sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Culpa e responsabilidade
A culpa católica gera
impotência e um fardo pesadíssimo, enquanto a responsabilidade protestante
confere poder pessoal
Na tradição judaico-cristã a culpa ocupa um lugar
proeminente. Logo nos primeiros capítulos do Génesis, texto sagrado comum
àquelas duas religiões, Adão e Eva cometem o “pecado original” e, por isso, são
expulsos do Paraíso. Ou seja, a história do homem começa com uma culpa, de
desobediência a Deus.
No judaísmo, quando um homem comete uma má acção contra
outro homem, passa a carregar uma culpa. No entanto, para expiar esta culpa, de
nada serve pedir perdão a Deus. Para que a culpa seja limpa, é necessário pedir
desculpa àquele a quem se causou dano. Julgo que este preceito é extremamente
avisado, já que permitirá uma efectiva limpeza da culpa.
Já na tradição católica (ignoremos, por agora, as outras
igrejas cristãs), os pecados podem ser perdoados mediante a confissão a um
sacerdote e o cumprimento da penitência correspondente, geralmente
relativamente leve, composta por algumas orações. Este preceito terá três
consequências principais.
Em primeiro lugar, desincentiva o pedido de desculpas
directo a quem se prejudicou. No entanto, pedir desculpa tem um efeito
altamente curativo nas relações pessoais. Se pedir desculpa em privado é bom,
fazê-lo em público é ainda muito mais potente.
Existe um preconceito na classe política portuguesa de que
não se deve reconhecer erros nem pedir desculpa. Tenho a certeza que um
político que o faça será muito mais considerado por isso e gozará de muito
maior confiança, como alguém que tem a coragem de emendar a mão. Mas – atenção!
–, o pedido de desculpa tem que ser de uma enorme clareza, quer na assunção da
responsabilidade pessoal, quer no pedido de desculpas. Uma vaga e redonda
assunção de responsabilidade, remetendo isso, ainda por cima, para muitas
outras pessoas, vale pouco.
Em segundo lugar, a confissão atribui uma autoridade
desmesurada aos sacerdotes, enfraquecendo brutalmente o poder pessoal dos
fiéis. Poder-se-ia pedir perdão directamente, mas não é esse o caso. Assim,
existe uma enorme transferência de poder, do indivíduo para as autoridades
religiosas, debilitando o estatuto de cada católico. Isto só pode ter os
resultados mais nefastos.
Em terceiro lugar, e esta parece-me ser uma das
consequências mais negligenciadas, cria-se a ilusão de uma aparente resolução
da culpa, que não é verdadeira. Muitos poderão pensar que os católicos
inventaram uma forma facílima de resolver a culpa, mas julgo que isso não passa
de uma tremenda ilusão. Enquanto, à superfície, a receita católica limpa a
culpa com a confissão e penitência, penso que, nos católicos, a culpa
permanece, quase intacta, na sombra.
Os católicos sofrerão, assim, por esta via, de dois
problemas. Por um lado, de uma drástica redução do poder pessoal, de
impotência. Por outro, de um fardo crescente de culpa, mantida no
subconsciente, e nunca verdadeiramente resolvida.
Confrontado a solução judaica com a católica, em relação à
culpa, vemos que aquela apresenta uma verdadeira solução, enquanto esta mascara
o problema.
Nos países católicos, como Portugal, não pensem que pelo
facto de não estarem oficialmente filiados na igreja vos coloca a salvo desta
formatação.
A revolta protestante (a Reforma), no século XVI, contra o
poder e prepotência de Roma, vieram devolver o poder pessoal aos protestantes.
Por isso, as tradições protestantes atribuem muito maior importância à
responsabilidade do que à culpa. Aliás, os textos sagrados seguidos pelos
protestantes resumem-se ao Novo Testamento, que lêem “religiosamente”, não
incluindo o Génesis.
Pergunto-vos: onde deverá haver maior realização pessoal?
Nos países onde as pessoas são infantilizadas ou onde são tratadas como
adultos? E onde deverá ser maior a realização colectiva, que também se pode
designar como desenvolvimento a todos os níveis?
Se esta marca da culpa é tão antiga e está tão enraizada,
poderá parece fútil sequer tentar mudá-la. No entanto, acredito que a tomada de
consciência poderá ajudar a modificar alguma coisa. E, se não se pode
transformar tudo de repente, em algum lado e em algum momento é necessário
começar.
[Publicado no jornal i]
Autoridade e razão
Num país em que os
argumentos de autoridade valem mais do que os argumentos racionais, a asneira é
rainha.
Em Portugal existe uma estranha originalidade. Embora, como
na generalidade dos países, os políticos, como um todo, sejam avaliados de
forma claramente negativa, é entre eles que a comunicação social tende a
recrutar os seus comentadores.
Antes de mais, convém esclarecer que isso não parece
resultar de um enviesamento da comunicação social. Se os portugueses não
atribuíssem valor ou interesse a esses comentários, é improvável que os órgãos
de comunicação contratassem de forma tão esmagadora ex-primeiros ministros e
ex-ministros.
A parte mais preocupante desta originalidade portuguesa, que
surpreende qualquer analista estrangeiro, é que, demasiadas vezes, esses
ex-governantes não deixaram uma obra louvável.
Ou seja, é como se o principal atributo destes políticos
comentadores não fosse a qualidade, mas a autoridade. A ocupação de lugares de
chefia no passado parece conferir a estas pessoas uma autoridade duradoura, que
se prolonga no tempo muito para além da posição exercida. O pior de tudo é que
este estatuto de autoridade parece ser quase completamente independente da
qualidade da chefia exercida. Mesmo os chefes mais incompetentes e corruptos
preservam essa aura de autoridade quando, racionalmente, seria natural concluir
que eles nunca deveriam ter ocupado aquele posto, por manifesta e gritante
incapacidade.
Em França, os antigos ministros continuam a ter o título
desse cargo, em termos vitalícios. Ou seja, em outros países os ex-governantes
mantêm um certo estatuto, mas não são convidados para fazer comentário
político.
Esta originalidade portuguesa revela uma outra coisa: a
falta de apreço pela inteligência e pela qualidade intelectual, que não será
alheia ao baixíssimo nível de escolaridade do nosso país, o pior dentro da UE.
O problema não reside na escassez de intelectuais capazes e
disponíveis para reflectir e comentar a actualidade, mas antes na baixa
valorização das suas reflexões.
Isto é também flagrante e infelizmente patente na pobreza
franciscana do debate público em Portugal. Após a divulgação de um estudo
sério, basta a oposição, sob a forma de uma ou duas baboseiras, proferidas por
alguém com alguma autoridade, não mais do que um dirigente sindical, para
aniquilar aquele estudo.
Esta é, também, uma das razões explicativas para o actual
desastre nacional. Num país em que basta um idiotice duma figura de autoridade,
por menor que esta seja, quer a cretinice quer a autoridade, para destruir uma
reflexão aprofundada, está condenado ao maior dos fracassos. Quando os
argumentos de autoridade valem mais do que os argumentos racionais, a asneira é
rainha.
Isto conduz-nos a uma das mais graves debilidades da
sociedade portuguesa: a excessiva tolerância à mediocridade, à incompetência e
à desonestidade dos chefes. Numa sociedade mais intolerante aos maus chefes,
estes são rapidamente afastados, preservando a qualidade das instituições. Em
sociedades, como a portuguesa, em que a mediocridade no topo é escandalosamente
permitida, há uma terrível contaminação do conjunto das instituições submetidas
a chefes tão fracos.
Por seu turno, uma sociedade dominada por medíocres nos
lugares de topo, sufocando a qualidade como uma ameaça terrível, que os pode
colocar em causa e que é essencial suprimir, só pode ter os piores resultados
colectivos.
Acrescentaria, ainda, que em Portugal há uma dupla
desvalorização da razão, por um efeito antigo e outro mais recente. O efeito
antigo é o da excessiva reverência à autoridade, referido atrás, que vai para
além do mero “respeitinho”. A influência mais recente diz respeito à
“democratização” da opinião, em que a minha ignorância vale tanto como o
conhecimento do outro.
Um dos sinais mais preocupantes é que temos assistido, nas
últimas décadas, em paralelo, a um aumento da formação dos portugueses e a uma
degradação da qualidade intelectual do debate público. É certo que os blogs
vieram trazer uma contribuição muito enriquecedora, mas cada vez menos a sua
influência se estende a públicos mais alargados.
[Publicado no jornal i]
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Meses de alto risco
Temos enormes
obstáculos pela frente: a reforma do Estado, a oitava e nona avaliações pela
troika, as eleições autárquicas e o orçamento de Estado
Após o interregno das últimas semanas, não vamos voltar à
normalidade, porque há imensos – e enormes – obstáculos nos próximos meses: a reforma
do Estado, a oitava e nona avaliações pela troika,
as eleições autárquicas e o orçamento de Estado.
Quanto à reforma do Estado, há fortes razoes para suspeitar
que o trabalho realizado pelo governo seja manifestamente insuficiente. O
adiamento sucessivo da apresentação de resultados e a ligeireza da demissão do
ministro com a tutela desta matéria deixa-nos altamente apreensivos.
Por isso, a próxima avaliação pela troika (a oitava e a nona em simultâneo) tem todas as condições
para correr ainda pior do que a sétima, cujas dificuldades e atrasos terão sido
algumas das principais razões para a demissão de Vítor Gaspar.
Os resultados das autárquicas (de 29 de Setembro) devem ser
péssimos para os partidos da maioria, não só por serem contaminados pela
conjuntura económica, mas também pelas inúmeras trapalhadas em que as
candidaturas têm estado envolvidas, continuando sem se saber quais serão sequer
aceites. Por seu turno, estes maus resultados eleitorais têm todas as condições
para exacerbarem os conflitos internos dentro do PSD e do CDS, agravando o
estado de saúde da coligação, que já não é nada famoso.
Passando agora para o orçamento de Estado, que tem que ser
apresentado até 15 de Outubro, o quadro é altamente complicado, sobretudo pela
relutância do CDS em aceitar os elevados cortes exigidos pela troika. Há aqui uma terrível ironia. Uma
profunda reforma do Estado, com claros efeitos de médio e longo prazo, ainda
que tímidos no curto prazo, poderia constituir uma das mais fortes armas
negociais do governo para conseguir uma suavização do ajustamento da
consolidação orçamental. No entanto, tudo indica que o CDS, com o pelouro da
reforma do Estado, produzirá a mais pífia das propostas, o que deverá
constituir o principal obstáculo à aceitação das suas reivindicações
orçamentais.
Para além disto, segundo os dados do 1º trimestre, Portugal
tem a terceira maior dívida pública da UE (127,2% do PIB) atrás da Grécia, num
destacadíssimo primeiro lugar (160,5%) e da Itália (130,2%).
Segundo as previsões da Comissão Europeia, de Maio, Portugal
deveria chegar ao fim de 2014, com uma dívida de 124,3% do PIB, o que significa
que só no primeiro trimestre deste ano já ultrapassámos a meta do próximo ano.
Como a execução orçamental não está a correr bem, este cenário tem todas as
condições para se agravar ao longo do ano.
Uma flexibilização das metas orçamentais trará, quase
inevitavelmente, mais dívida pública. Ou seja, estão reunidas as condições para
Portugal passar a ter, muito em breve, a segunda maior dívida pública da UE,
apenas superada pela Grécia. Por isso, será cada vez mais difícil argumentar
que Portugal não é a Grécia.
Por tudo isto, estou altamente apreensivo com o orçamento de
2014, que poderá ser mais um passo importante para nos aproximar da Grécia.
Vejo duas hipóteses: ou o orçamento é credível e será dificílimo de ser
aprovado, em particular pelo CDS; ou a proposta de orçamento é uma ficção.
Neste segundo caso, os problemas políticos poderiam ser adiados, mas apenas no
caso de a troika de engolir aquela
ficção.
Não custa nada imaginar uma reedição da saída “irrevogável”
de Paulo Portas por alturas da discussão do orçamento. Com a diferença que,
então, o governo já não terá remendo possível.
Restar-nos-á ir para eleições antecipadas, provavelmente
ganhas pelo PS, sem maioria absoluta, que não tem nenhuma alternativa, a não
ser dizer “a Europa que pague!”. Seguirá fatalmente os passos do socialista
Hollande, contrariando cada palavra que disser durante a campanha eleitoral.
Os tempos que vivemos têm todas as condições para destruir
os partidos tradicionais, que não só nos trouxeram até aqui como não parecem
fazer ideia nenhuma de como sair do buraco em que estamos. Haja quem aproveite
a oportunidade para criar novos partidos…
[Publicado no jornal i]
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Segundo resgate
A crise política que se vem desenrolando nas últimas semanas
tem fortes condições para aumentar a necessidade de um segundo resgate, que é
bem provável que envolva algum tipo de reestruturação da dívida pública, no
mínimo do tipo mais benigno, em que só se prolongam os prazos dos empréstimos.
Teme-se que a sucessivamente adiada reforma do Estado (e/ou
da despesa pública) se venha a revelar um fiasco, limitando a capacidade de
diminuir o défice público de forma sustentável nos próximos anos.
Mais cortes cegos e rápidos têm fortes condições de impedir
a continuação da tímida retoma económica em curso. Estamos perante um dilema
terrível: ou se concretizam reduções significativas na despesa, com claras
consequências recessivas, que agravarão a dívida pública (em percentagem do
PIB); ou se dilui o ajustamento orçamental, o que também piorará a trajectória
da dívida pública.
A segunda opção parece claramente preferível, em termos
sociais, mas está obviamente dependente do acordo dos nossos credores.
A dívida pública portuguesa está já em níveis praticamente
insustentáveis, não só por ser demasiado elevada, mas também porque Portugal
está em divergência estrutural desde cerca de uma década antes da chegada da troika. As medidas entretanto tomadas
apenas poderão ter um impacto extremamente limitado no nosso baixíssimo
potencial de crescimento.
Portugal deverá ser chamado a tomar decisões da maior
importância nos próximos tempos (um segundo resgate e reestruturação da dívida),
para as quais seria necessário dispor de um governo com uma clara legitimidade
e uma força anímica de que o actual executivo não dispõe.
O actual governo que, por força da confusa intervenção do
PR, não se sabe muito bem qual é (quem é ministro do quê? vai ficar ou está de
saída?), aparenta ser uma amálgama esboroada, incapaz de apresentar uma
proposta convicta de orçamento para 2014, para a qual já faltam menos de três
meses.
Neste contexto, pareceria preferível uma clarificação
política, através de eleições antecipadas, cujo custo deveria ser minimizado.
Como Pacheco Pereira muito bem sugeriu, seria preferível encurtar os prazos
oficiais e obter um acordo para os próximos meses, que seria muito mais fácil
de alcançar do que um acordo por doze meses.
Aliás, a ideia do PR de que nos livraremos da troika dentro de um ano está,
ironicamente, a ser posta em causa pela própria intervenção daquele órgão de
soberania, que criou a mais sui generis
das crises.
Aguardemos os próximos desenvolvimentos, não só internos,
como externos, em que se devem destacar as eleições legislativas alemãs de 22
de Setembro que, ao contrário do que a generalidade dos analistas pensa, julgo
que marcarão um agravamento da crise do euro. A partir daquela data é muito
provável que aquele eleitorado comece a ser confrontado com a quebra da
promessa de que a crise do euro nunca custaria nada aos contribuintes
germânicos. O pior nem sequer será a factura, mas antes o confronto com a
mentira.
[Publicado no Jornal de Negócios]
quarta-feira, 17 de julho de 2013
Impasse
Poder-se-á chegar a um acordo até 21 de Julho, mas temo muitíssimo que o preço da concordância seja a perda de substância do texto final
O Presidente da República apresentou uma estranha e pouco clara proposta aos partidos. Um pressuposto básico desta proposta é que o calendário com a troika se mantenha intacto, que é o que justifica a opção surpreendente de fazer eleições antecipadas em cima do final do actual programa. Trabalhando ainda nesta premissa, parece--me que seria preferível que fosse um novo governo a negociar o programa cautelar que se deve seguir ao actual.
Afigura-se-me muito infeliz repetirmos o que se passou em 2011, em que foi um governo em fim de funções a negociar o que o executivo seguinte teria que cumprir.
Mas, principalmente, entendo que este pressuposto básico tem todas as condições para não se verificar, quer por razões internas, quer externas.
As sucessivas derrapagens a que vimos assistindo, quer em termos das metas orçamentais (não só do défice público, mas sobretudo da dívida pública), quer das reformas adiadas (sobretudo sobre a despesa pública), têm vindo a aumentar a probabilidade da necessidade de um segundo resgate.
Em termos externos, temos o marco das eleições legislativas alemãs, a 22 de Setembro, que poderão introduzir alterações profundas na crise do euro. Há quem tenha a ilusão que a partir destas eleições é que medidas decisivas poderão ser tomadas, mas eu tenho a visão oposta.
A partir daquele acto eleitoral é que a verdadeira dimensão da factura do euro começará a ser revelada ao eleitorado germânico. Julgo que se criarão as condições para um aprofundamento da crise do euro. Entendo que o problema principal não residirá no tamanho daquela factura, mas na tomada de consciência, por parte dos alemães, de que estiveram a ser enganados estes anos todos.
É evidente que os países periféricos sofrerão muito com este agravamento da crise, mesmo que as consequências não sejam imediatas.
Voltando a Portugal, Pacheco Pereira está carregadíssimo de razão ao sugerir que, em vez de se evitarem eleições antecipadas já, se deveriam reduzir os problemas associados a este acto eleitoral. Por um lado, há a necessidade de redução dos prazos oficiais, aproximando-os dos verificados em democracias maduras. Por outro lado, haveria a necessidade de um acordo entre os principais partidos até às eleições, muito mais fácil de alcançar do que aquele que o PR propôs.
Não descarto a hipótese de se chegar a um acordo até 21 de Julho, mas temo muitíssimo que o preço da concordância seja a perda de substância do texto final. É bem possível que se chegue a acordo sobre um documento que não quer dizer nada, repleto de baboseiras. Imagino frases do tipo: "Os três partidos concordam sobre a necessidade de recuperar o crescimento económico e de diminuir o desemprego."
Até podem lá escrever que são a favor da felicidade, da cura do cancro e do fim da fome no mundo, como qualquer candidata a Miss Mundo, sem nunca explicitar o como e o quando. Poderemos ter um acordo de piedosas intenções, com implicações práticas nulas.
Sobretudo, parece muito difícil chegar a acordo sobre os termos do Orçamento para 2014, que deverá ser apresentado dentro de três meses. No entanto, como os membros da actual coligação ainda albergam expectativas de suavizar as metas orçamentais, isso poderá permitir uma formulação ambígua, que poderá criar um falso consenso.
Tudo indica que a crise seguirá dentro de momentos, depois de um compasso de espera protagonizado pelo PR, que só veio agravar as condições de imprevisibilidade de Portugal, o que só pode ter os piores resultados.
[Publicado no jornal i]
Afigura-se-me muito infeliz repetirmos o que se passou em 2011, em que foi um governo em fim de funções a negociar o que o executivo seguinte teria que cumprir.
Mas, principalmente, entendo que este pressuposto básico tem todas as condições para não se verificar, quer por razões internas, quer externas.
As sucessivas derrapagens a que vimos assistindo, quer em termos das metas orçamentais (não só do défice público, mas sobretudo da dívida pública), quer das reformas adiadas (sobretudo sobre a despesa pública), têm vindo a aumentar a probabilidade da necessidade de um segundo resgate.
Em termos externos, temos o marco das eleições legislativas alemãs, a 22 de Setembro, que poderão introduzir alterações profundas na crise do euro. Há quem tenha a ilusão que a partir destas eleições é que medidas decisivas poderão ser tomadas, mas eu tenho a visão oposta.
A partir daquele acto eleitoral é que a verdadeira dimensão da factura do euro começará a ser revelada ao eleitorado germânico. Julgo que se criarão as condições para um aprofundamento da crise do euro. Entendo que o problema principal não residirá no tamanho daquela factura, mas na tomada de consciência, por parte dos alemães, de que estiveram a ser enganados estes anos todos.
É evidente que os países periféricos sofrerão muito com este agravamento da crise, mesmo que as consequências não sejam imediatas.
Voltando a Portugal, Pacheco Pereira está carregadíssimo de razão ao sugerir que, em vez de se evitarem eleições antecipadas já, se deveriam reduzir os problemas associados a este acto eleitoral. Por um lado, há a necessidade de redução dos prazos oficiais, aproximando-os dos verificados em democracias maduras. Por outro lado, haveria a necessidade de um acordo entre os principais partidos até às eleições, muito mais fácil de alcançar do que aquele que o PR propôs.
Não descarto a hipótese de se chegar a um acordo até 21 de Julho, mas temo muitíssimo que o preço da concordância seja a perda de substância do texto final. É bem possível que se chegue a acordo sobre um documento que não quer dizer nada, repleto de baboseiras. Imagino frases do tipo: "Os três partidos concordam sobre a necessidade de recuperar o crescimento económico e de diminuir o desemprego."
Até podem lá escrever que são a favor da felicidade, da cura do cancro e do fim da fome no mundo, como qualquer candidata a Miss Mundo, sem nunca explicitar o como e o quando. Poderemos ter um acordo de piedosas intenções, com implicações práticas nulas.
Sobretudo, parece muito difícil chegar a acordo sobre os termos do Orçamento para 2014, que deverá ser apresentado dentro de três meses. No entanto, como os membros da actual coligação ainda albergam expectativas de suavizar as metas orçamentais, isso poderá permitir uma formulação ambígua, que poderá criar um falso consenso.
Tudo indica que a crise seguirá dentro de momentos, depois de um compasso de espera protagonizado pelo PR, que só veio agravar as condições de imprevisibilidade de Portugal, o que só pode ter os piores resultados.
[Publicado no jornal i]
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Reservas morais
Nesta crise, o CDS
revelou possuir uma reserva moral muito superior aos outros partidos, que o
valoriza
Ainda hoje não é claro o que se passou nos bastidores
durante a semana passada mas, pelo que se conhece, parece evidente que o
comportamento de Paulo Portas foi o mais irresponsável. Sendo uma pessoa fria e
calculista (embora erre muito nos cálculos), a interpretação que parece mais
razoável é que o líder do CDS quis sair do governo, em cujos resultados tinha
uma baixíssima confiança (com inteira razão), lançando as culpas da sua saída
sobre o primeiro-ministro, por uma má e não negociada escolha da nova ministra
das Finanças. Concordo com a avaliação que Paulo Portas faz desta escolha, que
descrevi aqui na semana passada como não sendo o “cúmulo da prudência”.
No entanto, a jogada, quase infantil, que tentou, saiu-lhe
pela culatra. Portas é daquelas pessoas que se considera tão inteligente e
esperto, que julga que os outros não passam de um bando de estúpidos e idiotas,
que engoliriam o seu truquezeco.
Mas recebeu dois valentes baldes de água fria. Em primeiro,
dos mercados financeiros, que ficaram aterrorizados com a forma como Portas
saiu do governo e, num primeiro momento, praticamente desfizeram todo o
trabalho e esforço dos últimos dois anos que o governo e os portugueses fizeram
e sofreram. Como é que Paulo Portas não foi capaz de antecipar o brutal cartão
vermelho com que os mercados assinalaram a sua “esperteza”?
O segundo balde de água fria veio do próprio CDS, que se
mostrou –generalizadamente – indignado com o gesto do seu líder. Filipe
Anacoreta Correia foi dos mais contundentes críticos desta decisão, que
classificou como “irreflectida, incoerente e totalmente irresponsável”.
Paulo Portas, um dos políticos mais incoerentes e
cata-ventos da actualidade, teve que engolir o caracter “irrevogável” da sua
decisão de sair do governo, como há pouquíssimo tempo tinha ultrapassado a
linha que dizia inultrapassável, no caso da “TSU dos reformados”.
É certo que Portas recebeu uma significativa compensação
pela sua permanência no poder, mas se este resultado fosse o almejado, desde a
primeira hora, ele não teria usado a palavra “irrevogável” na sua carta de
demissão. Aliás, a quantidade e importância dos pelouros que recebeu parece
indicar a falta de confiança do primeiro-ministro na capacidade do seu próprio
governo. Se é verdade que estes pelouros são dos mais importantes, também é
verdade que são aqueles onde a probabilidade de fracasso é maior. Dá ideia que
Passos Coelho ofereceu ao seu parceiro de coligação um presente
envenenadíssimo.
O verdadeiro tema deste artigo é a reserva moral de que o
CDS mostrou dispor, a capacidade de reprovar – publicamente – a falta de ética
do seu líder.
O PSD também tem mostrado uma elevada capacidade de criticar
o líder em exercício, embora a motivação destas críticas raras vezes esteja
relacionada com a preocupação de manter elevados padrões morais. A maioria dos
ataques ao líder parece provir de facções menos consideradas nos cadernos
eleitorais.
Ao contrário do CDS e do PSD, dentro do PS há um baixo nível
de dissidência pública, mesmo quando alguns dirigentes demonstram sinais
evidentes de falta de ética. Será que isto se pode explicar pela maior
prevalência da maçonaria dentro do PS?
Infelizmente, ainda que a maçonaria defenda – teoricamente –
elevados princípios éticos, parece que, na prática, perante comportamentos
eticamente reprováveis, os maçons consideram mais importante defender os
“irmãos” do que a ética. É curiosíssimo como a maçonaria repete os piores
padrões da igreja católica, que tanto critica, ao colocar a defesa dos
interesses dos “seus” acima dos princípios superiores que – alegadamente – a
norteiam. Onde é que esteve a reserva moral do PS durante o consulado de
Sócrates (2005-2011), um dos primeiros-ministros mais desprovidos de ética (já
nem falo na competência…) da 3ª República?
[Publicado no jornal i]
terça-feira, 2 de julho de 2013
sábado, 29 de junho de 2013
Repetir erros
Estamos a repetir os
mesmos erros dos anos 30, desta vez sem desculpa
A Grande Depressão, iniciada em 1929 e que só acabou, nos
EUA, mais de uma década depois, com a II Guerra Mundial (1939-1945), teve lugar
num contexto em que o pensamento económico dominante não era capaz de enquadrar
o que estava a acontecer. Por isso, foram tomadas medidas que só agravaram a
crise. Aquilo que começou como mais uma recessão, transformou-se numa enorme
depressão.
O pensamento económico alternativo, liderado por Keynes, não
tinha peso nem na academia nem nas principais instituições económicas.
Entretanto, com o passar do tempo, as ideias keynesianas
tornaram-se dominantes.
Em seguida, e simplificando, diria que o debate científico
passou a ser travado entre a escola neoclássica e a escola neo-keynesiana. Continuando
a simplificar, para distinguir melhor as diferenças, diria que os neoclássicos
defendiam que os mercados resolviam tudo e que ao Estado não caberia mais do
que uma função supletiva. Em contrapartida, os neo-keynesianos enfatizavam as
insuficiências dos mercados e a concomitante necessidade da intervenção do
Estado, para conseguir o equilíbrio nos mercados, em particular no mercado de
trabalho, para atingir o pleno emprego (que não deve ser confundido com a
eliminação do desemprego).
Mais do que um debate científico, esta divergência passou a
ser, na sua essência, um confronto ideológico, entre o Mercado e o Estado. A
honestidade intelectual foi substituída pela ideologia, de forma mais nítida do
lado neoclássico. A desonestidade intelectual que se seguiu, pretendendo forçar
a realidade a conformar-se com a teoria, levou alguns partidários da teoria
neoclássica a defender a ideia – totalmente escandalosa – de que o desemprego
durante as recessões resultava das decisões voluntárias dos desempregados.
Infelizmente, a “teoria” neoclássica domina hoje os
principais centros de poder, sobretudo os bancos centrais, forçando medidas
inconcebíveis, contra toda a evidência empírica. A economia tornou-se, nos dias
de hoje, uma das matérias mais anticientíficas, em que todas as experiências
concretas que rejeitam a ideologia dominante vigente são ignoradas e
vilipendiadas.
O extraordinário fracasso do mercado, em particular no
sector financeiro, tem sido desvalorizado duma forma inexplicável. Mais ainda,
os modelos neoclássicos têm produzido previsões totalmente erradas (a
austeridade virtuosa), enquanto os modelos neo-keynesianos se têm comportado
muito bem durante a crise.
Se o debate científico na economia não tivesse sido
sequestrado pela ideologia, há muito que as teses neoclássicas teriam sido
deitadas para o caixote de lixo da história. Não só isso não aconteceu, como
elas continuam dominantes.
Demos a volta completa. Nos anos 30, a teoria clássica era
dominante, estando a ser desafiada pela teoria keynesiana. Pouco tempo depois,
esta passou para a mó de cima, durante várias décadas. Nos anos 80 e 90 a
teoria neoclássica tornou-se na tese dominante, sendo desafiada, com pouco
sucesso institucional, pelos neo-keynesianos.
Estamos a repetir os erros dos anos 30. Então como agora, havia
uma teoria dominante que estava errada, sendo contestada por uma teoria
alternativa, muito mais correcta e útil. Mas há aqui uma grande diferença. Nos
anos 30 a teoria keynesiana era completamente nova e nunca tinha sido testada.
Neste momento, temos décadas de um historial de sucesso das teses keynesianas e
um claríssimo fracasso do defendido pelos neoclássicos. Não temos desculpa por
estar a repetir estes erros.
Em 1934, o presidente americano Roosevelt aprovou um
alargado programa de obras públicas, de contornos claramente keynesianos,
embora não assumidos. Em 1937, convencidos de que retoma já estava garantida,
as autoridades retiraram medidas de estímulo, fazendo regressar a recessão.
Temo imenso que o presidente da Reserva Federal, na sua
decisão recente de abrandar os estímulos monetários, esteja a ter o seu momento
“1937”. Com consequências péssimas para a economia mundial, na pior conjuntura.
[Publicado no jornal i]
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Rol das compras
Em Portugal, a generalidade dos partidos políticos pensa que
um programa de governo é um rol das compras, com isto, mais aquilo, mais
aqueloutro. Não percebem que um governo tem que ter um plano estratégico, que
enquadre e oriente a acção executiva.
António José Seguro propôs, em Paris, no Fórum dos
Progressistas Europeus (partidos socialistas de países do sul da Europa), que “a
UE estabeleça como objectivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa
de desemprego superior à média europeia”. Não vou comentar este disparate,
porque já o fiz noutro local.
Para além disso, propôs também que a partir de 2021, exista
uma “mutualização europeia do pagamento dos subsídios de desemprego” sempre que
a taxa ultrapassar a média europeia.
Esta segunda ideia é, em si mesma, interessante, mas é
necessário enquadrá-la num plano mais vasto, para se perceber a sua validade e
a necessidade de outras que a complementem.
Em princípio, esta medida enquadra-se no objectivo muito
mais amplo de construir uma solução estrutural para a crise do euro. Uma parte
essencial desta solução é a constituição de um verdadeiro orçamento
comunitário, de que aquela proposta faria parte, mas apenas como um dos
elementos de menor significado.
Ou seja, impõe saber-se qual é, na sua totalidade, a
proposta do PS para uma resolução estrutural da crise do euro, para que esta
possa ser avaliada, quer em termos da sua exequibilidade política, quer em
termos da sua eficácia económica.
Como toda a gente já percebeu, não existem condições
políticas – absolutamente nenhumas – para que esta proposta venha algum dia a
ser aprovada. Ela pressupõe a transformação do euro (ou da própria UE) numa
“união de transferências”, ideia a que aqueles que seriam os principais
contribuintes líquidos desse novo orçamento, em particular a Alemanha, se opõem
frontalmente.
Esta medida avançada pelo PS tem, assim, não só o grave
inconveniente de não passar de um contributo minúsculo e fantasioso, como o de
se pretender que apenas se aplique a partir de 2021. Meus caros amigos, se nada
de estruturalmente decisivo for aplicado até então, a probabilidade de nessa
data já não existir euro é elevadíssima.
Estamos no domínio da pura fantasia política, com o óbvio
objectivo de tentar enganar o eleitorado português. Ninguém percebe a urgência
do PS em voltar para o poder, ou pelo menos, não se descortinam boas razões
para isso. No poder, o partido seria totalmente incapaz de uma política
verdadeiramente alternativa à actual, como vem sendo amplamente demonstrado
pela total vacuidade das soluções “propostas”. A não ser que o empenho do PS em
voltar ao poder esteja mais relacionado com os processos judiciais muito
perigosos, como os que parecem vir a decorrer do relatório das PPP, em boa hora
enviado à PGR…
PS. Como leitura complementar, sugiro o meu artigo de ontem
no jornal i.
[Publicado no Jornal de Negócios]
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