segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Mais carpintaria financeira

O Público tem hoje uma longa secção (p. 2-5) dedicada à Parque Escolar, que parece resultar de pressão dos arquitectos sobre os problemas que eles enfrentam nestes concursos públicos ou na sua falta.

Mas o mais grave é ignorado: a Parque Escolar, EPE, é uma empresa cujo único objectivo é maquilhar as contas públicas, esconder endividamento e despesa pública. Parece que o investimento poderá chegar aos 3,5 mil milhões de euros, mais do que o custo de construção do novo aeroporto de Lisboa. Não estamos a falar de tremoços…

As receitas desta empresa serão transferências do Estado, pelo que o objectivo claro é retirar tudo isto do perímetro orçamental. Tente-se obter mais detalhes no site da empresa e a única coisa de jeito é um “Relatório de Sustentabilidade, 2008” com magríssima informação financeira. Tudo transparente, portanto.

Parece que o objectivo foi "criar uma entidade pública especializada, que através de um modelo de gestão empresarial permita garantir princípios de gestão mais racional e eficiente". Isto é o melhor, como as regras da administração pública não permitem um gestão “racional” e “eficiente”, o que se faz? Mudam-se as regras? De maneira nenhuma, cria-se mais uma empresa pública mal fiscalizada.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Banco de Portugal tem que agir

Segundo o Público de hoje, os “bancos cotados já perderam 19 por cento com crise grega”.

http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1422718

Nada de muito surpreendente, tendo em atenção a análise que eu já tinha feito aqui.

O que me parece péssimo é que “O sector já avisou que quer aumentar a fatia dos lucros a distribuir pelos seus accionistas. As estimativas apontam para que entreguem este ano quase dois terços dos resultados obtidos em 2009.”

Isto é exactamente o oposto do que eu recomendei aqui. O Banco de Portugal deveria intervir no sentido de impedir os bancos de seguirem esse caminho, em vez de se capitalizarem mais, para resistirem à tempestade que se avizinha.

Demissão de Sócrates

Alguma gente no PS parece estar muito equivocada. Capoulas Santos incita a oposição a apresentar uma moção de censura. Se uma moção destas for aprovada e levar à queda do governo isso não conduzirá a eleições antecipadas, até porque neste momento não podem ser convocadas. Teríamos um outro governo do PS. O país agradeceria (e muita gente no PS também) que Sócrates saísse do governo e que passássemos a ter um PM mais decente, em vários aspectos.

Mas se o PS quiser fazer braço de ferro e não quiser apresentar um PM socialista alternativo a Sócrates, então será o PS a ser o único responsável pela convocação de eleições antecipadas e pagará o preço político por isso.

A oposição, depois de ver o seu poder de deitar abaixo um primeiro-ministro do PS, talvez não se queira ficar por aí e, pelo menos, ameaçará o próximo PM de ter um fim parecido com o de Sócrates.

É evidente que a este cenário político temos que somar o cenário económico. É legítimo esperar que o PEC a apresentar proximamente seja mais uma decepção, quer no lirismo do cenário macroeconómico, quer pela ausência de medidas concretas de consolidação orçamental. Os mercados não perdoarão e farão de novo pressão sobre o cenário político. Teme-se o pior, até pela falta de racionalidade que se tem visto por todos os lados.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Nada corre bem

Depois de dois trimestres a crescer 0,6%, eis que no 4º trimestre a economia portuguesa estagna (0% em termos trimestrais). É certo que na zona do euro o sentido da evolução é semelhante, embora a desaceleração seja muito mais suave (de 0,4% para 0,1%).

Os adeptos do copo meio cheio podem dar-se felizes pelo facto de em termos homólogos estarmos melhor que a Europa, mas temo que estes dados sejam o prenúncio do que se espera: tal como Portugal não sofreu tanto com a crise como a Europa, também não vai beneficiar tanto como esta da recuperação. O nosso grave problema de falta de competitividade será o travão que impedirá este efeito.

Mas nós temos dois outros problemas domésticos que ameaçam a recuperação. Por um lado, desde finais do ano passado que a confiança de consumidores e empresários interrompeu a trajectória de recuperação e deverá constituir um obstáculo. Poder-se-á discutir a razão desta evolução da confiança, mas julgo que ela resulta da grande confusão política, inicialmente devido a uma dramatização encenada pelo governo e agora devido a problemas bem reais de credibilidade do PM.

Por outro lado, a muito recente e forte subida dos spreads ainda não começou a surtir os seus efeitos, mas não tarda que eles se manifestem. Os bancos vão ver a sua rentabilidade ameaçada e serão forçados, quer a subir as taxas de juro às empresas, quer a apertar as condições de concessão de empréstimo às empresas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ajuda por interesse

Embora ainda não haja decisões concretas, a Alemanha prepara-se para ajudar a Grécia, movida por interesse próprio. É evidente que é mais bonito quando a ajuda é desinteressada, mas uma ajuda por interesse é mais provável que seja maior e mais eficaz. Uma pequena ajuda à Grécia serviria de pouco.

Germany is worried that any flight out of Greek assets, especially government bonds, could hit its banks and those in other eurozone countries.

http://www.ft.com/cms/s/0/83de2cae-15a9-11df-ad7e-00144feab49a.html?nclick_check=1

Mas se a ajuda é do interesse da Alemanha, também é do interesse deste país que a ajuda seja claramente condicional. Poderá haver um excesso “especulativo” nas dificuldades da Grécia, mas é evidente que há problemas objectivos – de vária ordem – quer nas contas públicas quer nas contas externas helénicas. Por isso, é óbvio que a Alemanha terá que exigir que os problemas objectivos sejam atacados e as condições devem ser suficientemente duras para não se tornar apetecível para mais nenhum país deixar as coisas degradarem-se até ficar em condições de ser ajudado pelos germânicos.

Acham-nos parvos

Depois de uma subida eleitoralista de quase 5% dos salários reais no ano passado, os sindicatos querem agora mais aumentos extraordinários. Em que país viverão estes sindicatos que ainda não ouviram falar da crise das finanças públicas?

Não por acaso, os sindicalistas só são ultrapassados pelos políticos na má imagem que têm na população, como indicam sustentadamente os estudos de opinião.

Tal como Sócrates, estes sindicatos devem imaginar que os portugueses são parvos. Como se nós não percebecemos o disparate e a injustiça totais das suas reivindicações.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Machadada final

Circulam rumores de que Manuel Pinho poderá ser o novo governador do Banco de Portugal. Se assim for, essa será a machadada final na credibilidade do nosso banco central. Não só ele não tem competência técnica para o lugar, como seria governamentalizar de vez essa desgraçada instituição, que tanto tem sofrido às mãos de Constâncio.

http://www.ionline.pt/conteudo/45870-ja-chovem-nomes-suceder-constancio-no-banco-portugal

Espero que quer os antigos governadores se expressem contra esta degradação, quer o BCE.

Todos pela liberdade


Substituição

Em tempos normais já deveria haver socialistas sedentos de poder a posicionarem-se para ajudar à demissão de Sócrates, na mira de serem convidados para PM. Infelizmente, a tempestade que se avizinha não é muito convidativa para desejar substituir Sócrates. Até porque se imagina que a queda de Sócrates deverá levar a uma vassourada generalizada da corrupção.

Se, como eu desejo e julgo que se justifica, Sócrates acabe na prisão, muita coisa vai mudar neste país. A prisão de Sócrates irá fazer muito mais por este país do que mil leis anti-corrupção.

Milhares de pessoas estão hoje amordaçadas e poderão finalmente denunciar a corrupção a que assistem diariamente. Os próprios corruptos vão sentir que a sua impunidade acabou.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Uma dúvida

Se ontem nenhuma agência de rating se pronunciou, porque é que assistimos à maior subida do spread da dívida pública? Mas afinal os nossos problemas não decorrem exclusivamente de afirmações falsas e completamente interesseiras das agências de rating? Estou perplexo…