quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O vírus Sócrates

Sócrates mente descaradamente e a convivência com ele está a contaminar os seus ministros, mesmo os mais sérios. Já nem falo dos ministros-palhaços de serviço. A ministra da Educação começou com boas intenções, mas está completamente convertida em marteladora de estatísticas.

O ministro das Finanças, um homem sério, está também profundamente contaminado pela convivência com o PM. O cenário macroeconómico é um devaneio ridículo, em que Portugal, depois de anos sem fim a crescer abaixo da UE, de repente a ultrapassa destacadamente. A alteração (inconsistente) de metodologia nas despesas com pessoal dá a entender uma descida, quando há uma subida nesta categoria. A manobra não aguentou nem 24 horas de escrutínio público, como seria lógico. Que falta de inteligência leva a fazer uma aldrabice facílima de detectar? Para quê correr o risco de ficar com imagem de desonestidade se não há nenhum benefício a retirar daqui?

A última trafulhice detectada, que o ministro defendeu vergonhosamente, foi a tentativa encapotada de reverter o aumento de transparência no financiamento dos partidos que se tinha conseguido em 2003. Tinha-se chegado a acordo em proibir as doações em dinheiro vivo e agora a Lei Orçamento pretendia voltar a trás. Parece que o governo vai ceder. Como é possível termos caído para níveis tão baixos de falta de seriedade? É o vírus Sócrates em acção.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Mais calmos?

Num movimento quase inédito (a seguir ao 11 de Setembro passou-se algo semelhante), os principais bancos centrais cortaram as suas taxas de referência em 0.5% para fazer face à crise financeira em curso.

Este tipo de medidas é sempre ambivalente. É impossível não fazer pelo menos duas leituras. A leitura mais positiva é que os bancos centrais estão atentos, coordenados e capazes de tomar medidas significativas. A leitura mais negativa é que os bancos centrais estão mesmo aflitos. Qual a leitura que os mercados estão a fazer? Há para todos os gostos: em Londres as acções começaram por subir, para depois cair.

http://www.ft.com/cms/s/0/5fce75b2-949f-11dd-953e-000077b07658.html

Que margem para mais movimentos coordenados deste tipo? O Japão já não pôde participar nesta acção (ainda que a apoie verbalmente) porque já tinha a taxa de referência nos 0,5%. Os EUA ficaram com taxa nos 1,75%, o que os deixa com margem limitada para muitos mais cortes futuros. O BCE, que ficou com a taxa nos 3,75%, é dos que fica ainda com maior margem de manobra.

Quanto ao problema da falta de confiança, o mais grave, esta medida praticamente não o deverá ajudar. É aqui que os bancos centrais mais deveriam intervir, sendo que uma das soluções mais razoáveis em cima da mesa é que os bancos centrais passem a intermediar todas as transacções nos mercados monetárias, para eliminar o risco de contra-parte.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Reestruturação?

É consensual a ideia de que a economia portuguesa baixou o seu potencial de crescimento de cerca de 3% até finais dos anos 90 para cerca de metade nos últimos anos. É relativamente consensual que a principal razão para esta perda de potencial se deve à forte perda de competitividade iniciada alguns anos antes.

O governo tem tentado construir (sem grande empenho nem convicção) uma narrativa alternativa. A economia portuguesa estaria a crescer menos por estar em reestruturação. Será? Esta narrativa não faz sentido e está a desviar-nos de reconhecer os verdadeiros problemas e ignorar as soluções necessárias.

Desde logo convém lembrar que, desde a Revolução Industrial, todas em economia estão sempre em reestruturação, com queda do peso da agricultura na estrutura do emprego. Nas últimas décadas há duas forças principais que estão em acção a acelerar o processo natural de reestruturação: a globalização e a aceleração do progresso tecnológico. Certos países estão a sofrer de uma fonte extra de reestruturação: os países do Leste Europeu estão a adaptar-se de uma economia de direcção central para uma economia de mercado. A Hungria e a República Checa (únicos países para os quais OCDE apresenta valores) estão com crescimentos potenciais acima dos 4%.

A Espanha sofreu um duro processo de reestruturação, que conduziu a taxas de desemprego muito elevado, mas isso conduziu-a a potenciais de crescimento acima dos 3%. Durante um período de reestruturação mais intenso o emprego pode cair, mas a produtividade deverá estar a subir, quando se perdem (muitos) empregos pouco qualificados e se criam (comparativamente menos) empregos qualificados.

Mas, pergunta-se, qual é esse fenómeno extra de reestruturação que se está a passar em Portugal, para além do que se regista no resto do mundo e da Europa em particular? O governo importa-se de explicar?

Mas, sobretudo, os dados contradizem completamente este fenómeno. Por um lado, o emprego está a crescer a uma taxa robusta (acima de 1% no 1º semestre de 2008). Por outro lado, depois de muitos anos de baixíssimo crescimento da produtividade, no 1º semestre de 2008 o crescimento da produtividade foi negativo. Como é possível falar em reestruturação de uma economia com queda da produtividade? Só se estiver a substituir empregos qualificados por empregos não qualificados. Não é esse o tipo de de reestruturação que queremos, pois não?

Em resumo, 1) os dados não suportam a ideia de reforço da reestruturação em Portugal; 2) um processo de reestruturação forte não tem que baixar o potencial de crescimento de uma economia. Logo, se o governo está à espera que, no “final” da reestruturação o potencial da economia recupere, mais vale sentar-se.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Mercado monetário congelado

As coisas estão mesmo negras na relação entre bancos, com a desconfiança a bater records sucessivos. Os depósitos junto do BCE, que são remunerados a uns miseráveis 3,25% parecem hoje mais atraentes do que taxas acima dos 5% em outros bancos cuja solvabilidade parece assim muito incerta.

A média de depósitos junto do BCE entre Janeiro e Agosto foi de uns meros 417 milhões de euros. Em Setembro esse valor disparou para 8 957 milhões, com o final do mês em escalada galopante. Dia 26: 28,0 bn, dia 29: 44,4 bn e dia 30: 102,8 bn €, um record absoluto. Este aparenta ser um dos indicadores mais eloquentes da gravidade do problema de falta de confiança. E ainda há quem tema que as injecções de liquidez a que o BCE se viu forçado sejam inflacionistas…

Transparência no Estado

O meu artigo de hoje no Jornal de Negócios.

sábado, 27 de setembro de 2008

Vendam as casas

Segundo o Expresso de hoje, a CML tem 3246 fogos no seu património disperso, com uma renda média de 35,48 euros, sendo que 40% estarão vagos (e os privados é que são responsáveis pela desertificação de Lisboa…). A atribuição destes fogos a rendas mais do que subsidiadas não tem seguido nenhum critério razoável.

Admitindo um valor médio (baixo) de 150 mil euros por fogo estamos a falar de um património de perto de 500 milhões de euros. Um património que a CML nem conhece com exactidão, segundo Manuel Damásio, coordenador do levantamento deste património “concluído, mas não entregue por falta de pagamento.” Palavras para quê?

Esta é a mesma CML que ainda há pouco estava aflita e incapaz de obter um empréstimo. Se isto não é incompetência, o que é incompetência? Das estórias que se conhece de atribuição destas casas, surge uma ideia clara: é mil vezes preferível que a CML venda a maioria destes fogos (desde logo os que estão vagos), para evitar criar situações obscuras, tendo o óbvio cuidado de desocupar previamente os fogos a vender. O resto poderia ser utilizado para rejuvenescer a cidade, atribuindo casas a jovens, mas por períodos limitados e, sobretudo, bem definidos. Assim, poderia haver um renovar sucessivo de rejuvenescimento.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Primeiras medidas

O Congresso americano chegou a acordo sobre os princípios do pacote de ajuda ao sector financeiro:

http://media.ft.com/cms/9db1e4f6-8b47-11dd-b634-0000779fd18c.pdf

Estamos longe das condições extravagantes que o secretário do Tesouro tinha pedido (praticamente fazer o que lhe apetecesse sem explicações) e também ainda estamos longe de uma solução concreta.

Tenho algumas sugestões. Os activos tóxicos a ser comprados pelo fundo público (FP) a constituir deveriam ser avaliados de forma independente por instituições que ponha o dinheiro onde a boca está. As agências de rating, dos maiores culpados da actual situação, não estão em condições de o fazer, quer porque não têm capitais para o fazer, quer porque têm a imagem estragada. Eis o que sugiro: o banco A paga ao banco B uma comissão para este avaliar o activo tóxico X que A tem no seu balanço. Com base nesta avaliação, A consegue vender o activo X ao FP com 20% de desconto. Para que B esteja mesmo empenhado em avaliar correctamente (ou eventualmente por baixo) o activo X, B fica responsável por uma eventual perda de valor até, digamos, 25% do valor de X.

Detendo o activo X até à maturidade, o fundo público fica com razoáveis possibilidades de vir a ganhar dinheiro, sendo essa a remuneração extra por suportar um activo tóxico. Até perdas de 20%, FP está garantido, por ter comprado o activo com desconto. De perdas entre 20% e 25%, FP continua garantido, porque aí B é responsável por estas perdas. Só a partir daí é que FP regista mesmo perdas.

Este sistema evita que os activos tóxicos sejam avaliados por excesso e penaliza claramente os bancos que têm estes activos. Os valores numéricos são indicativos e há outras questões a afinar. Parece-me que deveria haver uma qualquer penalização para B, quando as perdas estão entre 0% e 20%.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Fim do sector não regulado

Na sexta feira já tinha previsto o fim do sector bancário não regulado nos EUA. Mas afinal o seu fim veio de uma outra forma. Foram os próprios bancos não regulados (Goldman Sachs e Morgan Stanley) que pediram para passarem a ser regulados.

http://www.ft.com/cms/s/0/97a410b6-884a-11dd-b114-0000779fd18c.html

Um dos aspectos mais surpreendentes do status quo era que os bancos menos supervisionados (os não regulados) tinham uma base de capital muito inferior ao dos bancos mais vigiados. Bancos com mais risco, mas com menos capital? Vão agora ter que proceder a aumentos maciços de capital, embora tenham um período alargado para proceder ao ajustamento. Mas com muito mais capital, a sua estrutura de negócio muda radicalmente. Aguardemos os próximos capítulos…

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Recessão?

O indicador coincidente calculado pelo Banco de Portugal (referente a Agosto e publicado hoje) prosseguiu a sua trajectória descendente, embora com uma mensagem com alguma ambiguidade. Os valores passados foram revistos em baixa ligeira (2 décimas nos últimos meses), mas o ritmo de deterioração abrandou (passou de cerca de 3 décimas por mês para 1 décima).

O valor de um único mês é claramente insuficiente para redefinir uma tendência, mas seria uma boa notícia. Infelizmente, os últimos desenvolvimentos nos mercados de crédito dizem-nos que os problemas económicos se vão ainda agravar antes de começar a recuperar.

Além disso, o valor numérico do indicador foi zero em Agosto, pelo que tudo indica que o valor referente a Setembro seja negativo. Ou seja, estaremos já no início de uma recessão, pelo menos no sentido técnico (2 trimestres consecutivos de crescimento negativo). Ainda me lembro de declarações oficiais muito recentes de que a economia portuguesa estaria a “resistir” muito bem…

Fim da não regulação financeira

Está em preparação um pacote financeiro nos EUA para absorver os “activos tóxicos” que estão a envenenar o sector financeiro. Uma questão não pacífica, que se poderá arrastar pelas objecções a que venha aí mais uma pesada factura para o contribuinte americano. Este processo pode demorar tanto tempo até chegar tarde demais.

A parte não regulada do sector, nomeadamente os bancos de investimento, estão a revelar-se tão frágeis que parece que vai haver uma solução radical para o problema da regulação: a parte não regulada desaparecer (por falência ou compra pela parte regulada) por falta de confiança do mercado. Dos dois bancos de investimento que sobram, o Morgan Stanely está a preparar ser comprado por um banco chinês e é duvidoso que o Goldman Sachs consiga manter-se incólume.

A resposta do mercado ao mercado financeiro auto-regulado é a morte deste.