A Itália tem um
elevado potencial de destruir o euro, por ser demasiado grande para ser ajudada
Nos finais de 2011, a subida das taxas de juro em Itália e
Espanha colocaram o euro muito próximo do abismo.
Sabe-se hoje que o primeiro-ministro italiano na altura,
Silvio Berlusconi, estava a ponderar a saída de Itália do euro. Circulam
rumores que isso terá levado Angela Merkel a pressionar a demissão do seu
homólogo transalpino, embora haja alguma dificuldade em imaginar Berlusconi a
ceder a tais pressões. No entanto, dado o passado altamente obscuro deste
ex-governante também não é inteiramente inverosímil uma tal ideia.
Sejam quais forem as razões (também tinha perdido a maioria
no parlamento), o que é factual é que o político-empresário se demitiu em
Novembro de 2011 e foi substituído por um governo tecnocrático liderado por
Mario Monti, que durou até Abril deste ano.
Em Fevereiro de 2013, tiveram finalmente lugar eleições
legislativas, que deram lugar a um parlamento e um senado com uma composição
muito ingrata, com o partido do comediante Beppe Grilo a conquistar uns
impressionantes 25,6% dos votos e dificultando a formação de um novo governo.
O então líder do Partido Democrático (de esquerda), Pier
Luigi Bersani, convidado para formar governo, desiste de o fazer ao fim de
quase dois meses de tentativas frustradas. O seu sucessor, Enrico Letta, consegue
finalmente, no final de Abril, formar um governo de grande coligação, com os
partidos de Berlusconi e de Monti.
A Itália do pós-guerra caracterizou-se sempre pela
dificuldade em manter governos estáveis, mas essa faceta parecia que tinha
regredido nos últimos anos. Eis que ela regressa em todo o seu esplendor,
justamente agora que a estabilidade é mais necessária.
Como se houvesse falta de problemas, Berlusconi rasgou o
acordo de governo no passado fim-de-semana. Também é verdade que por serem
necessárias medidas difíceis é que é muito complicado manter a coesão de um
governo de coligação e são os mais demagogos que roem em corda, como também
temos visto em Portugal. Para tornar tudo ainda mais confuso, uma cisão do
próprio partido de Berlusconi está em cima da mesa.
Hoje, terá lugar uma votação de confiança no parlamento
italiano, cujo resultado é incerto, mas que poderá levar este país para
eleições antecipadas, pouco mais de seis meses depois de terem tido lugar as
últimas.
Uma Itália com uma dívida pública gigantesca, ingovernável e
irreformável é uma profunda dor de cabeça para os investidores, que não deverão
perder tempo a desfazerem-se dos seus investimentos. As ameaças de corte de rating bem poderão agravar todo este
processo.
O que distingue – de forma profunda – Itália dos outros
países resgatados até agora é a sua dimensão, não só em termos de economia,
como em termos de dívida pública. É impossível ajudar Itália, em dois planos,
no económico e político. O peso de ajudar este país é tão grande, que poderia
contaminar as contas públicas de vários países. Mas o problema principal é
político. A eventualidade de ter que auxiliar o Estado italiano deve levar a
uma mudança qualitativa na forma como os eleitorados de diversos países olham
para a crise do euro.
É como se ficássemos em presença de dois fins do euro. Ou
não há ajuda a Itália e este país é forçado a sair do euro, conduzindo a muitas
outras saídas posteriores; ou são os países contribuintes que desistem de
permanecer num sistema para eles inaceitável, e saem eles do euro. Em qualquer
dos casos, parece evidente que isso levaria ao fim do euro, embora a segunda
forma seja a menos penosa.
Como vemos, um agravar da crise política italiana pode bem
acelerar o fim da moeda única europeia.
[Publicado no jornal "i"]