quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Spin ridículo

A economia portuguesa manteve a taxa de crescimento homóloga do PIB entre o 1º e o 2º trimestre nos 0,9%, enquanto na zona do euro houve uma desaceleração de 2,1% para 1,5%, claramente acima do crescimento português. Ou seja, Portugal mantém a trajectória de divergência com a zona do euro. É verdade também que no 2º trimestre o crescimento na zona do euro foi negativo (-0,2%), o que acontece pela primeira vez desde o início do euro. Mas Portugal, só nos últimos 4 trimestres, já teve duas vezes crescimento negativo.

Face a estes valores, o nosso ministro das Finanças veio dizer, de acordo com o Diário Económico que “estes dados mostram que a Economia nacional está a resistir bem às condições adversas vindas do exterior e mostrando confiança de que Portugal irá continuar a ter um desempenho melhor do que os outros países europeus.”

http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/nacional/economia/pt/desarrollo/1155612.html

“Melhor”? Portugal está a divergir com a UE e a zona do euro, como é possível dizer que estamos a ter um desempenho “melhor”? “Continuar”? Mas “continuar” se ainda no 1º trimestre tivemos crescimento trimestral negativo e crescimento homólogo abaixo ao da zona do euro?

Bem pode o governo acenar com a queda do desemprego (uma variável muito desfasada), porque essa situação só pode reverter-se.

Falta de transparência

Uma das piores características dos governos portugueses (sim, não é só deste) é a falta de transparência, o sonegar de informação à oposição e ao país em geral. Infelizmente, para além da incompetência da oposição para exigir e ter eficácia em pedir esclarecimentos, há a demissão cívica que tolera este estado de coisas.

Vem isto a propósito de um estudo do IGCP, que serviu de base à alteração das condições dos Certificados de Aforro (CA). “Este estudo, do início de 2007, foi entregue recentemente a duas deputadas do PS, a seu pedido, tendo o Governo recusado sempre a sua divulgação pública.” Entretanto, o “DN teve acesso” a esse estudo.

http://dn.sapo.pt/2008/08/14/economia/crise_certificados_aforro_agravase_j.html

Que falta de respeito é esta em que os deputados da oposição não têm acesso a um estudo, mas um jornalista sim?

E porque é que o governo não revela este estudo? Mais, porque é que não é comum esta prática? Para exibir poder, única e exclusivamente. Este estudo deve ser uma actualização de vários estudos que o IGCP vem fazendo na última década sobre o tema. Em 2002, no Ministério das Finanças, um responsável do IGCP disse-me que cada vez que mudava o ministro, iam a correr fazer uma apresentação para reformar os CA. Ou seja, este tema está em cima da mesa há anos e anos e os estudos vão sendo sucessivamente apresentados aos diferentes ministros e governos, que os vinham recusando até aqui. O estudo não revela nada de inconfessável, que seja perigoso ser conhecido, é só mesmo uma cultura de abuso de poder.

Se eu fosse deputado exigiria que o governo divulgasse o estudo, não porque estivesse à espera de conhecer grandes novidades, mas por uma questão de princípio. Aliás, eu concordo genericamente com as alterações introduzidas nos CA, com a importante ressalva de que deveria ter sido introduzida uma muito nítida diferença de tratamento entre os grandes e os pequenos aforrados.

Quanto ao DN, emprenhou de ouvido e fala numa “crise” dos CA. “Crise”? O governo queria reduzir o peso dos CA na dívida pública, tomou medidas para que isso acontecesse e as medidas estão a produzir (e rapidamente) os resultados desejados. Como é que se pode falar em “crise”? Tomara que o governo tivesse tomado medidas equivalentes para melhorar a competitividade e estas medidas estivessem a ter efeito e rapidamente.

O DN repete ainda a asneira da Sefin de que o governo perde na frente fiscal porque o financiamento alternativo às OTs é vendido a estrangeiros, que não pagam imposto. Como já expliquei aqui, isso é falso, não há perda fiscal.

Santana recomenda

Que Manuela Ferreira Leite vá à festa do Pontal, onde não devem ir nem 10% do militantes do PSD. Mas, sobretudo, uma recomendação vinda do principal responsável por o PS ter conseguido a primeira maioria absoluta (e folgada) da sua história deve ser ouvida com a maior consideração.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Nova deterioração das expectativas

O Economist acaba de publicar o consenso de previsões sobre as principais economias mundiais, onde é de destacar uma deterioração das perspectivas para 2008 e 2009. Para além disso é de destacar o reforço da ideia de que 2009 será pior do que 2008, em termos de crescimento económico. No gráfico abaixo, pode ver-se que no início do ano se pensava que 2009 seria melhor do que o corrente ano mas, ao longo do ano, este optimismo tem-se vindo a desvanecer.

Outra ideia que este gráfico reforça é que a deterioração das perspectivas de crescimento está quase a fazer um ano, coincidindo praticamente com o detonar da crise do subprime. Como é que o governo português pode dizer que foi apanhado de surpresa há poucos meses, quando este processo dura há tanto tempo?
Adenda
Oops... estou estúpido e não consegui importar gráfico que fiz no Excel...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Este país existe?

“A aplicação informática dos TAF não existe nos tribunais superiores para as áreas administrativa e tributária. Por isso, a máquina emperra. Se assim não fosse, acredita Alfredo Madureira, muita pendência seria evitada.

“Se um processo for, como vai, para o tribunal central, a secretaria é obrigada a imprimir, a numerar e a rubricar volumes de papel com milhares de páginas. É como voltar à idade da pedra”, refere em entrevista ao Negócios o juiz-presidente do TAF de Sintra.”

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=327004

terça-feira, 29 de julho de 2008

De novo o TGV

O Alexandre Brandão da Veiga dá uma achega importante ao debate sobre o TGV, criticando a preponderância dos economistas na matéria. Infelizmente, parece que só agora ouviu um engenheiro falar sobre caminhos-de-ferro. Tem andado distraído, mas adiante.

Permito-me colocar o debate do TGV noutros termos e sair do beco “TGV: sim ou não?”, que me parece a atitude errada. O que nós temos que fazer é começar por definir prioridades nacionais gerais. Na minha opinião, as áreas onde estamos relativamente pior em relação à Europa (ou em relação a uma qualquer utopia que se queira) são a educação e a justiça e não os transportes. Logo, o grosso do investimento deveria ir para educação e justiça e não para transportes.

Passando este passo, dentro da área dos transportes vamos admitir que tinha sido afectado a este sector as verbas necessárias para construir o TGV. Mesmo aqui, temos que voltar a perguntar: o que é prioritário, o que está relativamente pior? E aqui não tenho dúvida em responder que o pior é a circulação nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, que afectam diariamente milhões de pessoas. Imaginem o que se poderia fazer se se gastasse as verbas do TGV em melhorar a condições de circulação nestas áreas! É que o TGV é uma solução caríssima para um problema que não existe.

Ou seja, é completamente ridículo que uma eventual sub-alínea de um plano verdadeiramente geral de investimento público seja o foco da discussão, quando o que se deveria começar por discutir é o conjunto e as suas linhas mestras e só depois as conclusões. Mas o TGV cheira demasiado a decisão tipo rainha de copas na Alice no País das Maravilhas: “Primeiro a sentença, depois o julgamento”.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Imobiliário em queda

O INE acaba de publicar os dados de avaliação bancária de imóveis do 2º trimestre de 2008. É evidente que haverá certamente um efeito de contaminação da crise do subprime nestas avaliações, mas os resultados têm interesse.

Em termos homólogos a avaliação caiu em 4,6%, muito próximo da queda desde o máximo. Mas em termos regionais o Alentejo e o Centro já apresentam quedas de mais de 12% desde o máximo, alcançado no início de 2006.

Talvez o aspecto mais curioso dos dados é que são as habitações mais caras (o top 25%) a cair mais (-5,6%), embora no conjunto do país a diferença seja pequena (no quartil mais baixo a queda é de 3,9%). Em termos regionais, as diferenças são muito mais vincadas. Por exemplo, no Alentejo, a avaliação das casas mais caras caiu 14,6%, enquanto a das mais baratas apenas caiu 4,2%. Se compararmos com os máximos, a queda das casas mais caras já é de 20%. Se usarmos a ideia do mercado accionista de que uma queda de 20% face ao máximo já representa um bear market, então no Alentejo e Centro o mercado imobiliário de topo já entrou nessa fase.

Isto vai um pouco contra as ideias generalizadas de que as casas mais caras estão sempre vendidas; e que há imensas casas baratas em subúrbios pouco valorizadas que não se conseguem vender e que poderiam sofrer fortes quedas de preços.

Mas talvez este perfil seja o mais saudável. Para as classes mais pobres, as perdas potenciais são mais pequenas, enquanto nos imóveis mais caros a “bolha especulativa” está a rebentar. Embora, como é costume no caso do imobiliário, o processo de ajustamento seja lento.

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=10931576&DESTAQUESmodo=2

terça-feira, 22 de julho de 2008

Défice em risco

A receita fiscal no primeiro semestre está abaixo do esperado, o que não surpreende, dado que a economia está a crescer muito menos do que o previsto em Outubro de 2007. Também a despesa está a correr mal, mas não do lado da Segurança Social, que é onde se desculpariam derrapagens. Confirmam-se assim as suspeitas de que défice de 2,2% do PIB para 2008 é uma miragem. Duas dúvidas: 1) ficará acima dos 2,6% de 2007? 2) ficará acima dos 3,0%? A seguir com atenção…

sexta-feira, 18 de julho de 2008

FMI mais honesto que Banco de Portugal

FMI volta a rever em baixa crescimento para Portugal para este ano (de 1,3% para 1 1/4%) e do próximo ano (de 1,4% para 1,0%). Infelizmente, o documento não está ainda em linha, pelo que ainda não é possível conhecer a previsão para o desemprego, mas adivinha-se que suba este ano e no próximo. Dado o carácter muito desfasado desta variável é possível que o pico só seja mesmo atingido em 2010.

O FMI fala ainda de uma série de temas já aqui tratados, como falta de competitividade, excesso de endividamento externo, etc., basicamente no mesmo sentido.

Claro que a mensagem principal é a que titula o Público na p. 37: “FMI garante que principais problemas da economia portuguesa são domésticos”. Estamos assim muito longe da mensagem recente do Banco de Portugal, que veio justificar os seus erros de previsão exclusivamente com base em questões externas. Percebeu-se a excessiva preocupação do BdP em se justificar, mas aceita-se mal a falta de ênfase nos problemas domésticos, que nos estão a conduzir a uma desgraçada trajectória de divergência estrutural.

Menezes incapaz de aprender

Menezes escreve hoje umas pérolas no Diário de Notícias, p.9, como o inacreditável título: “Depois de mim virá…” Começa por fazer uma leitura enviesada das sondagens e depois insinuar que, se fosse ele, o PSD já estaria nos píncaros.

“Nem quero imaginar o que se escreveria sobre o anterior líder social-democrata se ele, em escassas seis semanas, não tivesse divulgado uma proposta”. Este é ponto essencial que Menezes não consegue perceber, não quer perceber. Como é que uma oposição tão mais contida do que a sua seja mais bem sucedida do que o seu espalhafato?

Comete a proeza de seu auto-proclamar “a direcção mais representativa da história do PSD.” Em que é que se baseia ele para escrever isto? Em 0% de razões objectivas e 100% de narcisismo.

“Em seis meses, definimos uma nova orientação para a política económica.” Já pararam de rir?

“Não tenho dúvidas de que éramos [isto deve ser o plural majestático] mais representativos, intelectualmente mais sólidos, culturalmente mais bem preparados, politicamente mais experientes, ideologicamente mais esclarecidos, mais carismáticos e melhores comunicadores.” Definitivamente, se conseguíssemos comprar Menezes pelo que ele vale e depois o conseguíssemos vender pelo que ele julga que vale, pagávamos de uma assentada a dívida pública e a dívida externa.

E a cantiga ridícula de que foi vítima dos “interesses instalados”… Em primeiro lugar, colocar-se de fora do grupo dos “interesses instalados” só pode ser piada. Em segundo lugar, esta total ausência de reconhecimento de que alguma coisita ele não teria feito bem e que gerasse as tais críticas, isso já é do domínio de um narcisismo autista.
Vejam também no Público