segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Coragem

No meio de muito eleitoralismo e cobardia, cumpre destacar a coragem de Passos Coelho em defender o congelamento de salários na função pública e das prestações sociais em geral.

http://economico.sapo.pt/noticias/passos-coelho-quer-salarios-congelados-na-funcao-publica_78404.html

Ainda não se percebeu qual é o tipo de acordo que a actual direcção do PSD pretende fazer com o PS em termos orçamentais, mas temo que não sirva os interesses do país.

É incrível o delírio e a hipocrisia de Sócrates de dizer que o défice e a dívida ainda não são a prioridade, mas sim o combate à crise. É delirante porque os mercados financeiros estão muito preocupados com a sustentabilidade das finanças públicas e Portugal não se pode dar ao luxo de os desapontar. É hipócrita porque o minúsculo pacote de 2009 de combate à crise foi executado em pouco mais de metade e a más horas, até porque o descalabro orçamental que vinha de trás não permitia mais.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Martin Wolf, de novo

O importante artigo de Martin Wolf tem tido uma interessante discussão.

Gostaria de fazer algumas distinções sobre os países alvo do artigo. A Irlanda tem um complicado problema orçamental, mas não tem um problema de contas externas. Quer a OCDE quer a CE prevêem (ambas as previsões de Novembro último) que em 2011 o défice externo irlandês seja muito baixo (respectivamente, 0,6% e 1,5% do PIB). Nos próximos anos os custos unitários do trabalho vão cair, suportando a ideia de Martin Wolf de que a Irlanda já está a fazer a desinflação competitiva. Mas parece que a “dor” não será muito e os resultados serão alcançados rapidamente.

A Itália não sofreu uma tão grande deterioração das contas públicas (défice de 5,3% em 2009) e as suas contas externas também não se degradaram muito: o maior défice dos últimos anos foi de 3,4% em 2008. Este défice em si mesmo é pouco preocupante e deverá reduzir-se nos próximos anos. A desinflação competitiva necessária é aqui modesta e poderá processar-se sem conflitos de maior.

A Espanha sofreu um surto de deterioração das contas externas como o pico em 2007 (défice externo de 10% do PIB), estando já em nítida correcção, que deverá prosseguir, devendo chegar a 2011 com um défice de apenas 3% (OCDE). Os nossos vizinhos conseguiram a proeza de realizar uma parte importante da correcção durante a crise internacional e tudo indica que o restante ocorrerá sem sobressaltos de maior.

Já Portugal e a Grécia estão noutro campeonato. Ambos tiveram uma forte deterioração das contas públicas (mais grave na Grécia) que deverá manter défices muito elevados, caso não sejam aplicadas medidas vigorosas de correcção. Mas é no campo externo que se destacam mais. Portugal mantém um défice externo elevadíssimo desde 1999 que se deverá manter praticamente intacto até 2011 (data limite das previsões). Na verdade, como não houve correcção até aqui, o cenário “business as usual” é a manutenção desde défice elevadíssimo, embora pareça que o cenário “business as usual” é cada vez menos provável.

A Grécia também tem um défice externo muito teimoso (e que também se deverá manter intacto), embora os problemas sejam mais recentes: só em 2006 é que ultrapassou os 10% do PIB.

Portugal e Grécia estão numa situação de “venha o diabo e escolha”. O défice externo grego é mais elevado do que o português, mas a nossa dívida externa está numa trajectória muito mais perigosa. Entre 2006 a dívida externa grega caiu de 85% para 75% do PIB, enquanto a nossa subiu de 81% para 97% do PIB.

http://www.bankofgreece.gr/BogEkdoseis/sdos200910.pdf

O artigo de Martin Wolf é, assim, sobretudo dedicado a Portugal e Grécia.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Confiança em queda

Ao contrário do que se passa na UE (falta o valor de Dezembro), a confiança dos consumidores em Portugal está em queda e em queda acentuada (os valores em média móvel ainda não espelham este efeito). Porquê? Estas tentativas de explicação são sempre um pouco debatíveis, mas parece que as razões deverão encontrar-se mais na política do que na economia.

Do lado da economia, as perspectivas têm vindo a melhorar, esperando-se de uma recuperação, embora tímida e incapaz de suster a subida do desemprego. Do lado político, temos o governo e a oposição a portarem-se como se ainda estivessem em campanha eleitoral. Ou, melhor dizendo, já em nova campanha eleitoral, a prepararem-se para eleições antecipadas que, ainda por cima, nenhum dos partidos deseja. A mensagem que passa para os eleitores é a de um país paralisado, sem um governo capaz e sem uma alternativa capaz.

Usando as palavras de Miguel Gaspar, ao governo não cabe apenas a missão de tentar governar, cabe a missão de conseguir governar. O governo é, em última análise, responsável por encontrar as soluções governativas para os problemas do país, que não são poucos. Uma coisa é certa: os portugueses não estão a gostar nada do que se está a passar.

O governo pode tentar refugiar-se no papel de vítima mas, pergunto eu, para que serve votar num governo que é vitima das circunstâncias externas e não é capaz de as influenciar?

Entre a asneira e o egoísmo

“A Comissão Europeia (CE), liderada por Durão Barroso, vai recorrer ao Tribunal de Justiça Europeu da decisão dos Estados-membros de cortar para metade os aumentos salariais dos funcionários das várias instituições. A legislação comunitária dita que o aumento anual do ordenado dos cerca de 45 mil trabalhadores é de 3,7%, mas o Conselho dos 27 decidiu em 2010 não ir para além dos 1,85%, por causa da crise económica.

“Confrontado com o conflito entre a CE e os Estados-membros, o eurodeputado do PS, Capoulas Santos, foi peremptório: "Nestas questões, deve prevalecer sempre aquilo que está previsto na lei, independentemente de quaisquer imprevistos, nomeadamente se a inflação aumentou ou diminuiu." Também o eurodeputado social-democrata Mário David é da opinião de que "a Comissão Europeia está apenas a cumprir aquela que é uma das suas competências", ou seja, "ser guardiã dos tratados".”

http://www.correiodamanha.pt/Noticia.aspx?channelid=00000090-0000-0000-0000-000000000090&contentid=404C257C-1890-4D4F-8734-77E6D9B04EE3&h=2

A Europa está longe dos cidadãos e é mal querida? Pois bem, aumente-se a impopularidade. Enquanto a Comissão Europeia vai exigindo um forte aperto orçamental num prazo muito curto aos estados-membros, atribui-se a si própria (e aos seus) aumentos escandalosos sobre salários de base já principescos. É evidente que isto não é apenas um erro político, deriva também de um dose muito “generosa” de egoísmo.

A argumentação dos eurodeputados portugueses então é maravilhosa: a gestão da coisa pública deve ser imune a imprevistos tão insignificantes como a maior crise económica e financeira dos últimos 80 anos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

sábado, 26 de dezembro de 2009

Da incapacidade de aprender

Pela n-ésima vez, Sócrates adopta um discurso “optimista”. “Prevê” uma melhoria do emprego em 2010. Tendo em atenção que as ultimas previsões (de Novembro) da CE e OCDE prevêem ainda uma queda do emprego em 2010 (e a previsão da CE até já está desactualizada), por alma de quem é que devemos levar a sério as palavras do PM?

Depois de tanto tempo a descredibilizar as suas próprias previsões, não seria conveniente que o governo não viesse a reincidir no erro?

domingo, 13 de dezembro de 2009

Em alta velocidade para o abismo

Parecia que o ministro das Finanças tinha percebido a mensagem vinda dos problemas gregos. Afinal, ou ele não tem poder no governo, ou não percebeu.

Como é que um país com um grave problema orçamental embarca no disparate do TGV, que nos vai agravar o endividamento externo, agravar a competitividade e colocar uma canga permanente sobre as contas públicas, com os seus elevados e persistentes défices de exploração?

Quanto às afirmações do novo ministro das Obras Públicas de que o TGV nos vai ajudar a sair da crise, são más de mais. Um projecto que começa depois do fim da crise, com uma forte componente importada e que vai deixar um peso duplo de décadas sobre as contas públicas (os juros do investimento e os défices de exploração) será tudo menos de resposta á crise.

Queremos mesmo ultrapassar a Grécia e sermos o primeiro país do euro em bancarrota?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

S&P prepara descida de rating

Este filme está muito repetitivo. As agências de rating explicitam os problemas portugueses, já aqui tanto referidos, e o ministro das Finanças finge que responde às questões das agências.

Alguém que avise o ministro que estas agências não vão lá com meia dúzia de baboseiras que poderão, talvez, enganar o português médio.

Jornalismo de “colidade”

O Público de hoje tem o seguinte título de capa: “Défice da CP dava para pagar TGV até Elvas e nova ponte sobre o Tejo”. Duas asneiras num só título.

Em primeiro lugar não é de défice que estão a falar, mas sim de dívida, grosso modo, o conjunto de défices acumulados dos últimos anos.

Em segundo lugar, a pretensão de pagar uma obra com dívidas já contraídas. Este sim, é um conceito extraordinário. Da próxima vez que comprar um carro, em vez de pagar em dinheiro, pago com a minha dívida ao banco. Não podia haver melhor negócio. Não só não pago nada como ainda vejo a minha dívida ao banco diminuído no valor do preço do automóvel. O ministro das Finanças deve contratar imediatamente o génio financeiro que inventou este novo conceito.

Na verdade, o texto da notícia diz: “O défice da CP, a transportadora ferroviária pública de Portugal, é actualmente de 3,1 mil milhões de euros, verba equivalente à que vai custar a linha de TGV entre Lisboa e Elvas, com a terceira travessia do Tejo incluída.”

Ou seja, ainda tem a primeira asneira, mas não a segunda, que tem certamente a mão do editor que, em vez filtrar o texto do jornalista, o “tabloidiza”.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Há gente muito esperta

O deputado Ricardo Rodrigues, do PS, veio acusar Manuela Ferreira Leite de já saber das escutas sobre Sócrates em Junho deste ano, quando acusou o PM de estar a mentir ao dizer que nada sabia sobre o negócio da TVI.

Mas a argumentação de Manuela Ferreira Leite foi “não é possível não saber de nada um Governo que tem uma golden share”. Ou seja, ela afirmou o que afirmou, não porque tivesse conhecimento de factos, mas porque deduziu – através de um raciocínio lógico – que as afirmações do PM não faziam sentido. Talvez o deputado do PS não esteja muito familiarizado com “raciocínio”.

Mas a maior ironia (e onde a esperteza descamba) é que ao afirmar que Manuela Ferreira Leite conhecia as escutas, o deputado do PS implicitamente está a validar o conteúdo das escutas, que ainda hoje não são públicas. Usando, de novo, o raciocínio, é impossível que a argumentação de Ricardo Rodrigues não tenha sido coordenada com José Sócrates que, esse sim, sabe muito bem o conteúdo das escutas.