domingo, 14 de fevereiro de 2010

Demissão de Sócrates

Alguma gente no PS parece estar muito equivocada. Capoulas Santos incita a oposição a apresentar uma moção de censura. Se uma moção destas for aprovada e levar à queda do governo isso não conduzirá a eleições antecipadas, até porque neste momento não podem ser convocadas. Teríamos um outro governo do PS. O país agradeceria (e muita gente no PS também) que Sócrates saísse do governo e que passássemos a ter um PM mais decente, em vários aspectos.

Mas se o PS quiser fazer braço de ferro e não quiser apresentar um PM socialista alternativo a Sócrates, então será o PS a ser o único responsável pela convocação de eleições antecipadas e pagará o preço político por isso.

A oposição, depois de ver o seu poder de deitar abaixo um primeiro-ministro do PS, talvez não se queira ficar por aí e, pelo menos, ameaçará o próximo PM de ter um fim parecido com o de Sócrates.

É evidente que a este cenário político temos que somar o cenário económico. É legítimo esperar que o PEC a apresentar proximamente seja mais uma decepção, quer no lirismo do cenário macroeconómico, quer pela ausência de medidas concretas de consolidação orçamental. Os mercados não perdoarão e farão de novo pressão sobre o cenário político. Teme-se o pior, até pela falta de racionalidade que se tem visto por todos os lados.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Nada corre bem

Depois de dois trimestres a crescer 0,6%, eis que no 4º trimestre a economia portuguesa estagna (0% em termos trimestrais). É certo que na zona do euro o sentido da evolução é semelhante, embora a desaceleração seja muito mais suave (de 0,4% para 0,1%).

Os adeptos do copo meio cheio podem dar-se felizes pelo facto de em termos homólogos estarmos melhor que a Europa, mas temo que estes dados sejam o prenúncio do que se espera: tal como Portugal não sofreu tanto com a crise como a Europa, também não vai beneficiar tanto como esta da recuperação. O nosso grave problema de falta de competitividade será o travão que impedirá este efeito.

Mas nós temos dois outros problemas domésticos que ameaçam a recuperação. Por um lado, desde finais do ano passado que a confiança de consumidores e empresários interrompeu a trajectória de recuperação e deverá constituir um obstáculo. Poder-se-á discutir a razão desta evolução da confiança, mas julgo que ela resulta da grande confusão política, inicialmente devido a uma dramatização encenada pelo governo e agora devido a problemas bem reais de credibilidade do PM.

Por outro lado, a muito recente e forte subida dos spreads ainda não começou a surtir os seus efeitos, mas não tarda que eles se manifestem. Os bancos vão ver a sua rentabilidade ameaçada e serão forçados, quer a subir as taxas de juro às empresas, quer a apertar as condições de concessão de empréstimo às empresas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ajuda por interesse

Embora ainda não haja decisões concretas, a Alemanha prepara-se para ajudar a Grécia, movida por interesse próprio. É evidente que é mais bonito quando a ajuda é desinteressada, mas uma ajuda por interesse é mais provável que seja maior e mais eficaz. Uma pequena ajuda à Grécia serviria de pouco.

Germany is worried that any flight out of Greek assets, especially government bonds, could hit its banks and those in other eurozone countries.

http://www.ft.com/cms/s/0/83de2cae-15a9-11df-ad7e-00144feab49a.html?nclick_check=1

Mas se a ajuda é do interesse da Alemanha, também é do interesse deste país que a ajuda seja claramente condicional. Poderá haver um excesso “especulativo” nas dificuldades da Grécia, mas é evidente que há problemas objectivos – de vária ordem – quer nas contas públicas quer nas contas externas helénicas. Por isso, é óbvio que a Alemanha terá que exigir que os problemas objectivos sejam atacados e as condições devem ser suficientemente duras para não se tornar apetecível para mais nenhum país deixar as coisas degradarem-se até ficar em condições de ser ajudado pelos germânicos.

Acham-nos parvos

Depois de uma subida eleitoralista de quase 5% dos salários reais no ano passado, os sindicatos querem agora mais aumentos extraordinários. Em que país viverão estes sindicatos que ainda não ouviram falar da crise das finanças públicas?

Não por acaso, os sindicalistas só são ultrapassados pelos políticos na má imagem que têm na população, como indicam sustentadamente os estudos de opinião.

Tal como Sócrates, estes sindicatos devem imaginar que os portugueses são parvos. Como se nós não percebecemos o disparate e a injustiça totais das suas reivindicações.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Machadada final

Circulam rumores de que Manuel Pinho poderá ser o novo governador do Banco de Portugal. Se assim for, essa será a machadada final na credibilidade do nosso banco central. Não só ele não tem competência técnica para o lugar, como seria governamentalizar de vez essa desgraçada instituição, que tanto tem sofrido às mãos de Constâncio.

http://www.ionline.pt/conteudo/45870-ja-chovem-nomes-suceder-constancio-no-banco-portugal

Espero que quer os antigos governadores se expressem contra esta degradação, quer o BCE.

Todos pela liberdade


Substituição

Em tempos normais já deveria haver socialistas sedentos de poder a posicionarem-se para ajudar à demissão de Sócrates, na mira de serem convidados para PM. Infelizmente, a tempestade que se avizinha não é muito convidativa para desejar substituir Sócrates. Até porque se imagina que a queda de Sócrates deverá levar a uma vassourada generalizada da corrupção.

Se, como eu desejo e julgo que se justifica, Sócrates acabe na prisão, muita coisa vai mudar neste país. A prisão de Sócrates irá fazer muito mais por este país do que mil leis anti-corrupção.

Milhares de pessoas estão hoje amordaçadas e poderão finalmente denunciar a corrupção a que assistem diariamente. Os próprios corruptos vão sentir que a sua impunidade acabou.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Uma dúvida

Se ontem nenhuma agência de rating se pronunciou, porque é que assistimos à maior subida do spread da dívida pública? Mas afinal os nossos problemas não decorrem exclusivamente de afirmações falsas e completamente interesseiras das agências de rating? Estou perplexo…

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Gato escondido…

Ainda há pouco tempo sugeri que o Banco de Portugal revelasse quais os bancos que se tinham revelado mais frágeis nos testes de stress realizados em parceria com o FMI. Recomendei então que esses bancos deveriam ser obrigados a realizar aumentos de capital. Pois não foi preciso esperar muito até ver uma recomendação mais clara:

“JPMorgan: BCP pode ter de aumentar capital”

http://economico.sapo.pt/noticias/jpmorgan-bcp-pode-ter-de-aumentar-capital_80613.html

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fraca elite

Ricardo Salgado não está em boa maré. Há pouco tempo elogiava os grandes projectos públicos, provavelmente na expectativa de ganhar algumas comissões de financiamento, mas ignorando as consequências de médio prazo do nosso endividamento externo sobre a solvabilidade da nossa banca.

Agora vem gritar contra as agências de rating, um exercício inexplicável.

“A pior das considerações que foi feita sobre a economia portuguesa foi a de que Portugal é um país que pode estar num processo de morte lenta. É inqualificável”, insurge-se Ricardo Salgado.

O número um do BES admite, porém, que as agências de “rating” tiram estas conclusões porque “nem o Estado, nem os grupos portugueses conseguiram expressar a essas agências que Portugal é viável e que pode voltar a crescer mais depressa. É um problema de estratégia”.

Mas há um erro que não lhes perdoa: “Confundem as realidades dos países”. “Portugal e a Grécia estão em dois extremos da Europa e as afinidades que existem entre as duas economias são nulas. Porque raio é que eles [as agências de ‘rating'] dizem que a Grécia e Portugal são a mesmo coisa, porque é que consideram que as nossas economias estão interligadas ao ponto de nos quererem explicar que o problema grego é idêntico ao português? E não é”, protesta.

O risco de Portugal estar a caminhar para uma “morte lenta” tem sido, porém, referido há longa data por economistas portugueses: Hernâni [sic] Lopes diz que o país está a “definhar” e Vítor Bento que Portugal se deixou cair há uma década na “armadilha do empobrecimento relativo”.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=407593

O próprio artigo do Jornal de Negócios já explica que a ideia de “morte lenta” já cá estava há muito tempo, só a metáfora é que é novidade.

Mas dizer “Portugal e a Grécia estão em dois extremos da Europa e as afinidades que existem entre as duas economias são nulas.” é chocante. O que é que a distância geográfica tem a ver com ter ou não afinidades nos problemas estruturais? Temos afinidades nos problemas, mas as agências de rating também não dizem que Grécia e Portugal são a mesma coisa. Que eu saiba os ratings dos dois países continuam a ser muito diferentes. Mas se a nossa – fraca – elite continua a achar que a única coisa que temos que fazer é gritar contra o mensageiro, então podemos aproximarmo-nos cada vez mais da Grécia.