quinta-feira, 2 de junho de 2011
Desvalorizações
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Privatizar e desblindar
Aproveitando a boleia da recomendação do Pedro Santos Guerreiro de privatizar bem, gostaria de falar da blindagem de estatutos. Uma das formas de não privatizar a sério é criar limites aos direitos de voto de modo a que, no fundo, o Estado continue a mandar muito na empresa. Parece uma forma esperta, o Estado recebe muito dinheiro e não perde completamente o poder de dirigir a empresa. Na verdade, os compradores sabem que não estão a comprar uma empresa privada sobre a qual têm liberdade de acção, pelo que não pagam tanto como se estivessem a comprar uma empresa 100% privada.
Se esta forma de privatização não acautela os interesses dos contribuintes, ainda menos acautela o interesse geral, por duas razões. A primeira é uma má razão e prende-se com a forma abusiva como tantas vezes, e o Pedro já o repetiu várias vezes, quando dizemos “Estado”, estamos a dizer “governo” e, sobretudo, “partido”.
A segunda razão prende-se com a esquizofrenia entre o Estado proprietário e o Estado regulador. Uma boa regulação obriga a uma forte concorrência, que faz baixar as margens do produtor incumbente, que diminui o valor da participação do Estado neste. Existe um conflito insanável entre estas duas dimensões do Estado, entre o proprietário e o regulador, que só uma privatização total pode resolver.
Quando falo em privatização total estou a falar em dois aspectos: em primeiro lugar e mais óbvio, a venda de 100% do capital; em segundo lugar, impedir qualquer tentação de mandar ainda indirectamente na empresa, pela total desblindagem de estatutos. Estas duas medidas em conjunto deverão maximizar o encaixe da venda.
Vendamos, por exemplo, a EDP a uma grande empresa estrangeira e aí a regulação na energia já poderá passar a funcionar a sério.
Àqueles que rasgam as vestes com a perda de centros de decisão gostaria de dizer que acordaram tarde. O facto de a generalidade dos governantes dos últimos 15 anos não se ter preocupado com o elevado e persistente défice externo é que nos fez perder centros de decisão hoje. Não gerámos a poupança necessária para financiar os investimentos que quisemos fazer e agora, numa crise gravíssima de financiamento, derivada justamente dessa “despreocupação”, não há nada a fazer, senão ir perdendo o controlo. Isso já se passou na Cimpor, em grande medida na PT, está em curso no BCP e não vai parar tão cedo.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Dinheiro que sobrou?
Segundo o Diário Económico, “Serviços em dificuldades pediram para usar cerca de dois mil milhões de euros que sobraram do Orçamento do ano passado.”
Sobrou dinheiro do orçamento de 2010? Num ano em que se registou um défice brutal, sobrou dinheiro para gastar? E nada menos do que dois mil milhões de euros (1,2% do PIB)? Onde é que estará depositada essa soma fantástica, que afinal até podia ter sido gasta no ano passado?
Esta notícia revela que não só os serviços públicos ainda não perceberam o buraco em que estamos enfiados, como os jornalistas económicos também ainda não o perceberam. O que é mais extraordinário no meio disto tudo, é serem justamente os “serviços já em ruptura financeira” a imaginarem que sobrou dinheiro algures que eles agora podem gastar.
Não sei que situações concretas estão referidas na notícia, mas imagino que no OE10 foram inscritas verbas para despesa, que nunca existiram e que, por isso mesmo, foram cativadas. O que se terá passado é que “sobrou” dinheiro para gastar que pura e simplesmente nunca existiu.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Será isto que entendem por proteger o “Estado Social”?
Um dos aspectos a melhorar nos relatórios orçamentais é uma explicação inteligível da evolução das diferentes rubricas, a que a troika vai obrigar. Ficarão mais difíceis as conversas sobre a evolução orçamental como a que ouvimos em relação à execução revelada hoje.
Se há um substancial redução do défice, também é verdade que ela acontece em parte por motivos inteiramente fortuitos como este: “a variação homóloga acumulada do IRS a Abril, de 30,7% [face a 13,0% até Março] é explicada principalmente pelo facto do prazo de entrega do IRS em 2011, via internet, ter ocorrido um mês mais tarde que em 2010, com impacto, por inerência nos respectivos reembolsos e receita líquida.” (DGO, Maio 2011, p. 7).
Ou seja, o crescimento exponencial das receitas de IRS irá desaparecer já no próximo mês, o que não diz nada sobre a qualidade da execução orçamental do lado da receita.
A despesa primária está a descer menos do que o esperado para o conjunto do ano em quase todos os subsectores, com a intrigante excepção da Segurança Social (p.4), quando o desemprego está afinal mais elevado do que o esperado pelo governo. O executivo não está a cortar como se comprometeu do lado do Estado, mas está a conseguir poupar nos segmentos mais vulneráveis num momento dos mais críticos. Será isto que entendem por proteger o “Estado Social”?
sábado, 14 de maio de 2011
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Sobrevivência do euro e da UE
O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Sérgio Vasques, afirmou que "A criação de benefícios tributários especificamente dirigidos às empresas exportadoras constitui uma forma de auxílio de Estado, contrária ao artigo 107 do Tratado da União Europeia". Não duvido desta leitura, mas parece-me claro que a legislação europeia precisa de ser alterada para fazer face à crise actual, coisa que infelizmente os líderes europeus têm teimado em não fazer, negando sucessivamente os vários problemas.
Os líderes europeus precisam de perceber que é urgente criar mecanismos de correcção de desequilíbrios externos dentro da zona do euro. Se recusarem alterar a legislação europeia para que a proposta do PSD possa ser concretizada, devem fornecer alternativas, que hoje não existem.
A Grécia deverá reestruturar devido à dimensão da sua dívida pública, mas no caso português é a dívida externa que nos poderá conduzir à reestruturação. Mas tanto a Grécia como a Espanha têm problemas graves de desequilíbrio externo.
A inexistência de mecanismos de ajustamento aos problemas de competitividade torna-os mais lentos a resolver, aumentando a probabilidade de uma reestruturação da dívida e torna-os também socialmente mais penosos de digerir. Uma reestruturação da dívida vai criar enormes ressentimentos nos credores e a factura social vai criar enormes ressentimentos nos devedores.
Isto cria um risco para a sobrevivência do euro e até mesmo da própria UE. O euro pode acabar de forma relativamente pacífica, mas também pode acabar de forma muito turbulenta e é isso que pode colocar em risco a sobrevivência da UE.
Seria o cúmulo da ironia que a teimosia em não alterar legislação da UE levasse, em último caso, à destruição da própria UE.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Informação
terça-feira, 10 de maio de 2011
A Grécia como indicador avançado
Como já tinha referido aqui, devemos olhar para a Grécia como um indicador avançado de Portugal, ou seja, o que acontecer aos gregos irá passar-se por cá, algum tempo depois. Estávamos ainda em Dez-09, bem no início da crise da dívida soberana, mas já seria de esperar uma escalada dos juros portugueses, na senda do que estava a acontecer à Grécia.
Também tinha escrito aí que:
Há banqueiros que aplaudem os projectos faraónicos de endividamento público (na expectativa de ganhar umas comissões de financiamento), esquecendo que este endividamento ajuda a que o cenário atrás descrito [de elevados prejuízos bancários] se materialize, colocando os bancos em sério risco.
Reproduzo este parágrafo para enfatizar uma ideia que Vítor Bento vem referindo recorrentemente, que chegámos aqui porque durante demasiado tempo houve cumplicidades de pessoas ao mais alto nível, neste caso de banqueiros, que nem sequer souberam acautelar os interesses dos bancos.
Em Mai-
Agora fala-se na necessidade de mais ajuda à Grécia. Tendo em atenção que o nosso plano prevê que voltemos ao mercado, para prazos mais longos, em meados de 2013, não parece muito arriscado prever que não estaremos prontos para o fazer então e que Portugal também, mais uma vez, siga a Grécia e tenha necessidade de mais ajuda.
Se mais nada suceder entretanto (eg, ajuda a Espanha, reestruturação da dívida grega) é evidente que estes pacotes adicionais de ajuda vão colocar uma pressão adicional sobre a crise do euro, apressando o fim da moeda única, como desenvolvi aqui.
Repor a verdade
Parece que o PS está indignado com a proposta do PSD de baixar a TSU, financiando esta diminuição com uma reestruturação do IVA. Será que o PS já se esqueceu dos documentos que negociou com a troika? Será talvez útil recordar que no documento apresentado pelo próprio ministério das Finanças, “PORTUGAL—MEMORANDUM OF ECONOMIC AND FINANCIAL POLICIES”, na página 12 se pode ler:
Fiscal devaluation