sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Confiança dual

Acaba de sair o Reader’s Digest European Trusted Brands 2009 (não posso aferir da qualidade desta publicação, mas vou presumir que é razoável):

http://www.rdtrustedbrands.com/trusted-brands/

Os portugueses parecem ter uma confiança dual. Nos grupos profissionais em que a maioria dos europeus confia mais (tais como pilotos de avião, farmacêuticos, enfermeiros, médicos, professores, agricultores), os portugueses confiam mais que a média dos europeus.

Nos grupos em que os europeus confiam menos (tais como juízes, taxistas, advogados, agentes de viagens, conselheiros financeiros, sindicalistas, jogadores de futebol, vendedores de automóveis e políticos), os portugueses confiam menos que a média europeia, com a única excepção dos jornalistas. E a diferença nesta falta de confiança é superior do que a diferença (pela positiva) nos grupos em que confiam mais, fazendo com que, em média, os portugueses tenham menos confiança no conjunto das profissões do que a média europeia.

Em relação à ordenação, há poucas diferenças. Já referi a diferença pela positiva dos jornalistas, que detêm em Portugal a 12ª posição vs. a 16ª posição na Europa. Mas as mais impressionantes diferenças pela negativa registam-se nos juízes e advogados. Enquanto na Europa os juízes suscitam a confiança de 48% da população, em Portugal só 33% confia neles. A diferença em relação aos advogados ainda é maior: 43% na Europa e apenas 23% em Portugal.

A crise na justiça tem afectado drasticamente a confiança nos seus agentes. Se isto não é suficiente para perceber a urgência de reformas, não sei o que possa ser.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Martin Wolff muito desiludido com Obama

Martin Wolff publica hoje no Finantial Times mais um artigo muito pertinente, em que critica fortemente o novo plano de ajuda financeira de Obama.

http://www.ft.com/cms/s/0/9ebea1b8-f794-11dd-81f7-000077b07658.html

“it is extraordinary that a popular new president, confronting a once-in-80-years’ economic crisis, has let Congress shape the outcome.”

All along two contrasting views have been held on what ails the financial system. The first is that this is essentially a panic. The second is that this is a problem of insolvency.”

“Under the first view, the prices of a defined set of “toxic assets” have been driven below their long-run value and in some cases have become impossible to sell. The solution, many suggest, is for governments to make a market, buy assets or insure banks against losses. This was the rationale for the original Tarp and the “super-SIV (special investment vehicle)” proposed by Henry (Hank) Paulson, the previous Treasury secretary, in 2007.

“Under the second view, a sizeable proportion of financial institutions are insolvent: their assets are, under plausible assumptions, worth less than their liabilities. The International Monetary Fund argues that potential losses on US-originated credit assets alone are now $2,200bn (€1,700bn, £1,500bn), up from $1,400bn just last October. This is almost identical to the latest estimates from Goldman Sachs. In recent comments to the Financial Times, Nouriel Roubini of RGE Monitor and the Stern School of New York University estimates peak losses on US-generated assets at $3,600bn. Fortunately for the US, half of these losses will fall abroad. But, the rest of the world will strike back: as the world economy implodes, huge losses abroad – on sovereign, housing and corporate debt – will surely fall on US institutions, with dire effects.

Personally, I have little doubt that the second view is correct and, as the world economy deteriorates, will become ever more so. But this is not the heart of the matter. That is whether, in the presence of such uncertainty, it can be right to base policy on hoping for the best. The answer is clear: rational policymakers must assume the worst. If this proved pessimistic, they would end up with an over-capitalised financial system. If the optimistic choice turned out to be wrong, they would have zombie banks and a discredited government. This choice is surely a “no brainer”.

Um dado impressionante é que a capitalização bolsista do sector bancário caiu de cerca de 1400 bn de dólares para cerca de 400 bn nas últimas semanas. Entretanto, o montante de ajudas públicas foi de 380 bn de dólares. Ou seja, o valor actual dos bancos sem ajudas públicas seria praticamente nulo.

Já havia uma forte desilusão sobre o plano americano de recuperação económica. Mas se o plano financeiro não resolver o problema, é como se voltássemos ao princípio. Nova deterioração financeira, leva a nova deterioração económica. Se o plano económico era fraco, ainda mais insuficiente ficaria com deterioração económica. Parece que não se aprenderam as lições da Grande Depressão.

Falta de ética

Um dos traços mais impressionantes da crise financeira é a quantidade de casos de falta de ética que foram expostos. Espera-se que uma das transformações que saia da crise seja justamente uma revalorização da ética nos negócios como chave para o sucesso.

Os novos tempos que deverão revalorizar a ética também deverão valorizar os políticos com uma ética forte e penalizar os políticos pouco sérios.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A falar para quem?

O ministro das Finanças, cuja credibilidade tem vindo a cair aos trambolhões, saiu-se agora com mais uma maravilhosa pérola, que “o Estado não gastou nem envolveu dinheiro dos contribuintes” no BPN e no BPP.

http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1364106

O ministro julga que está a falar unicamente para analfabetos financeiros? Mesmo que 99% dos portugueses não percebam tecnicamente o erro, a muitos lhes cheira que isto não pode ser assim. Mas há depois os especialistas, que irão desmontar a patranha ridícula do ministro. Se, numa óptica de caixa, ainda não saiu um euro da tesouraria do Estado, numa óptica de responsabilidades (a que verdadeiramente interessa), é óbvio que o contribuinte já tem uma pesadíssima factura às costas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Incentivos errados

De acordo com notícia do Público de hoje, p. 28: “Os responsáveis do Ministério da Justiça preparam-se para pôr a Segurança Social a pagar os salários dos trabalhadores ilicitamente despedidos cujos processos judiciais demorem mais de um ano nos tribunais.”

É muito curiosa esta ideia de colocar a Segurança Social (SS) a pagar pelos atrasos na Justiça.

“O projecto determina que quem pagará a contribuição pública será o Fundo de Garantia Salarial.

“Este fundo foi criado por transposição de directiva comunitária e visa garantir os créditos dos trabalhadores quando os salários ‘não possam ser pagos pelo empregador por motivo de insolvência ou de situação económica difícil’. É financiado por parte da contribuição patronal para a Segurança Social e é gerido pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social.”

O jornalista João Ramos de Almeida, tendo emprenhado de ouvido dos comentários dos sindicalistas, conclui: “É dinheiro dos trabalhadores.”

“A CGTP considera ser injusto que o Fundo, que não paga os salários em atraso dos trabalhadores (apenas em caso de insolvência das empresas), vá pagar as retribuições decorrentes de um despedimento ilícito, que deveriam ser pagas pelas empresas. ‘Qual é a lógica de uma medida como esta?’, questiona Joaquim Dionísio. ‘Primeiro, é uma promoção do despedimento ilícito, do patronato que viola a lei, e em segundo lugar é uma injustiça.’ “

Sem entrar na discussão bizantina sobre o que é o “dinheiro dos trabalhadores”, concordo que estes pagamentos pelos atrasos na Justiça nunca deveriam vir das contribuições para a SS, mas antes de transferências do Estado. Mas, responsabilizando-se o Estado por estes pagamentos, não é nada indiferente quem paga. Há aqui um óbvio problema de incentivos. Se a Justiça não sofre em nada com os seus atrasos, antes os exporta para a SS, que incentivos é que Justiça tem para ser célere? Nenhuns, obviamente.

Conclui-se assim que quem deve pagar pelos atrasos na Justiça é a própria Justiça. Mas, como a Justiça vive sobretudo de transferências do Estado, o incentivo poderia não ser muito forte. Um incentivo muitíssimo mais forte para a celeridade, seria se os pagamentos pelos atrasos viessem directamente do fundo de pensões da Justiça e o Estado não assumisse qualquer responsabilidade por buracos no fundo (senão furava-se o esquema). Assim, estes pagamentos pelos atrasos traduzir-se-iam directamente em redução dos complementos de reforma na Justiça. Querem incentivo mais revolucionário? Conseguem imaginar a transformação radical que isto introduziria na Justiça?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Nacionalização irresponsável

O governo nacionalizou de forma atabalhoada o BPN, o que se veio a revelar uma decisão caríssima. Neste momento, as perdas detectadas no banco já atingem os 1800 milhões de euros. Como o banco foi nacionalizado, isso significa que os contribuintes vão ter que pagar este buraco. Se o banco não tivesse sido nacionalizado, mas simplesmente deixado ir à falência, os contribuintes só teriam que pagar os depósitos garantidos e, mesmo esses, o Fundo de Garantia dos Depósitos pagaria uma parte substancial. Como este Fundo vive das contribuições dos bancos, poder-se-ia dizer que eram os bancos que pagariam a garantia dos depósitos. Assim, quem paga são os contribuintes.

O grande problema foi que o Estado interveio, em vez de esperar por um pedido dos accionistas para o fazer. Havia inclusive accionistas que estavam dispostos a injectar liquidez no banco, o que seria uma forma de se responsabilizarem pelas perdas entretanto detectadas. Assim 100% da factura fica para os contribuintes.
A incompetência da supervisão do Banco de Portugal no BPN ia-nos sair cara, mas o governo, com a sua gestão desajeitada do problema, ainda agravou mais a factura.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Altamente recomendado

“Portugal como ‘grande autarquia’ ” do João Miranda no Blasfémias.

Confusões

A Serious Fraud Office do Reino Unido, que está a investigar o caso Freeport, foi também ela investigada.

“Dezenas de funcionários do Serious Fraud Office (SFO), a agência britânica que está a investigar o processo de licenciamento do Freeport de Alcochete, receberam propostas de dispensa antecipada depois de divulgado um relatório que conclui que o seu trabalho está a ser subvertido por ‘alegado favorecimento pessoal e incompetência’, noticiou ontem o jornal britânico Sunday Times.”

“Em resposta no site do Serious Fraud Office, o director da agência desde Abril de 2008, Richard Alderman, garante que tem havido ‘mudanças’ e que o SFO trabalha agora ‘muito mais rápida e eficazmente’, apresentando, indica, um índice de condenação de 80 por cento.” (Público de hoje, p. 6).

Há para aí umas almas que logo correram a dizer que se concluía que afinal o SFO não tinha credibilidade. Lamento discordar. Em primeiro lugar, o SFO é tão bom que tem mecanismos de correcção, que levam à dispensa de funcionários e à mudança de métodos. Acham sinceramente que, se não temos ninguém dispensado do ministério público e dos tribunais, isso significa que a qualidade ali é excelente? Ou será antes que todos os erros, omissões e outras questões que a prudência me impede de escrever correm completamente impunes?

Em segundo lugar, o SFO tem “um índice de condenação de 80 por cento.” Incompetentes? Seria interessante conhecer o índice de condenação do nosso ministério público, o índice de atrasos, o índice… etc.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

“Poderes ocultos”

Estamos muito interessados em saber que “poderes ocultos” levaram a que o estudo ambiental do Freeport fosse o mais rápido de sempre? Que “poderes ocultos” explicam isto:

“considero essencial comparar a declaração de impacte ambiental de Dezembro de 2001, que chumbou o projecto, com a declaração de impacte ambiental de Março de 2002, que o aprovou (não estão disponíveis no site da Agência Portuguesa do Ambiente). Pelo que noto nos resumos não técnicos, a única diferença substancial entre o projecto reprovado e o aprovado é a retirada de um hotel e health club, «coisas» sem importância em termos de carga, porquanto as expectativas iniciais era que o outlet tivesse 50 milhões de visitantes por ano (o que tornaria um hotel numa gota de água em termos de impacte).

“Por isso, saber que justificações (esfarrapadas ou não) se apresentam para passar de um chumbo para uma aprovação pode melhor elucidar que a questão essencial para a mudança de opinião do Ministério do Ambiente foi tão só política (envolvendo tudo o que de bom e mau tem isto) e nada ambiental.” Retirado de:

http://estragodanacao.blogspot.com/2009/01/vejam-as-declaraes-de-impacte-ambiental.html

ESTRAGO DA NA��O: Vejam as declara�es de impacte ambiental

ESTRAGO DA NA��O: Vejam as declara�es de impacte ambiental