O facto de a UE ter
ido longe demais provocou esta revolta anti-europeia
As próximas eleições para o Parlamento Europeu, em Maio de
2014, preparam-se para ter o maior contingente de deputados anti-europeus de
que há memória.
Para os mais europeístas, isto é uma tal heresia, que alguns
até se indignam com o facto de eles se candidatarem a lugares numa instituição
que os próprios consideram que nem deveria existir. A esses convém lembrar os
deputados da Ala Liberal do tempo do marcelismo, que tentaram mudar o Estado
Novo por dentro. Infelizmente, não tiveram sucesso e foi necessário o uso das
armas a 25 de Abril de 1974 para mudar o regime. Se a Ala Liberal tivesse
conseguido os seus intentos, poderíamos ter tido uma transição pacífica para a
democracia, como em Espanha, sem as loucuras do PREC, que tanto nos custaram e
custam, ainda hoje, sob a forma de uma Constituição deplorável.
Concedendo o direito dos anti-europeístas a candidatarem-se,
permanece, para muitos, um ferrete de menoridade moral, como se a sua
existência fosse um erro.
A excessiva moralização da política não é boa conselheira,
parecendo mais útil tentar perceber qual a razão porque estes partidos
anti-europeus estão a ter um crescimento eleitoral tão importante. Será que a
UE não terá responsabilidades nesta expansão? Julgo que foi o facto de a UE ter
ido longe demais que provocou esta revolta anti-europeia.
Convém recordar o voluntarismo da construção europeia, em
que demasiados líderes políticos quiseram ir muito mais depressa do que aquilo para
o qual os seus próprios eleitorados estavam preparados.
A vitória de vários “não” em referendo parecia que tinha
trazido uma tomada de consciência em relação aos excessos “europeus”. Houve
algum acto de contricção com o reforço do princípio da subsidiariedade.
Infelizmente, a pulsão burocratizadora da UE é demasiado forte e ainda agora
tivemos notícia do projecto de regulamentação de autoclismos. Parece uma ficção
cómica, mas é verdade.
Outro passo muito maior do que a perna foi a criação do
euro, cheio de falhas estruturais. Desde o início da crise desta moeda, há
quase quatro anos, até agora nenhum dos problemas estruturais foi resolvido e
não se vislumbra a resolução de nenhum em prazo útil.
O euro permitiu a acumulação de desequilíbrios externos brutais,
que jamais seriam possíveis com as moedas nacionais (o FMI teria chegado a
Portugal uma década antes) e rouba-nos um instrumento precioso de correcção: a
desvalorização. Por isso, a correcção tem sido especialmente dolorosa em todos
os países que registaram aqueles desequilíbrios, com recessões graves,
desemprego galopante e muito sofrimento.
Como se os problemas económicos não fossem suficientes, o
euro trouxe graves conflitos políticos entre os diferentes países, trazendo à
superfície os fantasmas da II Guerra Mundial, que se pensava estarem já
enterrados.
O actual nível de animosidade entre países e dentro dos
países contra o projecto europeu é, assim, da responsabilidade dos
“visionários” que quiseram ir muito mais longe do que havia condições para ir.
Por isso, eles são os grandes responsáveis pelo sucesso eleitoral dos partidos
anti-europeus.
Há aqui um aspecto que merece reflexão: apesar de serem os
países do Sul que mais têm sofrido com a crise do euro, tem sido nos países do
Norte onde os partidos anti-europeus mais têm crescido. Os países do Sul,
apesar do sofrimento, continuam a sentir que permanecer na UE e no euro é
preferível a sair. Nos países do Norte, as contribuições para o euro já estão a
pesar e ainda estão a um nível muito limitado. Isto também reforça a ideia da
dificuldade política em construir uma solução para o euro.
A solução ideal para a crise do euro seria o seu fim
combinado num fim-de-semana entre a França e a Alemanha, para minimizar os
sentimentos anti-germânicos. Ironicamente, o sucesso de Marine Le Pen em França
poderá empurrar Hollande para se entender com Merkel sobre isto, quando o
processo estiver um pouco mais maduro.
Uma outra razão da força eleitoral dos partidos anti-UE
reside no seu ataque às políticas de imigração. Aqui também é demasiado
atraente rasgar as vestes de indignação, em vez de tentar perceber as razões
deste sentimento. Mas este tema terá que ficar para um próximo artigo.
[Publicado no jornal i]