quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Gato escondido…

Ainda há pouco tempo sugeri que o Banco de Portugal revelasse quais os bancos que se tinham revelado mais frágeis nos testes de stress realizados em parceria com o FMI. Recomendei então que esses bancos deveriam ser obrigados a realizar aumentos de capital. Pois não foi preciso esperar muito até ver uma recomendação mais clara:

“JPMorgan: BCP pode ter de aumentar capital”

http://economico.sapo.pt/noticias/jpmorgan-bcp-pode-ter-de-aumentar-capital_80613.html

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fraca elite

Ricardo Salgado não está em boa maré. Há pouco tempo elogiava os grandes projectos públicos, provavelmente na expectativa de ganhar algumas comissões de financiamento, mas ignorando as consequências de médio prazo do nosso endividamento externo sobre a solvabilidade da nossa banca.

Agora vem gritar contra as agências de rating, um exercício inexplicável.

“A pior das considerações que foi feita sobre a economia portuguesa foi a de que Portugal é um país que pode estar num processo de morte lenta. É inqualificável”, insurge-se Ricardo Salgado.

O número um do BES admite, porém, que as agências de “rating” tiram estas conclusões porque “nem o Estado, nem os grupos portugueses conseguiram expressar a essas agências que Portugal é viável e que pode voltar a crescer mais depressa. É um problema de estratégia”.

Mas há um erro que não lhes perdoa: “Confundem as realidades dos países”. “Portugal e a Grécia estão em dois extremos da Europa e as afinidades que existem entre as duas economias são nulas. Porque raio é que eles [as agências de ‘rating'] dizem que a Grécia e Portugal são a mesmo coisa, porque é que consideram que as nossas economias estão interligadas ao ponto de nos quererem explicar que o problema grego é idêntico ao português? E não é”, protesta.

O risco de Portugal estar a caminhar para uma “morte lenta” tem sido, porém, referido há longa data por economistas portugueses: Hernâni [sic] Lopes diz que o país está a “definhar” e Vítor Bento que Portugal se deixou cair há uma década na “armadilha do empobrecimento relativo”.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=407593

O próprio artigo do Jornal de Negócios já explica que a ideia de “morte lenta” já cá estava há muito tempo, só a metáfora é que é novidade.

Mas dizer “Portugal e a Grécia estão em dois extremos da Europa e as afinidades que existem entre as duas economias são nulas.” é chocante. O que é que a distância geográfica tem a ver com ter ou não afinidades nos problemas estruturais? Temos afinidades nos problemas, mas as agências de rating também não dizem que Grécia e Portugal são a mesma coisa. Que eu saiba os ratings dos dois países continuam a ser muito diferentes. Mas se a nossa – fraca – elite continua a achar que a única coisa que temos que fazer é gritar contra o mensageiro, então podemos aproximarmo-nos cada vez mais da Grécia.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Perda de tempo

O PM grego e o ministro das finanças português estão muito zangados com a reacção dos mercados à sua situação orçamental e à sua incapacidade de apresentar planos convincentes de redução do défice público.

http://www.ft.com/cms/s/0/222f40fc-0c20-11df-8b81-00144feabdc0.html

A argumentação do PM grego é patética, paranóica, diz que está a ser perseguido pelos que nunca gostaram do euro.

Já o nosso ministro das Finanças vira-se contra as agências de rating:

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=407247

É evidente que esta conversa ridícula se destina a consumo político interno. Haverá algum investidor internacional que altere a sua profunda desconfiança sobre as contas públicas destes dois países com base nas baboseiras que estes políticos disseram? E se em vez de perderem tempo com conversas da treta, fossem mas é trabalhar para produzir resultados a sério?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mais um BPN?

O meu artigo deste mês no Jornal de Negócios, sobre os problemas da banca nacional, partindo dos dados e análise do último relatório do FMI.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=406919

Mas que surpesa!

Imaginem lá que a Fitch está a preparar o caminho para baixar o rating da República! Quem poderia imaginar uma tal reacção face ao “maravilhoso” orçamento que o governo apresentou?

http://economico.sapo.pt/noticias/ficth-ameaca-cortar-rating-de-portugal_79931.html

Cenário macro menos delirante

O governo ainda não colocou em linha o relatório do orçamento para 2010, mas o cenário macroeconómico está disponível nas GOP. Para este ano o governo prevê um crescimento de 0,7%, em linha com as previsões do Banco de Portugal, embora com algumas diferenças a nível das suas componentes. Enquanto o banco central não confiava na redução do consumo público, o governo “promete” uma redução de 0,9%.

O cenário do governo também é mais “virtuoso”, ao estimar uma menor queda no investimento e um maior crescimento nas exportações do que o Banco de Portugal.

Este cenário é globalmente menos delirante do que o cenário inicial do orçamento do ano passado, mas tinha que manter uma certa dose de fantasia, ainda e sempre na estimativa para o desemprego, que o governo estima que suba para apenas 9,8%. Esta previsão é impossível de se concretizar e incoerente com a perspectiva de crescimento do próprio governo. De acordo com o INE, o desemprego já atingiu esse mesmo valor no 3º trimestre de 2009. Segundo o Eurostat, já ultrapassou os 10% entretanto. Com a economia anémica é evidente que o desemprego vai continuar a subir ao longo de 2010, sendo impossível de se fixar no valor “previsto” pelo governo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O pior sinal

Se o governo não conseguir ou não quiser congelar os salários da função pública em termos nominais estará a enviar aos mercados o pior sinal. Os investidores percebem muito bem que a maior dificuldade em controlar as contas públicas é política e, de maneira nenhuma, um problema técnico.

Se o governo não congelar os salários isso será uma fortíssima indicação de fragilidade política, destruindo por completo a credibilidade de qualquer programa de consolidação orçamental. Se o governo não consegue o mínimo no início da legislatura, como conseguirá fazer aprovar as medidas que doem a sério?

Más notícias

As notícias preliminares sobre o orçamento são muito negativas. Em vez de congelar os salários da função depois do aumento eleitoralista do ano passado, parece que o governo vai apenas mantê-los em termos reais. Segundo o Jornal de Negócios, as transferências para as autarquias vão aumentar 20%(!). De contenção só se ouve falar em diminuição do investimento público, o que não é uma medida de redução sustentada do défice, e alguma contenção no número de funcionários.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=406473

Quanto à redução do défice para 2010, parece não haver. Fala-se num défice de 8,3% para este ano, acima das últimas estimativas para o défice de 2009.

Parece que o governo não levou a sério os receios dos investidores de continuarem a aplicar o seu precioso dinheiro em dívida pública portuguesa. Preparem-se para uma péssima recepção pelos mercados…

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tenham muito medo

Mário Nogueira escreve hoje no Público que este “foi o mais importante acordo alcançado pelos professores nos últimos 20 anos”. Esta é a pior notícia orçamental dos últimos tempos.

Diz também que só foi possível “devido à sua tremenda luta”. Engana-se: só foi possível graças a doses cavalares de cobardia e irresponsabilidade do PS e PSD. O envolvimento do PSD neste caso, para contribuir para este resultado, é do piorio.

Ágora, um filme sem Deus

Muitos ateus que se apercebem que em muitas religiões se “venera” um deus criado (na verdade, distorcido) pelos homens, julgam que o divino se esgota aí. É verdade que muitas religiões são os piores embaixadores de Deus, mas o que quer que os homens façam, mesmo em nome de deus, não põe em causa o Deus Divino.

O filme Ágora, passado em Alexandria no século IV, relata um conjunto de guerras religiosas, primeiro entre pagãos e cristãos, depois entre estes e os judeus. É descrito um fundamentalismo cristão ao serviço do poder terreno e a guerra praticamente não é ideológica, é mesmo de espada. É introduzido mesmo um conceito de cristão novo, conceito este também ao serviço do poder.

A Palavra Revelada é distorcida para servir o deus dos homens, ao serviço do desejo egoico de poder. Em nenhuma das três religiões representadas há matizes, em nenhuma surge algum representante mais próximo do verdadeiro divino, que pusesse em causa o estilo dominante da sua própria religião. Todas as religiões são mal tratadas, mas o cristianismo é descrito como exibindo uma crueldade gratuita.

Só se “salva” a filósofa Hypatia, agnóstica, que representa a liberdade, embora quase sem vida afectiva.

Não tenho competência para o avaliar como filme nem em termos históricos mas, em termos ideológicos, não gostei. É um filme sobre o deus dos homens, em que o Deus Divino é o grande ausente.

Como nota final, considero que a utilização de actores muito novos para representar personagens mais velhas não resulta nada bem.