Quando se iniciar a
quarta república, muita impunidade chegará ao fim
Há em Portugal um grupo de pessoas que se sente no coração
do regime, quer na política quer na economia, entre as quais, aliás, há grande
transumância, e que, por isso, se sente impune. Podem protagonizar as mais
escandalosas e descaradas corrupções, que nem sentem necessidade de disfarçar.
O que mais choca é – justamente – esse descaramento e esse
não sentir a necessidade de disfarçar. A impunidade é tão total e tão segura,
que se pode fazer tudo na praça pública de forma escancarada.
É evidente que para que esta impunidade funcione há dois
elementos essenciais. Por um lado, uma legislação feita para proteger os
delinquentes. Pode-se roubar descaradamente, mas não se pode chamar “ladrão” a
quem roubou. Quem roubou, se acaso chegar a ser alvo de um simulacro de
investigação, será ilibado porque a acusação se esqueceu de preencher em
triplicado o impresso X, mas quem chama o boi pelos nomes será muito
prontamente condenado por difamação e assassínio de carácter.
Este pendor da legislação para proteger os prevaricadores
parece ser propositado, para deixar os legisladores e os seus amigos longe de
qualquer problema.
O segundo elemento essencial da impunidade é a cumplicidade
até às mais altas esferas da justiça.
Sem qualquer pudor, a triste trupe que tem desgovernado os
destinos nacionais nas últimas décadas continua a exibir um descaramento
inaudito, julgando que o infeliz estado de coisas se manterá e o regime
resistirá a tudo. No entanto, ou muito me engano, ou a 3ª República estará a
viver os seus últimos tempos.
Antecipam-se as maiores dificuldades em dois cenários
distintos, qualquer dos quais com o potencial para destruir mais do que o
governo, o próprio regime.
Ainda antes do fim do euro, é bem provável que haja eleições
antecipadas e o PS demonstre finalmente que não tem nenhuma alternativa para
mostrar. A obrigação de aplicar medidas a contragosto pode bem destruir
politicamente este partido, se os conflitos internos não o conduzirem primeiro
à implosão. Dentro do euro, teríamos mais duas décadas de austeridade, sem luz
ao fundo do túnel. Estas são as condições ideais para trucidar governos a
grande velocidade e, com eles, muito pessoal político. Seria impossível o
regime não rebentar em algum momento.
Com o fim do euro, e as eleições europeias de Maio de 2014
serão um foco de grande instabilidade, tudo se precipitará, porque as condições
económicas se agravarão muitíssimo e a falência da 3ª república se tornará
muito mais evidente, tornando ainda mais provável o seu fim e substituição por
um novo regime.
A seguir ao 25 de Abril, a anterior elite política teve que
se exilar, a principal elite económica foi presa e despojada do seu património,
mas a elite judicial foi deixada intacta. Na nova mudança de regime a que
iremos assistir, parece-me que todas estas três elites sofrerão pelas suas
responsabilidades na situação actual, que ainda vai piorar antes de melhorar.
A corrupção num período de prosperidade é desagradável, mas
será tolerável. No entanto, em condições de adversidade extrema, a corrupção
torna-se revoltante e insuportável.
Vêem-se já hoje, movimentos ainda inorgânicos de tentativa
de organização de alternativas. Por enquanto, são ainda demasiado amadores e
inexperientes e, como não seria de estranhar, fortemente demagógicos. No
entanto, com o passar do tempo e o agravamento das condições económicas, podem
bem ganhar uma outra dimensão.
[Publicado no jornal "i"]