sexta-feira, 12 de julho de 2013

Reservas morais

Nesta crise, o CDS revelou possuir uma reserva moral muito superior aos outros partidos, que o valoriza

Ainda hoje não é claro o que se passou nos bastidores durante a semana passada mas, pelo que se conhece, parece evidente que o comportamento de Paulo Portas foi o mais irresponsável. Sendo uma pessoa fria e calculista (embora erre muito nos cálculos), a interpretação que parece mais razoável é que o líder do CDS quis sair do governo, em cujos resultados tinha uma baixíssima confiança (com inteira razão), lançando as culpas da sua saída sobre o primeiro-ministro, por uma má e não negociada escolha da nova ministra das Finanças. Concordo com a avaliação que Paulo Portas faz desta escolha, que descrevi aqui na semana passada como não sendo o “cúmulo da prudência”.

No entanto, a jogada, quase infantil, que tentou, saiu-lhe pela culatra. Portas é daquelas pessoas que se considera tão inteligente e esperto, que julga que os outros não passam de um bando de estúpidos e idiotas, que engoliriam o seu truquezeco.

Mas recebeu dois valentes baldes de água fria. Em primeiro, dos mercados financeiros, que ficaram aterrorizados com a forma como Portas saiu do governo e, num primeiro momento, praticamente desfizeram todo o trabalho e esforço dos últimos dois anos que o governo e os portugueses fizeram e sofreram. Como é que Paulo Portas não foi capaz de antecipar o brutal cartão vermelho com que os mercados assinalaram a sua “esperteza”?

O segundo balde de água fria veio do próprio CDS, que se mostrou –generalizadamente – indignado com o gesto do seu líder. Filipe Anacoreta Correia foi dos mais contundentes críticos desta decisão, que classificou como “irreflectida, incoerente e totalmente irresponsável”.

Paulo Portas, um dos políticos mais incoerentes e cata-ventos da actualidade, teve que engolir o caracter “irrevogável” da sua decisão de sair do governo, como há pouquíssimo tempo tinha ultrapassado a linha que dizia inultrapassável, no caso da “TSU dos reformados”.

É certo que Portas recebeu uma significativa compensação pela sua permanência no poder, mas se este resultado fosse o almejado, desde a primeira hora, ele não teria usado a palavra “irrevogável” na sua carta de demissão. Aliás, a quantidade e importância dos pelouros que recebeu parece indicar a falta de confiança do primeiro-ministro na capacidade do seu próprio governo. Se é verdade que estes pelouros são dos mais importantes, também é verdade que são aqueles onde a probabilidade de fracasso é maior. Dá ideia que Passos Coelho ofereceu ao seu parceiro de coligação um presente envenenadíssimo.

O verdadeiro tema deste artigo é a reserva moral de que o CDS mostrou dispor, a capacidade de reprovar – publicamente – a falta de ética do seu líder.

O PSD também tem mostrado uma elevada capacidade de criticar o líder em exercício, embora a motivação destas críticas raras vezes esteja relacionada com a preocupação de manter elevados padrões morais. A maioria dos ataques ao líder parece provir de facções menos consideradas nos cadernos eleitorais.
Ao contrário do CDS e do PSD, dentro do PS há um baixo nível de dissidência pública, mesmo quando alguns dirigentes demonstram sinais evidentes de falta de ética. Será que isto se pode explicar pela maior prevalência da maçonaria dentro do PS?


Infelizmente, ainda que a maçonaria defenda – teoricamente – elevados princípios éticos, parece que, na prática, perante comportamentos eticamente reprováveis, os maçons consideram mais importante defender os “irmãos” do que a ética. É curiosíssimo como a maçonaria repete os piores padrões da igreja católica, que tanto critica, ao colocar a defesa dos interesses dos “seus” acima dos princípios superiores que – alegadamente – a norteiam. Onde é que esteve a reserva moral do PS durante o consulado de Sócrates (2005-2011), um dos primeiros-ministros mais desprovidos de ética (já nem falo na competência…) da 3ª República?

[Publicado no jornal i]

terça-feira, 2 de julho de 2013

sábado, 29 de junho de 2013

Repetir erros

Estamos a repetir os mesmos erros dos anos 30, desta vez sem desculpa

A Grande Depressão, iniciada em 1929 e que só acabou, nos EUA, mais de uma década depois, com a II Guerra Mundial (1939-1945), teve lugar num contexto em que o pensamento económico dominante não era capaz de enquadrar o que estava a acontecer. Por isso, foram tomadas medidas que só agravaram a crise. Aquilo que começou como mais uma recessão, transformou-se numa enorme depressão.

O pensamento económico alternativo, liderado por Keynes, não tinha peso nem na academia nem nas principais instituições económicas.

Entretanto, com o passar do tempo, as ideias keynesianas tornaram-se dominantes.

Em seguida, e simplificando, diria que o debate científico passou a ser travado entre a escola neoclássica e a escola neo-keynesiana. Continuando a simplificar, para distinguir melhor as diferenças, diria que os neoclássicos defendiam que os mercados resolviam tudo e que ao Estado não caberia mais do que uma função supletiva. Em contrapartida, os neo-keynesianos enfatizavam as insuficiências dos mercados e a concomitante necessidade da intervenção do Estado, para conseguir o equilíbrio nos mercados, em particular no mercado de trabalho, para atingir o pleno emprego (que não deve ser confundido com a eliminação do desemprego).

Mais do que um debate científico, esta divergência passou a ser, na sua essência, um confronto ideológico, entre o Mercado e o Estado. A honestidade intelectual foi substituída pela ideologia, de forma mais nítida do lado neoclássico. A desonestidade intelectual que se seguiu, pretendendo forçar a realidade a conformar-se com a teoria, levou alguns partidários da teoria neoclássica a defender a ideia – totalmente escandalosa – de que o desemprego durante as recessões resultava das decisões voluntárias dos desempregados.

Infelizmente, a “teoria” neoclássica domina hoje os principais centros de poder, sobretudo os bancos centrais, forçando medidas inconcebíveis, contra toda a evidência empírica. A economia tornou-se, nos dias de hoje, uma das matérias mais anticientíficas, em que todas as experiências concretas que rejeitam a ideologia dominante vigente são ignoradas e vilipendiadas.

O extraordinário fracasso do mercado, em particular no sector financeiro, tem sido desvalorizado duma forma inexplicável. Mais ainda, os modelos neoclássicos têm produzido previsões totalmente erradas (a austeridade virtuosa), enquanto os modelos neo-keynesianos se têm comportado muito bem durante a crise.
Se o debate científico na economia não tivesse sido sequestrado pela ideologia, há muito que as teses neoclássicas teriam sido deitadas para o caixote de lixo da história. Não só isso não aconteceu, como elas continuam dominantes.

Demos a volta completa. Nos anos 30, a teoria clássica era dominante, estando a ser desafiada pela teoria keynesiana. Pouco tempo depois, esta passou para a mó de cima, durante várias décadas. Nos anos 80 e 90 a teoria neoclássica tornou-se na tese dominante, sendo desafiada, com pouco sucesso institucional, pelos neo-keynesianos.

Estamos a repetir os erros dos anos 30. Então como agora, havia uma teoria dominante que estava errada, sendo contestada por uma teoria alternativa, muito mais correcta e útil. Mas há aqui uma grande diferença. Nos anos 30 a teoria keynesiana era completamente nova e nunca tinha sido testada. Neste momento, temos décadas de um historial de sucesso das teses keynesianas e um claríssimo fracasso do defendido pelos neoclássicos. Não temos desculpa por estar a repetir estes erros.

Em 1934, o presidente americano Roosevelt aprovou um alargado programa de obras públicas, de contornos claramente keynesianos, embora não assumidos. Em 1937, convencidos de que retoma já estava garantida, as autoridades retiraram medidas de estímulo, fazendo regressar a recessão.


Temo imenso que o presidente da Reserva Federal, na sua decisão recente de abrandar os estímulos monetários, esteja a ter o seu momento “1937”. Com consequências péssimas para a economia mundial, na pior conjuntura. 

[Publicado no jornal i]

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Rol das compras

Em Portugal, a generalidade dos partidos políticos pensa que um programa de governo é um rol das compras, com isto, mais aquilo, mais aqueloutro. Não percebem que um governo tem que ter um plano estratégico, que enquadre e oriente a acção executiva.

António José Seguro propôs, em Paris, no Fórum dos Progressistas Europeus (partidos socialistas de países do sul da Europa), que “a UE estabeleça como objectivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia”. Não vou comentar este disparate, porque já o fiz noutro local.

Para além disso, propôs também que a partir de 2021, exista uma “mutualização europeia do pagamento dos subsídios de desemprego” sempre que a taxa ultrapassar a média europeia.

Esta segunda ideia é, em si mesma, interessante, mas é necessário enquadrá-la num plano mais vasto, para se perceber a sua validade e a necessidade de outras que a complementem.

Em princípio, esta medida enquadra-se no objectivo muito mais amplo de construir uma solução estrutural para a crise do euro. Uma parte essencial desta solução é a constituição de um verdadeiro orçamento comunitário, de que aquela proposta faria parte, mas apenas como um dos elementos de menor significado.
Ou seja, impõe saber-se qual é, na sua totalidade, a proposta do PS para uma resolução estrutural da crise do euro, para que esta possa ser avaliada, quer em termos da sua exequibilidade política, quer em termos da sua eficácia económica.

Como toda a gente já percebeu, não existem condições políticas – absolutamente nenhumas – para que esta proposta venha algum dia a ser aprovada. Ela pressupõe a transformação do euro (ou da própria UE) numa “união de transferências”, ideia a que aqueles que seriam os principais contribuintes líquidos desse novo orçamento, em particular a Alemanha, se opõem frontalmente.

Esta medida avançada pelo PS tem, assim, não só o grave inconveniente de não passar de um contributo minúsculo e fantasioso, como o de se pretender que apenas se aplique a partir de 2021. Meus caros amigos, se nada de estruturalmente decisivo for aplicado até então, a probabilidade de nessa data já não existir euro é elevadíssima.

Estamos no domínio da pura fantasia política, com o óbvio objectivo de tentar enganar o eleitorado português. Ninguém percebe a urgência do PS em voltar para o poder, ou pelo menos, não se descortinam boas razões para isso. No poder, o partido seria totalmente incapaz de uma política verdadeiramente alternativa à actual, como vem sendo amplamente demonstrado pela total vacuidade das soluções “propostas”. A não ser que o empenho do PS em voltar ao poder esteja mais relacionado com os processos judiciais muito perigosos, como os que parecem vir a decorrer do relatório das PPP, em boa hora enviado à PGR…


PS. Como leitura complementar, sugiro o meu artigo de ontem no jornal i.

[Publicado no Jornal de Negócios]

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Um luxo

Vasco Pulido Valente (VPV) fez-me o favor de se referir ao meu último artigo, em termos elogiosos, que não são a sua especialidade (Público de hoje, última página, sem link).

Só um comentador, Pedro Braz Teixeira (que já se demitiu do Gabinete de Estudos do PSD e do próprio PSD) deu pela extraordinária intervenção que o preclaro António José Seguro resolveu fazer em Paris a um suposto “Fórum dos Progressistas”.


Ou muito me engano, mas uma das coisas que VPV mais gostou foi que eu me tivesse demitido de cargos no PSD.

Falta de estudo

António José Seguro levou a Paris uma proposta que revela uma total falta de estudo

Um dos maiores problemas da política portuguesa é a falta de pensamento estratégico. Esta ausência é quase total nos partidos políticos, o que é inacreditável. Como é que é possível que quem gere os destinos do país, ou pretende fazê-lo no futuro, não tenha uma visão de longo prazo para enquadrar a acção dos governos?

O saudoso Ernâni Lopes dizia, e muito bem, que desde 1995 o país estava “à deriva”, uma imagem condizente com a sua formação militar na Marinha.

A minha experiência pessoal como membro do gabinete de estudos do PSD, entre 2008 e 2010, foi extremamente frustrante. A ausência de respostas às nossas propostas e comentários impediu que aquelas dezenas de pessoas, em regime de voluntariado, avançassem nos estudos, porque não faz sentido trabalhar no aprofundamento de um caminho se não se sabe se é esse que o partido quer seguir. O meu grupo de trabalho, sobre macroeconomia, teve mais tempo e atenção para comentar os dados do PIB do 2º trimestre do que as nossas propostas para o programa eleitoral.

Tendo tomado consciência da inutilidade do meu trabalho, saí do gabinete de estudos e do PSD.
Infelizmente, como veremos em seguida, tudo indica que as coisas no PS são tão más ou piores.
António José Seguro acaba de propor que “a UE estabeleça como objectivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia”. Isto é um disparate múltiplo. Em primeiro lugar, é uma quase impossibilidade aritmética: a única forma de não haver casos acima da média é que todos eles sejam iguais.

Em segundo lugar, isto é economicamente impossível. Como é que se poderia forçar esta regra a ser cumprida? Isto faz tão pouco sentido como decretar que nos hospitais não pode haver nenhum doente com uma febre acima da febre média de todos os hospitais. Era bom que assim fosse, mas como é que se pretende atingir isso? 

O pior disto tudo, é que isto não é uma “boca” para entreter o público local. Isto é uma proposta que o líder do PS levou ao Fórum dos Progressistas Europeus, que juntou na capital francesa líderes dos partidos socialistas de países do sul da Europa. Esperar-se-ia que uma ideia destas fosse objecto de uma reflexão mínima, envolvendo assessores técnicos e consultores políticos.

António José Seguro gabarolava-se há não muito tempo que já tinha ministro das Finanças para o seu governo. Ninguém percebeu porque é que esse “personagem de mistério” permaneceu incógnito até hoje. Mas hoje gostaríamos muito se saber se essa promessa de ministro viu esta proposta, a estudou e a aprovou. É que das duas uma: ou esta figura não sabe aritmética básica e então não tem a menor competência para ministro das Finanças; ou Seguro não lhe liga nenhuma e ficamos com sérias dúvidas sobre o peso político desse eventual ministro.

Não tentem comparar este caso com a confusão de Guterres sobre o cálculo de uma percentagem do PIB. Aquela situação, sabemos hoje, ocorreu no dia em que o então candidato a primeiro-ministro tinha tomado conhecimento de uma grave notícia médica sobre a sua mulher. É mais do que desculpável que se tenha atrapalhado, a sua cabeça e coração deveriam estar bem longe dali.

A segunda diferença reside entre uma situação improvisada, ser apanhado por uns jornalistas, e uma proposta planeada, para ser apresentada num contexto internacional.

Passos Coelho chegou a primeiro-ministro, tal como a esmagadora maioria dos seus ministros, fortemente impreparado para a situação que já se sabia que ia enfrentar. António José Seguro, tudo indica, se chegar a primeiro-ministro, estará ainda mais impreparado do que o actual chefe do executivo. Péssimas notícias para Portugal.

Em contrapartida, se o desastre que vivemos provocar um terramoto político, como já aconteceu na Grécia, tudo indica que nem o PSD nem o PS merecem sobreviver.


PS. A falta de coragem de Seguro em assumir uma posição do seu partido face à greve dos professores também não augura nada de bom. 

[publicado no jornal i]

domingo, 16 de junho de 2013

“Porque devemos sair do euro” (III)

João Ferreira do Amaral defende que Portugal saia do euro, mas não fala sobre as consequências dessa saída

Concluindo a análise do recente livro de João Ferreira do Amaral (JFA), passo a analisar a quarta condição para a saída: “d) Entraríamos no Mecanismo de Taxas de Câmbio II (…) Tal significaria que, ajudados pelo BCE, teríamos de manter a nova moeda numa banda de flutuação de 15% em relação a uma taxa de referência (…)” (p. 120).

Estou totalmente em desacordo com esta ideia. Em primeiro lugar, considero que a saída de um país do euro desencadearia, com elevada probabilidade, a desagregação do euro. Por isso, a própria sobrevivência do BCE ficaria posta em causa.

Em segundo lugar, passaríamos a ter que defender a taxa de câmbio do novo escudo contra os mercados de capitais. Hoje, temos que defender as taxas de juro da dívida pública e apenas mudaríamos o campo de batalha. Seria como passar da frigideira para o lume.

Há aqui uma diferença decisiva. Como a esmagadora maioria da dívida pública portuguesa que não está nas mãos dos credores oficiais, está na posse dos investidores internacionais, não temos outro remédio senão ficar submetidos ao ditame dos mercados. A única forma de evitar isto seria pagarmos a dívida, o que exigiria não apenas reduzir o défice público, mas ter, durante muito tempo, superavits orçamentais significativos. Dadas as dificuldades que temos tido com as contas públicas, uma tal condição é meramente fantasiosa.

Mas em relação à taxa de câmbio não temos a mesma obrigação e existe uma forma muito simples de deixar de estar (tão) submetido aos mercados: acabar com a liberdade de circulação de capitais, sobretudo os de curto prazo, que já foi amplamente demonstrado serem, não apenas inúteis, mas altamente prejudiciais.
A quinta condição fixada por JFA é: “e) Seria obtida a cooperação das autoridades europeias em dois pilares: governos e BCE. (…)” (p. 120). Este requisito é óbvio, embora os termos exactos que JFA descreve, com que não vou maçar os leitores, me parecem também pouco realistas.

Tenho que confessar que a obra de JFA me desiludiu bastante. Para quem anda há tanto tempo a clamar, desde logo, contra a entrada de Portugal no euro e, agora, a defender a saída (aparentemente unilateral) do euro, esperar-se-ia uma argumentação mais detalhada de todo este processo e das suas consequências.

Em vez disto, temos um livro com menos de 130 páginas, muitas das quais a detalhar de forma excessiva o processo de criação de moeda.

Lamento dizer isto, até porque JFA teve a amabilidade de apresentar o meu livro em termos bastante elogiosos (O fim do euro em Portugal?, 2012, Actual Editora, grupo Almedina), que aliás refere (p. 117).
Tenho pena de dizer que a obra de JFA me parece falhar em dois aspectos cruciais: 1) o irrealismo das condições propostas de saída do euro; 2) a quase total ausência de descrição das consequências da saída do euro. Para quem advoga a saída, esperava-se que não escondesse o que daí decorreria.

No meu livro (peço desculpa por puxar as brasas à minha sardinha), parto do princípio de uma desvalorização de 20% e detalho as suas consequências na inflação, nas contas públicas, nos salários reais e emprego, nos diferentes instrumentos financeiros (depósitos bancários, obrigações a taxa fixa, obrigações a taxa indexada, acções) e nos activos reais (imobiliário, arte, metais preciosos).

Com este trabalho de base, seria de esperar ou uma crítica, sugerindo consequências alternativas, ou um aprofundamento da análise. Infelizmente, JFA não faz uma coisa nem outra e isso é tanto mais difícil de compreender, já que defende a saída do euro. Quem defende uma solução tão drástica deve ter plena consciências das suas consequências e não as esconder junto daqueles que pretende convencer.

Termino apenas salientando que eu não defendo a saída do euro, apenas prevejo que isso venha a acontecer, devido às fragilidades da moeda única e da impossibilidade de se gerarem condições políticas para construir uma solução estrutural.

[Publicado no jornal "i"]

sexta-feira, 7 de junho de 2013

“Porque devemos sair do euro” (II)

A saída do euro deverá provocar uma forte reestruturação da dívida externa

Prossigo esta semana a análise do livro que João Ferreira do Amaral (JFA) publicou recentemente, Porque devemos sair do euro (2013, Lua de Papel).

JFA coloca cinco condições para a saída do euro. A primeira, como vimos na semana anterior, é que: “a) (…) as aplicações financeiras em instituições portuguesas manteriam o seu valor em euros (…)” (p. 119). Como detalhei então, considero esta condição ineficiente, injusta e impraticável.

As duas condições seguintes são: “b) O balanço dos bancos não seria prejudicado, pelo que os créditos a famílias, empresas e Estado aumentariam na nova moeda em função da desvalorização [inicial] desta.” e “c) Para evitar um incumprimento generalizado por parte dos devedores à Banca, o Estado substituir-se-ia a estes no montante do aumento da dívida em moeda nacional que resultasse da desvalorização [inicial]. (…)” (p. 119-120).

Em ambos estes requisitos, acrescentei em parêntesis rectos o termo “inicial”, porque isso me parece traduzir mais fielmente a intenção do autor. Caso contrário seria como manter indefinidamente aqueles créditos indexados ao euro, o que seria calamitoso.

Em seguida, é justo sinalizar a coerência interna destas propostas. Não concordo com elas, mas tenho que reconhecer que são coerentes entre si.

Num artigo publicado pouquíssimo tempo após o início da crise do euro (“Sistema bancário em risco”, Jornal de Negócios, 2 de Dezembro de 2009), já tinha alertado para os gravíssimos riscos que se avizinhavam para o sistema bancário português, sugerindo que se deveria olhar para a Grécia como um indicador avançado de Portugal. Ao contrário do que sugere a condição “b)”, é evidente que o balanço dos bancos será fortemente afectado, sendo totalmente impraticável que os créditos às famílias e empresas mantivessem o valor que tinham em euros.

As previsões da OCDE, entretanto divulgadas, vieram reforçar o aviso, que eu já tinha feito – implicitamente – na semana passada, de que a dívida pública portuguesa se encontrava numa trajectória insustentável. Neste contexto, sugerir a assunção de mais responsabilidades do Estado, como as descritas na condição “c)”, é completamente irrealista.

A saída do euro vai forçar a uma reestruturação da dívida externa (não confundir com dívida pública), actualmente superior a 110% do PIB. A maior parte desta dívida é pública, mas os bancos também são responsáveis por uma porção significativa dela. Só a desvalorização inicial iria provocar uma subida brutal da dívida externa, que passaria a estar denominada em divisas. Para pagar os juros desta dívida externa teríamos que gerar superavits externos elevadíssimos, agravando ainda mais a perda de poder de compra associada à saída do euro.

Entraríamos num ciclo vicioso terrível: quanto mais elevados os superavits externos exigidos para estabilizar a dívida externa, maior seria a desvalorização necessária para os atingir; quanto maior a desvalorização, maior seria a subida sofrida na dívida externa em percentagem do PIB; quanto maior a dívida externa, tanto maiores teriam que ser os superavits externos para a estabilizar.

Não faz qualquer sentido entrar neste processo votado ao fracasso, infligindo um sofrimento terrível e profundamente inútil aos portugueses, de adiar o reconhecimento daquilo que deve ser óbvio desde as primeiras horas: quando sair do euro, Portugal não tem – absolutamente nenhumas – hipóteses de honrar os seus compromissos externos.

Chega de sofrimento inútil!

Quem negociar a saída do euro, tem que ser absolutamente intransigente neste princípio: quando sair do euro, quer seja pelo seu próprio pé, quer devido ao desmoronamento da moeda única (o cenário mais provável), Portugal tem que exigir uma reestruturação da dívida externa. E – por amor de Deus! – nada de seguir o disparate da reestruturação da dívida grega, que trouxe todos os custos de uma reestruturação (a proibição de voltar aos mercados), sem nenhum dos benefícios habituais, tornar a dívida sustentável que, no caso grego, continua numa escalada imparável.


Prosseguiremos esta análise na próxima semana.

[Publicado no jornal i]

quinta-feira, 30 de maio de 2013

"Porque devemos sair do euro" (I)

João Ferreira do Amaral defende que Portugal saia do euro mas em termos pouco realistas


João Ferreira do Amaral (JFA) publicou recentemente um livro, "Porque Devemos Sair do Euro" (2013, Lua de Papel), em que faz uma análise importante da crise do euro. Diria que há dois grupos de argumentos principais, políticos e económicos, que apresenta para recomendar que Portugal saia do euro.

Em termos políticos, o euro correspondeu a uma perda de soberania - sobretudo em termos de política monetária, mas não só - que JFA, pela sua atitude claramente patriótica, recomenda que recuperemos.
Em termos económicos, ainda antes da entrada no euro, JFA tinha sido das vozes mais credíveis a criticar um projecto que, em seu entender, era totalmente inadequado às características da economia portuguesa.

No seu livro, JFA apresenta uma definição extremamente interessante de competitividade (pp. 84-85), ao colocar a ênfase na sua dimensão dinâmica (capacidade de inovar, etc.), ao contrário das visões mais comuns, estritamente estáticas.

Passando agora a analisar aquilo que no seu livro me parece menos conseguido, começaria por dizer que me surpreende que a sua recomendação de saída do euro seja apresentada como necessitando da estabilização da crise do euro como condição prévia para ser concretizada. Como considero que não há, nem deverá haver, qualquer tipo de estabilização da crise do euro, é como se a sua recomendação nunca viesse a ter hipóteses de ser aplicada.

Em segundo lugar, as cinco condições que coloca para a saída do euro merecem-me as maiores reservas. Esta semana tratarei apenas da primeira: "a) Anunciar-se-ia amplamente (e cumprir-se-ia, claro) que as aplicações financeiras em instituições portuguesas manteriam o seu valor em euros, de modo a não gerar um pânico na transição para a nova moeda; quanto ao Estado, continuaria a honrar a sua dívida em euros. Esta garantia deveria ser prestada pelas autoridades nacionais e comunitárias em conjunto." (p. 119).

Esta ideia parece-me ineficiente, injusta e impraticável. Considero-a ineficiente porque, para evitar uma fuga de depósitos, há uma forma muito mais económica de o fazer: suspender a liberdade de circulação de capitais, como se aplicou em Chipre, limitando os levantamentos (e transferências) mensais dos particulares a, digamos, 5 mil euros por mês.

Em Março de 2013, os depósitos de particulares representavam 75% do PIB, enquanto os depósitos das empresas equivaliam a apenas 16% do PIB. No caso das empresas, em que os depósitos não são poupança, mas sobretudo liquidez, não poderá haver um limite tão estrito aos levantamentos e transferências, porque isso as paralisaria. Para além disso, como estes fundos são essenciais ao movimento quotidiano, o risco de fuga é menor.

Aquela medida seria também profundamente injusta porque forçaria o Estado português (já explico porque é que não faz sentido esperar pela ajuda dos nossos parceiros comunitários) a assumir um aumento brutal da dívida pública, para proteger sobretudo os grandes depositantes, onde se concentram o maior volume de depósitos. Porquê sobrecarregar ainda mais os contribuintes portugueses para defender o património dos mais ricos? Para além disso, como detalho no meu livro "O Fim do Euro em Portugal?" (2012, Actual Editora, grupo Almedina), haverá perdas brutais de valor na generalidade dos activos financeiros e mesmo no imobiliário. Porquê oferecer esta garantia excepcional aos depósitos quando tudo o resto não poderá usufruir deste mesmo benefício?

Finalmente, considero esta proposta impraticável em dois planos. Num primeiro plano, a dívida pública portuguesa caminha a passos largos para os 130% do PIB, um nível obviamente insustentável que forçará a doses consideráveis de inflação quando sairmos do euro. Como justificar mais dívida e mais inflação para proteger os maiores depósitos?

Num segundo plano, JFA parece ignorar que a saída de Portugal não deixaria o resto da zona do euro intacta, antes iniciaria um efeito de dominó que conduziria à provável desagregação de todo este espaço monetário. Por isso, o apoio que espera dos parceiros comunitários para a sua proposta de saída parece-me impraticável.

Na próxima semana continuarei esta análise.

[Publicado no jornal i]

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Fim negociado do euro

O fim negociado do euro seria um mal menor, mas muito difícil de concretizar

O fim do euro poderá ocorrer de forma negociada ou caótica. O fim negociado poderia acontecer mais facilmente com a saída da Alemanha ou com o acordo rápido e generalizado de todos.

Como é fácil de imaginar, o fim caótico do euro é a pior hipótese possível, mas também, infelizmente, a mais provável.

Porque é que o fim caótico é a hipótese mais provável? O fim organizado do euro, podendo limitar os danos, será sempre muito traumático. Como convencer os eleitorados que uma catástrofe observada é menos má do que uma catástrofe – muito pior – não observada? Como poderá a maioria dos eleitores acreditar que o desastre que estão a viver foi criado para evitar um mal maior? Que líderes políticos se mostrarão disponíveis para o suicídio público? Repare-se que não estou a dar razão aos eleitores, mas apenas a enunciar o paradoxo político que muitos dirigentes políticos europeus deverão estar a viver.
Para além disto, o fim negociado do euro tem graves problemas logísticos. Imaginemos que, por hipótese, a chanceler alemã dizia oficialmente que queria começar a negociar o fim do euro, colocando mesmo um prazo de apenas três meses para concluir as negociações.

Três meses é um prazo muito curto para chegar a acordo sobre as condições de fim ordenado do euro e, sobretudo, para tratar de todas as questões logísticas, desde a impressão das novas notas nacionais, até à preparação de todos os sistemas de pagamentos para a nova realidade.

No entanto, em termos dos mercados financeiros, especializados em antecipar (bem ou mal) o futuro, três meses é uma eternidade. Mesmo antes de conhecer os exactos contornos da solução final, os mercados antecipariam níveis muito elevados de incumprimento da dívida pública dos países “fracos”, que seria “despejada” a qualquer preço, com uma enorme escassez de compradores. Os preços destas obrigações cairiam drasticamente, com a correspondente subida das taxas de juro, tornando proibitivo o acesso ao mercado de todos estes países.

Mesmo as famílias e empresas dos países fracos participariam neste movimento, ao lançarem-se numa desesperada fuga de depósitos para outros países, na tentativa de evitar as perdas drásticas que sofreriam se os mantivessem nos bancos locais.

Em suma, a mera ventilação da ideia de fim negociado do euro deverá colocar em marcha uma sucessão de eventos tão fortes e drásticos, que poderão, com elevada probabilidade, impedir a sua concretização, antecipando antes um fim caótico do euro.

Quer isto dizer que o fim negociado do euro é uma hipótese impossível? Não propriamente, embora a sua concretização se tenha que fazer num intervalo muito estreito.

O primeiro problema consiste nas doses maciças de negação, intelectual e psicológica, sobre os gravíssimos problemas de sustentabilidade do euro, que recomendariam a criação do fim negociado, em vez de esperar pelo fim caótico, que deverá ser imposto pela realidade.

O segundo problema é o da liderança do processo, que, idealmente, deveria ser assumido pela Alemanha. No entanto, este Estado ficaria com uma culpa tão grande – completamente injusta – de destruir o euro, acarretando um custo político brutal, que deverá impedir os dirigentes deste país de liderar uma solução racional, que minimizaria os custos para todos.

Há também a hipótese de este movimento ser lançado por um país forte, mas menor, o que poderia salvar a Alemanha do opróbrio maior. Mesmo assim, a probabilidade de aquele país ser considerado um peão ao servido da Alemanha é elevadíssima.

Resta a possibilidade, já aqui referida, de ser a Alemanha a sair unilateralmente do euro, a solução verdadeiramente ideal.


Como comentário final, gostaria de acrescentar que todas estas diferentes soluções exigem um brutal trabalho de preparação nos bastidores, em total contradição com o discurso oficial da esmagadora maioria dos países.