O fim negociado do
euro seria um mal menor, mas muito difícil de concretizar
O fim do euro poderá ocorrer de forma negociada ou caótica.
O fim negociado poderia acontecer mais facilmente com a saída da Alemanha ou
com o acordo rápido e generalizado de todos.
Como é fácil de imaginar, o fim caótico do euro é a pior
hipótese possível, mas também, infelizmente, a mais provável.
Porque é que o fim caótico é a hipótese mais provável? O fim
organizado do euro, podendo limitar os danos, será sempre muito traumático.
Como convencer os eleitorados que uma catástrofe observada é menos má do que
uma catástrofe – muito pior – não observada? Como poderá a maioria dos
eleitores acreditar que o desastre que estão a viver foi criado para evitar um
mal maior? Que líderes políticos se mostrarão disponíveis para o suicídio
público? Repare-se que não estou a dar razão aos eleitores, mas apenas a
enunciar o paradoxo político que muitos dirigentes políticos europeus deverão
estar a viver.
Para além disto, o fim negociado do euro tem graves
problemas logísticos. Imaginemos que, por hipótese, a chanceler alemã dizia
oficialmente que queria começar a negociar o fim do euro, colocando mesmo um
prazo de apenas três meses para concluir as negociações.
Três meses é um prazo muito curto para chegar a acordo sobre
as condições de fim ordenado do euro e, sobretudo, para tratar de todas as
questões logísticas, desde a impressão das novas notas nacionais, até à preparação
de todos os sistemas de pagamentos para a nova realidade.
No entanto, em termos dos mercados financeiros,
especializados em antecipar (bem ou mal) o futuro, três meses é uma eternidade.
Mesmo antes de conhecer os exactos contornos da solução final, os mercados
antecipariam níveis muito elevados de incumprimento da dívida pública dos
países “fracos”, que seria “despejada” a qualquer preço, com uma enorme
escassez de compradores. Os preços destas obrigações cairiam drasticamente, com
a correspondente subida das taxas de juro, tornando proibitivo o acesso ao
mercado de todos estes países.
Mesmo as famílias e empresas dos países fracos participariam
neste movimento, ao lançarem-se numa desesperada fuga de depósitos para outros
países, na tentativa de evitar as perdas drásticas que sofreriam se os
mantivessem nos bancos locais.
Em suma, a mera ventilação da ideia de fim negociado do euro
deverá colocar em marcha uma sucessão de eventos tão fortes e drásticos, que
poderão, com elevada probabilidade, impedir a sua concretização, antecipando
antes um fim caótico do euro.
Quer isto dizer que o fim negociado do euro é uma hipótese
impossível? Não propriamente, embora a sua concretização se tenha que fazer num
intervalo muito estreito.
O primeiro problema consiste nas doses maciças de negação,
intelectual e psicológica, sobre os gravíssimos problemas de sustentabilidade
do euro, que recomendariam a criação do fim negociado, em vez de esperar pelo
fim caótico, que deverá ser imposto pela realidade.
O segundo problema é o da liderança do processo, que,
idealmente, deveria ser assumido pela Alemanha. No entanto, este Estado ficaria
com uma culpa tão grande – completamente injusta – de destruir o euro,
acarretando um custo político brutal, que deverá impedir os dirigentes deste
país de liderar uma solução racional, que minimizaria os custos para todos.
Há também a hipótese de este movimento ser lançado por um
país forte, mas menor, o que poderia salvar a Alemanha do opróbrio maior. Mesmo
assim, a probabilidade de aquele país ser considerado um peão ao servido da
Alemanha é elevadíssima.
Resta a possibilidade, já aqui referida, de ser a Alemanha a
sair unilateralmente do euro, a solução verdadeiramente ideal.
Como comentário final, gostaria de acrescentar que todas
estas diferentes soluções exigem um brutal trabalho de preparação nos bastidores,
em total contradição com o discurso oficial da esmagadora maioria dos países.