Mostrar mensagens com a etiqueta macroeconomia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta macroeconomia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O vírus Sócrates

Sócrates mente descaradamente e a convivência com ele está a contaminar os seus ministros, mesmo os mais sérios. Já nem falo dos ministros-palhaços de serviço. A ministra da Educação começou com boas intenções, mas está completamente convertida em marteladora de estatísticas.

O ministro das Finanças, um homem sério, está também profundamente contaminado pela convivência com o PM. O cenário macroeconómico é um devaneio ridículo, em que Portugal, depois de anos sem fim a crescer abaixo da UE, de repente a ultrapassa destacadamente. A alteração (inconsistente) de metodologia nas despesas com pessoal dá a entender uma descida, quando há uma subida nesta categoria. A manobra não aguentou nem 24 horas de escrutínio público, como seria lógico. Que falta de inteligência leva a fazer uma aldrabice facílima de detectar? Para quê correr o risco de ficar com imagem de desonestidade se não há nenhum benefício a retirar daqui?

A última trafulhice detectada, que o ministro defendeu vergonhosamente, foi a tentativa encapotada de reverter o aumento de transparência no financiamento dos partidos que se tinha conseguido em 2003. Tinha-se chegado a acordo em proibir as doações em dinheiro vivo e agora a Lei Orçamento pretendia voltar a trás. Parece que o governo vai ceder. Como é possível termos caído para níveis tão baixos de falta de seriedade? É o vírus Sócrates em acção.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Reestruturação?

É consensual a ideia de que a economia portuguesa baixou o seu potencial de crescimento de cerca de 3% até finais dos anos 90 para cerca de metade nos últimos anos. É relativamente consensual que a principal razão para esta perda de potencial se deve à forte perda de competitividade iniciada alguns anos antes.

O governo tem tentado construir (sem grande empenho nem convicção) uma narrativa alternativa. A economia portuguesa estaria a crescer menos por estar em reestruturação. Será? Esta narrativa não faz sentido e está a desviar-nos de reconhecer os verdadeiros problemas e ignorar as soluções necessárias.

Desde logo convém lembrar que, desde a Revolução Industrial, todas em economia estão sempre em reestruturação, com queda do peso da agricultura na estrutura do emprego. Nas últimas décadas há duas forças principais que estão em acção a acelerar o processo natural de reestruturação: a globalização e a aceleração do progresso tecnológico. Certos países estão a sofrer de uma fonte extra de reestruturação: os países do Leste Europeu estão a adaptar-se de uma economia de direcção central para uma economia de mercado. A Hungria e a República Checa (únicos países para os quais OCDE apresenta valores) estão com crescimentos potenciais acima dos 4%.

A Espanha sofreu um duro processo de reestruturação, que conduziu a taxas de desemprego muito elevado, mas isso conduziu-a a potenciais de crescimento acima dos 3%. Durante um período de reestruturação mais intenso o emprego pode cair, mas a produtividade deverá estar a subir, quando se perdem (muitos) empregos pouco qualificados e se criam (comparativamente menos) empregos qualificados.

Mas, pergunta-se, qual é esse fenómeno extra de reestruturação que se está a passar em Portugal, para além do que se regista no resto do mundo e da Europa em particular? O governo importa-se de explicar?

Mas, sobretudo, os dados contradizem completamente este fenómeno. Por um lado, o emprego está a crescer a uma taxa robusta (acima de 1% no 1º semestre de 2008). Por outro lado, depois de muitos anos de baixíssimo crescimento da produtividade, no 1º semestre de 2008 o crescimento da produtividade foi negativo. Como é possível falar em reestruturação de uma economia com queda da produtividade? Só se estiver a substituir empregos qualificados por empregos não qualificados. Não é esse o tipo de de reestruturação que queremos, pois não?

Em resumo, 1) os dados não suportam a ideia de reforço da reestruturação em Portugal; 2) um processo de reestruturação forte não tem que baixar o potencial de crescimento de uma economia. Logo, se o governo está à espera que, no “final” da reestruturação o potencial da economia recupere, mais vale sentar-se.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Recessão?

O indicador coincidente calculado pelo Banco de Portugal (referente a Agosto e publicado hoje) prosseguiu a sua trajectória descendente, embora com uma mensagem com alguma ambiguidade. Os valores passados foram revistos em baixa ligeira (2 décimas nos últimos meses), mas o ritmo de deterioração abrandou (passou de cerca de 3 décimas por mês para 1 décima).

O valor de um único mês é claramente insuficiente para redefinir uma tendência, mas seria uma boa notícia. Infelizmente, os últimos desenvolvimentos nos mercados de crédito dizem-nos que os problemas económicos se vão ainda agravar antes de começar a recuperar.

Além disso, o valor numérico do indicador foi zero em Agosto, pelo que tudo indica que o valor referente a Setembro seja negativo. Ou seja, estaremos já no início de uma recessão, pelo menos no sentido técnico (2 trimestres consecutivos de crescimento negativo). Ainda me lembro de declarações oficiais muito recentes de que a economia portuguesa estaria a “resistir” muito bem…

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Consequências da falência do Lehman Brothers

O desfecho inesperado da crise na Lehman (ainda na semana passada havia vários interessados na compra) e a ideia que ainda não chegámos ao fim da crise no crédito, deverão alargar os spreads de crédito e apertar as condições da sua concessão. A falta de confiança entre bancos ainda está para durar. Os bancos centrais (mesmo que o quisessem) não deverão ser capazes de contrariar o aperto do crédito, porque a escassez é de confiança e não de liquidez. Assim, teremos ainda mais arrefecimento económico do que já vinha sendo previsto.

Este arrefecimento vai abrandar a inflação (como se vê já no petróleo), mas é improvável que a nesga de espaço para respirar permita uma descida das taxas de juro pelo BCE. Mas como parece que a procissão ainda vai no adro…

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Terramoto em Wall Street

O 4º maior banco de investimento em Wall Street, Lehman Brothers, acaba de pedir protecção de falência. Dos outros três, a Merryl Lynch conseguiu proteger-se aceitando ser comprado pelo Bank of América. Restam, por enquanto incólumes, o Morgan Stanley e o Goldman Sachs. Veremos quanto mais vai mudar nos próximos tempos.

http://www.ft.com/cms/s/0/f8834910-82aa-11dd-a019-000077b07658.html

Estas últimas reviravoltas retomam a crise do crédito, podendo estender-se a todo o mundo, inclusive Portugal, onde o sector bancário está profundamente dependente do crédito externo. Havia alguma expectativa de que a crise económica ainda estivesse para vir, como impacto ao retardador da crise no crédito. Infelizmente, as notícias que nos chegam é que no epicentro do terramoto, a terra ainda treme.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Para quem ainda tinha dúvidas

Ontem o preço do petróleo (Brent) caiu abaixo da marca psicológica dos 100 dólares. Logo a OPEP anunciou uma redução simbólica da produção. Alguém precisa de mais alguma prova de que a OPEP é a maior especuladora no preço do petróleo? Com uma vantagem muito significativa sobre os especuladores que actuam atomisticamente no mercado financeiro dos futuros de petróleo: a OPEP tem mesmo capacidade de influenciar o preço.
Desenganem-se os que acreditaram na existência de uma bolha especulativa e que o preço cairia claramente abaixo dos 100 dólares: a OPEP não vai deixar. O 3º choque petrolífero está mesmo para ficar. Há agora uma pausa para respirar enquanto a economia mundial está a arrefecer. Dos países do G7 só o Canadá deverá crescer mais em 2009 do que em 2008. A retoma deverá chegar em 2010, mas os mercados financeiros têm por hábito antecipá-la, pelo que em meados de 2009 é provável que voltem as subidas de preços do petróleo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Economia está a “resistir”?

Mais cedo do que se esperava o governo teve que engolir a conversa de que a economia estava a resistir. Afinal, em vez de ter estabilizado nuns fracos 0,9% (em termos homólogos) no 2º trimestre, o PIB continuou a desacelerar para 0,7%. A probabilidade de crescer sequer 1% no conjunto do ano é cada vez mais reduzida.

Há uma ligeira boa notícia no facto de a contribuição da procura externa líquida ter sido menos negativa (de -1,5p.p. para -0,9p.p.), embora aqui o alívio foi o ter-se passado de uma situação péssima para uma situação má. É uma melhoria, mas não se justifica abrir uma garrafa de champanhe (importado…). Se o governo tivesse apostado num programa agressivo de recuperação de competitividade, mesmo num contexto de desaceleração económica global, Portugal poderia estar a receber um contributo positivo deste lado. Assim, estamos neste apeadeiro.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Péssimas notícias

O Economist poll of forecasters de Setembro deteriorou-se fortemente face ao mês anterior. Quando parecia que se assistia a um desacelerar da deterioração de perspectivas, eis que o pessimismo acelera.

O crescimento para a zona do euro em 2008 já só deverá ser 1,3% (contra expectativa de 1,6% no mês anterior) e em 2009 as coisas deverão a piorar, com o PIB a crescer apenas 0,9% (1,2% no mês anterior).

Duas ideias a reter: 1) com o padrão de correlação nas previsões, é altamente improvável que tenhamos chegado ao fim das revisões em baixa; 2) confirma-se, mas não se agrava por enquanto, a ideia de que 2009 vai ser pior do que 2008.

Neste quadro aguarda-se com curiosidade acrescida quais as “previsões” que o governo vai escolher apresentar dentro de um mês no relatório do Orçamento. Com o irrealismo que tem caracterizado as “previsões” do governo, teme-se que insista ainda em cenários cor-de-rosa. Ou vai assumir a realidade e reduzir em fortíssima baixa as previsões que vinha apresentando até aqui? Em qualquer dos casos irá sempre pagar caro pelo erro indesculpável do “optimismo” passado.

Evidentemente que o pior de tudo vai ser explicar como é que, de repente (segundo o discurso oficial) no ano de eleições a economia ainda vai crescer menos que em 2008. Se Portugal estava a “resistir” tão bem, como explicar que nos vamos afundar para o ano? E que esperar do desemprego, uma das variáveis eleitoralmente mais relevantes? O desemprego é das variáveis mais desfasadas (entre 3 a 6 trimestre atrasada em relação ao PIB). Logo, mesmo que a recuperação chegue no 2º semestre de 2009 (uma ideia não demasiado optimista), ela chegará demasiado tarde para o actual governo, que deverá chegar às eleições horrorizado com a subida sucessiva da taxa de desemprego.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Para quê?

Segundo o DN de hoje (supl. DN Bolsa, p. 7), Sócrates afirmou que o PIB deverá crescer em 2008 entre “1,2% e 1,5%”, abaixo dos 1,5% anunciados em Maio.

1) Qual a utilidade de uma estimativa pouco trabalhada e sem credibilidade? Se no 1º semestre o PIB cresceu 0,9% e tudo indica que 2009 vai ser pior que 2008, a que propósito vamos ter um segundo semestre milagroso?
2) Estamos no final do 3º trimestre de 2008. Qual a utilidade de apresentar uma estimativa coxa para um ano que está próximo do fim e não apresentar uma previsão para 2009, neste momento radicalmente mais importante, quando as empresas começam a preparar os seus orçamentos para o ano que vem?

Para quê um valor pouco credível para um indicador com utilidade decrescente (PIB de 2008) e um silêncio sobre o que verdadeiramente interessa (PIB de 2009)? O objectivo é agravar a perda de credibilidade das previsões do governo?

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Spin ridículo

A economia portuguesa manteve a taxa de crescimento homóloga do PIB entre o 1º e o 2º trimestre nos 0,9%, enquanto na zona do euro houve uma desaceleração de 2,1% para 1,5%, claramente acima do crescimento português. Ou seja, Portugal mantém a trajectória de divergência com a zona do euro. É verdade também que no 2º trimestre o crescimento na zona do euro foi negativo (-0,2%), o que acontece pela primeira vez desde o início do euro. Mas Portugal, só nos últimos 4 trimestres, já teve duas vezes crescimento negativo.

Face a estes valores, o nosso ministro das Finanças veio dizer, de acordo com o Diário Económico que “estes dados mostram que a Economia nacional está a resistir bem às condições adversas vindas do exterior e mostrando confiança de que Portugal irá continuar a ter um desempenho melhor do que os outros países europeus.”

http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/nacional/economia/pt/desarrollo/1155612.html

“Melhor”? Portugal está a divergir com a UE e a zona do euro, como é possível dizer que estamos a ter um desempenho “melhor”? “Continuar”? Mas “continuar” se ainda no 1º trimestre tivemos crescimento trimestral negativo e crescimento homólogo abaixo ao da zona do euro?

Bem pode o governo acenar com a queda do desemprego (uma variável muito desfasada), porque essa situação só pode reverter-se.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Nova deterioração das expectativas

O Economist acaba de publicar o consenso de previsões sobre as principais economias mundiais, onde é de destacar uma deterioração das perspectivas para 2008 e 2009. Para além disso é de destacar o reforço da ideia de que 2009 será pior do que 2008, em termos de crescimento económico. No gráfico abaixo, pode ver-se que no início do ano se pensava que 2009 seria melhor do que o corrente ano mas, ao longo do ano, este optimismo tem-se vindo a desvanecer.

Outra ideia que este gráfico reforça é que a deterioração das perspectivas de crescimento está quase a fazer um ano, coincidindo praticamente com o detonar da crise do subprime. Como é que o governo português pode dizer que foi apanhado de surpresa há poucos meses, quando este processo dura há tanto tempo?
Adenda
Oops... estou estúpido e não consegui importar gráfico que fiz no Excel...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

FMI mais honesto que Banco de Portugal

FMI volta a rever em baixa crescimento para Portugal para este ano (de 1,3% para 1 1/4%) e do próximo ano (de 1,4% para 1,0%). Infelizmente, o documento não está ainda em linha, pelo que ainda não é possível conhecer a previsão para o desemprego, mas adivinha-se que suba este ano e no próximo. Dado o carácter muito desfasado desta variável é possível que o pico só seja mesmo atingido em 2010.

O FMI fala ainda de uma série de temas já aqui tratados, como falta de competitividade, excesso de endividamento externo, etc., basicamente no mesmo sentido.

Claro que a mensagem principal é a que titula o Público na p. 37: “FMI garante que principais problemas da economia portuguesa são domésticos”. Estamos assim muito longe da mensagem recente do Banco de Portugal, que veio justificar os seus erros de previsão exclusivamente com base em questões externas. Percebeu-se a excessiva preocupação do BdP em se justificar, mas aceita-se mal a falta de ênfase nos problemas domésticos, que nos estão a conduzir a uma desgraçada trajectória de divergência estrutural.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Banco de Portugal escolhe optimismo

O Banco de Portugal (BdP) acaba de rever em forte baixa as previsões de crescimento económico para Portugal para 2008 (de 2,0% para 1,2%) e para 2009 (de 2,3% para 1,3%). Aparentemente devido à influência de choques externos. Só que antes já a economia revelava um potencial de crescimento muito anémico.

Mas, mais importante do que isso, o BdP não escolheu como estimativa pontual o ponto médio do intervalo de previsão. Como se pode ver do gráfico 7.2.1 da p. 41 do Boletim, o BdP escolheu um ponto ACIMA do ponto médio. Esta escolha, embora transparente, é manifestamente estranha. Dado que o BdP acabou de ser surpreendido por desenvolvimentos inesperados pela negativa, não conviria ser cauteloso e escolher uma estimativa ABAIXO do ponto médio do intervalo de previsão?

sábado, 12 de julho de 2008

Trabalho de casa feito?

Sócrates vem insistir em que os problemas internos estão resolvidos, Portugal está apenas a ser afectado pela crise internacional. Vamos esclarecer umas “coisinhas” sobre hierarquia dos temas. O (pesado) aumento de imposto e a (diminuta) contenção são instrumentos para alcançar o objectivo intermédio da consolidação orçamental, que por seu turno, é uma condição necessária mas não suficiente para alcançar o objectivo final: a convergência com a UE.

Ora, o que Sócrates pode argumentar é que deu alguns passos para nos aproximarmos de atingir o objectivo intermédio da consolidação orçamental. Mas, nem aqui pode verdadeiramente dar-se por satisfeito, porque o trabalho não está verdadeiramente conseguido. Mas, mesmo aceitando que aqui está tudo bem, no objectivo final Portugal está em estado de calamidade. Estamos num processo de divergência estrutural com a UE, que não tem nada a haver com a actual conjuntura, num processo que já leva quase uma década. Não foi este governo que criou o problema, é certo, mas o “optimismo” maníaco de que este governo tem dados mostras, sendo sempre o último a reconhecer publicamente que há problemas, só tem agravado este problema. O tema da divergência estrutural tem sido olimpicamente ignorado por este governo – no governo anterior ainda se tinha ideia que a divergência era meramente conjuntural. De quem não faz um bom diagnóstico, não se pode esperar uma boa terapia.

Este governo julgava que bastava a retoma para tudo se resolver. Ora, com divergência estrutural a retoma só trás mais uns pozinhos de crescimento, não transforma uma divergência em convergência.

Ou seja, o trabalho de casa económico que o governo tinha era duplo: tratar do objectivo intermédio da consolidação orçamental e tratar do objectivo final da convergência. O governo tratou do primeiro e ignorou o segundo. Ou seja, ignorou a parte mais importante do trabalho de casa. Logo, não nos venha entreter com lérias de que os nossos problemas derivam exclusivamente da crise internacional, porque só um idiota pode engolir tamanha patranha.

Quanto à manigância de plano para enfrentar a crise parece uma grande confusão. Não parece ter nenhuma medida substantiva para enfrentar a raiz dos problemas, nomeadamente a excessiva dependência da energia importada, nem a ineficiência na sua utilização. Nos juros, nenhuma medida que induza à contratação a taxa fixa.

Depois, baseia-se em receitas extraordinárias que aparentemente pagam as despesas do pacote no primeiro ano, mas depois não se sabe. Típico da lógica das SCUTs de deixar uma pesada herança para quem vier a seguir. Ainda a maravilha de distribuir dinheiro dos outros, neste caso das autarquias. Finalmente, o montante envolvido: 80 milhões de euros, cerca de 0,05% do PIB. Como se imagina, um aumento da despesas sociais de 0,05% do PIB vai provocar um alívio extraordinário nas famílias, que vão certamente retribuir esta generosidade com profunda gratidão nas eleições de 2009.

terça-feira, 1 de julho de 2008

3º choque petrolífero

A estimativa rápida da inflação na zona do euro atingiu em Junho os 4.0%, o máximo dos últimos 16 anos. O que está por trás desta subida? Claramente, um choque adverso da oferta agregada, centrado nos preços do petróleo e produtos agrícolas. Em relação ao impacto temporal, admite-se que o choque nos preços do petróleo seja mais estrutural, enquanto nos preços agrícolas a capacidade de adaptação é maior e poderemos já este ano assistir a algumas quedas nos preços.

Como o choque petrolífero (o 3º) é estrutural, vamos ter que nos adaptar, passando para um patamar inferior de rendimento, a partir do qual retomaremos uma trajectória ascendente. Há uma perda que temos que assumir, mas não vamos ficar condenados a não a recuperar.

Se estivéssemos perante um choque da procura agregada, o trabalho do BCE seria facílimo, com uma subida das taxas de juro a arrefecer a economia. Mas como estamos perante um choque da oferta, não há respostas inequívocas, porque temos em simultâneo uma subida do desemprego e da inflação. Se o BCE atacar a inflação vai agravar o desemprego. Mas o BCE não é o único actor aqui em jogo: há também governos e sindicatos. Se os governos e os sindicatos forem realistas e perceberem que este choque do petróleo exige uma queda dos salários reais, esta subida da inflação poderá ser temporária e não exigir medidas significativas. Mas se se pretender contrariar o ajustamento necessário e se fizerem reivindicações salariais para repor o poder de compra, vamos assistir a uma escalada de salários e preços que vai obrigar o BCE a subir as taxas de juro para níveis muito mais elevados, o que forçará o desemprego a subir muito mais.

Um choque petrolífero obriga a um ajustamento sempre doloroso. Quanto mais houver tentativas de fugir ao ajustamento, mais violento e demorado será esse ajustamento, que terá sempre que ser feito. Atenção governos e sindicatos: nada de discursos hipócritas sobre o BCE. Aquilo que o BCE vai ser obrigado a fazer vai depender crucialmente da resposta que governos e sindicatos derem a este 3º choque petrolífero.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Já em recessão?

O indicador coincidente da actividade calculado pelo Banco de Portugal prosseguiu em Maio a sua trajectória descendente a grande velocidade. Um dos sinais de que nos estaremos a aproximar do mínimo é quando a velocidade de queda começar a abrandar. Mas tal não se verifica ainda. Por este andar vamos chegar ao 3º trimestre com valores homólogos negativos.

Já havia indicações de que os dois primeiros trimestres seriam de crescimento trimestral negativo, mas agora já está mais difusa a duração da recessão em que já estaremos a viver. Dois dos dados politicamente mais sensíveis (taxa de desemprego e défice orçamental) deverão brevemente reflectir estes desenvolvimentos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Preços do petróleo imparáveis

A produção de petróleo cresceu menos de 0,5% nos últimos 3 anos, enquanto a procura nos últimos 5 anos que está a crescer acima da média. Pior, a Rússia vinha preenchendo esta diferença, mas no ano passado a sua produção caiu. Logo, os fundamentos económicos justificam a actual escalada de preços. Ver:
http://www.bp.com/productlanding.do?categoryId=6929&contentId=7044622

A Arábia Saudita veio finalmente anunciar a sua intenção de aumentar a produção. Mas os aumentos anunciados são manifestamente insuficientes e os preços rondam um novo máximo de 140 USD/barril em Nova Iorque.

É preferível tomar consciência de que estamos em pleno 3º choque petrolífero. E Portugal, mais do que os outros precisa-se de se adaptar a energia cara, por 3 razões: 1) Portugal importa quase 90% da energia que consome; 2) estamos no topo do desperdício de energia por unidade de PIB; 3) ultrapassámos muitíssimo os tectos impostos por Quioto, pelo que também por isso devemos reduzir o consumo de energia.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Banco Mundial avisa que preços do petróleo não podem descer

O ministro da Energia da Arábia Saudita, Ali al-Naimi, veio dizer que esta subida de preços é “injustificada”. No entanto, não faz nada para a contrariar, sendo o país com maior capacidade excedentária da OPEP. Estamos perante mais um caso de hipocrisia, a que já começamos a ficar habituados.

Entretanto “Os especialistas do Banco Mundial (BM) estimam que a tendência de subida dos preços do crude deverá continuar nos próximos três a cinco anos, só devendo descer depois desse período, e nunca para valores inferiores aos 100 dólares por barril.”

http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/internacional/economia/pt/desarrollo/1133024.html

Convém que nos compenetremos que estamos mesmo a viver o 3º choque petrolífero e que temos que nos adaptar a estes novos preços. E Portugal é dos países em que esta adaptação é mais necessária: importamos quase 90% da energia que consumimos.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

OCDE muito pessimista a médio prazo

A OCDE revelou hoje as suas novas estimativas, com generalizadas revisões em baixa, como seria de esperar. Portugal acaba por não ser tão penalizado em 2008 e 2009, com PIB de 1,6% e 1,8%, respectivamente. Mas de novo se me coloca o problema da consistência. Para a zona euro, a OCDE prevê uma forte desaceleração em 2008 e um piorar da situação em 2009. Para Portugal prevê um desacelerar mais suave em 2008 e recuperação logo em 2009. Isto é estranho, até porque Portugal é dos países mais dependentes de energia (importa quase 90% do que precisa) e dos países mais endividados, ainda por cima a taxa variável. Logo, quando a OCDE diz o inverso sobre Portugal do que diz da zona do euro, fica a dúvida.

Mas, mas importante e mais grave: “O relatório da OCDE estima ainda que a taxa de crescimento potencial de Portugal volte a reduzir-se, de uma média de 1,7% entre 2005 e 2009 para apenas 1,2% entre 2010 e 2014, sugerindo que os estrangulamentos estruturais da economia portuguesa vão agravar-se.”

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=319102

Ou seja, agrava-se a situação de divergência estrutural. Parece estar ainda instalada a ideia que Portugal tem tido azar no crescimento económico e, por isso, tem divergido da média europeia. “Isto é apenas uma questão conjuntural, que a retoma irá corrigir”. Pois não. A divergência já é estrutural e, segundo a OCDE, vai-se agravar.

O recente relatório EMU@10 da Comissão Europeia vem indicar que Portugal deveria ter um crescimento do PIB/capita próximo dos 4% (p. 107). Imaginem que não só estamos longe disso, como nos estamos a afastar desta marca…