sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Velhos do Restelo?

Vasco Pulido Valente critica hoje Sócrates, quando este chama “velhos do Restelo” aos seus críticos.

Na verdade, estes velhos do Restelo é que defendem alterações significativas na nossa vidinha. Medina Carreira defende uma transformação profunda do Estado, Êrnani Lopes defende a aposta no hipercluster do mar, etc, etc.

Mas alguém vê Sócrates como Vasco da Gama? Sócrates, na melhor das hipóteses leva-nos a uma excursão às Berlengas e, na pior e mais provável das hipóteses, está a levar-nos em direcção ao triângulo das Bermudas, onde nos afundaremos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Perversidades estatísticas

O governo pretende alargar o acesso ao subsídio de desemprego, respondendo tardiamente aos anseios da oposição e de vários parceiros sociais.

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=394727

No entanto, não é inteiramente certo que o governo esteja consciente das consequências desta medida sobre as estatísticas do desemprego. Para se estar incluído nas estatísticas do desemprego é necessário ter estado activamente à procura de emprego. Mas quando já se está desempregado há muito tempo e já não se tem direito a nenhuma prestação social, muitos desempregados deixam de estar activamente à procura de emprego embora permaneçam sem emprego. Para as estatísticas oficiais deixam de estar desempregados.

Com uma maior generosidade no subsídio de desemprego, menos pessoas vão sair das estatísticas, há menos desencorajados, ou seja, o desemprego oficial vai aumentar com esta medida. Esta questão é particularmente relevante em termos políticos para 2011. Segundo a Comissão Europeia o desemprego deverá começar a cair em meados de 2011, uma previsão que me parece optimista. Mas com esta medida o governo deverá adiar o pico do desemprego oficial e poderá ser apanhado ainda com o desemprego a subir, quando a AR for previsivelmente dissolvida dentro de dois anos.

Se o governo tivesse dois dedos de testa, começava já a falar neste fenómeno, para depois não ser apanhado na curva. Mas não me parece que tenha.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Renovar o PSD

O meu artigo deste mês no Jornal de Negócios:

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS_OPINION&id=394465

Bravo!

Demorou menos tempo do que eu esperava. No BCP lá perceberam que a manutenção de Armando Vara da administração era um erro que lhes ia custar caríssimo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De volta ao fundo da tabela

Para 2011 a CE prevê que Portugal apenas cresça 1,0%, muito abaixo dos 1,6% previstos para a UE. A divergência estrutural segue dentro de momentos, com Portugal de volta ao fundo a tabela do crescimento, conseguindo o penúltimo lugar em 2011, ex-aequo com Espanha e apenas à frente da Grécia.

A CE prevê uma ligeira queda da taxa de desemprego em 2011, apesar de prever que o emprego só deverá crescer uma décima nesse ano, o que é um pouco estranho. O défice externo deverá manter-se intacto acima dos 10% do PIB, continuando a dívida externa a sua trajectória explosiva.

O défice público deverá manter-se sempre acima dos 8% do PIB (segundo a hipótese comum de manutenção das actuais políticas), muito acima da média da zona do euro, tal como sucede com a dívida pública. Como é óbvio, as actuais políticas não se podem manter, mas já é menos óbvio como é que um governo minoritário encontrará o caminho para aplicar os cortes orçamentais necessários.

Ridículo

O ministro das Finanças, em resposta à revisão em alta das previsões da Comissão Europeia, diz que as medidas anti-crise estão a surtir efeito. Como é que é? Portugal tinha um dos mais pequenos pacotes de ajuda anti-crise, e até Setembro ainda só tinha sido gasto 42% do pacote e as medidas estão a surtir efeito?

A CE prevê que Portugal já cresça 0,3% em 2010, mas a procura interna terá ainda uma contribuição negativa de 0,2% para o PIB, sendo o crescimento fruto exclusivo do contributo das exportações líquidas. O que o ministro pretende dizer é que o pacote português teve uma impacto tão forte na Alemanha, França e outros países, que eles desataram a comprar exportações portuguesas?

Entretanto, para grande surpresa nossa (pois, pois), o ministro já vem dizer que afinal o défice de 2009 não vai ser os 5,9% apregoados e que há tão pouco tempo não fazia sentido nenhum rever.

Não aprendem?

Parece que, numa leitura estrita da lei, o Banco de Portugal não pode impedir a continuação de Armando Vara na administração do BCP. Não acredito que não haja uma norma geral que exija uma boa reputação aos membros do conselho de administração.

Mas há ainda a chamada moral persuasion, em que o governador do Banco de Portugal tem uma “conversinha” com a administração do BCP e eventualmente com os maiores accionistas: “Ó meus caros amigos, vocês não têm consciência da péssima imagem para o banco e para os seus negócios que é passarmos os próximos meses a ler notícias nos jornais que o Armando Vara isto e aquilo? Mesmo que ele não esteja directamente envolvido é o caso onde ele está envolvido. Arranjem-lhe lá uma sabaticazinha, ir tirar um MBA nos EUA ou qualquer coisa do género.”

Mas, como estamos em Portugal, já se sabe que isto só vai acontecer muito tempo depois de muitos estragos já terem ocorrido, em vez de se cortar o mal pela raiz. Esperemos que o mercado accionista saiba dar um sinal atempado à administração do BCP sobre o que fazer. Os accionistas estrangeiros devem estar loucos e a perguntar-se: “que país é este onde eu cometi o erro de investir?”

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Tangas

Teixeira dos Santos justificou a descida do outlook do rating da Moody’s com a “crise económica”, ou seja, continua a fingir que não percebe o que está em causa.

É óbvio que, como professor de economia, o ministro está farto de saber que um fraco potencial de crescimento tem um efeito muito negativo sobre a dinâmica das dívidas, pública e externa. E é isso que justifica a alteração na perspectiva de rating.

O problema da tanga do ministro é que a efectiva queda do rating deverá ocorrer quando a crise internacional já tiver passado. O que me consola na recondução do governo é que eles vão assistir a todo o destapar de carecas até ao descrédito total.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Rating com más perspectivas

A Moody’s acaba de mudar o outlook do nosso fraco rating (Aa2) de “estável” para “negativo”, porque a “Moody’s receia que o ténue crescimento pós-crise venha a traduzir-se numa adversa dinâmica da dívida de Portugal”.

Para Anthony Thomas, vice-presidente da divisão de dívida soberana da Moody’s, o “problema parece estar no facto de não haver motivação para agir por parte do governo”

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=393501

O problema começa em o governo nem sequer ter assumido que Portugal está em divergência estrutural com a UE, o que venho considerando como sendo o mais grave problema económico com que nos defrontamos. Se o governo não reconhece um problema porque carga de água há-de tomar medidas para o resolver?

Mas, ironicamente, a Moody’s acaba de criar uma motivação para o governo agir.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Não se percebe

“Cavaco Silva diz-se disposto a ajudar Sócrates a cumprir a legislatura até ao fim.” (capa do Público de hoje). Não se percebe porquê nem para quê.

Este PM, quer por ser minoritário, quer por ter um passado de conflitos (muitos dos quais gratuitos), vai ter uma extrema dificuldade em reformar. Pior ainda, em termos económicos, este PM está completamente inconsciente de alguns dos principais problemas do país (divergência estrutural com a UE, dívida externa galopante) e, por isso, propõe uma política económica que só os vai agravar.

Cada mês a mais deste governo no poder é um mês a mais que Portugal caminha para o abismo. Qual é o interesse em que este governo termine a legislatura?