? É evidente que se terão que
salvaguardar alguns casos, de existência de órfãos dependentes ou de a pensão
de viuvez ser muito superior à pensão base, caso em que se deveria dar o
direito de opção.
O resto que ainda falta saber sobre o próximo orçamento tem
todas as condições para ser tão ou mais doloroso. Só se espera que da próxima
vez o governo não cause sofrimento inútil por pura inépcia comunicacional.
Sugiro que tomem, de uma vez por todas, consciência de que não sabem comunicar
e contactem um psicólogo ou algum especialista em inteligência emocional para
os ajudar.
[Publicado no jornal "i"]
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