sexta-feira, 30 de abril de 2010

Afinal não foi desta

Num gesto para lá de incompreensível, o governo vai manter praticamente intacto o plano de grandes obras públicas delineado.

Este é um dos sinais mais claros de que o governo está em total negação, em total inconsciência, não percebe patavina do que se está a passar, dá mais um passo para o abismo. A parte mais estranha disto tudo é que a suspensão destes projectos é das medidas mais fáceis e politicamente mais “baratas”.

O endividamento público e externo que estes projectos acarretam só podem agravar as nossas condições de financiamento. Depois queixem-se dos especuladores.

Adenda. Do artigo de hoje de Campos e Cunha no Público: “Tanto erro de política orçamental ultrapassa a incompetência óbvia e legitima outras suspeitas.”


quinta-feira, 29 de abril de 2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Será desta?

Desde a última mexida no nosso rating pela S&P, que o governo apresentou um fraco orçamento, com um défice de 2009 muito estranhamente revisto em alta e um PEC também insuficiente, com graves lacunas no capítulo do “Crescimento”, um dos nossos maiores cancros. Para além disso, o PEC previa que a nossa dívida externa mantivesse a sua trajectória explosiva, sem abrandamento. Parece que os investidores na altura engoliram estes documentos.

Passado algum tempo, os investidores “caíram na real” e começaram a pedir taxas de juro cada vez mais elevadas para deter dívida pública portuguesa, em parte também por contágio dos problemas gregos. O que fez o governo? Deu explicações detalhadas sobre o estranho défice de 2009? Deu um impulso ao pacote de contenção orçamental em curso? Aprovou medidas adicionais, quanto mais não fosse para fazer face a perspectivas de despesas com juros mais elevados? Nada disso. Pôs-se aos berros. Imaginem lá que isso não tranquilizou os investidores…

A S&P foi agora acusada de ir atrás dos investidores e validar a desconfiança destes. É verdade que foi isso que fez, mas como poderia ter feito diferente? Se o governo não se disponibilizou para tranquilizar os mercados com medidas concretas, com que fundamentos é que a S&P poderia ir contra a avaliação dos investidores?

Por isso pergunto: será desta que o governo acorda para a necessidade de rever o PEC, com uma clara redução da meta orçamental para 2010?

Outra questão: a negação dos problemas que o governo tem exibido tem criado uma dissonância cognitiva na população, que se vai apercebendo de alguma coisa pela sua experiência quotidiana e pela comunicação social. Ao esconder a gravidade da situação e a urgência de medidas drásticas o governo está a criar um custo político adicional para a tomada de medidas. Se o governo adoptasse uma postura mais de crise, as pessoas perceberiam melhor e engoliriam melhor as medidas necessárias. Assim, teme-se que o governo e o país acabem por pagar uma factura mais elevada por tudo o que aí vem.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Falta de inteligência política

Um dos aspectos mais desconcertantes da nossa classe política é a sua falta de inteligência política. Há outros defeitos, alguns mais graves como a corrupção, mas nenhum me surpreende mais do que esta falta de inteligência.

Vem isto a propósito do caso das viagens da Inês de Medeiros. O Público tem uma sondagem no seu site e as respostas são esmagadoras: 94% das respostas são contra a decisão do Parlamento de as pagar. Existe algum político profissional que possa, no seu perfeito juízo, dizer que fica surpreendido com estes resultados? Se estas viagens são pouco aceitáveis em tempos de vacas gordas, como aceitá-las num período em que nos confrontamos com a maior crise de finanças públicas das últimas décadas?

Como é que o PS votou a favor de semelhante erro? Não percebem o mal que esta decisão faz ao partido?

Como é que o CDS se absteve, permitindo assim a aprovação? Eu não aprecio muito o discurso populista deste partido, mas como é possível tamanha falta de coerência?

É extraordinário, mas quando nós pensávamos que o parlamento já tinha feito tudo para destruir a sua credibilidade, eis que somos confrontados com mais uma incompreensível decisão.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Dividir o erro em dois

O meu artigo deste mês no Jornal de Negócios, sobre um cenário de criar duas zonas dentro do euro.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=420855

Erros de arquitectura?

O euro está numa encruzilhada e é importante tentar perceber se os problemas actuais resultam sobretudo de erros na arquitectura da moeda única (que os tem) ou se resultam sobretudo de erros de políticas nacionais.

Será que o problema está em não haver um orçamento central para enfrentar um choque assimétrico? Houve um primeiro choque financeiro assimétrico que introduziu vulnerabilidade nos países mais expostos ao subprime (Áustria, Irlanda, Holanda), mas que poupou Portugal e a Grécia. Houve depois um choque económico assimétrico que atingiu mais duramente os maiores exportadores (Irlanda, Alemanha, Holanda), e que, de novo, poupou Portugal e a Grécia, que caíram menos do que a média do euro em 2009.

Finalmente, surgiram os problemas de Portugal e Grécia (descontrolo das contas públicas e uma dívida externa galopante), que não caíram do céu, foram gerados por más políticas públicas.

Para quem tenha uma enorme atracção pela desresponsabilização, ainda se poderá argumentar que estas más políticas foram permitidas não tanto pela eventual má arquitectura do euro, mas pelo mau funcionamento das suas instituições. Este ponto parece-me exagerado, embora a “pressão dos pares” tenha funcionado mal. Por um lado, não houve suficiente pressão para controlar os défices e dívida pública nos tempos de vacas gordas e praticamente não houve pressão nenhuma para corrigir os défices externos. Em Portugal conseguimos o cúmulo de ser o próprio governador do Banco de Portugal a defender que nem nos devíamos preocupar com a nossa dívida externa galopante.

Poder-se-á fazer ainda uma analogia entre o que se passou no BPN e as contas públicas gregas. Toda a gente sabia (excepto o Banco de Portugal) que o BPN tinha negócios “esquisitos”, mas as suas contas continuaram a ser aceites como se viessem de fonte fidedigna. Também todos já sabiam que os gregos tinham aldrabado as suas contas públicas (só assim entraram no euro), mas, extraordinariamente, continuou-se a aceitar as contas públicas gregas como se viessem de uma entidade fidedigna.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Contra-senso

Estado recorre cada vez mais ao trabalho temporário para superar falta de pessoal

http://economia.publico.pt/Noticia/estado-recorre-cada-vez-mais-ao-trabalho-temporario-para-superar-falta-de-pessoal_1433027

Como já tinha referido, a mera contenção de entradas na administração pública (AP) não resolve nada, se não for acompanhada de uma reformulação/automatização de processos que efectivamente reduza as necessidades de pessoal no Estado.

Se isso não for feito poderíamos ter temporariamente uma redução da “produção” da AP, com atrasos a alargarem-se como contrapartida da contenção orçamental. Mas neste momento parece que não é isso que se passa, que o esquema está a ser furado com a contratação de trabalho temporário, muito mais caro do que os recibos verdes. Isto é péssimo para a contenção orçamental, por duas razões: em primeiro lugar porque não se está a materializar a propalada redução de pessoal; em segundo lugar porque se está a substituir o pessoal que havia por outro mais caro.

Será que tudo isto não é mais um sinal de o governo estar em negação sobre a gravidade da situação com que estamos confrontados?

domingo, 18 de abril de 2010

O papão dos bancos estrangeiros

Nicolau Santos escreveu ontem no Expresso um interessante artigo sobre o futuro da banca portuguesa, mas que acaba com uma dúvida estranha. Começa por falar na elevada probabilidade dos estrangeiros aumentarem a sua participação na banca portuguesa, mas depois teme que isso coloque entraves ao financiamento da economia.

Fico perplexo. Há bancos estrangeiros que estão interessados em comprar bancos portugueses para depois lhes reduzirem o negócio?

É evidente que tudo aponta para que o negócio bancário tenha taxas de crescimento menores nos próximos anos, por todas as razões e mais alguma, começando pelo excesso de endividamento da economia. Se os bancos portugueses passarem para mãos estrangeiras isso será porque não há capitais suficientes para permitirem o seu negócio “normal”, mesmo assim mais reduzido do que a experiência recente. Se não forem vendidos então é que a economia ficaria estrangulada de financiamento.

Mais ainda, se for verdade que accionistas portugueses permitem níveis de endividamento maiores do que accionistas estrangeiros, então é absolutamente lamentável que os bancos portugueses não estejam há mais tempo nas mãos de estrangeiros, porque isso significaria que os nossos problemas gravíssimos de endividamento seriam agora bem menores.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fumo branco

Finalmente, os países europeus acordaram num pacote de empréstimos à Grécia, no montante de 30 mil milhões, por três anos, com uma taxa de juro no primeiro ano de cerca de 5%. É pena que ainda tenhamos que falar de “no primeiro ano” e “cerca de”, mas parece que os mercados gostaram muito desta notícia.

Com dinheiro adicional do FMI e ainda sem estar claro se há condições a impor à Grécia para receber estes fundos, parece que nos espera algum tempo de bonança.

Curiosamente, parece-me que esta decisão coloca a Espanha mais na linha da frente do que Portugal. Nós precisaríamos de uma ajuda inferior à da Grécia, pelo que é muito improvável que ela não se materializasse, mas uma ajuda a Espanha seria tão volumosa que, essa sim, se poderia tornar proibitiva.

Accionistas?

No final de 2009, os dez accionistas com mais de 2%, e que representavam 43,8% do capital, tinham empréstimos no valor de 2,4 mil milhões de euros contraídos junto da instituição.

http://www.ionline.pt/conteudo/54849-assembleia-bcp-aumentou-creditos-aos-grandes-accionistas

O valor de mercado destes 43,8% é de apenas cerca de 1,75 mil milhões de euros. Mesmo usando o valor nominal esta participação só valeria 2,1 mil milhões de euros. Ou seja, em termos líquidos estes “accionistas” são, na verdade devedores do banco. Mesmo sem entrar em linha de conta com este problema já se sabia que o BCP era um banco subcapitalizado. Com estes dados ficamos a saber que afinal essa fragilidade é muitíssimo maior.

É muito estranho o Banco de Portugal permitir uma situação desta. Para efeitos de rácios oficiais o capital de accionistas só deveria ser contabilizado líquido de todos os créditos. E cuidadinho com triangulações para evitar esta restrição…