sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Fim do euro (3) Recomendações práticas
Parece que as mais altas instâncias europeias consideram que a Grécia deverá sair do euro em algum momento dentro dos próximos meses. Quando isso acontecer, é possível – mas não necessário – que Portugal saia também do euro, talvez alguns meses depois.
Neste momento, considero que todos os portugueses devem “subscrever” um seguro contra essa eventualidade, tal como fazem um seguro contra o incêndio da sua própria casa. Quando se compra este seguro, o que nos move não é a expectativa de que a nossa casa sofra um incêndio nos próximos meses, um acontecimento com uma probabilidade muito baixa, mas sim a perda gigantesca que sofreríamos se a nossa habitação ardesse. A esmagadora maioria dos portugueses vive toda a sua vida sem sofrer qualquer incêndio nas suas casas mas, mesmo assim, a maioria de nós tem um seguro contra incêndio.
A probabilidade de Portugal sair do euro em 2012 é muito superior à probabilidade de termos um incêndio nas nossas casas durante toda a nossa vida. Por este motivo é que considero que todos os portugueses deveriam “subscrever” o tal seguro contra a saída do euro.
Quais são as consequências imediatas de Portugal sair do euro? A nova moeda portuguesa, o cruzado, sofreria uma desvalorização face ao euro de, pelo menos, 20%. Todos os depósitos bancários seriam imediatamente transformados em cruzados, perdendo, pelo menos, 20% em valor. Todos os depósitos ficariam imediatamente indisponíveis durante algum tempo (dias? semanas?) e não haveria notas e moedas de cruzados, porque o nosso governo e o Banco de Portugal não consideram necessário estarmos preparados para essa eventualidade.
O mais provável é que a saída do euro fosse anunciada numa sexta-feira à tarde, havendo apenas o fim-de-semana para tratar da mudança de moeda. Logo na sexta-feira os bancos retirariam todas as notas de euros das máquinas de Multibanco e quem não tivesse euros em casa ou na carteira ficaria sem qualquer meio de pagamento.
Durante algumas semanas (ou mais tempo) teríamos um colapso do sistema de pagamentos e, provavelmente, também um corte nos fornecimentos. As mercearias e supermercados ficariam incapazes de se reabastecer, devido às dificuldades associadas à troca de moeda.
Este “seguro” de que vos falo, contra este cenário catastrófico, não pode ser comprado em nenhuma companhia de seguros, mas pode ser construído por todos os portugueses, estando ao alcance de todos, adaptado à sua realidade pessoal.
O que recomendo é algo muito simples que – todos – podem fazer. Ter em casa dinheiro vivo num montante da ordem de um mês de rendimento e a despensa cheia para um mês. Esta ideia de um mês de prevenção é indicativa e pode ser adaptada à realidade de cada família.
Não recomendo que façam isso de forma abrupta, mas lentamente e também em função das notícias que forem saindo. De cada vez que levantarem dinheiro, levantem um pouco mais do que o costume e guardem a diferença. De cada vez que dizerem compras tragam mais alguns produtos para a despensa de reserva. Aconselho que procurem produtos com fim de validade em 2013 ou posterior mas, nos casos em que isso não seja possível, vão gastando os produtos de reserva e trocando-os por outros com validade mais tardia. Desta forma, sem qualquer ruptura, vão construindo calmamente o vosso seguro contra o fim do euro.
Mas se, entretanto, a Grécia sair do euro, o caso muda de figura e é necessário acelerarem a constituição das vossas reservas. Se surgirem quaisquer outras notícias que indiquem algo de mais grave, darei aqui conta disso e actualizarei estas recomendações.
Quanto custará este seguro? Pouquíssimo. Em relação ao dinheiro de reserva, o custo é deixarem de receber os juros de depósito à ordem que, ou são nulos, ou são baixíssimos. Em relação aos produtos na despensa de reserva, é dinheiro empatado, que também deixa de render juros insignificantes.
Quais são os benefícios deste seguro? Se o euro acabar em 2012, como prevejo, o dinheiro em casa não se desvaloriza, mas o dinheiro no banco perderá, no mínimo, 20% do seu valor. Para além disso terão o benefício de poder fazer pagamentos no período de transição, que se prevê extremamente caótico. A despensa também vos pode prevenir contra qualquer provável ruptura de fornecimentos, garantindo a alimentação essencial no período terrível de transição entre moedas. Parece-me que o benefício de não passar fome é algo de significativo.
E se, por um improvável acaso, a crise do euro se resolver em 2012 e chegarmos a 2013 com o euro mais seguro do que nunca? Nesse caso – altamente improvável – a resposta não podia ser mais simples: basta depositar no banco o dinheiro que têm em casa e ir gastando os produtos na despensa à medida das vossas necessidades.
Fim do euro (2) Grécia e Itália
Fim do euro (1) Contagem decrescente
Neste momento, considero que todos os portugueses devem “subscrever” um seguro contra essa eventualidade, tal como fazem um seguro contra o incêndio da sua própria casa. Quando se compra este seguro, o que nos move não é a expectativa de que a nossa casa sofra um incêndio nos próximos meses, um acontecimento com uma probabilidade muito baixa, mas sim a perda gigantesca que sofreríamos se a nossa habitação ardesse. A esmagadora maioria dos portugueses vive toda a sua vida sem sofrer qualquer incêndio nas suas casas mas, mesmo assim, a maioria de nós tem um seguro contra incêndio.
A probabilidade de Portugal sair do euro em 2012 é muito superior à probabilidade de termos um incêndio nas nossas casas durante toda a nossa vida. Por este motivo é que considero que todos os portugueses deveriam “subscrever” o tal seguro contra a saída do euro.
Quais são as consequências imediatas de Portugal sair do euro? A nova moeda portuguesa, o cruzado, sofreria uma desvalorização face ao euro de, pelo menos, 20%. Todos os depósitos bancários seriam imediatamente transformados em cruzados, perdendo, pelo menos, 20% em valor. Todos os depósitos ficariam imediatamente indisponíveis durante algum tempo (dias? semanas?) e não haveria notas e moedas de cruzados, porque o nosso governo e o Banco de Portugal não consideram necessário estarmos preparados para essa eventualidade.
O mais provável é que a saída do euro fosse anunciada numa sexta-feira à tarde, havendo apenas o fim-de-semana para tratar da mudança de moeda. Logo na sexta-feira os bancos retirariam todas as notas de euros das máquinas de Multibanco e quem não tivesse euros em casa ou na carteira ficaria sem qualquer meio de pagamento.
Durante algumas semanas (ou mais tempo) teríamos um colapso do sistema de pagamentos e, provavelmente, também um corte nos fornecimentos. As mercearias e supermercados ficariam incapazes de se reabastecer, devido às dificuldades associadas à troca de moeda.
Este “seguro” de que vos falo, contra este cenário catastrófico, não pode ser comprado em nenhuma companhia de seguros, mas pode ser construído por todos os portugueses, estando ao alcance de todos, adaptado à sua realidade pessoal.
O que recomendo é algo muito simples que – todos – podem fazer. Ter em casa dinheiro vivo num montante da ordem de um mês de rendimento e a despensa cheia para um mês. Esta ideia de um mês de prevenção é indicativa e pode ser adaptada à realidade de cada família.
Não recomendo que façam isso de forma abrupta, mas lentamente e também em função das notícias que forem saindo. De cada vez que levantarem dinheiro, levantem um pouco mais do que o costume e guardem a diferença. De cada vez que dizerem compras tragam mais alguns produtos para a despensa de reserva. Aconselho que procurem produtos com fim de validade em 2013 ou posterior mas, nos casos em que isso não seja possível, vão gastando os produtos de reserva e trocando-os por outros com validade mais tardia. Desta forma, sem qualquer ruptura, vão construindo calmamente o vosso seguro contra o fim do euro.
Mas se, entretanto, a Grécia sair do euro, o caso muda de figura e é necessário acelerarem a constituição das vossas reservas. Se surgirem quaisquer outras notícias que indiquem algo de mais grave, darei aqui conta disso e actualizarei estas recomendações.
Quanto custará este seguro? Pouquíssimo. Em relação ao dinheiro de reserva, o custo é deixarem de receber os juros de depósito à ordem que, ou são nulos, ou são baixíssimos. Em relação aos produtos na despensa de reserva, é dinheiro empatado, que também deixa de render juros insignificantes.
Quais são os benefícios deste seguro? Se o euro acabar em 2012, como prevejo, o dinheiro em casa não se desvaloriza, mas o dinheiro no banco perderá, no mínimo, 20% do seu valor. Para além disso terão o benefício de poder fazer pagamentos no período de transição, que se prevê extremamente caótico. A despensa também vos pode prevenir contra qualquer provável ruptura de fornecimentos, garantindo a alimentação essencial no período terrível de transição entre moedas. Parece-me que o benefício de não passar fome é algo de significativo.
E se, por um improvável acaso, a crise do euro se resolver em 2012 e chegarmos a 2013 com o euro mais seguro do que nunca? Nesse caso – altamente improvável – a resposta não podia ser mais simples: basta depositar no banco o dinheiro que têm em casa e ir gastando os produtos na despensa à medida das vossas necessidades.
Fim do euro (2) Grécia e Itália
Fim do euro (1) Contagem decrescente
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Propostas interessantes mas discutíveis (2)
Este post pretende ser uma resposta a alguns dos comentários feitos aqui, que aproveito para agradecer, às minhas observações sobre a proposta de João Ferreira do Amaral de uma saída negociada do euro, em particular a ideia de os depósitos nos bancos em Portugal preservarem o valor em euros, após a nossa saída. O argumento daquele economista é que essa condição é essencial para evitar uma fuga de depósitos durante as negociações.
Essa garantia custaria cerca de 25% do PIB português, no caso da depreciação negociada ser de apenas 20%, sendo que parece que a depreciação a negociar deveria ser superior a isso, o que colocaria o custo desta garantia em níveis ainda mais elevados.
Considero que, antes das negociações se iniciarem, Portugal deveria ter feito muito trabalho de casa, de molde a que as negociações ficassem concluídas num único fim-de-semana, pelo que nem sequer haveria o risco de fuga de depósitos, o que eliminaria a necessidade de suportar qualquer encargo com a garantia dos depósitos.
Mas imaginemos que o governo iniciava as negociações, anunciando – um absurdo – que estas deveriam estar concluídas ao fim de 30 dias. Para evitar a tal, mais do que previsível, fuga de depósitos, o governo declararia o compromisso solene de garantir o valor dos depósitos em euros.
Esta promessa, tendo em atenção o custo elevadíssimo que lhe estaria associada, teria uma credibilidade muito reduzida. Ou seja, teríamos o custo elevadíssimo de garantir os depósitos, sem o benefício de evitar uma fuga dos mesmos. É difícil imaginar uma combinação pior.
Para evitar este problema, o governo anunciaria que esta garantia seria paga pelos parceiros europeus. Mas como é que o governo pode garantir algo sobre os parceiros europeus no início das negociações? Como é óbvio, esta garantia não sossegaria ninguém, e continuaríamos a ter fuga dos depósitos.
Imaginem o cenário, em que durante um mês o governo pedia uma desvalorização de 30% e os parceiros europeus só estariam dispostos a aceitar uma de 15%, sendo esta questão – gravíssima – discutida todos os dias na praça pública. Quem é que não retiraria todos os seus depósitos de Portugal? Os mais pobres levavam-no para casa e os mais ricos para a Suíça.
Há uma outra questão, que merece ser salientada, que é que, com a saída do euro, todos os preços dos activos sofrerão uma queda brutal. Os preços do imobiliário sofrerão um crash brutal, de mais de 50%, os preços das acções cairão brutalmente (com a provável mas rara excepção das empresas exportadoras), os preços das obrigações cairão de forma drástica. Porquê este preocupação com os depósitos, cuja garantia envolveria custos tão elevados?
Há a ideia – errada – de que a garantia dos depósitos impediria a falência generalizada dos bancos portugueses. A verdade é o oposto: a garantia dos depósitos em euros é que provocaria a falência dos bancos portugueses.
Os bancos portugueses têm um elevadíssimo excesso de crédito em relação aos depósitos. Para garantir a sobrevivência dos bancos portugueses o que é necessário é garantir que esse excesso passa a ser denominado na nova moeda portuguesa. Para isto é que seria utilíssimo garantir a ajuda europeia, não para garantir os depósitos.
Resumindo, não faz sentido que se peça ajuda europeia para garantir a protecção dos depósitos, mas antes para garantir a sobrevivência do sistema bancário português.
Quanto aos depósitos, estão condenados a grandes perdas, tanto maiores quanto maior for a depreciação da nova moeda portuguesa.
Essa garantia custaria cerca de 25% do PIB português, no caso da depreciação negociada ser de apenas 20%, sendo que parece que a depreciação a negociar deveria ser superior a isso, o que colocaria o custo desta garantia em níveis ainda mais elevados.
Considero que, antes das negociações se iniciarem, Portugal deveria ter feito muito trabalho de casa, de molde a que as negociações ficassem concluídas num único fim-de-semana, pelo que nem sequer haveria o risco de fuga de depósitos, o que eliminaria a necessidade de suportar qualquer encargo com a garantia dos depósitos.
Mas imaginemos que o governo iniciava as negociações, anunciando – um absurdo – que estas deveriam estar concluídas ao fim de 30 dias. Para evitar a tal, mais do que previsível, fuga de depósitos, o governo declararia o compromisso solene de garantir o valor dos depósitos em euros.
Esta promessa, tendo em atenção o custo elevadíssimo que lhe estaria associada, teria uma credibilidade muito reduzida. Ou seja, teríamos o custo elevadíssimo de garantir os depósitos, sem o benefício de evitar uma fuga dos mesmos. É difícil imaginar uma combinação pior.
Para evitar este problema, o governo anunciaria que esta garantia seria paga pelos parceiros europeus. Mas como é que o governo pode garantir algo sobre os parceiros europeus no início das negociações? Como é óbvio, esta garantia não sossegaria ninguém, e continuaríamos a ter fuga dos depósitos.
Imaginem o cenário, em que durante um mês o governo pedia uma desvalorização de 30% e os parceiros europeus só estariam dispostos a aceitar uma de 15%, sendo esta questão – gravíssima – discutida todos os dias na praça pública. Quem é que não retiraria todos os seus depósitos de Portugal? Os mais pobres levavam-no para casa e os mais ricos para a Suíça.
Há uma outra questão, que merece ser salientada, que é que, com a saída do euro, todos os preços dos activos sofrerão uma queda brutal. Os preços do imobiliário sofrerão um crash brutal, de mais de 50%, os preços das acções cairão brutalmente (com a provável mas rara excepção das empresas exportadoras), os preços das obrigações cairão de forma drástica. Porquê este preocupação com os depósitos, cuja garantia envolveria custos tão elevados?
Há a ideia – errada – de que a garantia dos depósitos impediria a falência generalizada dos bancos portugueses. A verdade é o oposto: a garantia dos depósitos em euros é que provocaria a falência dos bancos portugueses.
Os bancos portugueses têm um elevadíssimo excesso de crédito em relação aos depósitos. Para garantir a sobrevivência dos bancos portugueses o que é necessário é garantir que esse excesso passa a ser denominado na nova moeda portuguesa. Para isto é que seria utilíssimo garantir a ajuda europeia, não para garantir os depósitos.
Resumindo, não faz sentido que se peça ajuda europeia para garantir a protecção dos depósitos, mas antes para garantir a sobrevivência do sistema bancário português.
Quanto aos depósitos, estão condenados a grandes perdas, tanto maiores quanto maior for a depreciação da nova moeda portuguesa.
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Não se preparem, não
Após algumas semanas, eis que a Grécia volta a recuperar a ribalta, desta feita com o porta-voz do governo a avisar que a Grécia pode sair do euro se não houver acordo com a troika.
É evidente que estas declarações devem ser lidas como uma forma de pressão sobre a troika, em especial sobre o BCE e a Comissão Europeia, no sentido de acentuar a ideia de que existe uma forte externalidade negativa no caso de falhanço das mesmas. Os parceiros europeus devem ceder mais do que o estritamente necessário, porque a saída da Grécia do euro provocará um abalo sistémico muitíssimo grave nesta moeda, com repercussões económicas mesmo para lá da UE e consequências políticas não menos graves dentro da UE.
De acordo com a Economist Intelligence Unit, a economia grega deverá cair 7,5% em 2012, depois de já ter caído 5,3% em 2011, devendo registar uma queda acumulada do PIB de uns astronómicos quase 20% desde 2007.
Pressionar mais austeridade num quadro económico destes é já profundamente contraproducente. Mas fazê-lo, quando isso coloca em risco, mais do que a Grécia, a integridade da zona do euro, é do domínio da mais pura irresponsabilidade.
Infelizmente, os líderes europeus já nos habituaram a isso e não deve ser posto de parte que eles deixem partir a corda. As declarações da Comissão Europeia, em resposta ao aviso grego, de que "não há nenhum plano para a saída de membros da zona euro em 2012 e adiante" são um susto. Alguma alma piedosa acreditará que isto é dito assim, para não alimentar especulações, e que alguma preparação está em curso, mas o que temo é que estas declarações sejam mesmo verdadeiras. Se a saída da Grécia é má, uma saída sem preparação é terrível.
Em resumo, se não for agora, pode ser daqui a três meses ou daqui a seis meses, mas a verdade é que há um risco muito elevado de a Grécia se ver obrigada a sair do euro. E se a Grécia cair, Portugal será o “senhor que se segue”.
É evidente que estas declarações devem ser lidas como uma forma de pressão sobre a troika, em especial sobre o BCE e a Comissão Europeia, no sentido de acentuar a ideia de que existe uma forte externalidade negativa no caso de falhanço das mesmas. Os parceiros europeus devem ceder mais do que o estritamente necessário, porque a saída da Grécia do euro provocará um abalo sistémico muitíssimo grave nesta moeda, com repercussões económicas mesmo para lá da UE e consequências políticas não menos graves dentro da UE.
De acordo com a Economist Intelligence Unit, a economia grega deverá cair 7,5% em 2012, depois de já ter caído 5,3% em 2011, devendo registar uma queda acumulada do PIB de uns astronómicos quase 20% desde 2007.
Pressionar mais austeridade num quadro económico destes é já profundamente contraproducente. Mas fazê-lo, quando isso coloca em risco, mais do que a Grécia, a integridade da zona do euro, é do domínio da mais pura irresponsabilidade.
Infelizmente, os líderes europeus já nos habituaram a isso e não deve ser posto de parte que eles deixem partir a corda. As declarações da Comissão Europeia, em resposta ao aviso grego, de que "não há nenhum plano para a saída de membros da zona euro em 2012 e adiante" são um susto. Alguma alma piedosa acreditará que isto é dito assim, para não alimentar especulações, e que alguma preparação está em curso, mas o que temo é que estas declarações sejam mesmo verdadeiras. Se a saída da Grécia é má, uma saída sem preparação é terrível.
Em resumo, se não for agora, pode ser daqui a três meses ou daqui a seis meses, mas a verdade é que há um risco muito elevado de a Grécia se ver obrigada a sair do euro. E se a Grécia cair, Portugal será o “senhor que se segue”.
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Propostas interessantes mas discutíveis
João Ferreira do Amaral defende que Portugal saia do euro, de forma "negociada e com apoio comunitário". Já defendi o mesmo, aliás, que Portugal saísse em conjunto com os países mais fracos, que seria uma opção mais interessante, porque significava que os mais fortes se livraram dos problemas todos de uma só vez. Infelizmente, a degradação da crise do euro, com o contágio a chegar a França, parece indicar que o tempo para isso já se esgotou.
Aquele economista defende ainda que o Estado a garanta a sua dívida "em euros e não na nova moeda" e "que quem tivesse investimentos em euros no sector bancário os mantinha em euros". Estas duas ideias é que já acho muito discutíveis, sobretudo a segunda.
Em primeiro lugar, a depreciação da nossa moeda, o “cruzado”, como sugiro que se chame, deveria ser, no mínimo, da ordem dos 20%. Menos que isso, nem vale a pena falar, porque não justificaria tanto trabalho por uma correcção cambial insuficiente para equilibrar as contas externas.
Vamos ainda admitir que, devido ao peso do sector não transaccionável, esta depreciação provocava uma queda do PIB (medida em euros) de cerca de 10%.
Em números redondos, a nossa dívida pública no final de 2011 deve ser 100% do PIB e os depósitos de residentes deverão ser de cerca de 140% do PIB. Os créditos dos bancos aos portugueses têm que ser convertidos em cruzados, caso contrário teríamos falências generalizadas. Se os bancos fossem obrigados a garantir os depósitos em euros, eram os próprios bancos a ir à falência, o que os impediria de cumprir essa obrigação. Resta o Estado, cuja dívida pública já teria subido para 110% do PIB. Se o Estado assumisse esta perda com os depósitos, a dívida pública dispararia para 135% do PIB.
Para além deste grave problema poderia ocorrer outro ainda, que seria os depositantes não residentes (com um montante de cerca de 50% do PIB) exigirem um tratamento idêntico, agravando ainda mais a nossa dívida soberana.
Esta proposta tem também um grave problema de justiça. Enquanto milhões de portugueses iam ver os seus salários e pensões fortemente desvalorizados, o Estado iria aumentar enormemente o seu endividamento para os mais ricos depositantes não perderem nada. O objectivo até pode não ser esse, mas o resultado é.
Também vejo aqui uma grande desproporção entre o custo e o benefício desta proposta. Para evitarmos um problema temporário de fuga de capitais criaríamos um problema permanente de contas públicas.
A Grécia, que está na berlinda há dois anos, está a sofrer uma fuga de capitais que, por enquanto, ainda só envolveu 25% do total. Para além disso, o BCE criou em Dezembro novas linhas de financiamento aos bancos, a 3 anos, o que lhes permitiria lidar de forma muito mais fácil com uma eventual fuga de capitais.
A minha proposta seria uma negociação muito rápida. No caso de os países fracos decidirem negociar em bloco (ou individualmente) a saída do euro, teriam que iniciar as negociações com um acordo de princípio e concluir as mesmas num único fim-de-semana. Se por acaso fossem necessários mais uns dias, podia-se ainda decretar feriado bancário e limitar os levantamentos e transferências entre países. A partir do momento em que se iniciarem as negociações do fim do euro é impensável que estas se prolonguem por várias semanas.
Aquele economista defende ainda que o Estado a garanta a sua dívida "em euros e não na nova moeda" e "que quem tivesse investimentos em euros no sector bancário os mantinha em euros". Estas duas ideias é que já acho muito discutíveis, sobretudo a segunda.
Em primeiro lugar, a depreciação da nossa moeda, o “cruzado”, como sugiro que se chame, deveria ser, no mínimo, da ordem dos 20%. Menos que isso, nem vale a pena falar, porque não justificaria tanto trabalho por uma correcção cambial insuficiente para equilibrar as contas externas.
Vamos ainda admitir que, devido ao peso do sector não transaccionável, esta depreciação provocava uma queda do PIB (medida em euros) de cerca de 10%.
Em números redondos, a nossa dívida pública no final de 2011 deve ser 100% do PIB e os depósitos de residentes deverão ser de cerca de 140% do PIB. Os créditos dos bancos aos portugueses têm que ser convertidos em cruzados, caso contrário teríamos falências generalizadas. Se os bancos fossem obrigados a garantir os depósitos em euros, eram os próprios bancos a ir à falência, o que os impediria de cumprir essa obrigação. Resta o Estado, cuja dívida pública já teria subido para 110% do PIB. Se o Estado assumisse esta perda com os depósitos, a dívida pública dispararia para 135% do PIB.
Para além deste grave problema poderia ocorrer outro ainda, que seria os depositantes não residentes (com um montante de cerca de 50% do PIB) exigirem um tratamento idêntico, agravando ainda mais a nossa dívida soberana.
Esta proposta tem também um grave problema de justiça. Enquanto milhões de portugueses iam ver os seus salários e pensões fortemente desvalorizados, o Estado iria aumentar enormemente o seu endividamento para os mais ricos depositantes não perderem nada. O objectivo até pode não ser esse, mas o resultado é.
Também vejo aqui uma grande desproporção entre o custo e o benefício desta proposta. Para evitarmos um problema temporário de fuga de capitais criaríamos um problema permanente de contas públicas.
A Grécia, que está na berlinda há dois anos, está a sofrer uma fuga de capitais que, por enquanto, ainda só envolveu 25% do total. Para além disso, o BCE criou em Dezembro novas linhas de financiamento aos bancos, a 3 anos, o que lhes permitiria lidar de forma muito mais fácil com uma eventual fuga de capitais.
A minha proposta seria uma negociação muito rápida. No caso de os países fracos decidirem negociar em bloco (ou individualmente) a saída do euro, teriam que iniciar as negociações com um acordo de princípio e concluir as mesmas num único fim-de-semana. Se por acaso fossem necessários mais uns dias, podia-se ainda decretar feriado bancário e limitar os levantamentos e transferências entre países. A partir do momento em que se iniciarem as negociações do fim do euro é impensável que estas se prolonguem por várias semanas.
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Cruzado
O meu artigo de hoje no Jornal de Negócios, em que proponho que o governo e o Banco de Portugal preparem um plano de contingência para o fim do euro, incluindo a impressão de notas na nova moeda portuguesa, que sugiro que se chame "cruzado".
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terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Há males que vêm por bem
Se Sócrates não tivesse feito explodir a dívida pública como o fez (parece que “estudou” algures que a isso se chamaria “gerir” a dívida), o seu governo não teria sido forçado a pedir ajuda externa e não teria assinado o compromisso com a troika.
Este compromisso vai-nos obrigar a fazer reformas estruturais, que há décadas estão adiadas, como é o caso da lei de arrendamento, que o actual governo se prepara para alterar.
Não vou comentar em detalhe a proposta, cujos contornos não são ainda claros, onde se prevê que o inquilino proponha uma nova renda, que o senhorio pode recusar perante o pagamento de 60 meses da renda proposta. Os números são sempre discutíveis, mas proponho um limite a estas indemnizações de, digamos, 30 mil euros, que corresponde a uma renda de 500€. Se o senhorio acha pouco é porque devemos estar a falar de uma casa grande e os inquilinos carenciados não devem ter o direito a viver em casas enormes. Aliás, se os inquilinos alegam carência de meios, os senhorios deveriam ter o direito de propor um alojamento alternativo, não “em condições análogas”, mas em consonância com a dimensão do agregado que aí coabita. É absurdo que uma velhinha tenha o direito de viver numa casa de seis assoalhadas, a que quase ninguém hoje em dia tem acesso.
Este compromisso vai-nos obrigar a fazer reformas estruturais, que há décadas estão adiadas, como é o caso da lei de arrendamento, que o actual governo se prepara para alterar.
Não vou comentar em detalhe a proposta, cujos contornos não são ainda claros, onde se prevê que o inquilino proponha uma nova renda, que o senhorio pode recusar perante o pagamento de 60 meses da renda proposta. Os números são sempre discutíveis, mas proponho um limite a estas indemnizações de, digamos, 30 mil euros, que corresponde a uma renda de 500€. Se o senhorio acha pouco é porque devemos estar a falar de uma casa grande e os inquilinos carenciados não devem ter o direito a viver em casas enormes. Aliás, se os inquilinos alegam carência de meios, os senhorios deveriam ter o direito de propor um alojamento alternativo, não “em condições análogas”, mas em consonância com a dimensão do agregado que aí coabita. É absurdo que uma velhinha tenha o direito de viver numa casa de seis assoalhadas, a que quase ninguém hoje em dia tem acesso.
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Uma regra promissora
Uma coisa que sempre me fez confusão foram os sucessivos défices na saúde. Défices – note-se – após as transferências públicas. Era o meu exemplo preferido nas aulas para referir casos de expectativas não racionais. Um atirador que acerta sempre à direita e abaixo do alvo tem a obrigação de corrigir a sua pontaria. O mesmo deveria acontecer nos orçamentos da saúde.
Das poucas tentativas que fiz para perceber o problema disseram-se que havia um irrealismo muito grande na previsão de receitas, que nunca se confirmavam. Agora percebo porque havia este irrealismo: de acordo com o ministro das Finanças: "Nunca mais será possível assumir compromissos com base em previsões de receitas". As previsões de receitas eram totalmente irrealistas, porque bastava uma previsão de receita para realizar despesa.
O que continuo a não perceber é porque é que a Direcção Geral do Orçamento aceitava previsões de receita reiteradamente irrealistas na saúde.
De qualquer forma espero que com a nova regra se impeça a criação de infindáveis contas por pagar. No entanto, ou muito me engano ou vai ser necessário aplicar penas duríssimas e muito publicitadas para haver uma mudança de mentalidades, que estão muito entranhadas. Cheira-me que antes de uma expulsão da função pública ou de uma pena de prisão efectiva, pouca coisa vai mudar.
Das poucas tentativas que fiz para perceber o problema disseram-se que havia um irrealismo muito grande na previsão de receitas, que nunca se confirmavam. Agora percebo porque havia este irrealismo: de acordo com o ministro das Finanças: "Nunca mais será possível assumir compromissos com base em previsões de receitas". As previsões de receitas eram totalmente irrealistas, porque bastava uma previsão de receita para realizar despesa.
O que continuo a não perceber é porque é que a Direcção Geral do Orçamento aceitava previsões de receita reiteradamente irrealistas na saúde.
De qualquer forma espero que com a nova regra se impeça a criação de infindáveis contas por pagar. No entanto, ou muito me engano ou vai ser necessário aplicar penas duríssimas e muito publicitadas para haver uma mudança de mentalidades, que estão muito entranhadas. Cheira-me que antes de uma expulsão da função pública ou de uma pena de prisão efectiva, pouca coisa vai mudar.
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
“Não pagamos”?
O vice-presidente da bancada socialista, Pedro Nuno Santos, defendeu que devíamos ameaçar os nossos credores de não pagar a dívida. Em primeiro lugar deve saudar-se o excepcional sentido de oportunidade destas declarações, poucos dias depois duma cimeira europeia em que foi decidido um controlo muito mais apertado das dívidas públicas. Será que este dirigente socialista está a defender que Portugal deveria seguir o Reino Unido e recusar o acordo da dita cimeira?
Depois ainda tivemos que ouvir mais esta pérola: “Pedro Nuno Santos lamentou hoje que Portugal não tenha um líder que ponha os interesses de Portugal em primeiro lugar, sublinhando que optará sempre pelo interesse dos portugueses em detrimento dos credores.”
Será que somos autorizados a depreender que um líder como Sócrates, que agravou brutalmente a dívida portuguesa e negociou um acordo duríssimo com a troika, defendeu os interesses de Portugal? A sério?
Pedro Nuno Santos “optará sempre pelo interesse dos portugueses em detrimento dos credores”. Ah, sim? De que modo? Fazendo gastos disparatados financiados com dívidas loucas, que depois “não pagamos!”?
Freitas do Amaral vem-se queixar de um complot europeu: "Alemanha e França querem expulsar-nos do euro". No entanto, se reparar bem não são esses países que nos querem expulsar do euro, são os seus colegas socialistas, pelo que fizeram no passado e pelo que gostariam de concretizar actualmente, que estão a fazer tudo mais um par de botas para sermos expulsos do euro.
Depois ainda tivemos que ouvir mais esta pérola: “Pedro Nuno Santos lamentou hoje que Portugal não tenha um líder que ponha os interesses de Portugal em primeiro lugar, sublinhando que optará sempre pelo interesse dos portugueses em detrimento dos credores.”
Será que somos autorizados a depreender que um líder como Sócrates, que agravou brutalmente a dívida portuguesa e negociou um acordo duríssimo com a troika, defendeu os interesses de Portugal? A sério?
Pedro Nuno Santos “optará sempre pelo interesse dos portugueses em detrimento dos credores”. Ah, sim? De que modo? Fazendo gastos disparatados financiados com dívidas loucas, que depois “não pagamos!”?
Freitas do Amaral vem-se queixar de um complot europeu: "Alemanha e França querem expulsar-nos do euro". No entanto, se reparar bem não são esses países que nos querem expulsar do euro, são os seus colegas socialistas, pelo que fizeram no passado e pelo que gostariam de concretizar actualmente, que estão a fazer tudo mais um par de botas para sermos expulsos do euro.
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