sexta-feira, 9 de abril de 2010

Garantias dos depósitos gregos?

Desde o início do ano que se assiste a uma fuga de depósitos da Grécia, em montantes volumosos (4% do PIB apenas nos dois primeiros meses de 2010. Neste momento estes movimentos são realizados pelos gregos mais ricos, já que para depósitos inferiores há garantias do Estado. Mas impõe-se perguntar até quando ou até que ponto estas garantias vão ser levadas a sério. Dito de outro modo, até que ponto é que esta fuga de depósitos se pode intensificar e ganhar uma dimensão gigantesca?

Os graves problemas orçamentais gregos e os seus problemas de financiamento estão a provocar uma fortíssima subida dos spreads que, por seu turno, estão a pôr e causa a solidez do sistema bancário grego.

A probabilidade de falência da generalidade dos bancos gregos não tem cessado de aumentar (espelhado nas quedas brutais das suas cotações), ainda que se mantenha a níveis baixos e ainda controláveis.

O problema é que, à medida que estes problemas se agudizem, começará a sentir-se cada vez mais premente a necessidade de utilizar a garantia do Estado sobre os “pequenos” depósitos. Num cenário desses fará sentido os depositantes gregos levarem a sério as garantias do Estado? Se o Estado mal consegue financiamento para a sua actual dívida, como imaginar que ele tem espaço para garantir uma divida adicional, que nem sequer é sua?

Chegados aqui convinha introduzir uma pequena nuance. A fuga de depósitos pode tomar genericamente duas formas: ou uma fuga de depósitos na Grécia para depósitos noutros países; ou um fuga de depósitos para notas guardadas em casa. Em qualquer dos casos são recursos que saem do sistema bancário grego e que terão que ser compensados com financiamento no exterior, financiamento quase inacessível.

Em resumo, um dos efeitos da bola de neve da crise grega é a fuga de depósitos, que não deverá ficar circunscrita aos grandes depositantes.

Talvez não seja evidente, mas o cenário descrito atrás também se pode vir a aplicar a Portugal.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Disfunções

A Grécia recusa-se a pedir ajuda aos seus parceiros europeus, apesar da subida drástica dos spreads nos últimos dias.

http://www.ft.com/cms/s/0/7bd3f044-430c-11df-96c4-00144feab49a.html

A Alemanha recusa-se a esclarecer a que taxa de juro está disponível para emprestar à Grécia.

Os jornalistas insistem em perguntar a Trichet (ver conferência de hoje do BCE) quais as condições em que os países (e não o BCE) irão emprestar à Grécia. Trichet sobressai pela lógica de os mandar fazer essas perguntas a quem tem que responder.

É óbvio que a Grécia vai entrar em default, mas tudo indica que vai ser forçada a isso, em vez de procurar uma solução pelos seus próprios meios.

No meio de tanta disfunção só temo que a ausência de contágio dos problemas gregos às dívidas portuguesa e espanhola seja apenas mais uma disfunção, a ser corrigida em breve.

Fuga de depósitos

Sem surpresas, os clientes mais ricos dos bancos gregos, os que não estão abrangidos pela garantia dos depósitos, estão a abandonar a Grécia.

http://www.ft.com/cms/s/0/edbfc18c-4268-11df-8c60-00144feabdc0.html

Local savers transferred about €10bn of deposits – equal to about 4.5 per cent of the total in the banking system – out of Greece in the first two months of the year, according to the central bank.

Como é evidente, isto cria um buraco de recursos que os bancos precisam de cobrir. Os bancos gregos estão cada vez mais dependentes do financiamento junto do BCE, com o mercado cada vez mais fechado aos seus pedidos.

Tudo indica que estes movimentos se deverão ter intensificado entretanto e deverão continuar no futuro próximo. A somar ao elevadíssimo défice externo, a Grécia vai ter que arranjar financiamento para substituir estes capitais em fuga (4% do PIB apenas nos dois primeiros meses do ano). Esta fuga de capitais vem juntar-se a um pesadelo de financiamento que já era gravíssimo.

Os bancos vão ser forçados a cortar drasticamente o crédito à economia, afundando não só a economia, como as contas públicas. Ou seja, está a acelerar-se o caminho para o default da Grécia.

Relembro que a Grécia deve ser encarada como um indicador avançado para Portugal. Tudo o que se está a passar na Grécia tem uma elevada probabilidade de se vir a passar em Portugal.

Estou cada vez mais abismado com o erro do BCP de não ter querido vender o seu banco na Grécia. Vão-se arrepender amargamente desta decisão.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Alemanha tem que tomar uma decisão

A Grécia parece um barco a meter água, com o governo a não conseguir deitar fora a nova água que vai entrando. Hoje os spreads face à Alemanha ultrapassaram os 400pb.

Digamos que a razão imediata é que a Alemanha quer ler “não subsidiar os gregos” como exigindo que eles paguem o que os especuladores estão a forçá-los a pagar. O problema é que quanto mais os alemães teimam, mais os spreads gregos sobem. A atitude alemã está sistematicamente a dar razão aos especuladores, justificando que estes vão subindo sucessivamente a parada.

Parece que o governo alemão está com medo que o seu Tribunal Constitucional chumbe a ajuda. Temo que este problema não seja a explicação genuína. Dada a urgência de tomar uma decisão, seria preferível que o governo alemão arriscasse uma certa taxa de juro, por exemplo 5%, e esperasse pela decisão do Tribunal. Se o Tribunal vier dizer (que estranho…) que 5% é inconstitucional, mas 6% já não é, então os próximos empréstimos deveriam ser a 6%.

Digo os próximos empréstimos porque há aqui uma outra questão. Ao não ajudar já a Grécia, a Alemanha está a contribuir para uma forte depreciação do euro, pondo em causa o princípio constitucional (alemão) da estabilidade monetária.

Se a Alemanha estivesse de boa fé, deveria decidir um empréstimo de emergência e solicitar um esclarecimento – com urgência – ao seu Tribunal Constitucional para empréstimos posteriores.

Seria sempre possível (embora politicamente difícil) que a Alemanha emprestasse dinheiro à Grécia a taxas superiores aos restantes membros do euro. Como defendo que estes empréstimos devem ser voluntários, tanto os montantes como as taxas podem diferir entre credores, independentemente das quotas no BCE.

As taxas de juro dos empréstimos da zona euro à Grécia poderiam constituir um certo tecto para os restantes empréstimos. Como é evidente, Portugal deveria empenhar-se em construir uma solução rápida porque temos todas as condições para ser o “senhor que se segue”.

terça-feira, 30 de março de 2010

“Desemprego atinge sobretudo baixos salários”

De acordo com notícia do Público de hoje, os trabalhadores mais afectados pela crise foram os que recebem menos de 500€. Estes trabalhadores são os menos qualificados e por isso os mais fáceis de substituir. Uma empresa perde muitas competências se despedir um trabalhador altamente qualificado, mas perde pouco se despedir um trabalhador pouco qualificado. Assim, é natural que este segmento de trabalhadores sofra mais com a crise.

http://economia.publico.pt/Noticia/desemprego-atinge-sobretudo-baixos-salarios_1430068

Mas parece-me que neste contexto há um dado suplementar que estará a agravar o problema. Falo do aumento extraordinário do salário mínimo decidido nos últimos anos, que veio em cima de uma fortíssima desadequação dos salários à produtividade, criada a partir da segunda metade dos anos 90. Este aumento do salário mínimo destruiu uma competitividade já precária em sectores que só sobrevivem com salários baixos.

Há quem diga que isto significa que não podemos continuar a seguir o “modelo de salários baixos”. Em primeiro lugar deveriam dizer o “modelo” de produtividade baixíssima. Depois teriam que reconhecer que a nossa escolaridade e formação são baixíssimos no contexto europeu, pelo que os milagres de produtividade são difíceis. Enquanto não conseguirmos milagres na produtividade é preferível termos empregos de baixa produtividade do que desemprego. Para isso convém não tentar subidas voluntaristas do salário mínimo que só criam desemprego.

terça-feira, 23 de março de 2010

Política sectorial

A crítica liberal à existência de políticas sectoriais funda-se na não omnisciência do Estado. Mas o Estado não precisa de ser omnisciente, basta-lhe ter um núcleo de estudos claramente mais qualificado do que a maioria dos empresários. Num país dominado por PMEs geridas por empresários com formações baixíssimas não será difícil ao Estado conseguir esse tal valor acrescentado à maioria dos privados de menor dimensão.

Até porque há questões pouco controversas. Na distribuição, por exemplo, Portugal tem um segmento tradicional com um peso muito superior ao da média da UE. A tendência desejável será a da diminuição do peso relativo (mas melhoria da qualificação) do comércio tradicional. Não faz obviamente nenhum sentido (do ponto de vista económico) criar obstáculos à redução do comércio tradicional, como tem sido a política sectorial dos últimos anos.

Por outro lado, Portugal não vive no vácuo e é forçado a uma intervenção pelo manancial de fundos da UE. Há uma intervenção forçada na agricultura. Nas pescas há queixas de industriais do sector que parece que os negociadores portugueses se demitiram de defender os interesses nacionais.

Também há intervenção na escolha do tipo de investimento público que se faz. Em Portugal, o sector da construção parece estar muitíssimo empolado em relação ao seu peso “natural”, devido à absurda concentração do investimento público em obras públicas.

Há ainda intervenção nas escolhas que se fazem nas escolas profissionais e de formação. Parece que o nosso turismo não tem a qualidade (e quantidade) que poderia ter porque não há uma clara aposta neste tipo de formação.

E temos também a intervenção negativa. Sendo Portugal um dos maiores consumidores de peixe e com imensas zonas com potencial de aquicultura, é um dos países mediterrâneos onde esta menos se tem expandido. Segundo industriais do sector, parece que a administração pública foi instruída para criar o máximo de obstáculos sob o mais ínfimo dos pretextos. Aliás, este problema do licenciamento parece ser muito genérico.

Infelizmente, o maior problema português não é o seguir uma política sectorial errada, com uma má escolha dos sectores em que queremos apostar. O problema maior será a total incoerência das intervenções públicas, sem objectivos definidos e, em alguns casos, com apostas contrárias ao mais elementar bom senso.

terça-feira, 16 de março de 2010

E viva o acessório!

Parece que Mário Soares criticou a falta de debate interno no PS. É preciso debater as condições éticas de Sócrates permanecer como PM? Debater o PEC? Debater a falta de perspectivas de convergência com a UE? Nada disso. O que é preciso é debater as presidenciais.

Infelizmente, se calhar era isso mesmo que Mário Soares queria, motivado não por qualquer preocupação com o país, mas movido por uma vingançazinha pessoal contra Manuel Alegre.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Já não há pudor?

José Penedos vai ser premiado pelo desempenho em 2009, ano em que a REN se viu envolvida no 'Face Oculta'.

A informação é avançada pela Lusa, que cita Filipe de Botton, acionista da REN pela Logoenergia.

Esta proposta, aprovada hoje em assembleia-geral da REN, incluía o corte em 50% do montante máximo do bónus e passou com 40% de votos contra, nomeadamente dos accionistas privados.

http://economico.sapo.pt/noticias/estado-propoe-pagagamento-de-bonus-a-jose-penedos_84151.html

Infeliz ideia

“Governo admite vender obrigações aos privados através dos bancos”

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=414741

Quando se diz “vender” está-se a dizer incentivar a venda, porque esta já se pode fazer hoje na bolsa, a que os clientes acedem normalmente através dos bancos e, crescentemente, pelos bancos online.

Isto parece-me constituir um duplo erro. O primeiro erro é imaginar que haverá aqui qualquer efeito de aumento de poupança. As OTs vão canibalizar recursos que vão deixar de estar disponíveis para os bancos portugueses, que vão ter que os captar lá fora. Em vez de o Estado captar esses recursos no exterior com a venda de OTs, Portugal vai ter que ir buscar esses recursos com instituições (bancos) com um rating pior do que o Estado. Portugal como um todo vai passar a pagar mais caro pela sua dívida externa.

Mas para além deste erro económico há um outro erro, político. Apesar da acalmia recente dos mercados só o Dr. Pangloss é que imagina que todos os problemas estão ultrapassados. Infelizmente, não é difícil imaginar um novo surto de desconfiança nos próximos tempos com uma forte subida dos spreads das OTs. Ou, dito de outro modo, uma forte queda dos seus preços. Veremos então os investidores portugueses a registarem fortes perdas nas suas carteiras, que irão imputar ao governo que os convenceu a comprar OTs. Se estão à procura de lenha para se queimarem, não podiam escolher melhor “floresta”.