terça-feira, 20 de abril de 2010

Contra-senso

Estado recorre cada vez mais ao trabalho temporário para superar falta de pessoal

http://economia.publico.pt/Noticia/estado-recorre-cada-vez-mais-ao-trabalho-temporario-para-superar-falta-de-pessoal_1433027

Como já tinha referido, a mera contenção de entradas na administração pública (AP) não resolve nada, se não for acompanhada de uma reformulação/automatização de processos que efectivamente reduza as necessidades de pessoal no Estado.

Se isso não for feito poderíamos ter temporariamente uma redução da “produção” da AP, com atrasos a alargarem-se como contrapartida da contenção orçamental. Mas neste momento parece que não é isso que se passa, que o esquema está a ser furado com a contratação de trabalho temporário, muito mais caro do que os recibos verdes. Isto é péssimo para a contenção orçamental, por duas razões: em primeiro lugar porque não se está a materializar a propalada redução de pessoal; em segundo lugar porque se está a substituir o pessoal que havia por outro mais caro.

Será que tudo isto não é mais um sinal de o governo estar em negação sobre a gravidade da situação com que estamos confrontados?

domingo, 18 de abril de 2010

O papão dos bancos estrangeiros

Nicolau Santos escreveu ontem no Expresso um interessante artigo sobre o futuro da banca portuguesa, mas que acaba com uma dúvida estranha. Começa por falar na elevada probabilidade dos estrangeiros aumentarem a sua participação na banca portuguesa, mas depois teme que isso coloque entraves ao financiamento da economia.

Fico perplexo. Há bancos estrangeiros que estão interessados em comprar bancos portugueses para depois lhes reduzirem o negócio?

É evidente que tudo aponta para que o negócio bancário tenha taxas de crescimento menores nos próximos anos, por todas as razões e mais alguma, começando pelo excesso de endividamento da economia. Se os bancos portugueses passarem para mãos estrangeiras isso será porque não há capitais suficientes para permitirem o seu negócio “normal”, mesmo assim mais reduzido do que a experiência recente. Se não forem vendidos então é que a economia ficaria estrangulada de financiamento.

Mais ainda, se for verdade que accionistas portugueses permitem níveis de endividamento maiores do que accionistas estrangeiros, então é absolutamente lamentável que os bancos portugueses não estejam há mais tempo nas mãos de estrangeiros, porque isso significaria que os nossos problemas gravíssimos de endividamento seriam agora bem menores.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Fumo branco

Finalmente, os países europeus acordaram num pacote de empréstimos à Grécia, no montante de 30 mil milhões, por três anos, com uma taxa de juro no primeiro ano de cerca de 5%. É pena que ainda tenhamos que falar de “no primeiro ano” e “cerca de”, mas parece que os mercados gostaram muito desta notícia.

Com dinheiro adicional do FMI e ainda sem estar claro se há condições a impor à Grécia para receber estes fundos, parece que nos espera algum tempo de bonança.

Curiosamente, parece-me que esta decisão coloca a Espanha mais na linha da frente do que Portugal. Nós precisaríamos de uma ajuda inferior à da Grécia, pelo que é muito improvável que ela não se materializasse, mas uma ajuda a Espanha seria tão volumosa que, essa sim, se poderia tornar proibitiva.

Accionistas?

No final de 2009, os dez accionistas com mais de 2%, e que representavam 43,8% do capital, tinham empréstimos no valor de 2,4 mil milhões de euros contraídos junto da instituição.

http://www.ionline.pt/conteudo/54849-assembleia-bcp-aumentou-creditos-aos-grandes-accionistas

O valor de mercado destes 43,8% é de apenas cerca de 1,75 mil milhões de euros. Mesmo usando o valor nominal esta participação só valeria 2,1 mil milhões de euros. Ou seja, em termos líquidos estes “accionistas” são, na verdade devedores do banco. Mesmo sem entrar em linha de conta com este problema já se sabia que o BCP era um banco subcapitalizado. Com estes dados ficamos a saber que afinal essa fragilidade é muitíssimo maior.

É muito estranho o Banco de Portugal permitir uma situação desta. Para efeitos de rácios oficiais o capital de accionistas só deveria ser contabilizado líquido de todos os créditos. E cuidadinho com triangulações para evitar esta restrição…

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Garantias dos depósitos gregos?

Desde o início do ano que se assiste a uma fuga de depósitos da Grécia, em montantes volumosos (4% do PIB apenas nos dois primeiros meses de 2010. Neste momento estes movimentos são realizados pelos gregos mais ricos, já que para depósitos inferiores há garantias do Estado. Mas impõe-se perguntar até quando ou até que ponto estas garantias vão ser levadas a sério. Dito de outro modo, até que ponto é que esta fuga de depósitos se pode intensificar e ganhar uma dimensão gigantesca?

Os graves problemas orçamentais gregos e os seus problemas de financiamento estão a provocar uma fortíssima subida dos spreads que, por seu turno, estão a pôr e causa a solidez do sistema bancário grego.

A probabilidade de falência da generalidade dos bancos gregos não tem cessado de aumentar (espelhado nas quedas brutais das suas cotações), ainda que se mantenha a níveis baixos e ainda controláveis.

O problema é que, à medida que estes problemas se agudizem, começará a sentir-se cada vez mais premente a necessidade de utilizar a garantia do Estado sobre os “pequenos” depósitos. Num cenário desses fará sentido os depositantes gregos levarem a sério as garantias do Estado? Se o Estado mal consegue financiamento para a sua actual dívida, como imaginar que ele tem espaço para garantir uma divida adicional, que nem sequer é sua?

Chegados aqui convinha introduzir uma pequena nuance. A fuga de depósitos pode tomar genericamente duas formas: ou uma fuga de depósitos na Grécia para depósitos noutros países; ou um fuga de depósitos para notas guardadas em casa. Em qualquer dos casos são recursos que saem do sistema bancário grego e que terão que ser compensados com financiamento no exterior, financiamento quase inacessível.

Em resumo, um dos efeitos da bola de neve da crise grega é a fuga de depósitos, que não deverá ficar circunscrita aos grandes depositantes.

Talvez não seja evidente, mas o cenário descrito atrás também se pode vir a aplicar a Portugal.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Disfunções

A Grécia recusa-se a pedir ajuda aos seus parceiros europeus, apesar da subida drástica dos spreads nos últimos dias.

http://www.ft.com/cms/s/0/7bd3f044-430c-11df-96c4-00144feab49a.html

A Alemanha recusa-se a esclarecer a que taxa de juro está disponível para emprestar à Grécia.

Os jornalistas insistem em perguntar a Trichet (ver conferência de hoje do BCE) quais as condições em que os países (e não o BCE) irão emprestar à Grécia. Trichet sobressai pela lógica de os mandar fazer essas perguntas a quem tem que responder.

É óbvio que a Grécia vai entrar em default, mas tudo indica que vai ser forçada a isso, em vez de procurar uma solução pelos seus próprios meios.

No meio de tanta disfunção só temo que a ausência de contágio dos problemas gregos às dívidas portuguesa e espanhola seja apenas mais uma disfunção, a ser corrigida em breve.

Fuga de depósitos

Sem surpresas, os clientes mais ricos dos bancos gregos, os que não estão abrangidos pela garantia dos depósitos, estão a abandonar a Grécia.

http://www.ft.com/cms/s/0/edbfc18c-4268-11df-8c60-00144feabdc0.html

Local savers transferred about €10bn of deposits – equal to about 4.5 per cent of the total in the banking system – out of Greece in the first two months of the year, according to the central bank.

Como é evidente, isto cria um buraco de recursos que os bancos precisam de cobrir. Os bancos gregos estão cada vez mais dependentes do financiamento junto do BCE, com o mercado cada vez mais fechado aos seus pedidos.

Tudo indica que estes movimentos se deverão ter intensificado entretanto e deverão continuar no futuro próximo. A somar ao elevadíssimo défice externo, a Grécia vai ter que arranjar financiamento para substituir estes capitais em fuga (4% do PIB apenas nos dois primeiros meses do ano). Esta fuga de capitais vem juntar-se a um pesadelo de financiamento que já era gravíssimo.

Os bancos vão ser forçados a cortar drasticamente o crédito à economia, afundando não só a economia, como as contas públicas. Ou seja, está a acelerar-se o caminho para o default da Grécia.

Relembro que a Grécia deve ser encarada como um indicador avançado para Portugal. Tudo o que se está a passar na Grécia tem uma elevada probabilidade de se vir a passar em Portugal.

Estou cada vez mais abismado com o erro do BCP de não ter querido vender o seu banco na Grécia. Vão-se arrepender amargamente desta decisão.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Alemanha tem que tomar uma decisão

A Grécia parece um barco a meter água, com o governo a não conseguir deitar fora a nova água que vai entrando. Hoje os spreads face à Alemanha ultrapassaram os 400pb.

Digamos que a razão imediata é que a Alemanha quer ler “não subsidiar os gregos” como exigindo que eles paguem o que os especuladores estão a forçá-los a pagar. O problema é que quanto mais os alemães teimam, mais os spreads gregos sobem. A atitude alemã está sistematicamente a dar razão aos especuladores, justificando que estes vão subindo sucessivamente a parada.

Parece que o governo alemão está com medo que o seu Tribunal Constitucional chumbe a ajuda. Temo que este problema não seja a explicação genuína. Dada a urgência de tomar uma decisão, seria preferível que o governo alemão arriscasse uma certa taxa de juro, por exemplo 5%, e esperasse pela decisão do Tribunal. Se o Tribunal vier dizer (que estranho…) que 5% é inconstitucional, mas 6% já não é, então os próximos empréstimos deveriam ser a 6%.

Digo os próximos empréstimos porque há aqui uma outra questão. Ao não ajudar já a Grécia, a Alemanha está a contribuir para uma forte depreciação do euro, pondo em causa o princípio constitucional (alemão) da estabilidade monetária.

Se a Alemanha estivesse de boa fé, deveria decidir um empréstimo de emergência e solicitar um esclarecimento – com urgência – ao seu Tribunal Constitucional para empréstimos posteriores.

Seria sempre possível (embora politicamente difícil) que a Alemanha emprestasse dinheiro à Grécia a taxas superiores aos restantes membros do euro. Como defendo que estes empréstimos devem ser voluntários, tanto os montantes como as taxas podem diferir entre credores, independentemente das quotas no BCE.

As taxas de juro dos empréstimos da zona euro à Grécia poderiam constituir um certo tecto para os restantes empréstimos. Como é evidente, Portugal deveria empenhar-se em construir uma solução rápida porque temos todas as condições para ser o “senhor que se segue”.

terça-feira, 30 de março de 2010

“Desemprego atinge sobretudo baixos salários”

De acordo com notícia do Público de hoje, os trabalhadores mais afectados pela crise foram os que recebem menos de 500€. Estes trabalhadores são os menos qualificados e por isso os mais fáceis de substituir. Uma empresa perde muitas competências se despedir um trabalhador altamente qualificado, mas perde pouco se despedir um trabalhador pouco qualificado. Assim, é natural que este segmento de trabalhadores sofra mais com a crise.

http://economia.publico.pt/Noticia/desemprego-atinge-sobretudo-baixos-salarios_1430068

Mas parece-me que neste contexto há um dado suplementar que estará a agravar o problema. Falo do aumento extraordinário do salário mínimo decidido nos últimos anos, que veio em cima de uma fortíssima desadequação dos salários à produtividade, criada a partir da segunda metade dos anos 90. Este aumento do salário mínimo destruiu uma competitividade já precária em sectores que só sobrevivem com salários baixos.

Há quem diga que isto significa que não podemos continuar a seguir o “modelo de salários baixos”. Em primeiro lugar deveriam dizer o “modelo” de produtividade baixíssima. Depois teriam que reconhecer que a nossa escolaridade e formação são baixíssimos no contexto europeu, pelo que os milagres de produtividade são difíceis. Enquanto não conseguirmos milagres na produtividade é preferível termos empregos de baixa produtividade do que desemprego. Para isso convém não tentar subidas voluntaristas do salário mínimo que só criam desemprego.